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domingo, 26 de outubro de 2008

Biografias Antigas – Plutarco e Suetônio

Paulo Martins

“Demos sem dúvida grande demonstração de paciência; e se os tempos antigos viram o que havia de extremo em liberdade, nós o tivemos quanto à servidão, porque até o uso do falar e do ouvir, por espionarem, nos tiraram. A própria memória teríamos perdido com a palavra, se estivesse tão em nosso poder esquecer quanto calar.”
Tácito – A vida de Agrícola, 2.


A Literatura e a História são disciplinas muito próximas se observarmos as práticas letradas do mundo greco-romano. Aristotelicamente, apenas se distanciariam pelo fato de a primeira tratar do que poderia ser e a segunda do que teria sido. Esta, assim, se ocuparia do particular, aquela, do universal. Entre as diversas possibilidades de subgêneros historiográficos antigos (comentários, histórias pragmáticas, histórias universais, monografias, breviários, anais etc.), temos um que, modernamente, encontra-se mais no limite das duas artes (História e Literatura): a biografia, a que os romanos chamavam uitae (vidas), e os gregos, bíoi (igualmente, vidas). Afinal quem não afirmaria esse limite ao ler os livros de Ruy Castro (O Anjo Pornográfico: A Vida de Nelson Rodrigues, Estrela Solitária: Um Brasileiro Chamado Garrincha, Carmen: Uma biografia), de Fernando Morais (Chatô, O Rei do Brasil ou Olga), ou de Nelson Motta mais recentemente (Vale Tudo: Tim Maia).

Alguém, entretanto, poderia dizer que esses textos, antes de ser literatura, seriam, sim, jornalismo, ou pelo menos aquilo a que se dá o nome de grande reportagem, portanto apegando-se ao que foi – logo, à História. Em parte tal afirmativa é correta, porém, inegável também é que nesses livros, antes de qualquer intenção dos autores em produzir um retrato ou relato objetivo do biografado, preocupam-se com a construção de retratos subjetivos, eivados, contaminados, assim, de focos específicos, de argumentos pessoais, de parcialidades claras e afetivas e, nesse sentido, mais do que retratarem ou relatarem o que foi, efetivam o que poderia ser e, logo, seriam uma ficção.

Pois bem, essa mesma questão se coloca na literatura greco-romana. Penso aqui em duas obras e dois autores, um grego e um romano: Plutarco (45-120 d.C.) e Suetônio (69-141 d.C.). O primeiro, escritor grego, formou-se na Academia de Atenas e foi autor de mais de 200 obras entre as quais está Vidas Paralelas. O segundo entrou para o serviço imperial como encarregado de bibliotecas e arquivos, conselheiro cultural, foi secretário da correspondência do imperador Adriano (não o da Internzionale de Milão), tendo escrito muitas obras entre as quais A Vida dos Doze Césares, talvez seja a mais famosa.

Apesar de Plutarco ser grego, pode-se afirmar que esse subgênero historiográfico é romano, pois que apenas temos registros isolados de sua existência entre os peripatéticos, sem que as obras propriamente ditas tenham nos chegado, o que em certa medida é um índice de sua apequenada importância entre os helênicos de maneira geral. Assim, seu desenvolvimento e circulação são pródigos entre os romanos desde o final da República no final do século 1 a.C. – Cornélio Nepos (De illustribus uirisAcerca dos Homens Ilustres) é uma referência – até os estertores do Império com Aurélio Victor (Liber De Caesaribus – Livro sobre os Césares) no século 4 d.C..



