Mostrando postagens com marcador Retórica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Retórica. Mostrar todas as postagens

sábado, 9 de julho de 2011

SBR - Sociedade Brasileira de Retórica

A Sociedade Brasileira de Retórica já tem sua primeira diretoria e Conselhos Consultivo e Fiscal eleitos:


Diretoria
Maria Cecília Miranda de Nogueira Coelho, Presidente - UFMG
Kátia Vieira Morais, Vice-Presidente
William Augusto Menezes, Secretário Geral - UFOP
Milene Ribeiro Ortega, Secretário Adjunto - University of Nevada, Las Vegas
Narbal de Marsillac, Tesoureiro - UFPB
Jacyntho Lins Brandão, Tesoureiro Adjunto - UFMG



Conselho Consultivo e Deliberativo

Cassiano de Almeida Barros (6 anos) - UNIMEP
Sandra Lúcia Rodrigues da Rocha (6 anos) - UNB
Marcelo Pimenta Marques (4 anos) - UFMG
Paulo Martins (4 anos) - USP
Marcos Martinho dos Santos (2 anos) - USP
Lineide do Lago Salvador Mosca (2 anos) - USP


Conselho Fiscal (2 anos)

Anna Christina da Silva - UNIMONTES
Diogo orberto Mesti da Silva - UFSC
Helcira Maria Rodrigues de Lima - UFMG

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Primeira Eleição da Sociedade Brasileira de Retórica

Declaro instalada a Assembleia Geral extraordinária à distância da Sociedade Brasileira de Retórica/SBR, a partir das 8h de hoje, dia 04 de julho de 2011, para eleições da Diretoria, do Conselho Consultivo e do Conselho Fiscal da SBR. O pleito se encerrará no dia 07 de julho, às 23h horas, e o resultado deverá ser divulgado até o dia 08 de julho, às 23 horas, quando se encerrará a presente sessão da Assembleia Geral.


Para votar, acesse o linkhttp://www.letras.ufmg.br/EleicaoOnLine/


Belo Horizonte, 4 de julho de 2011.


Maria Cecília de Miranda N. Coelho
Presidente da Diretoria Provisória da SBR.

terça-feira, 22 de março de 2011

Aguarda Publicação

Cicero: The Picturing of a Rhetoric



Paulo Martins




Homologies between verbal and non-verbal discourses are frequent in Classical Antiquity. Plutarch in the Glory of the Athenians, 346 F, quotes Simonides of Ceos: “painting is silent poetry, and poetry painting that speaks. ...”. Aristotle in his Poetics establishes similarities between painting and poetry when mentioning Pauson’s, Polignoto’s, Dionysius’ and Zeuxis’ painting techniques (Poetics, 361). This text aims to discuss the homology, created by Cicero in De Inuentione (Book II), between his project of Rhetoric and Zeuxis’s painting. After establishing the genre of painting performed by Zeuxis, revising the material culture of the period and observing the textual references about his work, we will propose a new interpretation about this first project of Cicero’s for a Rhetoric.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Poesia e Eloquência

Muita discussão existe em torno das possíveis relações entre poesia e retórica na Antiguidade Clássica. Há quem julgue que uma e outra arte são inseparáveis, assim as categorias retóricas seriam aplicáveis à poesia e as categorias poéticas, à eloquência. Assim o fez Francis Cairns em Generic composition in greek and latin poetry*, quando, no final dos anos 70, tomando como base elementos característicos dos tratados acerca do discurso epidítico de Menandro, o retor, aplicou tais procedimentos à invenção poética.


Este pequeno trecho de Tácito, em Diálogo dos Oradores, parece-me que esclarece àqueles que são incrédulos à tese da indissociabilidade entre as artes:

"ego vero omnem eloquentiam omnisque eius partis sacras et venerabilis puto, nec solum cothurnum vestrum aut heroici carminis sonum, sed lyricorum quoque iucunditatem et elegorum lascivias et [10.4.5.] iamborum amaritudinem epigrammatum lusus et quamcumque aliam speciem eloquentia habeat, anteponendam [10.5.1] ceteris aliarum artium studiis credo."

