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domingo, 2 de setembro de 2012

Questões Poéticas em Roma


Curso de Pós-Graduação em Letras Clássicas - Primeiro Semestre de 2013


Universidade de São Paulo – PPG- Letras Clássicas
LATTIM – Laboratório de Tradução de Textos e Imagens
IAC – Imagens da Antiguidade Clássica
VerVe – Verbum Vertere



Primeira Parte:  entre 10 e 20 de março de 2013 (PREVISTO)
Concentrado em uma semana

Professor Kirk Freudenburg (Yale)


1. “Structures of Influence in Roman Poetry” (a general introduction to the week’s seminars, with special emphasis on the imperial logic of the Augustan poets’ deductum Carmen).
2. ‘Callimachean Refusals as Roman Poetry” (a study of the political theatrics of recusatio in Rome, with reference to the recusationes of the Augustan poets).
3. “Greek Irony among Roman Friends” (on Horace’s remaking of satire’s signature aggression).  Assigned readings to include: Horace Sermones 1.1, 2.8, Epistles 1.17, Catullus 1, 5 and 8.
4. “The Cinematography of Virgil’s Aeneid” (on the structuring and manipulation of vision in the Aeneid, with emphasis on the Roman ‘imperialist’ eye-view generated by certain scenes).
5. “Structures of the Self in Roman Epic” (on how tiny details of gestures made, clothing worn, protocols observed and assumptions made in Roman epic refer ‘intertextually’ to Greek poems and ‘interculturally’ to Roman practices).


Segunda Parte:  entre 29 de março e 9 de maio de 2013 (PREVISTO)
Encontros semanais


Professores Paulo Martins, João Angelo Oliva Neto e Alexandre Hasegawa


Dias Previstos: Março: 29; Abril: 4, 11, 18, 25 e Maio: 2 e 9.

6. “O epigrama como fundamento da elegia”. A primeira elegia latina. O jogo como necessidade poética.  A metapoesia. Questões relativas à prevalência temática da Elegia Romana.  (PM)
7. Visualidades épicas. Écfrase e Digressão. A dispositio da écfrase e o enredo da narrativa épica. Homero e Virgílio. O palácio de Alcino e O templo de Juno em Cartago. (PM)
8. Virtude e vício na composição das Sátiras de Horácio (sat. 1, 1; 1, 6; 2, 1) – (APH)
9. A aurea mediocritas no segundo livro das Odes de Horácio (Odes II, 1-10) – (APH)
10. "Catulo 64 ou a resposta antes da pergunta: épica e écfrase neotéricas". – (JAON)
11. "Catulo 22: um livro para ver". – (JAON)
12. “Propércio 2,12: digressão e écfrase”. Divisão do Livro 2 de Elegias. Antecipação e recapitulação. – (PM)

sábado, 25 de junho de 2011

Uma hipótese para Belgrado - Propércio 2,11 e 2,12

A elegia 2,11de Propércio, associada à 2,12, suscita uma boa hipótese sobre uma possível divisão do segundo livro de elegias.


SCRIBANT de te alii vel sis ignota licebit:
laudet, qui sterili semina ponit humo.
omnia, crede mihi, tecum uno munera lecto
auferet extremi funeris atra dies;
et tua transibit contemnens ossa viator,
nec dicet 'Cinis hic docta puella fuit.'

Outros te lavrem ou pode ser que passes em branco:
Que te louve quem põe sementes em terra estéril.
Teus dons todos, crê-me, o negro dia de tua morte
Irá fulminar em teu último leito.
E um viajor com desdém irá passar por que foi de ti
Não sem dizer: "Esta cinza foi douta menina".

1) É claramente um Epigrama o que nos permite associá-lo a uma sphragís, a uma assinatura.
2) Apresenta um tom de finalização da obra, ao falar que a menina (Cíntia/Livro de Cíntia ou os dois primeiros livros de Propércio) está morta, pois é a douta Cíntia é Cinza.
3) O eu elegíaco descompromete-se da escritura do livro "outros escrevam de ti ou sobre ti".
4) Os dois primeiros livro de Propércio, dedicados ao amor específico por Cíntia, encerra-se lamentosamente, é quase uma nênia.
5) O poema subsequente, isto é, o 2,12 parece generalizar aquilo que foi apresentado pelo poeta como específico nos dois primeiros livros até aqui: o amor por Cíntia e agora: o Amor, deus.

Essa questão será também discutida por mim em Belgrado na International Conference on Greek and Roman Poetics em outubro.

terça-feira, 15 de março de 2011

Aguarda Publicação - Novas Tendências da Filologia Clássica

Catulo 65: um programa poético




Paulo Martins




Esse trabalho visa à leitura do poema 65 de Catulo, a primeira elegia de seu livro. Trata, pois, de uma observação de programa poético, já que ele rascunha os uerba e as res dessa espécie genérica elegíaca e lhe serve de baliza a temas que serão gravados como fundamento do gênero em sua especificidade romana – elegia erótica. O poema, assim, deve ser observado de perto, na luz e muitas vezes, atendendo assim aos requisitos específicos retórico-poéticos em que a filigrana é essencial e cujas prescrições acompanham formulações poético-retóricas helenísticas, assentadas em Roma. Por outro lado, a elegia 65 funciona também como instrumento didático dessa variação genérica romana, pois Catulo arquiteta o estado programático da poesia ao encetar a possibilidade de sua visualização de sua estrutura. O leitor/ouvinte instruído nessas letras, portanto, não só recupera os copia rerum dessa poética inovadora, como também visualiza as marcas poéticas seriadas decalcadas na “fôrma” do dístico: hexâmetro datílico somado ao hexâmetro datílico cataléptico.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Propércio 1,1 - Nova tradução

I,I

Cynthia prima suis miserum me cepit ocellis,
contactum nullis ante cupidinibus.
tum mihi constantis deiecit lumina fastus
et caput impositis pressit Amor pedibus,
donec me docuit castas odisse puellas
improbus, et nullo uiuere consilio.
ei mihi, iam toto furor hic non deficit anno,
cum tamen aduersos cogor habere deos.
Milanion nullos fugiendo, Tulle, labores
saeuitiam durae contudit Iasidos.
nam modo Partheniis amens errabat in antris,
ibat et hisurtas ille uidere[1] feras;
ille etiam Hylaei percussus uulnere rami
saucius Arcadiis rupibus ingemuit.
ergo uelocem potuit domuisse puellam[2]:
tantum in amore preces et[3] benefacta ualent.
in me tardus Amor non ullas cogitat artes,
nec meminit notas, ut prius, ire uias.
at uos, deductae quibus est pellacia lunae
et labor in magicis sacra piare[4] focis,
en agedum dominae mentem convertite nostrae,
et facite illa meo palleat ore magis!
tunc ego crediderim uobis et sidera et amnis
posse Cytaeinis[5] ducere carminibus.
aut uos, qui sero lapsum reuocatis, amici,
quaerite non sani pectoris auxilia.
fortiter et ferrum saeuos patiemur et ignes,
sit modo libertas quae uelit ira loqui.
ferte per extremas gentes et ferte per undas,
qua non ulla meum femina norit iter.
uos remanete, quibus facili deus annuit aure,
sitis et in tuto semper amore pares.
nam me nostra Venus noctes exercet amaras,
et nullo uacuus tempore defit Amor.
hoc, moneo, uitate malum: sua quemque moretur
cura, neque assueto mutet amore locum[6].
quod si quis monitis tardas aduerterit auris,
heu referet quanto uerba dolore mea!