Vitae illustrium virorum. Rome, printed by Ulrich Han (Udalricus Gallus), 1470 - Collection: University of Leeds Library


Sob o ponto de vista de sua constituição, é possível dizer que as biografias, ao contrário da analística (outro subgênero historiográfico) que se ocupa da narração dos fatos tendo em vista o encadeamento cronológico ou causal dos episódios, elas se detêm na efetivação de um retrato verbal, isto é, na construção de uma imagem que passa por categorias aristotélicas do discurso demonstrativo que prevê o louvor ou o vitupério das coisas da alma, das coisas do corpo e das coisas externas. Assim são figuradas nas biografias tais categorias assim dispostas pelo primeiro tratado de retórica romana de que se tem notícia, a Retórica a Herênio, livro III, 6, 10:

“Agora passemos para o gênero demonstrativo da causa. Como esta causa divide-se em louvor e vitupério, consideraremos o louvor a partir de certos pensamentos e o vitupério será cotejado a partir dos contrários. O louvor pode, pois, ser das condições externas, do corpo e da alma. As condições externas são as que, por acaso ou fortuitamente, podem ocorrer favoráveis ou adversas: estirpe, educação, riqueza, poder, glórias, civilidade, amizades e as que são semelhantes ou as que são contrárias. As condições do corpo são as que a natureza atribuiu ao corpo vantajosa ou desvantajosamente: velocidade, força, elegância e vigor. As condições da alma são aquelas que consistem de nossa ponderação e reflexão: prudência, justiça, coragem, modéstia e as contrárias.” (Tradução Paulo Martins)

Os biografados, portanto, são revistos e revisitados a partir de sua origem, de sua educação e riqueza, de seu poder e glória, de sua civilidade e amizades, de sua velocidade e força, de sua elegância e vigor, de sua prudência e justiça, de sua coragem e modéstia. Entretanto, tais categorias poderiam ser observadas para o bem ou para o mal, de acordo com o foco do historiador (biógrafo) e, isso, talvez imprimisse ao texto final certo caráter subjetivo e, portanto, carente da objetividade científica desejável pela História e indiferente à Literatura. Plutarco em suas Vidas Paralelas assim escreve:

“Escrevendo neste livro a vida do rei Alexandre e a de César, por quem Pompeu foi derrotado, em vista da abundância das ações implicadas, não diremos nada como preâmbulo, apenas suplicando ao leitor que não nos denigra por não relatarmos tudo que foi celebrado, nem abordarmos cada coisa a fundo, abreviando a maioria dos fatos. É que não escrevemos histórias, mas vidas – e não é nas ações mais célebres, em absoluto, que está a demonstração de virtude ou do vício, mas, muitas vezes, um breve feito, uma palavra, uma brincadeira dão ênfase ao caráter mais que os combates mortais, as maiores batalhas e os assédios de cidades. 3. Portanto, como os pintores salientam as semelhanças a partir do rosto e das formas visíveis em que se manifesta o caráter, preocupando-se menos com as outras partes, assim também deve-se permitir-nos penetrar antes nos sinais da alma e, através disso, desenhar a vida de cada um, deixando as grandezas e os combates." (Tradução Jacyntho Lins Brandão)

Essa intencionalidade de Plutarco permeia toda sua obra biográfica que curiosamente é divida aos pares, produzindo ao final de cada dupla o que a tradição chamou de síncrise, isto é, o contraste, o confronto entre os biografados de forma a produzir uma comparação ética entre os ilustres. Assim em Vidas Paralelas estão biografados: 1) Teseu e Rômulo; 2) Licurgo e Numa; 3) Sólon e Publícola; 4) Temístocles e Camilo; 5) Péricles e Fabio Máximo; 6) Alcibíades e Coriolano; 7)Timoleonte e Emilio Paulo; 8) Pelópidas e Marcelo; 9) Aristides e Catão o velho; 10) Filópedes e Flamínio; 11) Pirro e Mário; 12) Lisandro e Sila; 13) Cimón e Lúculo; 14) Nícias e Crasso; 15)Eumenes e Sertório; 16) Agesilau e Pompeu; 17) Alexandre e César; 18) Fócio e Catão o jovem; 19 e 20) Ágis e Cleômines/Tibério e Caio Gracco; 21) Demóstenes e Cícero; 22) Demétrio e Antônio; 23) Dion e Bruto.

