segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Sphragís - Propércio e Horácio

Ontem, ao postar o comentário sobre o texto do Tostão e o poema do Drummond, citei o recurso poético da sphragís, dizendo apenas que era um selo, uma assinatura ao final dos livros de poesia na Antigüidade Clássica. Hoje proponho dois exemplos: o primeiro e mais famoso, Horácio na Ode 3,30; o segundo, Propércio as elegias 1,21 e 1,22.
No caso de Horácio, ao terminar seu terceiro livro de odes, ele não pretendia escrever mais odes, o que foi contrariado por ele mesmo, algum tempo depois quando publicou o quarto livro de odes. Assim, no último poema, há um inventário de sua poesia que é o seu selo, sua sphragís:

Ode 3,30
Exegi monumentum aere perennius
regalique situ pyramidum altius,
quod non imber edax, non Aquilo impotens
possit diruere aut innumerabilis
annorum series et fuga temporum.
non omnis moriar multaque pars mei
vitabit Libitinam: usque ego postera
crescam laude recens. dum Capitolium
scandet cum tacita virgine pontifex,
dicar, qua violens obstrepit Aufidus
et qua pauper aquae Daunus agrestium
regnavit populorum, ex humili potens
princeps Aeolium carmen ad Italos
deduxisse modos. sume superbiam
quaesitam meritis et mihi Delphica
lauro cinge volens, Melpomene, comam.

Ode 3,30
Eregi obra mais perene que bronze,
Mais alta que pirâmides reais para
Que nem chuva edaz nem Áquilo colérico
Destruir possam ou inumeráveis séries
De anos ou fuga dos tempos. De todo não
Morrerei e mor parte de mim à Libitina
Sobreviverá, sempre e em todo lugar, novo
Renascerei por louvor at~e que o Pontífice
Com tácita virgem Capitólio escale.
Conhecido, onde Áufido violento ruge
E onde Dauno pobre reinou, n’águas, sobre
Campesinos, serei. Eu, de origem humilde,
O primeiro que trouxe canções eólicas
Ao metro itálico. Toma a grandeza por
Mérito obtida e cinge-me a cabeça,
Melpómene, desejando, com délfico louro.


Já Propércio propõe dois selos no final do seu Monobiblos (primeiro livro de elegias). O primeiro selo é um "atestado de óbito"; o segundo selo é uma "certidão de nascimento". Cada um deles segue as regras dos seus sub-gêneros específicos, isto é, o epitáfio e o natalício, respectivamente. Ambos inseridos no gênero maior, a elegia. Entretanto distantes também da temática erótico-amorosa que é o motivo principal da poesia properciana.


XXI
Tu, qui consortem properas evadere casum,
miles ab Etruscis saucius aggeribus,
quid nostro gemitu turgentia lumina torques?
pars ego sum vestrae proxima militiae.
sic te servato possint gaudere parentes,
haec soror acta tuis sentiat e lacrimis:
Gallum per medios ereptum Caesaris enses
effugere ignotas non potuisse manus;
et quaecumque super dispersa invenerit ossa
montibus Etruscis, haec sciat esse mea.


21
Tu que te apressas em escapar do nosso mesmo ocaso,
soldado ferido lá nos montes da Etrúria
por que volves ao meu lamento os olhos túmidos?
Eu mesmo sou parte de teu exército.
Assim, conserva-te para que teus pais se alegrem
e minha irmã não sinta, a partir de tuas lágrimas, o ocorrido.
Galo tendo escapado através das espadas de César
não pôde escapar de desconhecidas mãos
e, quando ela tiver encontrado quaisquer ossos dispersos
nos montes da Etrúria, que saiba que estes são os meus.


XXII
Qualis et unde genus, qui sint mihi, Tulle, Penates,
quaeris pro nostra semper amicitia.
si Perusina tibi patriae sunt nota sepulcra,
Italiae duris funera temporibus,
cum Romana suos egit discordia cives—
sic mihi praecipue, pulvis Etrusca, dolor,
tu proiecta mei perpessa's membra propinqui,
tu nullo miseri contegis ossa solo—
proxima suppositos contingens Umbria campos
me genuit terris fertilis uberibus.

22
Quais Penates, quem sou e d'onde é minha família,
ó Tulo, me perguntas em nome da nossa eterna amizade.
Se tu conheces a Perúgia, sepulcro de minha pátria,
é o luto da Itália em tempos difíceis,
quando a discórdia romana levou seus homens.
Assim, esta é especialmente, ó etrusca terra, dor.
Tu permitiste que os membros de meus parentes fossem espalhados,
tu não cobriste os ossos dos infelizes com terra alguma.
A vizinha Úmbria, que é limítrofe a esses campos,
ela, fértil, gerou-me em terras fartas.

Traduções: Paulo Martins