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sexta-feira, 18 de julho de 2008

Álvares de Azevedo por Cilaine Alves


ALVES, CILAINE, - O Belo e o Disforme: Álvares de Azevedo e a Ironia Romântica. São Paulo: EDUSP & FAPESP. 1998. p.189.

Paulo Martins

O livro O Belo e o Disforme de Cilaine Alves sobre a poesia de Álvares de Azevedo, que acaba de ser lançado pela EDUSP com apoio editorial da FAPESP, é precioso. Recupera e analisa a recepção crítica da obra, processa e delimita o código e, por fim, opera e conceitua o estilo. O que faz, portanto, é indicar e analisar um sistema poético e retórico que, simultaneamente, observa certos equívocos da recepção, circunscreve o autor em questão num código estético-poético e refaz o percurso estilístico que sintetiza o registro em forma poética. Ou seja, Cilaine propõe, inusitadamente e na contramão da convencional crítica, a leitura da obra de Azevedo e não a leitura de Azevedo.

A recepção crítica do autor de Macário está dividida no livro sob dois prismas. O primeiro chamado de crítica “psicobiográfica” e o segundo de “psicoestilistica”. Assim percorre a produção da recepção de Azevedo, observando, Joaquim Norberto, José Veríssimo, Silvio Romero, Ronald de Carvalho, Afrânio Peixoto, Mário de Andrade e Antonio Candido. Este processo, portanto, é o ponto de partida do livro.

Manoel Antônio Álvares de Azevedo, nas palavras de Antonio Candido na Formação da Literatura Brasileira, é, dentre os poetas românticos, aquele “que não podemos apreciar moderadamente: ou nos apegamos à sua obra, passando por sobre defeitos e limitações que a deformam, ou a rejeitamos com veemência, rejeitando a magia que dela emana. Talvez por ter sido um caso de notável possibilidade artística sem a correspondente oportunidade ou capacidade de realização, temos de nos identificar ao seu espírito para aceitar o que escreveu”.

A afirmativa de Candido, de certa forma, pode ser considerada a síntese de parte da crítica literária brasileira que leu os poetas românticos e, especificamente, Álvares de Azevedo sob o recorte da uma psicoestilística. Transfere essa crítica aspectos psicológicos do autor, ou melhor, do sujeito da enunciação poética para caracterizar a produção. Assim observada, esta poesia se impregna de conceitos psicológicos que poderiam ou não ser atribuídos ao autor.

Depositário de certo matiz psicobiográfico, Mário de Andrade em “Amor e Medo”, por seu turno, compõe a partir de suas leituras de Álvares de Azevedo uma visão do poeta. O cerne da discussão poética migra do “fazer” para o “ser”, ou seja, desconsidera o protocolo e cânone poético para considerar o poeta em si como objeto de estudo, deslocando a importância do estudo literário, do texto para o construtor do texto. Assim, “as teorias que afirmam ou tentam comprovar que o poeta desconhecia a prática do ato sexual soam deslocadas. As idéias que circulam em torno do ‘medo de amar’, ‘complexo de Édipo’ ou qualquer coisa do gênero seriam interessantes e oportunas em outras ocasiões, mas não como interpretação dos conteúdos das obras.”

Logo, temos ao percorrer nossos mestres, a impressão que a leitura dos textos românticos antes de tudo deve observar os aspectos pessoais de afinidade e de empatia, não devendo ser norteada por uma “paidéia” que está na base do estudo da crítica que se preocupa com produção do texto. Sob aquele aspescto, ecoam algumas proposições como: Álvares de Azevedo foi “um homem de imaginação doentia”. Destarte, ele foi (in)devidamente “etiquetado” de devasso, depravado, incestuoso, angelical, homossexual, casto, ingênuo, etc.