A estrutura do conteúdo (res) da obra se Suetônio é a mesma, ou seja, fundada nas categorias que devem ser louvadas e/ou vituperadas. Entretanto, os objetos de imitação do historiador romano são mais “perigosos”, afinal ele trata dos 11 primeiros imperadores romanos, antecedidos por Júlio César que não fora um deles, mas sim precursor e pavimentador de um novo sistema que a partir de Otávio Augusto ganha a posteridade até o fim do chamado Império Romano. O suposto “perigo” na figuração dos imperadores reside no “como”, muita vez, Suetônio os registra, inserindo anedotas, os ridiculariza, produz avaliações apimentadas e picantes, contudo sem abrir mão de uma ponderação científica. Vale salientar, contudo, que muita fonte historiográfica do autor não passa de boataria o que equivaleria a uma possível “ficção” histórica. Desfilam pelas linhas do livro assim Júlio César, Augusto, Tibério, Calígula, Cláudio, Nero, Galba, Otão, Vitélio, Vespasiano, Tito e Domiciano. Sobre Augusto, Suetônio diz:

“Nem os amigos negam que tivesse cometido adultérios, mas o desculpam: não o teria feito por luxúria, mas por inteligência, para que mais facilmente pudesse, pelas mulheres, descobrir os desígnios dos adversários. Acusou-o Marco Antônio de ter precipitado o casamento com Lívia e de ter, à vista do marido, tirado do triclínio a esposa de um consular, levando-a para o quarto e trazendo-a depois com as orelhas rubras e o cabelo em desordem (...)” (Tradução Agostinho da Silva)


Suetônio

Sejam esses registros história ou ficção, certo é que antes de tudo registram a maneira de ser dos homens ilustres da Antigüidade Clássica. E se essa foi modelo de algo no mundo ocidental, isso não independe dos agentes, dos construtores dessa cultura. Portanto, fato ou ficção, isso pouco importa.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Literatura Latina: Historiografia

Programa da Disciplina
FLC1256 - Literatura Latina: Historiografia
3a Feira - Matutino e Noturno
Docente Responsável: Paulo Martins

Aula 1 - Apresentação do Curso
Aula 2 - O Nascimento da História – Tucídides x Homero – O sujeito da Enunciação Histórica
Aula 3 - A História sob a perspectiva de Tito-Lívio
Aula 4 - O Lugar do Historiador
Aula 5 - A História em Roma segundo Quintiliano e Cícero
Aula 6 - A História Antiga (re)visitada pelos modernos: Veyne, Salles, White
Aula 7 - Gêneros Historiográficos em Roma I
Aula 8 - Gêneros Historiográficos em Roma II
Aula 9 - Tipos e Estrutura de Relato e de Narrativa Históricos
Aula 10 - Salústio – A Conjuração de Catilina
Aula 11 - Salústio – A Guerra de Jugurta
Aula 13 - Cícero – Epístola a Luceio – Ad. Fam. 5,12
Aula 14 - As Vidas – Suetônio, Tácito e Plutarco
Aula 15 - Os Comentarii de César
Aula 16 - Res Gestae de Augusto

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Ius Imaginum - Direito de Imagens


Retrato Fúnebre - Musée du Louvre, Paris (1)

Há uma passagem em Políbio (Livro VI, 53-54) que me parece bem interessante. Ela trata da utilidade, da finalidade de imagines mortuárias romanas. Tais esculturas fúnebres, apoiadas nas informações de Políbio, apontam para duas reflexões interessantes.

Retrato Fúnebre - Musée du Louvre, Paris (2)


A primeira diz respeito a um tipo de escultura romana a que a tradição deu o nome de "retrato realístico" (nome, talvez, algo anacrônico), isto é, retratos em que há uma preocupação com a proximidade com o modelo, mimetizando com todas as (im)perfeições inerentes ao figurado.