1,1


Cíntia[7], a primeira, a me capturar, infeliz, com os olhinhos;
Eu nunca antes tocado por desejos.
Então, o Amor arrebatou-me o olhar de desdém constante
E sob seus pés subjugou-me[8]
Até que cruel a mim ensinou odiar puras
Meninas e viver sem prudência.
E esse fogo em mim está já faz um ano,
Mas sou obrigado a ter os deuses contra.
Ó Tulo, Milanião, não fugindo aos trabalhos,
Venceu a maldade da dura Iáside,
Ora , tresloucado, errava em Partênias grutas
Ora provocava as feras selvagens
Então, varado por estocada da verga[9] de Hileu,
Ferido, gemeu nos rochedos da Arcádia;
Pôde, pois[10], domar a veloz menina:
Tal é o valor, no amor, de preces benfazejas.
O Amor tardio não me urde artes
Nem se lembra de seguir, como antes, seus hábitos.
E vós, que podeis enganar e fazer a lua cair,
E de quem é dever sagrar ritos em magos fogos,
Eia, mudai o coração de minha menina
E fazei-a empalidecer mais que meu rosto!
Assim acreditarei que podeis comandar
Estrelas e rios com feitiços da citana
E vós, amigos, que tarde notais a derrocada,
Procurai auxílios para meu coração enfermo
E, com força, vou suportar o ferro e o fogo cruéis
Desde que seja livre para falar irado.
Levai-me para longe[11], pelas ondas levai-me
Onde mulher alguma conheça minha via:
Vós, quem o deus atendeu com atenção[12], ficai,
Sede sempre, no amor seguro, um par.
Nossa Vênus trama contra mim amaras noites,
O Amor ocioso não me falta nunca.
Meu mal, advirto, evitai: a cada um que a sua amada
Aflija, e habituado ao amor, não o mude[13],
Se, porém, derem ouvidos moucos aos meus conselhos
Ah! Com quanta dor hão de lembrar meus versos!



Notas


[1] uidere tem aqui um significado específico de provocar, arrostar como em Virg., A., 4, 134 e 3,431. O infinitivo de resultado ou de conseqüência com verbos de movimento.
[2] uelox puella: epíteto de Atalanta. Cf. Cat., 2.,12-14.
[3] preces et benefacta: Allen, A., Glotta, 60, 1982 e Yardley, J.C., Maia, 31, 1979. Trataram do “et” como sendo epexegético, ou seja, preces et benefacta é uma hendíadis: preces benfazejas.
[4] sacra piare: Sandbach, F.H., CR,52, 1938 propõe sacra piare tem o mesmo sentido de sacrum expiare em Cic., De Leg., 2,21., isto é, “consagrar altares”.
[5] cytaeinis ou cytaeines: F e B. C; Go e Gi: cytinaeis. P: cytaines. Relativo a Citáia, cidade da Cólquida, no caso: cidade de Medeia. Cf. 2,4,7; 1,5,6 et 1,12,10. Cf. Magueijo, C., Euphrosyne, 4. 1970. Comenta acerca da tradição dos manuscritos no que diz respeito ao termo. Licofron, Alexandra, 1389.
[6] locum: P; C e F. torum: G e Gi.
[7] Todas as palavras em itálico estão nos índices de referência mitológica, onomástica ou toponímica.
[8] Não traduzi caput, literalmente. Proponho a tradução da sinédoque de parte pelo todo, portanto o termo “me” corresponde ao termo “cabeça” do original.
[9] O sentido do verso é seguramente erótico, entretanto, por respeito ao gênero e, portanto, à sua elocução, mantenho a polissemia. Percussus tem sentido de perpassar, isto é, varar. Pode-se-ia ler, também uulnus, -eris não como agente da passiva por golpe, mas como um adjunto adverbial de lugar [in] uulnere, daí o sentido de orifício, buraco e, ainda, ramus, não simples clava ou ramo, mas, como atesta LS: membro viril para a mesma passagem e OLD: pênis.
[10] Segundo M, o conectivo conclusivo liga-se ao plano ou ideia de Milanião e não com suas ações contretas, já que, se fosse assim pensado, estaria estabelecida a contradição.
[11] Suponho no termo longe, extremas gentes: povos longínquos.
[12] facili auri = ouvidos propícios. Os deuses, quando atendem aos reclamos mortais, têm ouvidos propícios, portanto parece-me boa solução ouvir com atenção.
[13] Literalmente: “acostumado com o amor, não mude de lugar”. Entendo que o referente de locum aqui é amor, de sorte que a alteração do lugar em que se ama é a alteração do objeto amado. Se imaginarmos que a outra solução de edição para locum é torum, minha suposição também vale, já que o torum é onde se materializa o amor.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Mais Propércio...

No IV Simpósio de Estudos Clássicos da USP - Novas Tendências em Filologia Clássica, entre os dias 8 e 12 de novembro de 2010, proferi uma conferência cujo título era Figurações do Amor na Elegia Erótica Romana, na qual tratava basicamente de dois poemas: o 65 de Catulo e o 2,12 de Propércio. Observei que o poema 65 de Catulo, poema que abre a seção elegíaca de seu livro, aponta para três vertentes temáticas ou tópicas da elegia romana, incipiente ainda à época de Catulo, mas que terá espaço relevante entre as artes poéticas do principado. São eles, os temas: o lamento, o jogo alusivo (mítico e metapoético) e o erótico. Os lugares de Catulo, engenhosamente, são oferecidos ao leitor em "fôrma" epigramática.
Lembremos o texto na tradução de João Angelo:
Embora, ilhado em magoas, uma dor sem fim
me afaste, ó Hórtalo, das virgens doutas
nem bons frutos das Musas possa pensamento
gerar (que já flutua em tantos males
pois uma onda, há pouco manando do abismo
do Oblívio, os alvos pés banhou de
meu irmão, em quem, roubado a meus olhos, na praia
Retéia areias pesam de Tróia, ah!
Nunca mais conversar nem ouvir-te contar-me
teus feitos, nunca mais te ver, irmão
mais amável que a vida, e sempre vou te amar,
meu canto tornar triste por tua morte,
qual canta sob as sombras dos ramos tão densas
– ave - a Daulíade a gemer a ausência
de Ítilo); em tanta dor porém te envio, ó Hórtalo,
estes versos vertidos de Calímaco
por teus ditos, dispersos aos ventos volúveis,
em vão não creres voaram de meu peito,
como a maça – furtivo presente do amante –
que cai do casto colo da menina
esquecida, coitada, do fruto escondido
entre as dobras do manto: vem a mãe,
ela salta e no chão foge o fruto, em sua face
infeliz um rubor lhe sobe cúmplice.
Esse texto dialoga com um pequeno trecho da elegia 1,3, 19-26 de Propércio:

Antes eu imóvel a observava com olhos fixos,
Como Argo, os chifres ignotos de Io. -20
Ora soltava a grinalda de minha fronte,
Ora a colocava em tua cabeça, Cíntia.
Ora me divertia compondo teus cabelos soltos,
Ora dava furtivos pomos a tuas mãos cavas
Ou concedia todos os dons ao teu sono ingrato, -25
Dons que, amiúde, deslizavam de teus seios.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Propércio 2, 29a

Mais uma tradução do velho Propécio:

Propércio, II, 29

HESTERNA, mea lux, cum potus nocte vagarer,
nec me servorum duceret ulla manus,
obvia nescio quot pueri mihi turba minuta
venerat (hos vetuit me numerare timor);
quorum alii faculas, alii retinere sagittas,
pars etiam visa est vincla parare mihi.
sed nudi fuerant. quorum lascivior unus,
'Arripite hunc,' inquit, 'iam bene nostis eum
hic erat, hunc mulier nobis irata locavit.'
dixit, et in collo iam mihi nodus erat.
. . .
hic alter iubet in medium propellere, at alter,
'Intereat, qui nos non putat esse deos!
haec te non meritum totas exspectat in horas:
at tu nescio quas quaeris, inepte, fores.
quae cum Sidoniae nocturna ligamina mitrae
solverit atque oculos moverit illa gravis,
afflabunt tibi non Arabum de gramine odores,
sed quos ipse suis fecit Amor manibus.
parcite iam, fratres, iam certos spondet amores;
et iam ad mandatam venimus ecce domum.'
atque ita me iniecto dixerunt rursus amictu:
'I nunc et noctes disce manere domi.'

À noite passada, luz minha, quando ébrio vagava
E coorte alguma de servos acompanhava
Turma diminuta – não sei de quantos meninos
Veio ao meu encontro – o temor impede de numerá-los –
Uns deles, pequenas tochas; outros levavam dardos
Uma parte pareceu preparar-me armadilha.
E estavam nus. Um deles era mais lascivo
E disse: “Agarrai-o, já bem o conheceis.”
“Era ele, é ele que a irada mulher nos entregou”
Disse e no meu pescoço um nó já havia.