Em rodapé do prefácio ao livro, João Hansen propõe, observando Mário de Andrade, falando de Maneco de Azevedo: “Fazer psicanálise de supostos sintomas de supostas neuroses de personagens é só verossímil, porque metaforização de discursos psicanalíticos tidos como ‘verdadeiros’ quando aplicados a sujeitos históricos empíricos. Seres de papel são puramente funcionais, não são passíveis de juízos de existência, desconhecem o real desejo etc.”

Poderíamos atribuir tal imprecisão técnica da crítica brasileira à suposição de que, por ser um momento de ruptura inquestionável, o romantismo, ao contrário de momentos anteriores ao século XIX, carece de preceptivas que instaurem procedimento, e, nesse sentido, o que se pode dizer acerca dessa produção, está limitado aos sentimentos pessoais, ao prazer do gosto e ao gênio poético, elementos subjetivos que desconsideram a prática poética no seu sentido original, primevo. Afinal, o poeîn, mesmo para os românticos, não havia morrido, como, seguramente, para nós, pós-românticos, ou melhor, pós-tudo não morreu.

Contudo, o romântico efetiva-se como poética pela substituição de uma retórica clássica (greco-latina), que prevê uma elocução subjetivada, onde há espaço programático para o discurso personalizado, genericamente tomado, pela prática que entende a forma como “reflexão da própria essência”, “auto-reflexão infinita”, logo uma retórica que é essencialmente subjetivação da elocução. Este projeto passa, por conseguinte, pela invisibilidade do artifício.

Dessa forma, lendo-se, Álvares, Sousândrade, Castro Alves e tantos outros, observa-se a pseudo-ausência de procedimento, o que para eles era programático e resultado efetivo de efeito pretendido, fundado em regras estéticas que propunham ora a imediatez da expressão subjetivada do patético, segundo já advertira Schiller, ora a poesia como auto-reflexão infinita, pedra de toque de Schlegel.

A crítica entendeu, portanto, este deslocamento retórico como rejeição de projeto retórico, instituindo a negatividade do procedimento como mera ausência de protocolo regularizador da ordem poética, e, conseqüentemente, atribui à obra de Álvares de Azevedo inépcia em certos momentos. Em suma, entendeu, equivocadamente, certa crítica “romântica” os próprios românticos.

Observe-se ainda Candido ao falar da “poesia” de Álvares: “mistura a ternura casimiriana e nítidos traços de perversidade; desejo de afirmar e submisso temor de menino amedrontado; rebeldia de sentidos, que leva duma parte à extrema idealização da mulher e, de outra, à lubricidade que a degrada”. Dessa forma, a crítica literária até hoje muito nos apontou muito sobre suas “psicopatologias” e pouco nos ajudou na leitura, tendo em vista os aspectos estéticos, que devem, mormente para a produção do século do mal, ser analisados com muito vagar.

Os desacertos de leitura da obra de Álvares de Azevedo, segundo a pesquisadora, tendo em vista o código poético do autor, se verificam pela inobservância de quatro características basilares da “paidéia” romântica que circunscrevem a poética da sublimidade, típica do romantismo: um sistema dual, a ascese anímica, a infinitude do texto e o matiz byroniano.

Observa a autora que a poesia de Álvares de Azevedo subdivide-se em dois momentos. Um primeiro que visa a “dissolver as contradições da cultura procurando unificar a alma num reino transcendental, cantando a fé e a esperança numa civilização ideal”. E um segundo que efetiva um rompimento com o mundo de cultura a partir de uma “adoção de valores e formas de vida condenados pela moralidade vigente”, instaurando consciência lírica céptica que refuta a imortalidade da alma.

Estes dois momentos, quando sobrepostos no terreno da criação poética, correspondem a códigos poéticos próprios. Nesse sentido, quando as poesias visam à transcendência, apresentam metáforas vagas e indefinidas que retratam certa espiritualidade e, quando expressam a vida marginal, observam um código de insatisfação que dialoga com os rumos da cultura, mediante a exploração da vida material e sensível.