A segunda diz respeito à circulação dessas. Se, de um lado, são essencialmente privadas, pois devem ser reverenciadas no âmbito do domus (no columbarium), por outro lado, extrapolam essa privacidade ao serem expostas sistematicamente nos funerais junto aos rostros do fórum por ocasião da morte de um patrício pertencente a um determinada gens.

Essas reflexões nos levam a crer que o direito de imagens (ius imaginum) que, em princípio, era apenas da aristrocacia, vazará às demais classes sociais nos séculos seguintes ao fim da República Romana, como bem demonstram os Retratos de Fayoum.



Retratos de Fayoum: (1) Musée du Louvre; (2) The Getty Museum e (3) Staatliche Museen, Berlim


Columbarium II de Vigna Codini na Via Latina


53. Por ocasião da morte de qualquer homem ilustre ele é levado em seu funeral com toda a pompa até o Fórum, perto dos chamados Rostros, algumas vezes bem à vista em posição vertical, e mais raramente reclinado. Ali, com todo o povo de pé em volta, um filho crescido, se ele deixou algum que esteja presente em Roma, ou se não outro parente, sobe aos Rostros e pronuncia um discurso alusivo às suas qualidades e aos seus sucessos e feitos ao longo da vida. Conseqüentemente toda a multidão, e não apenas quem teve alguma participação nesses feitos, mas também quem não teve, quando os fatos são relembrados e postos diante de seus olhos comove-se e é levada a tal estado e empatia que a perda parece não se limitar somente a quem chora o morto e ser extensiva a todo o povo. Em seguida, após o enterro e a realização das cerimônias usuais, coloca-se uma imagem do defunto no lugar mais visível de sua casa, numa espécie de tabernáculo de madeira. Essa imagem consiste numa máscara reproduzindo com notável fidelidade a tez e as feições do morto. Nos dias de festas religiosas públicas essas imagens são expostas e ornamentadas cuidadosamente, e quando alguma pessoa importante da família morre os parentes as levam para o funeral, conduzidas por homens que pareçam assemelhar-se mais a, cada defunto em estatura e compleição. Esses homens vestem uma toga, com um debrum cor de púrpura se o defunto era cônsul ou pretor, toda de púrpura se ele era censor, e bordada de ouro se ele tivesse recebido as honras do triunfo ou alguma distinção desse gênero. Tais homens são levados num carro precedido por fasces, machados e outras insígnias às quais cada um dos personagens por eles encarnados tinha direito de acordo com a função que exercera em vida; quando eles chegam aos Ros­tros, sentam-se em cadeiras de marfim enfileiradas. Não seria fácil imaginar um espetáculo mais nobilitante e edificante para um jovem que aspire à fama e à excelência. De fato, quem não se sentiria estimulado pela visão das imagens de homens famosos por suas qualidades excepcionais, todos reunidos como se estivessem vivos e respirando? Poderia haver um espetáculo cívico mais belo que esse?

54. Além disso, o orador incumbido de falar sobre o homem prestes a ser enterrado, após pronunciar-se a respeito do defunto evoca os sucessos e feitos dos outros defuntos cujas imagens também estão presentes, começando pelo mais antigo. Por esse meio, por essa renovação constante das referências às qualidades dos homens ilustres, a fama dos autores de feitos nobilitantes é imortalizada, e ao mesmo tempo o mérito de quem prestou bons serviços à pátria chega ao conhecimento do povo, constituindo um legado para as gerações futuras. O resultado mais importante, porém, é que os jovens são estimulados assim a suportar qualquer provação pelo bem da coletividade, na esperança de obterem a glória que acompanha os homens valorosos. Os fatos confirmam essas minhas palavras. Com efeito, muitos romanos empenharam-se em combate singular para decidir uma batalha, e não poucos enfrentaram a morte certa, uns na guerra, para salvar a vida dos companheiros restantes. e outros na paz para salvar a pátria. Alguns magistrados chegaram ao ponto de, no exercício de suas funções, ordenar a execução de seus próprios filhos sem levar em conta qualquer costume ou lei, pondo assim os interesses do Estado acima dos laços naturais que os vinculam aos parentes mais chegados e queridos. Muitos fatos desse gênero pertinentes a muitos homens são relatados na história de Roma, porém um deles a respeito de uma certa pessoa bastará no momento como exemplo e a título de confirmação de minhas asserções.
(tradução de Mário da Gama Cury)

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Antologia narra quatro séculos de latinidade

Texto publicado no Jornal da Tarde - "Caderno de Sábado", São Paulo, p. 5, 20 nov. 1999.