****
Outro manda que me empurrem para o meio,
Mas outro:“Morra quem não nos crê deuses!”
Ela te espera, imerecedor, por horas:
E tu, inepto, não sei quais outras procuras.
Quando ela tiver soltado os laços noturnos da mitra sidônia
E tiver entreaberto olhos pensos de sono
Odores te chegaram não de ervas arábicas,
Mas os que os o próprio Amor fez com suas mãos.
“Poupai já, irmãos, já promete tudo de amor.”
“Eis já chegamos à casa mandada.”
E restituído meu manto, disseram:
“Vai agora e aprende a ficar em casa às noites!”

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Dissertação de Mestrado

Na sexta-feira, 19 de fevereiro, Cecília Gonçalves Lopes, apresentou sua dissertação de mestrado junto ao PPG em Letras Clássicas da USP. A Banca composta por Paulo Sérgio de Vasconcellos do IEL da Unicamp e por mim e Adriano Scatolin do DLCV/USP APROVAMOS O EXCELENTE TRABALHO cujo título é Confluência Genérica na Elegia Erótica de Ovídio ou A Elegia Erótica em Elevação.

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Segue o Resumo do trabalho e o texto que Cecília apresentou à assistência.

LOPES, Cecilia Gonçalves. Confluência genérica na Elegia Erótica de Ovídio ou a elegia Erótica em elevação. 2009. 161f. Dissertação (Mestrado) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2009.



No final do século I a.C., a Elegia Erótica Romana desafiou os gregos e as convenções poéticas apresentando um poeta-amante que cantava suas aventuras amorosas em primeira pessoa. Como se isso não bastasse, esse eu-elegíaco se dedicava à puella como se tal tarefa fosse uma militia, um seruitium amoris, e que exigia tempo integral. Galo, Propércio e Tibulo nos apresentaram suas dominas e se negaram a servir à pátria.
Ovídio foi além: seguiu seus predecessores mas fez com que seus leitores aprendessem a entender o papel de cada uma das normas na construção desse gênero. Escreveu seu primeiro livro, Amores, e , a partir daí, começou a traçar um caminho ascendente: queria sua Elegia elevada, não apenas média.
Para isso, produziu recusationes, elegias programáticas e, o mais importante, confluiu gêneros. Fez uso da Epistolografia, da Retórica, da Didática e de personas e exempla míticos para compor Heroides, Ars amatoria e Remedia amoris.Nesta dissertação, mostra-se a trajetória do poeta na elevação da Elegia Erótica de Ovídio.

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Confluência genérica na Elegia Erótica de Ovídio
ou a Elegia Erótica em elevação
Defesa de Mestrado - Cecília Gonçalves Lopes
Roma: em um espaço restrito da cidade, os Fóruns, parece concentrar-se toda sua vida: trabalho, lazer, políticos e poetas, malandros, punguistas, soldados e lenas. O Palatino e as insulae: Roma é barulho durante o dia e à noite.
A cidade que preserva sua memória em monumentos arquitetônicos e literários é o lugar onde se encontram pessoas vindas de todas as partes do mundo, e sob Augusto Roma se modifica bastante. Nas letras, agora há quem cante o ócio. A guerra civil acabou e alguns poetas, os elegíacos, falam sobre o amor em versos desiguais, os dísticos. Roma é, afinal de contas, um anagrama desse sentimento capaz de escravizar, de tornar doentes aqueles que são sadios. Ovídio conseguiu, assim como Catulo, Propércio e Tibulo antes dele, perceber tal sutileza e fez, a partir do tema e do gênero, poemas deliciosos. Fez do amor, nas letras, o objetivo de viver.
Por cerca de cinqüenta anos, ao final do século I a.C., os elegíacos falaram, em primeira pessoa, sobre suas aventuras amorosas com as puellas, mulheres que não queriam casamento e tampouco ver-se imortalizadas em versos. Queriam presentes e dinheiro. Quem eram elas? Prostitutas, casadas, solteiras? Reais ou imaginárias? E o que dizer dos próprios amantes? Por que tornar-se escravos de mulheres tão caprichosas? Por que falar de um tema médio, em métrica tampouco elevada? Por que dedicar-se à militia amorosa quando mais nobre era participar de guerras, defender a pátria?
Muitas são as perguntas que persistem quando falamos da Elegia Erótica Romana. Mas felizmente inúmeros são os versos que chegaram até nós e, ainda que não consigamos dirimir todas as dúvidas, podemos ao menos reconhecer algumas características próprias do gênero.
E assim, com a ideia de tentar organizar, para mim, o que era a Elegia Erótica, cheguei a Ovídio. Não era ele apenas um elegíaco, um amante sofrendo por sua Corina, mas também, e principalmente, um poeta preocupado em mostrar convenções das letras latinas e, assim, transformar seu público, torná-lo apto a uma leitura mais aprofundada.

***

Minha pesquisa começou apenas com Heroides. O intuito era estudar, na Elegia, traços de gêneros diversos nessas epístolas escritas por personagens mitológicas – e por Safo. Retórica, Elegia e Epistolografia eram itens básicos, mas que acabaram se mostrando, apenas no estudo desse livro, enfadonhos.
Foi então que, buscando mais informações, encontrei algo que me pareceu extremamente interessante: Ovídio dedicava-se, sim, à poikilia, e não apenas nas Heroides. Seu plano parecia maior: a partir de Amores, obra média, sua intenção era ascender genericamente, produzir textos mais elevados valendo-se da mistura de convenções de diferentes gêneros. Seu objetivo era confluir gêneros, transgredi-los, desafiá-los.
A poikilia, portanto, aparecia em Amores, Heroides, n’A Arte de Amar e em Remédios – pra ficar com os livros estudados nesta dissertação -, e não estavam lá apenas por capricho ou para demonstrar o ingenium do poeta, mas para levá-lo a outras obras, como dissemos, mais elevadas. O caminho traçado desde o começo por ele existia realmente e poderia ser encontrado?
Acreditava que poderia, não sabia se por mim. Ovídio, desde os primeiros versos dos Amores, brinca. O poeta-amante é mais experiente, seja nas letras ou no amor. Ele já aparece como um magister, tentando tornar claras as convenções usadas por aqueles que se diziam sinceros e que passavam por sofrimentos e torturas, pela recusa da amada e pela rigidez de suas portas.
A todo o momento, ainda, Ovídio escreve sobre o escrever. A todo o momento ele tenta nos abrir os olhos, mostrar a Elegia, composta em dísticos, a partir de um ponto de vista não somente elegíaco, mas mais amplo. Estão ali em seus poemas as normas do gênero, passíveis de identificação, mas com ironia, com uma piscadela - para fazer uso da expressão de Paul Veyne.
Assim, ainda que nos Amores sofra o amante, sua situação é diferente daquela retratada por Tibulo ou Propércio. O apaixonado de Ovídio gosta também da escrava de Corina e de alguma outra mulher que lhe aprecie os poemas. Ele ama o jogo elegíaco mais do que qualquer outra coisa. O poeta gosta mais de escrever sobre o amor do que o amante, de amar.
Com Heroides, o sofrimento é feminino, não mais masculino. Há a ausência, a queixa. A querela. A remetente da epístola, além disso, nos é superior, pois personagem mitológica. Conhece, assim como o outro autor, as regras das letras. Preocupa-se com o escrever, é escritora. Safo é escritora, se diz autora no terceiro verso de sua epístola. E tomamos contato com a Retórica e a Epistolografia na ascensão genérica. O amor permanece tema majoritário, e continua causando dor.
Com a Ars Amatoria, manual de conquista amorosa, Ovídio utiliza principalmente a Didática. A Elegia e a Tragédia já haviam brigado por ele em Amores, e ele tinha dito que ainda iria se dedicar a eles por mais um tempo – e assim o faz, seguindo aquilo que havia falado ao marido de sua puella: o ludus há que existir. Mas não pode ser muito fácil nem entregar todo seu regulamento. Quando isso acontece, ele parte para nova empreitada.
Não nos esqueçamos que, com a Arte, interessa-nos perceber que se separam de vez os dois papéis: o de amante e o de magister. Este se vale da experiência daquele e, assim, está apto a dar conselhos. A mitologia é usada para dar-lhe mais autoridade.
Com os Remedia, finalmente, acaba o amor. O que havia começado com Corina vai esmorecendo. Se com a Ars Ovídio queria ensinar, nas letras, a arte da conquista e de sua manutenção, com os Remédios ele chega a um marco de sua obra ascendente. Acaba seu jogo. Está preparado para voos mais altos. A Didática permanece, mas agora o tema é levado à exaustão.
Mas, novamente, trata-se de Ovídio. Seu jogo acabou? Uma das leituras que se pode fazer é que, mais uma vez, ele ironicamente desafia os limites: o poema didático que pretende acabar com o amor, que quer ensinar algo não passível de ser esquematizado, que parece desdizer a Ars é, na verdade, uma volta a ele, o sentimento. Um exemplo, presente nos versos 757 a 766:

Que eu seja obrigado a falar: não toque os poetas eróticos! / Eu mesmo, ímpio, afasto meus dotes. / Evita Calímaco: ele não é inimigo do Amor: / e como Calímaco, tu também, Filetas, fazes mal. / Safo, certamente, me tornou melhor para minha amiga, / e a Musa de Teos não me deu rígidos costumes. / Quem poderia ter lido, sem medo, os poemas de Tibulo? / ou os teus, em cuja obra Cíntia foi única? / Quem, tendo lido Galo, poderia, insensível, partir? / E sei que meus poemas ressoam como tal.