Essa desigualdade binômia caracteriza proposta romântica de entender a poesia como tarefa progressiva ou infinita que objetiva a aproximação entre o mundo divino e o mundo terreno, mediada pelo eu artístico, singular e genial. À duplicidade temática, associam-se duas concepções do ideal que singularmente propõem asceses anímicas. Para comprovação dessa tese, Cilaine Alves opta por observar a obra Macário.

Assim, “enquanto Macário reage contra o sentimento de alienação do sujeito e da arte na civilização industrial professando um tipo de poesia que retrate tal descontentamento, Penseroso acredita na possibilidade de atingir um estágio civilizatório ideal com o advento do progresso”. Vale dizer que a autora associa a posição de Macário, descrente em relação à cultura, à própria posição poética de Álvares de Azevedo que busca a plenitude no ideal infinito.

Por outro lado, esta mesma busca será, também, construída pela figuração do amor-paixão. Dessa forma, invariavelmente, Azevedo revitaliza o sentimento em sua essência como idéia e possibilidade de transcendência, de elevação do espírito ao reino do Absoluto. O embate nuclear entre a realidade cotidiana e a idealização do infinito “propicia a adoção do amor irrealizado” onde a donzela virgem e angelical são a personificação desse ideal.

Cilaine Alves infere, contudo, que, à certa altura de Lira dos Vinte Anos, Álvares de Azevedo introduz um “eu” crítico em sua obra que questiona a validade da postura poética adotada até então. Ou seja, “exausto de perseguir um ideal inapreensível”, concebe o prefácio ao livro citado, transformando-o numa autocrítica que assume um desconforto, ou até, um desapontamento com a “banalização do código poético sentimental”.

Tal ato, que poderia e, seguramente, pôde confundir a recepção que talvez aferisse a partir disso, talvez, um sintoma de esquizofrenia, mostra a autora, ser absolutamente programático dentro do cânone romântico onde a reflexão sobre a obra, amiúde, é inerente ao sistema poético. Pressupõe a arte romântica, pois, uma crítica imanente capaz de propor um crítico que esteja no centro do texto, e não, externo a ele. Dessa forma, “na própria idéia que concebe o artista como mediador entre o finito e o infinito, entre o eterno e o efêmero, encontra-se, paradoxalmente, uma restrição que limita o âmbito da ação do gênio romântico, impedindo que seu livre-arbítrio desemboque na ‘iliberalidade’.”

Cilaine vai além, indica que o procedimento poético-elocutivo que permitirá ao poeta romântico tornar-se o próprio crítico de sua obra, será a ironia que, simultaneamente, é a auto-eliminação da subjetividade, soterrando o sentimentalismo exacerbado e, é, também, a mediadora da anulação da forma poética, explicitando um momento objetivo, ou seja, a ironia da forma, conforme bem expressou Walter Benjamin.

O quarto elemento, levantado n’O Belo e o Disforme revê “o maior caso de byronismo explícito das letras brasileiras”, isto é, dentro do trabalho de processamento e de delimitação do código poético alvaresino, é trabalhada uma acurada análise daquilo que, acertadamente, a crítica tradicional já observara na obra de Álvares de Azevedo: o byronismo. Contudo, jamais de maneira historicizada.

É oferecida, portanto, uma contribuição de inscrição histórica desse “movimento” de letras, socialmente observado. Destaca a importância de certas sociedades e revistas cujo ideário indicava “a adoção da ‘filosofia’ byroniana, do estilo de vida boêmio, além da crítica, através do gênero ‘bestialógico’, aos falsos poetas”.

Esse aspecto do código poético sintetiza a binomia explícita da obra uma vez que o sujeito da enunciação observa “a inapreensibilidade de esferas cósmicas e de que a ciência não é capaz de explicar os mistérios da vida”. Diante da impossibilidade do mundo, revitaliza, pois, certos estereótipos avessos à vida mundana “normal”. A autora prova que a esse procedimento, absolutamente, programático, na obra de Azevedo, corresponde a sublimidade sentimentalmente idealizada da donzela pura, o lírio branco, como contrapartida da binomia que busca o infinito.