NOVAK, MARIA DA GLÓRIA et alii - Historiadores Latinos. Antologia Bilíngüe. São Paulo: Martins Fontes.

Por Paulo Martins

"Sine ira et studio"
(Sem ira nem parcialidade)
Tácito

Historiadores Latinos, obra recentemente publicada pela Martins Fontes, propicia a, pelo menos, três reflexões pertinentes. A primeira delas concernente ao papel das antologias no estudo de práticas letradas. A segunda que tem como ponto de partida a recuperação genética do gênero historiográfico e the last but not the least, sobre o caráter da diversidade imposto pela tarefa da tradução.

Elaborada por um grupo de professores da área de Língua e Literatura Latina de diversas universidades brasileiras, durante as décadas de 80 e 90, esta antologia tinha como objetivo precípuo auxiliar o trabalho docente em Letras Clássicas que sofre por conta de escassez material de textos traduzidos, absolutamente necessários às aulas de língua e literatura latina.

Tal como a primeira obra da série (Poesia Latina, igualmente publicada pela Martins Fontes no início da década de 80), este livro tem como ponto de partida certo recorte diacrônico de determinado gênero dentro do universo literário de alguns séculos, ou seja, diferentemente daquilo a que estamos habituados, antologias que observam a produção de determinado autor ao longo de alguns anos, esta opera variações genéricas do ponto de vista de diversos autores, propiciando um retrato particular do desenvolvimento do gênero historiográfico na Roma Antiga.

Tal fato, seguramente, revelará viés diferenciado acerca do gênero em questão, uma vez que deixa de lado as questões teóricas e, de chofre, abre possibilidades de discussão a partir da efetiva prática letrada. Assim, o leitor ao fim e ao cabo da leitura poderá, indubitavelmente, teorizar sobre as variações do gênero em questão, podendo até mesmo refletir sobre a teorização que, geralmente, lhe é imposta pelas obras de teoria da literatura, e, mais especificamente, pelas obras de história da literatura latina que oferecem apenas o conceito deixando de lado o modus operandi a que se prendeu para que chegasse às conclusões expostas.

O uso desse expediente didático sempre foi muito utilizado dentro das Letras Clássicas e, portanto, não são poucos os títulos em países não periféricos que observam tal didatismo na formação dos críticos e estudiosos. Na verdade, os profissionais que adotam este tipo de intervenção desenvolvem a máxima retórica do “uerba mouent, exempla trahunt” (as palavras movem, os exemplos arrastam), ou a sentença de Sêneca nas Cartas a Lucílio: "Longum iter est per praecepta, breue et efficax per exempla" (O caminho pelos preceitos é longo, breve e eficaz pelos exemplos). Isto é, tanto no primeiro caso, como no segundo, o exemplo é o melhor caminho para o convencimento, logo, para a reflexão consciente e honesta, adequada.

A esta questão também deve ser somada uma “ideológica” – em seu senso mais amplo – no que tange à organização de antologias. Toda e qualquer reunião de textos faz despontar certa intencionalidade dessa seleção e organização. Portanto, à proposta antológica subjazem juízos que determinam opção, seleção, necessidade. E o que vemos na presente publicação, é absoluta proposta didática, sem, contudo, preterir prazer e convencimento. Nesse sentido, cumpre sua função horaciana, afinal a obra é dulce et utile (doce e útil), isto é, deleita, ensina e convence.