Em dísticos elegíacos, Ovídio elenca poetas que não devem ser lidos porque falam de amor. Ele quer ou não que os leiamos? Quer, e quer ainda que voltemos aos Amores. O Amor, afinal de contas vence tudo e todos. Em gênero baixo, médio ou elevado.
De qualquer forma, ainda que com essa volta aos seus primeiros versos, Ovídio parece conseguir atingir seu objetivo: desafiando limites, fazendo da Elegia um supergênero, escrevendo na fronteira entre gêneros, sua poesia ascende. O amor vivido como aventura em Amores é sentido por personae mitológicas e se torna tema a ser ensinado na Ars. O que torna tudo mais engenhoso é a forma como o poeta produz, como brinca, ironicamente, enquanto nos ensina a lê-lo.

***

Roma é a cidade dos monumentos, do Palatino, do Capitólio. De Cícero, de Plauto, de Virgílio. Suas múltiplas vozes, construídas e reconstruídas em mármore em versos, ainda aparecem vivas, estejam elas falando de guerras ou de amores. Mas quando fala de Amor, fala de si mesma e de Vênus. Especificamente com Ovídio, somos levados por caminhos diversos, e às vezes não sabemos aonde vamos chegar – nem como. O que ficou para mim, entretanto, é que não importa o quanto releia seus poemas: por causa de seu engenho, de suas artimanhas e de sua ironia, ele conseguiu o que queria. Continuo apaixonada. Pelas suas palavras e pelo amor.

domingo, 22 de novembro de 2009

Lançamento



Martins, Paulo. Elegia Romana: Construção e efeito. São Paulo: Humanitas. 2009. 196p. ISBN:978-85-7732-116-2.

Em prefácio afirma João Adolfo Hansen: "Neste livro incisivo, Paulo Martins desnaturaliza os critérios expressivistas de interpretação da elegia erótica do poeta latino Propércio correntes na Universidade, onde ainda é lido. Eles são indiferentes à historicidade dos preceitos técnicos de sua invenção como ficção poética. Paulo afirma que, ingênua ou não, a indiferença é uma prática etnocêntrica. Universaliza o modo moderno de definir e consumir poesia como literatura e imagina que as paixões romanas dos poemas são sustos contemporâneos que, ao serem impressos, expressam a subjetividade do autor. A especificação retórica do gênero “elegia erótica” faz os poemas aparecer como formalidade prática irredutível às intenções psicológicas dos intérpretes atribuídas anacronicamente ao homem Propércio. Como gênero poético, a elegia erótica romana é inventada retoricamente como enunciação fictícia de um pronome pessoal, ego. É o “eu” não-substancial de um tipo poético que imita discursos gregos e alexandrinos enquanto recompõe, em cada poema, a dicção que especifica a adequação de seu estilo aos lugares-comuns que o gênero prescreve para inventar e ornar a voz de seu éthos, caráter, movido por páthe, afetos. "

Sobre Paulo Martins:

"Bacharel em Letras Clássicas (Grego e Latim) pela Universidade de São Paulo em 1991, mestre e doutor em Letras Clássicas pela mesma Universidade em 1996 e 2003 respectivamente, Paulo Martins foi professor de língua e Literatura Latina em diversas universidades particulares de São Paulo e da Universidade Estadual Paulista (UNESP) em Assis, além de ter sido professor de Literatura e língua Portuguesa no Ensino Médio em colégios de São Paulo.

Atualmente é professor doutor da Universidade de São Paulo junto ao Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas na graduação e pós-graduação, sendo também coordenador do programa de pós-graduação em Letras Clássicas/USP.

É pesquisador (Membro Associado) junto ao Programa de Altos Estudos em Representações da Antiguidade (PROAREA) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Coordena o projeto de pesquisa "Imagens da Antiguidade Clássica - IAC/USP". Tem experiência nas áreas das Letras Clássicas, com ênfase nos seguintes temas: Elegia Clássica (greco-latina) e Retórica e Poética da Imagem verbal e não-verbal na Antiguidade Clássica. Essa última área constitui Grupo de Pesquisa junto ao CNPq, do qual é líder. Possui dois livros já em preparação em editoras: Imagem e Poder. Edusp/São Paulo e Literatura Latina, ed. IESDE/Curitiba. Pertence ao grupo de pesquisa VerVe - Verbum Vertere."

segunda-feira, 9 de março de 2009

Tradução - Propércio

2, 19

Embora, Cíntia, te afaste de Roma, tendo-me contrário, -1
Alegro-me porque sem mim morarás em terras solitárias.
Nos campos não haverá jovem sedutor algum que
Com palavras ternas, não permita que sejas proba.
Tampouco rixas surgirão ante tuas janelas, -5
Nem tu chamada terás amaro sono.
Cíntia, a sós vais estar e observarás solitários montes,
Rebanho e limites de terras do pobre agricultor.
Lá nenhum espetáculo poderá te seduzir,
Nem os inúmeros templos serão pretexto aos teus deslizes. -10
Lá observarás os touros que aram assiduamente
E as vides deporem as comas com a experta foice.
E aí levarás raros incensos ao pequeno santuário,
Onde o cabrito cairá ante os agrestes altares.
Em seguida, com pernas desnudas, imitarás coros, -15
Desde que tudo esteja seguro de forasteiros.
Eu mesmo irei caçar: agora já me agrada oferecer
Sacrifícios a Diana e conceder votos a Vênus.
Começarei a capturar feras e pendurar no pinheiro os cornos
E eu mesmo incitar os audazes cães; -20
Não, entretanto, de modo que ouse atacar
Grandes leões ou ir, rápido, afrontar de perto javalis agrestes.
Tenha eu, pois, esta audácia: apanhar suaves lebres
E transpassar a ave com a vara disposta,
Onde Clitumno cobre formosos córregos -25
Com seu e a sua onda banha níveos bois.
Toda vez que tu tentares algo, vida, lembra-te:
Em poucos dias eu haverei de chegar a ti.
Aqui nem selvas solitárias, nem correntes errantes
Difusas pelos cumes plenos de musgos poderão me impedir -30
Que eu mude em língua de hábito teus nomes:
Que ninguém deseje prejudicar quem está ausente. -32

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Ovídio – Tristia, 2,515-556 - Uma Tradução

scribere si fas est imitantes turpia mimos, -515
materiae minor est debita poena meae.
an genus hoc scripti faciunt sua pulpita tutum,
quodque licet, mimis scaena licere dedit?
et mea sunt populo saltata poemata saepe,
saepe oculos etiam detinuere tuos. -520
scilicet in domibus vestris ut prisca virorum
artificis fulgent corpora picta manu,
sic quae concubitus varios Venerisque figuras
exprimat, est aliquo parva tabella loco.
utque sedet vultu fassus
[1] Telamonius iram, -525
inque oculis facinus barbara mater habet,
sic madidos siccat digitis Venus uda capillos,
et modo maternis tecta videtur aquis.
bella sonant alii telis instructa cruentis,
parsque tui generis, pars tua facta canunt. -530
invida me spatio natura coercuit arto,
ingenio vires exiguasque dedit.
et tamen ille tuae felix Aeneidos auctor
contulit in Tyrios arma virumque toros,
nec legitur pars ulla magis de corpore toto, -535
quam non legitimo foedere iunctus amor.
Phyllidis hic idem teneraeque Amaryllidis ignes
bucolicis iuvenis luserat ante modis.
nos quoque iam pridem scripto peccavimus isto:
supplicium patitur non nova culpa novum; -540
carminaque edideram, cum te delicta notantem
praeterii totiens rite citatus eques.
ergo quae iuvenis mihi non nocitura putavi
scripta parum prudens, nunc nocuere seni.
sera redundavit veteris vindicta libelli, -545
distat et a meriti tempore poena sui.
ne tamen omne meum credas opus esse remissum,
saepe dedi nostrae grandia vela rati.
sex ego Fastorum scripsi totidemque libellos,
cumque suo finem mense volumen habet, -550
idque tuo nuper scriptum sub nomine, Caesar,
et tibi sacratum sors mea rupit opus;
et dedimus tragicis sceptrum regale tyrannis,
quaeque gravis debet verba cothurnus habet;
dictaque sunt nobis, quamvis manus ultima coeptis -555
defuit, in facies corpora versa novas.