Na terceira e última parte do livro, Cilaine Alves opera a estilística alveresina, tanto naquilo que há de dualidade (chamou Álvares de binomia), porquanto é resultado dessa expressão, quanto naquilo que há de fusão desse processo, uma vez que a obra resulta una. O estilo, portanto, encerra um sistema proposto, recuperando em forma poética a binomia estilística e, conseqüentemente, uma fusão de elementos que busca o ideal.

Para assentar a duplicidade imposta pelo conteúdo, o autor d’O conde Lopo propõe, segundo Cilaine, a operação de dois estilos, ora o baixo e vezo que dá conta da bestialidade byrônica, ora o alto e sublime que recupera o conteúdo de sentimentalismo exacerbado.

Assim, “enquanto na fundamentação de um mundo visionário e platônico a imitação remete a esferas elevadas, ideais e inapreensíveis, após essa exposição a representação busca retratar, de forma diametralmente oposta, os elementos sensíveis do cotidiano prosaico, interpretando-os na chave de uma estilística baixa”.

Portanto, aquilo que a crítica observou como imprecisão, altos e baixos, momentos bons e maus representam uma intenção poética subliminar que visa a, “heteronimicamente”, dar conta de várias consciências, e daí, certa infinitude da imensidão cósmica. Segundo a autora, esta postura permite estabelecer a relação entre o pensamento estético de Kant e a sua particular assimilação por parte de Schiller.

Estilisticamente, portanto, Álvares de Azevedo num primeiro momento esforça-se em passar ao largo do mundo sensível, buscando a sublimidade e num segundo, trabalha a representação da natureza sensível e corpórea, incorporando experiências conflituosas do cotidiano (boêmia literária, pobreza material do poeta, anonimato etc.).

O livro O Belo e o Disforme é, sem dúvida, um marco na crítica literária brasileira acerca do romantismo, pois consegue normatizar algo que, para muitos, era inormatizável e, para outros, fruto de mentes doentias, logo próximo da incongruência, da inépcia e da infantilidade: a poesia romântica de Álvares de Azevedo.

terça-feira, 27 de maio de 2008

Platão – Sobre a poesia

Paulo Martins


Entre os monumentos legados a nós pelos gregos antigos, talvez o maior, tanto sob o aspecto da sua permanência e interferência no modo de pensar do ocidente, quanto sob o da quantidade e densidade das escrituras, seja Platão (428/27 a.C. - 347 a.C.). Discípulo de Sócrates (470 a.C. - 399 a.C.), marco fundamental do pensamento ocidental, e professor de Aristóteles (384 a.C. - 322 a.C), o filósofo ateniense é responsável por uma série de pressupostos que ainda hoje são amplamente discutidos e revisitados nos meios acadêmicos, sejam eles literários, sejam filosóficos e, em certa medida, balizam o discurso racional do mundo moderno.

Não bastasse tal grandeza, Platão, fundador da famosíssima Academia de Atenas, pode e deve ser considerado também como marco literário, porquanto não só se empenhou em escrever num estilo escorreito, claro e puro no que se refere à língua grega clássica, como também engendrou um gênero literário sofisticado e inovador – em que se pese aqui sua aparente simplicidade: o diálogo, forma de composição que dita, dá luz a uma metodologia argumentativa, escopo de sua filosofia: a dialética, que, para ele, consistia no movimento do espírito rumo à Verdade. Tal movimento, que sempre está a serviço do Bem, é a ascensão dialética.

O diálogo, por sua vez, como gênero literário, suporte da dialética platônica, põe em evidência forma muito cara aos gregos antigos: o embate de palavras. Se pensarmos na importância social das tragédias gregas, afinal a encenação dessas era garantida pela cidade-estado como maneira de produzir o efeito catártico dos sentimentos de terror e piedade, temos que, em chave formal, o fator que propicia a consecução desse efeito são os diálogos internos da mesma, mediados por seus discursos corais.