Esta seleção, cronologicamente, recorta quatro séculos de latinidade, oferecendo textos que vão de Júlio César (101 - 44 a.C.) a Salviano de Marselha (V d.C), passando por Santo Agostinho, São Jerônimo, Amiano Marcelino, Eutrópio, Floro, Suetônio, Tácito, Valério Máximo, Tito Lívio, Salústio, Cornélio Nepos, entre outros.


Tito Lívio


Tal fato opera, também, a diversidade de um mesmo gênero, fato dificilmente aferido na historiografia (mesmo na mais moderna); ao contrário daquilo que ocorre, por exemplo, com a poesia, tão diversa em si, contudo, tão propriamente poesia, singular, típica e isto, talvez, corrobore a afirmação aristotélica do capítulo IX da Poética, quando discute universalidade poética e particularidade histórica.

A historiografia latina e, conseqüentemente, a antologia em questão possui especificidades curiosas que determinam diferenças genéricas, ou melhor, subgenéricas, uma vez que tudo ali proposto é historiográfico. Assim, o que difere uma história de um breviário ou analística dos comentários? São questões subjacentes à interessante viagem factual e vivida proposta pela colagem de tempo morto e vivo em palavras.

Reavivada pelas palavras, o leitor brasileiro tem às mãos antologia que propicia o reconhecimento de certas instâncias de quatro séculos de história, vista pelos olhos de quem dela participou. Dessa maneira, o livro propõe textos de: Júlio César, grande nome da história republicana romana e hábil comentarista de campanhas bélicas (Recentemente foi comentada a mais nova tradução de sua obra A guerra Civil feita por Antônio da Silveira Mendonça); Tito Lívio, autor da época de Augusto, responsável pela mais completa narrativa da história romana desde a sua fundação até os primeiros dias do império; Tácito, agudo analista e historiador da segunda metade do século I d.C. e início do século II; Suetônio (69 -141), secretário do Imperador Adriano, cuja maior obra foi retratar biograficamente os primeiros doze césares, que, vale dizer, efetivamente foram onze, uma vez que Júlio César não era assim considerado.


Júlio César - Museus do Vaticano

Sob outro ponto de vista, podemos, também, por intermédio desses autores recuperar parte de um passado que, a princípio, é tido como inatingível. As obras desses autores, sistematicamente, tratam da vida pública, ou seja, estão presas ao fato histórico relevante, o fato público. No entanto, estilisticamente, é possível recuperar a história que não está na história, porquanto o estilo tem o poder de trazer à tona, elementos não presentes no texto, por exemplo, a recepção.

Tácito

Não foi de outra forma que Erich Auerbach (Mimesis, 1976. p. 40) adverte: "(...)Tácito escreve de uma posição superior que examina a multidão de acontecimentos e operações ordena-os e julga-os como um homem da mais alta posição social e educação, se não cai no árido ou ininteligível, isto se deve não somente ao seu gênio, mas também à incomparável cultura do visual e do sensorial durante toda a Antigüidade. Mas o mundo dos seus semelhantes, para o qual escreveu, exigia que o elemento visual e sensorial permanecesse dentro dos limites do gosto fixado por uma longa tradição, sendo que já nele aparecem sinais de uma transformação desse gosto, no sentido de um maior realce do sombriamente horrendo(...)".

Contudo, o fato mais diferenciado desta obra seja justamente observar estas diferenças genéricas, temporais e da recepção sob o ponto de vista diverso de tradutores diversos – são mais de duas dezenas no livro. A tradução como operação de linguagem pode também indicar, nos mesmos moldes da seleção antológica proposta, como vimos, propiciar à verificação de certo universo cultural e propositivo de tradutores, soluções, intenções e idiossincrasias que revestem o texto traduzido de estilo e pessoalidade.Portanto, a diversidade vista diversamente e unificada por intencionalidade “ideológica”, esta seria a definição mais adequada a este livro que ora se publica.


HISTORIADORES LATINOS - ANTOLOGIA BILINGUE
MARTINS FONTES
ISBN: 8533609124