[1] Fassus – fateor. Como partcípio passado do depoente, traduzo ativamente.

Se é direito escrever algo torpe, que imitam os mimos,
pena menor é devida à minha matéria.
Acaso seus tablados tornam este gênero de escrita seguro,
Algo lícito, ou a cena deu aos mimos ser lícito?
Amiúde meus poemas são apresentados ao povo
Amiúde até mesmo têm ocupado os teus próprios olhos.
É lógico, em tua casa, assim como fulgem as antigas imagens
De varões, também há corpos pintados com as mãos do artista,
Assim há também, em algum lugar, um pequeno quadro que
Exprime figuras de Vênus e variadas fodas.
E como Telamônio
[1], indicando ira na face, está pendurado,
E a mãe bárbara reflete crime nos olhos,
Assim Vênus úmida seca com os dedos os cabelos molhados,
E é vista coberta apenas pelas águas maternas.
Outros soam guerras erigidas com dardos cruentos,
Uns cantaram tua estirpe, outros, teus feitos.
A ínvida natureza me refreou com estreito espaço,
Deu exíguas forças a meu engenho.
Contudo, aquele feliz autor de tua Eneida
Reuniu armas e varões em leitos tírios
[2]
Nenhuma parte de todo corpo é mais lida do que
O amor jungido por uma união não legítima.
Aquele mesmo, ainda rapaz, cantara os ardores de Fílis
e da tenra Amarílis, em versos bucólicos.
Nós também já erramos há tempos com este escrito:
Um erro antigo sofre um novo suplício;
Eu publicara carmes, quando, cavaleiro ligeiro
[3], tanta vez,
Passei diante de ti que comentava exatamente os meus delitos.
Logo estes escritos de juventude não julguei, pouco prudente,
Que seriam nocivos, já agora são nocivos ao velho.
A punição do velho livrinho redundou tardia
E a pena dista no tempo de seu mérito.
Não creias, entretanto, que toda minha obra seja frouxa
[4],
Sempre dei grandes velas aos nossos remos.
Já escrevi seis livros e tantos outros de Fastos,
E com o teu mês dou fim ao volume,
E, ainda há pouco, a minha sorte interrompeu esta obra,
Escrita e consagrada a ti, sob teu nome, César;
E dediquei o cetro real ao trágico tirano,
O grave coturno possui as palavras que deve ter;
Cantadas por mim, ainda que a última demão falta à empresa
Em novas faces estão os corpos transformados.

[1] Ájax.
[2] Cartagineses.
[3] Citatus – rápido, ligeiro. Na retórica, vivo.
[4] Remissus – de remittere. Em sentido estilístico: frouxo, doce, mole, suave.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Ovídio, Epistulae Ex Ponto 4, 16 - Uma Tradução

Inuide, quid laceras Nasonis carmina rapti?
Non solet ingeniis summa nocere dies
famaque post cineres maior uenit et mihi nomen
tum quoque, cum uiuis adnumerarer, erat,
cumque foret Marsus magnique Rabirius oris
Iliacusque Macer sidereusque Pedo
et qui Iunonem laesisset in Hercule, Carus,
Iunonis si iam non gener ille foret,
quique dedit Latio carmen regale, Seuerus
et cum subtili Priscus uterque Numa,
quique uel inparibus numeris, Montane, uel aequis
sufficis et gemino carmine nomen habes,
et qui Penelopae rescribere iussit Vlixem
errantem saeuo per duo lustra mari,
quique suam Troezena inperfectumque dierum
deseruit celeri morte Sabinus opus,
ingeniique sui dictus cognomine Largus,
Gallica qui Phrygium duxit in arua senem,
quique canit domito Camerinus ab Hectore Troiam,
quique sua nomen Phyllide Tuscus habet,
ueliuolique maris uates, cui credere posses
carmina caeruleos composuisse deos,
quique acies Libycas Romanaque proelia dixit,
et scriptor Marius dexter in omne genus,
Trinacriusque suae Perseidos auctor et auctor
Tantalidae reducis Tyndaridosque Lupus,
et qui Maeoniam Phaeacida uertit, et, une
Pindaricae fidicen, tu quoque, Rufe, lyrae,
Musaque Turrani tragicis innixa coturnis
et tua cum socco Musa, Melisse, leui;
cum Varius Graccusque darent fera dicta tyrannis,
Callimachi Proculus molle teneret iter,
Tityron antiquas Passerque rediret ad herbas
aptaque uenanti Grattius arma daret,
Naidas a satyris caneret Fontanus amatas,
clauderet inparibus uerba Capella modis,
cumque forent alii, quorum mihi cuncta referre
nomina longa mora est, carmina uulgus habet,
essent et iuuenes, quorum quod inedita cura est,
adpellandorum nil mihi iuris adest.
Te tamen in turba non ausim, Cotta, silere,
Pieridum lumen praesidiumque fori,
maternos Cottas cui Messalasque paternos,
Maxime, nobilitas ingeminata dedit.
Dicere si fas est, claro mea nomine Musa
atque inter tantos quae legeretur erat.
Ergo submotum patria proscindere, Liuor,
desine neu cineres sparge, cruente, meos!
Omnia perdidimus, tantummodo uita relicta est,
praebeat ut sensum materiamque mali.

Quid iuuat extinctos ferrum demittere in artus?
Non habet in nobis iam noua plaga locum.

Episatulae Ex Ponto - 4,16 - Tradução: Paulo Martins

Invejoso, por que rasgas os carmes do exilado Ovídio?
O último dia não costuma prejudicar os engenhos
e a fama depois das cinzas vem maior.
Assim também eu tinha um nome,
quando eu era contado entre os vivos.
Quando estavam entre nós, Marso[1]
e o Rabírio[2] grandiloqüente e o troiano Macro[3]
e o celeste Pedão[4] e aquele Caro[5]
que ultrajou Juno em seu Hércules,
como se agora este não fosse genro de Juno.
E aquele Severo[6] que deu ao Lácio um carme real.
E com o preciso Numa[7] e juntamente com cada Prisco[8].
E tu, Montano[9], que te sustentas,
seja nos versos desiguais, seja nos iguais
e tens renome por carme geminado.
E aquele que fez Ulisses, errante no sevo mar
por dois lustros[10], escrever à Penélope.
E aquele Sabino[11] que desertou sua Trezena[12]
à rápida morte, trabalho inacabado de dias.
E Largo[13], reconhecido pela alcunha de seu engenho,
que conduziu o velho frígio[14] na seara gaulesa.
E aquele Camerino[15] que canta Tróia de Heitor contido.
E aquele Tusco[16] que tem o nome de sua Fílis,
poetas do velivolente mar, para quem tu podes acreditar
que os deuses cerúleos compuseram os carmes.
Ele que cantou as armas líbias e as batalhas romanas.
E o escritor Mário[17], destro em qualquer gênero.
E o trinácrio
[18], autor da Perseida
e Lobo[19], autor da volta da Tindárida[20] com o Tantálida[21].
E aquele que traduziu a Feácia meônia

e tu também, Rufo, músico da lira de Píndaro.
E a Musa apoiada nos coturnos trágicos de Turrânio

e tua Musa, Melisso[22], com socos leves.
Enquanto Vário[23] e Graco[24] derem feros ditos aos tiranos;
Próculo[25] tiver suave caminho de Calímaco
e o Pásser[26] retornar a Títiro[27] junto as antigos prados
e Grácio[28] der armas aptas a quem caça;
enquanto Fontano[29] cantar as Ninfas, amadas pelos sátiros;
enquanto Capela[30] mancar as palavras em versos desiguais;
e existirem outros, cujos nomes me são longos
e demorados para referir, o vulgo terá poemas.
E quanto aos jovens, dos quais são inéditos os poemas,
nenhum juízo meu devo dirigir.
Embora não ousarei, em meio a turba,
silenciar-me sobre ti, Cota, lume das piérides
e patrono do fórum, a quem a nobreza geminada
deu precisamente de mãe os Cota e de pai os Messala.
Se fas é dizer, Musa de meu nome preclaro,
entre tantos que houve, ela haverá de ser lida.
Portanto, Inveja, pára de dilacerar o exilado da pátria,

nem, cruenta, esparge minhas cinzas!
Perdi tudo, somente a vida me resta;

que ela me ofereça sensibilidade e matéria do mal.
De que vale enviar o ferro ao extinto corpo?
Agora uma nova ferida não tem lugar em mim.