Assim, pode-se dizer que se, de um lado, a tragédia como gênero era produzida por um teatro de palavras e pensamentos, de outro lado, os diálogos platônicos são o palco do verdadeiro teatro de idéias, movido por personagens que as expõem, as confirmam e as refutam. Enquanto, no palco da tragédia, evidenciam-se as posições da pólis diante do mýthos; no palco dos diálogos platônicos, evidenciam-se as teorias e doutrinas do filósofo diante do lógos.

Sob o prisma filosófico, Platão ousa empreender a resolução da dicotomia existente entre o pensamento de dois filósofos pré-socráticos (ou fisiologistas, pois se ocupavam da discussão da phýsis, da natureza): Heráclito de Éfeso (540 a.C. - 470 a.C) e Parmênides de Eléia (530 a.C. - 460 a.C). O primeiro fiava-se na constante mudança e movimento das coisas que são. O segundo acreditava na imutabilidade das coisas que existem. Rumo a esta solução, o acadêmico propõe questões que lhe são úteis e doces. Entre elas, encontramos suas considerações epistêmicas (do conhecimento), isto é, sua teoria das idéias. Para ele, todo homem está em contato constante com dois tipos de realidade: a inteligível e a sensível. Aquela é a realidade, permanente, imutável e una. Esta são todas as coisas que nos afetam os sentidos, são realidades dependentes, mutáveis e são imagens das realidades inteligíveis. A realidade inteligível – resume, por assim dizer, todas as possibilidades de existência de representação da segunda realidade no mundo concreto em que vivemos. Assim, ao observarmos uma cadeira, podemos inferir que para todos os tipos de cadeiras que existem no mundo sensível, existe uma no mundo inteligível que as resume e essa é a Verdadeira Cadeira, a cadeira em si e ela, a Verdadeira Cadeira, é bela e boa (kalós kaì agathós).

Essa doutrina permeia a todas as outras expostas em seus Diálogos que somam aproximadamente 30 (a incerteza decorre da possibilidade de alguns não serem de sua autoria). Os temas neles discutidos são variados. Entre os mais famosos: A apologia de Sócrates que relata o discurso de defesa de Sócrates no tribunal de Atenas; O Protágoras que trata do conceito e natureza da virtude; O Górgias que discute questões atinentes ao verdadeiro filósofo em oposição aos sofistas; O Fédon que relata o julgamento e morte de Sócrates e trata também da imortalidade da alma; O Banquete que propõe a origem, as diferentes manifestações e o significado do amor sensual; O Fedro que observa a retórica e o amor sensual; A República que aborda vários temas, mas todos subordinados à questão central da justiça; O Sofista que discute o problema da imagem, do falso e do não-ser e O Íon que trata de poesia e da inspiração divina.

Uma das questões mais discutidas pela crítica literária ocidental e pela filosofia em todos os tempos é a crítica platônica à poesia. Nesse sentido, também é curioso observar que, se para Platão essa discussão ocupava destaque em relação a temas tão elevados como a ética, a política, a amizade, a alma e o amor então a poesia para os gregos antigos também se colocava como algo de suma importância por contiguidade a esses temas maiores. Contudo, essa inferência cai na obviedade quando observamos, por exemplo, a posição da tragédia como fenômeno político e da poesia homérica como referência pedagógica para o homem grego.

Assim, o filósofo ateniense na contra-mão da sociedade grega não discute a poesia por aquilo que ela oferece de virtuoso como fará mais tarde Aristóteles, antes a observa sob contornos do vício e o seu maior é o fato de não ser Verdadeira, uma vez que é imitação (mímesis-mimese), ou seja, é cópia daquilo que somente existe como Verdade no mundo das idéias. Em pelo menos três diálogos isso é proposto: No Fedro, na República e no Íon. Mas será que para a desqualificação da poesia, imposta por sua tese na teoria das idéias, há algum antídoto? Quero dizer será que, em algum momento de seu “teatro de idéias”, Platão oferece uma saída para o poeta e seu “fazer”? Bem isto é o que veremos.