Notas

[1] Domício Marso, poeta do século de Augusto, conhecido por seus epigramas. Escreveu um epitáfio sobre Tibulo e um poema épico sobre as amazonas.
[2] Poeta contemporâneo de Virgílio. Escreveu uma épica sobre os fados de Marco Antônio.
[3] Emílio Macro, poeta épico latino que escreveu sobre Tróia e que viajou com Ovídio para a Sicília.
[4] Provavelmente, Pedão Albidovano, poeta do século de Augusto, que serviu como soldado com Germânico na Germânia. Escreveu epigramas.
[5] Caro é um poeta da época de Augusto. Amigo de Ovídio que cuidou da educação dos filhos de Germânico, Nero e Druso.
[6] Cornélio Severo, poeta épico que escreveu sobre as guerras na Sicília entre Otávio e Pompeu entre (38-36 a.C.). Ele era membro do grupo de Messala, mencionado por Quintiliano e Sêneca.
[7] Poeta da época de Augusto.
[8] Dois poetas da época de Augusto: um é, provavelmente, Clutório Prisco, que escreveu um lamento sobre a morte de Germânico e o outro é desconhecido.
[9] Júlio Montano é um amigo de Tibério. Sêneca o considera um ótimo poeta.
[10] Lustro é o período de cinco anos.
[11] Poeta épico e elegiac da época de Augusto. Escreveu respostas àlgumas Heroides de Ovídio, um poema sobre o calendário e talvez um Tróia.
[12] Cidade do Peloponeso.
[13] Poeta épico que escreveu sobre as andaças de Antenor (fundador de Pádua), algumas vezes identificado como Valério Largo, acusador de Cornélio Galo.
[14] Antenor.
[15] Poeta épico da época de Augusto.
[16] Poeta da época de Augusto que escreveu Fílis. Cf. Propércio 2,22.
[17] Poeta da época de Augusto.
[18] Da Sicília.
[19] Poeta da época de Augusto que escreveu sobre o retorno de Helena e Menelau.
[20] Helena.
[21] Menelau.
[22] Gaio Melisso, um colaborador de Mecenas, gramático, poeta e bibliotecário. Ele escreveu Trabeatae, comédias romanas de costumes sobre a ordem equestre, desenvolvendo, pois, uma forma augustana da antiga Togatae. Protegido de Mecenas, ele organizou a biblioteca no pórtico de Otávia.
[23] Lúcio Vário Rufo, poeta augustano, reconhecido por suas tragédias e épicas.
[24] Provavelmente Tito Semprônio Graco, escritor de tragédias e descendente do grande Graco.
[25] Poeta augustano erótico que emulava Calímaco.
[26] Poeta augustano.
[27] Pastor símbolo da poesia pastoral.
[28] Poeta da época de Augusto que compôs poema sobre a caça Cinergética e bucólicas.
[29] Poeta bucólico da época de Augusto.
[30] Poeta desconhecido da época de Augusto que escreveu elegias.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Propércio 2,15 - uma tradução

O me felicem! o nox mihi candida! et o tu
lectule deliciis facte beate meis!
quam multa apposita narramus verba lucerna,
quantaque sublato lumine rixa fuit!
nam modo nudatis mecum est luctata papillis, -5
interdum tunica duxit operta moram.
illa meos somno lapsos patefecit ocellos
ore suo et dixit 'Sicine, lente, iaces?'
quam vario amplexu mutamus bracchia!quantum
oscula sunt labris nostra morata tuis! -10
non iuvat in caeco Venerem corrumpere motu:
si nescis, oculi sunt in amore duces.
ipse Paris nuda fertur periisse Lacaena,
cum Menelaeo surgeret e thalamo;
nudus et Endymion Phoebi cepisse sororem -15
dicitur et nudae concubuisse deae.
quod si pertendens animo vestita cubaris,
scissa veste meas experiere manus:
quin etiam, si me ulterius provexerit ira,
ostendes matri bracchia laesa tuae. -20
necdum inclinatae prohibent te ludere mammae:
viderit haec, si quam iam peperisse pudet.
dum nos fata sinunt, oculos satiemus amore:
nox tibi longa venit, nec reditura dies.
atque utinam haerentis sic nos vincire catena -25
velles, ut numquam solveret ulla dies!
exemplo iunctae tibi sint in amore columbae,
masculus et totum femina coniugium.
errat, qui finem vesani quaerit amoris:
verus amor nullum novit habere modum. -30
terra prius falso partu deludet arantis,
et citius nigros Sol agitabit equos,
fluminaque ad caput incipient revocare liquores,
aridus et sicco gurgite piscis erit,
quam possim nostros alio transferre dolores: -35
huius ero vivus, mortuus huius ero.
quod mihi secum talis concedere noctes
illa velit, vitae longus et annus erit.
si dabit haec multas, fiam immortalis in illis:
nocte una quivis vel deus esse potest. -40
qualem si cuncti cuperent decurrere vitam
et pressi multo membra iacere mero,
non ferrum crudele ncque esset bellica navis,
nec nostra Actiacum verteret ossa mare,
nec totiens propriis circum oppugnata triumphis -45
lassa foret crinis solere Roma suos.
haec certe merito poterunt laudare minores:
laeserunt nullos pocula nostra deos.
tu modo, dum lucet, fructum ne desere vitae!
omnia si dederis oscula, pauca dabis. -50
ac veluti folia arentis liquere corollas,
quae passim calathis strata natare vides,
sic nobis, qui nunc magnum spiramus amantes,
forsitan includet crastina fata dies.




Ó minha felicidade! Ó minha luminosa noite! E tu, leito que se tornou alegre, com meus prazeres! Como palavra muita falamos à penumbra da lâmpada! Quanta batalha lutou-se, apagadas as luzes! (5) Pois, ora comigo lutou com seios desnudos e, por vezes, a túnica dissimulada fez-se morosa.

Com seus beijos, ela abriu meus olhos cerrados no sono e disse: “é assim que dormes inerte?” Quantos abraços trocamos variados! Quantos (10) beijos meus habitaram teus lábios! Não apraz a Vênus destruir [o ato] com cego movimento: Caso não saibas: os olhos são comandantes no amor.

O próprio Páris, diz-se, ter morrido com a nudez d’Helena quando se levantava do leito de Menelau. (15) Conta-se também que Endímion capturou nu a irmã de Febo e deitou com a deusa nua. Mas, se obstinadamente vestida deitares, sob a veste rota vais sentir minhas mãos: Ainda mais... Se minha fúria impelir-me além, (20) mostrarás os braços maculados a tua mãe.

Teus seios caídos ainda não te impedem de brincar: isso te preocuparás se já tiver vergonha de ter parido. Enquanto os fados me permitirem: saciaremos os olhos de amor: a noite te chegará longa e o dia não há de retornar.(25) Queira que desejes que estejamos nós assim tão liados com laços duradouros que dia nenhum os dissolva.
Que as pombas unidas te sirvam de exemplo no amor , macho e fêmea em total união.

Erra quem procura o fim de um louco amor: (30) O verdadeiro amor não conhece limite algum, antes a terra enganará com falso pomo os lavradores e o sol fará avançar mais rápido os negros cavalos e os rios começarão a retroceder à nascente e os peixes secos estarão em árido sorvedouro , (35) Antes que eu possa transferir meus amores a outro amor. Dela vivo serei; morto dela serei.

Se ela desejar me conceder com ela noites tais, longo me será um ano de vida; se ela me der muitas, vou me tornar imortal nelas: (40) Numa noite qualquer um pode ser deus. Se todos desejassem levar tal vida e descansar seus corpos tomados de muito vinho, não haveria a espada cruel tampouco naus bélicas, nem o mar de Ácio revolveria nossos despojos, (45) nem, tanta vez, em meio a ataques, com tantos triunfos, Roma estaria cansada de soltar os cabelos.

Com mérito certo, os jovens poderão louvar esses feitos: Nossas taças nunca afrontaram deus nenhum. Tu, por tua vez, enquanto é dia, não abandones os prazeres da vida!(50) Ainda que dês todos os beijos, poucos haverás dado. Pois, como folhas extinguem grinaldas ressequidas, e as vês nadar espalhadas nas taças aqui e acolá, assim a nós, que agora amantes, aspiramos a grande amor, talvez o dia de amanhã encerre nossos fados.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Ausônio

Epigrama, 96

Tradução de Paulo Martins

XCVI [DE HERMIONES ZONA]

Rubra faixa libertava bicos túrgidos
d'Hermíone: texto havia, era elegíaco:
"Tu que lês a inscrição, Páfia ordena que me ames
e com teu exemplo não vetes ninguém d'amar"

Punica turgentes redimibat zona papillas
Hermiones: zonae textum elegeon erat:
"Qui legis hunc titulum, Paphie tibi mandat, ames me
exemploque tuo neminem amare vetes.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Propércio 1, 12 - Uma Tradução

1, 12

Por que não paras de me imputar a calúnia da preguiça
Por que Roma, minha cúmplice, me retém?
Ela está a quilômetros longe de meu leito
Como está Hípanis (1) do vêneto Erídano (2)
Cíntia não me nutre amor com abraços de sempre
Nem me fala, doce, ao ouvido.
Outrora eu lhe era grato: naquele tempo, ninguém
teve a sorte de poder amá-la com igual fidelidade.
Fomos motivo de inveja! Um deus me oprimiu ou uma erva
colhida nos montes de Prometeu (3) nos separou?
Não sou o que fora: um longo caminho muda as meninas.
Hoje sozinho sou obrigado, antes, a conhecer
longas noites e a ser funesto aos meus próprios ouvidos!
Feliz aquele que pôde chorar com a menina presente;
o Amor em nada se alegra com lágrimas caídas
ou, se desprezado, pôde mudar as paixões,
Elas também são alegrias, mudado o jugo.
Mas nem fas amar outra nem desejar desistir desta:
Cíntia foi a primeira e o termo será Cíntia.

I, XII

Quid mihi desidiae non cessas fingere crimen,
quod faciat nobis Cynthia, Roma, moram?
tam multa illa meo divisast milia lecto,
quantum Hypanis Veneto dissidet Eridano;
nec mihi consuetos amplexu nutrit amores
Cynthia, nec nostra dulcis in aure sonat.
olim gratus eram: non ullo tempore cuiquam
contigit ut (4) simili posset amare fide.
invidiae fuimus: num me deus obruit? an quae
lecta Prometheis dividit herba iugis?
non sum ego qui fueram: mutat via longa puellas.
quantus in exiguo tempore fugit amor!
nunc primum longas solus cognoscere noctes
cogor et ipse meis auribus esse gravis.
felix, qui potuit praesenti flere puellae
(non nihil aspersus gaudet Amor lacrimis),
aut, si despectus, potuit mutare calores
(sunt quoque translato gaudia servitio).
mi neque amare aliam neque ab hac desistere fas est:
Cynthia prima fuit, Cynthia finis erit.


Notas:

(1 )Rio que deságua no Mar Negro na Samartia.
(2) Rio Pó.
(3) O Cáucaso na Cólquida. Cf. elegias i, 1, 24 e i, 5, 6.
(4) contingo + ut = acontece que, ter a sorte de.

domingo, 3 de agosto de 2008

Elegia Latina - FLC0257 - FFLCH/USP

Literatura Latina: Elegia - Programação da Disciplina FLC0257
Docente Responsável: Paulo Martins
3a Feira - Matutino e Noturno

Aula 01 – Apresentação do Curso
Aula 02 – Esquema Métrico e Prosódia e Concepções do Gênero: Moderna e Contemporânea
Aula 03 – Fontes primárias 1
Aula 04 – Fontes primárias 2
Aula 05 – Fontes Primárias 3
Aula 06 – Antecedentes Gregos
Aula 07 – Catulo: Os neotéricos e a poética alexandrina
Aula 08 – Cornélio Galo e Antecessores: Calímaco, Euforião. Elegia, Bucólica e Epílio
Aula 09 – Propércio 1
Aula 10 – Propércio 2 – Poética, ética, moral e Augusto
Aula 11 – Ovídio 1 – Metaliguagem
Aula 12 – Ovídio 2 – Epístola e Elegia
Aula 13 – Ovídio 3 – O gênero e o feminino
Aula 14 – Tibulo – Elegia e Idílio
Aula 15 – Tradição Moderna e Contemporânea – Camões, John Donne, Goethe, Drummond e Vinícius

sábado, 12 de janeiro de 2008

Imagines Amoris

No dia 11 de dezembro de 2007, fiz uma postagem com a tradução da elegia 2,12 de Propércio - uma ékphrasis cujo texto em latim é:


XII
QVICVMQVE ille fuit, puerum qui pinxit Amorem,
nonne putas miras hunc habuisse manus?
is primum vidit sine sensu vivere amantis,
et levibus curis magna perire bona.
idem non frustra ventosas addidit alas,
fecit et humano corde volare deum:
scilicet alterna quoniam iactamur in unda,
nostraque non ullis permanet aura locis.
et merito hamatis manus est armata sagittis,
et pharetra ex umero Cnosia utroque iacet:
ante ferit quoniam, tuti quam cernimus hostem,
nec quisquam ex illo vulnere sanus abit.
in me tela manent, manet et puerilis imago:
sed certe pennas perdidit ille suas;
evolat heu nostro quoniam de pectore nusquam,
assiduusque meo sanguine bella gerit.
quid tibi iucundum est siccis habitare medullis?
si pudor est, alio traice tela una!
intactos isto satius temptare veneno:
non ego, sed tenuis vapulat umbra mea.
quam si perdideris, quis erit qui talia cantet,
(haec mea Musa levis gloria magna tua est),
qui caput et digitos et lumina nigra puellae,
et canat ut soleant molliter ire pedes?



Hoje apresento algumas imagens não-verbais cujo cerne seja Cupido/Eros/Amor:


Pelike Seated Eros holding phiale - Museum of Fine Arts, Boston - 76.56


O Amor Punido, Nápoles

Pair of silver scyphi (cups) with relief decoration, Metropolitan Museum of Arts, New York - late 1st century B.C.–early 1st century A.D.; Early Imperial, Augustan Roman - 1994.43.1, .2

Fragmento de uma estátua de Eros - Museum of Fine Arts, Boston - 72.732 - Greek, Hellenistic or Greco-Roman Period




Estátua de Bronze de Eros Dormindo - Metropolitam Museum of Arts (MET), New York - 43.11.4 - 3rd century B.C.–early 1st century A.D.; Hellenistic or Augustan period


Statua di Eros che incorda l'arco da un originale di Lisippo, Museo Capitolino, Roma - MC0410

Eros e o Centauro - Museu do Louvre, Paris

sábado, 29 de dezembro de 2007

Natalis - Uma tradução para Tibulo 2,2

Lawrence Alma-Tadema: Tibullus at Delia's. 1866 Oil on wood Museum of Fine Arts, Boston, USA




Natalis é um gênio que preside ao nascimento de cada homem e o acompanha durante a vida.