No seu diálogo Fedro, Platão dá uma indicação interessante para a questão da poesia, quando Sócrates refuta o discurso de Fedro sobre o amor e propõe o seu. Num primeiro momento, aquele defende a existência de uma loucura divina que pode fomentar os amantes: “O início deve ser: não foi verdadeiro este discurso ao dizer que, apesar de se ter um amante, devem conceder-se mais favores ao não-apaixonado, porque aquele é louco, enquanto que este possui discernimento. Isto seria verdade se a loucura fosse simplesmente um mal; mas, de fato, obtemos grandes bens de uma loucura (mania) que seja inspirada pelos deuses”. Daí continua e propõe as possibilidades para espécies de manias (loucuras) e conclui: “Existe uma terceira espécie de delírio: é aquele que as Musas inspiram. Quando ele atinge uma alma virgem e ingênua, transporta-a para um mundo novo e inspira-lhe odes e outros poemas que celebram as façanhas dos antigos e que servem de ensinamento às novas gerações. Mas quem se aproxima dos umbrais da arte poética, sem o delírio que as Musas (áneu manías Mousôn) provocam, julgando que apenas pelo raciocínio será bom poeta, se-lo-á imperfeito, pois que a obra poética inteligente se ofusca perante aquela que nasce do delírio.” (Tradução de Jorge Paleikat)

Pelo que se vê, Platão aqui não tem uma posição unívoca contra a poesia em geral, antes a aceita como possibilidade da Verdade, caso seja produzida a partir de uma inspiração divina e não produzida a partir de uma técnica (arte poética – técne poietiké). Dessa forma, a única forma de conciliação entre aquilo que é Verdadeiro e aquilo que é poesia seria a mediação divina na produção poética, o que faz muito sentido dentro de sua teoria das idéias e do conhecimento.

Já, n’A República, Livro X, o filósofo propõe a seguinte tese, bem explicada por Eric Havelock no livro Prefácio a Platão: “essa parte final da República abre com um exame da natureza não da política, mas da poesia. Colocando o poeta ao lado do pintor, ele argumenta que o artista produz uma versão da experiência que está duas vezes afastada da realidade; sua obra, na melhor das hipóteses, é frívola e, na pior, perigosa tanto para a ciência quanto para a moral; os maiores poetas gregos, de Homero a Eurípides, devem ser excluídos do sistema educacional da Grécia.” Diz Platão, no início do Livro X: “[Que doutrina?] A de não aceitar a parte da poesia de caráter mimético. A necessidade de a recusar em absoluto é agora, segundo me parece, ainda mais claramente, desde que definimos em separado cada uma das partes da alma. [Que queres dizer?] Aqui entre nós (porquanto não ireis contá-lo aos poetas trágicos e a todos os outros que praticam a mimese), todas as obras dessa espécie se me afiguram ser a destruição da inteligência dos ouvintes, de quantos não tiverem como antídoto o conhecimento da sua verdadeira natureza.” (tradução Maria Helena da Rocha Pereira). O que é importante salientar sobre a tese platônica, portanto é a questão da mimese, muito além, portanto, da poesia em si. Mesmo porque, a admite em outra modalidade que não seja mimética.

N’O Íon, pequenino diálogo dedicado à questão da poesia inspirada, Platão assevera-nos o mecanismo da inspiração divina. Contudo, para que compreedemos o que o filófoso discute é necessário distinguir a figura do poeta e a do rapsodo. Numa sociedade essencialmente ágrafa e oral, como a grega pré-homérica e homérica, havia a distinção entre aquele que compõe a poesia e aquele que se ocupa em pronunciá-la. Assim, da mesma forma que Homero era um poeta, Íon era um rapsodo, o responsável na transmissão oral dos poemas homéricos. É conveniente dizer que a figura do rapsodo ultrapassa o mundo da oralidade e, também, irá se fixar no mundo grego arcaico e clássico com as mesmas funções.