Tibulo, elegia 2,2


Dicamus bona verba: venit Natalis ad aras:
Quisquis ades, lingua, vir mulierque, fave.
Urantur pia tura focis, urantur odores,
Quos tener e terra divite mittit Arabs.
Ipse suos Genius adsit visurus honores,
Cui decorent sanctas mollia serta comas.
Illius puro destillent tempora nardo,
Atque satur libo sit madeatque mero,
Adnuat et, Cornute, tibi, quodcumque rogabis.
En age, quid cessas? adnuit ille: roga.
Auguror, uxoris fidos optabis amores:
Iam reor hoc ipsos edidicisse deos.
Nec tibi malueris, totum quaecumque per orbem
Fortis arat valido rusticus arva bove,
Nec tibi, gemmarum quicquid felicibus Indis
Nascitur, Eoi qua maris unda rubet.
Vota cadunt: utinam strepitantibus advolet alis
Flavaque coniugio vincula portet Amor,
Vincula, quae maneant semper, dum tarda senectus
Inducat rugas inficiatque comas.
Huc venias, Natalis, avis prolemque ministres,
Ludat ut ante tuos turba novella pedes.


Digamos boas palavras: o Natal chega aos altares:
Qualquer um, homem e mulher, que aproximes. Silêncio.
Em piras ardem pios incensos, ardem perfumes,
Que a suave Arábia envia da rica terra.
O próprio Gênio, que há de aparecer, assista suas honras,
E delicadas guirlandas ornem seus sagrados cabelos.
Os tempos destilem o seu puro nardo,
E fique saciado com bolo e embriague-se com vinho,
E que ele te atenda, Cornuto, qualquer que seja teu pedido.
Eis! Age! Por que tardas? Ele anuiu: roga.
Pressagio que pedirás amores fiéis da esposa:
Avalio que isso os próprios deuses já escolheram.
Não preferirás para ti tudo o que pelo orbe
O forte lavrador ara no campo com válido boi,
Não, para ti o que de gemas nasce dos felizes
Hindus, no oriente com aquela enrubesce a onda do mar.
Votos acontecem: queira que o Amor voe com asas
Retumbantes e carregue os flavos vínculos da união,
Vínculos que sempre permanecerão, até que a tarda velhice
Tiver trazido as rugas e tiver encanecido os cabelos.
Aqui virás, Natal, ministrarás as aves e a prole
Para que diante dos teus pés a jovem turba brinque.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Joel, White, Krall, Caymmi e Propércio

por Paulo Martins




Hoje pela manhã, Tatiana mostrou-me a regravação feita por Diana Krall (1964) para o CD "Live in Paris" (2002) de uma canção antiga de autoria de Billy Joel (The Piano Man): "Just The Way You Are", lançada no LP "The Stranger" de 1977 e, posteriormente, regravada por Barry White (1944-2003), no LP "The Collection" de 1978, versão com a qual a música ganharia notoriedade no Brasil. Certo é que esses dois grandes compositores e interpretes do R&B das décadas de '70 e '80 pareciam ter dado à composição tudo o que poderia ser dado.




Entretanto, como é de costume, Diana Krall releu com precisão o hit, imprimindo à música novo colorido e sabor sem que as qualidades anteriores fossem obturadas na releitura. A suavidade e beleza natural da interpretação são impecáveis. O piano e o violão são dignos de atenção, afora a voz sensível e plena de calor, sem esquecermos o tênue limite de conversão do R&B no mais puro Jazz.



Contudo o que mais me chamou a atenção, foram os versos "Don't go trying some new fashion//Don't change the color of your hair", cunhados por Joel. Eles, em certa medida, podem ser relacionados a outros dois momentos. Um primeiro mais antigo: Propércio, "elegia 1,2". Um segundo, bem mais recente: a canção de Dorival Caymmi (1914), "Marina" que foi regravada por Gilberto Gil em "Realce" de 1979.

A beleza feminina natural é um lugar-comum bem interessante e recorrente.

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"Just The Way You Are"

Billy Joel

Don't go changing, try and please me
You never let me down before
Don't imagine you're too familiar
And I don't see you anymore

I would not leave you in times of trouble
We never could have come this far
I took the good times, I'll take the bad times
I'll take you just the way you are

Don't go trying some new fashion
Don't change the color of your hair
You always have my unspoken passion
Although I might not seem to care

I don't want clever conversation
I never want to work that hard
I just want someone that I can talk to
I want you just the way you are.

I need to know that you will always be
The same old someone that I knew
What will it take till you believe in me
The way that I believe in you.

I said I love you and that's forever
And this I promise from the heart
I could not love you any better
I love you just the way you are

I don't want clever conversation
I never want to work that hard
I just want someone that I can talk to
I want you just the way you are.

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Marina

Dorival Caymmi


Marina, morena
Marina, você se pintou
Marina, você faça tudo
Mas faça um favor
Não pinte esse rosto que eu gosto
Que eu gosto e que é só meu
Marina, você já é bonita
Com o que Deus lhe deu
Me aborreci, me zanguei
Já não posso falar
E quando eu me zango, Marina
Não sei perdoar
Eu já desculpei muita coisa
Você não arranjava outra igual
Desculpe, Marina, morena
Mas eu tô de mal
Marina, morena
Marina, você se pintou
Marina, você faça tudo
Mas faça um favor
Não pinte esse rosto que eu gosto
Que eu gosto e que é só meu
Marina, você já é bonita
Com o que Deus lhe deu
Me aborreci, me zanguei
Já não posso falar
E quando eu me zango, Marina
Não sei perdoar
Eu já desculpei muita coisa
Você não arranjava outra igual
Desculpe, Marina, morena
Mas eu tô de mal
De mal com você
De mal com você.

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Propércio

I,II
QUID iuvat ornato procedere, vita, capillo
et tenuis Coa veste movere sinus,
aut quid Orontea crines perfundere murra,
teque peregrinis vendere muneribus,
naturaeque decus mercato perdere cultu,
nec sinere in propriis membra nitere bonis?
crede mihi, non ulla tuaest medicina figae sponte sua melius,
surgat et in solis formosior arbutus antris,
et sciat indocilis currere lympha vias.
litora nativis praefulgent picta lapillis,
et volucres nulla dulcius arte canunt.
non sic Leucippis succendit Castora Phoebe,
Pollucem cultu non Helaira soror;
non, Idae et cupido quondam discordia Phoebo,
Eueni patriis filia litoribus;
nec Phrygium falso traxit candore maritum
avecta externis Hippodamia rotis:
sed facies aderat nullis obnoxia gemmis,
qualis Apelleis est color in tabulis.
non illis studium fuco conquirere amantes:
illis ampla satis forma pudicitia.
non ego nunc vereor ne sis tibi vilior istis:
uni si qua placet, culta puella sat est;
cum tibi praesertim Phoebus sua carmina donet
Aoniamque libens Calliopea lyram,
unica nec desit iucundis gratia verbis,
omnia quaeque Venus, quaeque Minerva probat.
his tu semper eris nostrae gratissima vitae,
taedia dum miserae sint tibi luxuriae.

1,2
EM QUE te adianta, minha vida, andar com cabelos ornados
e ondular os trajes transparentes de Cós
ou espargir com mirra de Orontes os cabelos
e gabar-te com produtos estrangeiros
e perder a natural graça com luxo comprado
e não deixar brilhar o corpo com seus próprios encantos?
Crê em mim, tua beleza não carece de nenhum cosmético:
o Amor desnudo não gosta das belezas artificiais.
Olha as cores que a bela terra produz,
como as heras brotam melhor espontaneamente,
como a árvore surge mais formosa em solitários antros
e como a água sabe correr por vias não ensinadas.
Os litorais brilham mais, bordados, com seus próprias conchas
e aves cantam mais docemente sem nenhum aprendizado.
Não foi assim que, a filha de Leucipo, Febe, inflamou a Castor;
nem a irmã dela, Hilaíra, com luxo, a Pólux.
Nem foi assim que outrora a filha de Eveno nas margens de um rio,
seu pai, foi motivo de discórdia para Idas e para Febo apaixonado.
Não com falso candor, Hipódame,levada para longe
por carro estrangeiro, atraiu um esposo frígio:
mas, sua face, não sujeita à gema alguma, o fizera
como a cor está presente nas telas de Apeles.
Aquelas se esforçam em conquistar amantes com o vulgo,
Para elas lhes é suficiente a beleza de elegante pudor.
Agora eu não temo que eu seja para ti mais pobre que esses.
Se uma menina agrada a um único, ela é suficientemente adornada.
Quando Febo a ti concede especialmente seus poemas
e Calíope, com prazer, a lira Aônia e
a única graça não abandonou às tuas agradáveis palavras,
Nem tudo, Vênus ou Minerva aprova.
Com essas qualidades, tu sempre serás a mais grata de minha vida,
até que os luxos deploráveis te sejam enfadonhos.