A discussão central do Íon é justamente a capacidade do rapsodo traduzir à audiência as palavras e os pensamentos do poeta. Nesse sentido, se o rapsodo é capaz de tratar de todos os poetas e poemas indistintamente, ele seria alguém que detém uma técnica, uma arte (técne/ars) e poder-se-ia deduzir que este tipo de rapsodo possuiria as mesmas características de um poeta mimético; por outro lado, se ele só é capaz de compreender o pensamento e as palavras de um só poeta, então ele não é portador de uma habilidade genérica (técne), mas, sim, é alguém que ocupa uma posição tão importante quanto à do poeta não-mimético. E, dessa forma, no caso específico de Íon, um ser inspirado, como se fosse uma bacante (Sacerdote de Baco) ou um coribante (sacerdote de Réia) que são movidos por uma mania, detentor, assim, de uma relação diferenciada com o mundo divino e, portanto, dentro da lógica platônica, com o mundo das idéias.

O rapsodo assim como o poeta inspirado são tomados por um êxtase que se transmite como um imã (pedra de magnésio) à assistência. Victor Jabouille em sua introdução à sua tradução do Íon observa: “A discussão entre Sócrates e Íon, se tem como tema central a definição da base da ‘arte do rapsodo’, tem, como objetivo último, a poesia. As duas longas intervenções de Sócrates comprovam-no. A técne, isto é, a posse de um conjunto de regras que assentam num conhecimento científico (epistéme), não é atributo do poeta. Este, tal como o rapsodo, é possuído por uma força divina, um entusiasmo que supõe a perda momentânea da atividade racional.”

Vale lembrar que essa dicotomia platônica da poesia, isto é, a mimética e a inspirada é ponto central da teoria literária no ocidente. Quando observamos a poesia romântica do século XIX, notamos que a ela subjaz uma concepção de poeta, que longe de ser aquele que detém uma capacidade genérica de uma técnica, é aquele que, por ser diferenciado e único, possui uma relação igualmente diferenciada com o mundo inteligível e, por isso, divino e especial. Por sua vez, ao analisarmos a poesia dita clássica no ocidente a partir do século XV, verificamos a preocupação central com o conhecimento técnico, com a arte poética e, daí, serem os poetas que distam muito da presunção da inspiração.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

W.H. Auden

Ao republicar o texto sobre Poesia Alheia de Nelson Ascher que fora publicado no Jornal da Tarde em 1998, lembrei-me de uma belíssima cena de Quatro Casamentos e um Funeral, filme em que é falado o poema Funeral Blues de Auden.
Funeral Blues
Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.

Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message He Is Dead,
Put crepe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.

He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last for ever: I was wrong.

The stars are not wanted now: put out every one;
Pack up the moon and dismantle the sun;
Pour away the ocean and sweep up the wood,
For nothing now can ever come to any good.

Tradução de Nelson Ascher:

Que parem os relógios, cale o telefone,
jogue-se ao cão um osso e que não ladre mais,
que emudeça o piano e que o tambor sancione
a vinda do caixão com seu cortejo atrás.

Que os aviões, gemendo acima em alvoroço,
escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu.
Que as pombas guardem luto — um laço no pescoço —
e os guardas usem finas luvas cor-de-breu.

Era meu norte, sul, meu leste, oeste, enquanto
viveu, meus dias úteis, meu fim-de-semana,
meu meio-dia, meia-noite, fala e canto;
quem julgue o amor eterno, como eu fiz, se engana.

É hora de apagar estrelas — são molestas —
guardar a lua, desmontar o sol brilhante,
de despejar o mar, jogar fora as florestas,
pois nada mais há de dar certo doravante.