"Eu mesmo, na verdade, considero a eloquência toda e todas as suas partes sagradas e dignas de veneração, não apenas o som de vossos coturnos ou de carmes heróicos, mas também encantos de poemas líricos, atrevimentos elegíacos, amargores iâmbicos, gracejos epigramáticos e qualquer que seja o gênero que eloquência possua, eu acredito que ela deva ser anteposta a outras práticas de outras artes."

Tradução de Paulo Martins

*Cairns, Francis. Generic composition in Greek and Roman poetry. rev.ed. . Ann Harbor: Michigan Classical Press. 2007. 336 pages.





sábado, 28 de fevereiro de 2009

Vt Pictura Rhetorica - Zêuxis e Cícero

A retórica assim como a poesia é afeita à homologia com a pintura. Em Simonides via Plutarco já se lia "a pintura é a poesia muda e a poesia é a pintura que fala". Em Horácio leu-se "ut pictura poesis" (como a pintura, a poesia). No primeiro Cícero, no De Inuentione, temos a passagem a seguir que nos permite dizer analogamente Vt Pictura Rhetorica:

[I,1] - Crotoniatae quondam, cum florerent omnibus copiis et in Italia cum primis beati numerarentur, templum Iunonis, quod religiosissime colebant, egregiis picturis locupletare voluerunt. itaque Heracleoten Zeuxin, qui tum longe ceteris excellere pictoribus existimabatur, magno pretio conductum adhibuerunt. is et ceteras conplures tabulas pinxit, quarum nonnulla pars usque ad nostram memoriam propter fani religionem remansit, et, ut excellentem muliebris formae pulchritudinem muta in se imago contineret, Helenae pingere simulacrum velle dixit; quod Crotoniatae, qui eum muliebri in corpore pingendo plurimum aliis praestare saepe accepissent, libenter audierunt. putaverunt enim, si, quo in genere plurimum posset, in eo magno opere elaborasset, egregium sibi opus illo in fano relicturum. neque tum eos illa opinio fefellit. [2] nam Zeuxis ilico quaesivit ab iis, quasnam virgines formosas haberent. illi autem statim hominem deduxerunt in palaestram atque ei pueros ostenderunt multos, magna praeditos dignitate. etenim quodam tempore Crotoniatae multum omnibus corporum viribus et dignitatibus antisteterunt atque honestissimas ex gymnico certamine victorias domum cum laude maxima rettulerunt. cum uerorum igitur formas et corpora magno hic opere miraretur: 'Horum,' inquiunt illi, 'sorores sunt apud nos virgines. quare, qua sint illae dignitate, potes ex his suspicari'. 'Praebete igitur mihi, quaeso,' inquit, 'ex istis virginibus formonsissimas, dum pingo id, quod pollicitus sum vobis, ut mutum in simulacrum ex animali exemplo veritas transferatur.' [3] tum Crotoniatae publico de consilio virgines unum in locum conduxerunt et pictori quam vellet eligendi potestatem dederunt. ille autem quinque delegit; quarum nomina multi poetae memoriae prodiderunt, quod eius essent iudicio probatae, qui pulchritudinis habere verissimum iudicium debuisset. neque enim putavit omnia, quae quaereret ad venustatem, uno se in corpore reperire posse ideo, quod nihil simplici in genere omnibus ex partibus perfectum natura expolivit. itaque, tamquam ceteris non sit habitura quod largiatur, si uni cuncta concesserit, aliud alii commodi aliquo adiuncto incommodo muneratur.

[II,4] - Quod quoniam nobis quoque voluntatis accidit, ut artem dicendi perscriberemus, non unum aliquod proposuimus exemplum, cuius omnes partes, quocumque essent in genere
[1], exprimendae nobis necessarie viderentur; sed omnibus unum in locum coactis scriptoribus, quod quisque commodissime praecipere videbatur, excerpsimus et ex variis ingeniis excellentissima quaeque libavimus. ex iis enim, qui nomine et memoria digni sunt, nec nihil optime nec omnia praeclarissime quisquam dicere nobis videbatur. quapropter stultitia visa est aut a bene inventis alicuius recedere, si quo in vitio eius offenderemur, aut ad vitia eius quoque accedere, cuius aliquo bene praecepto duceremur [5] quodsi in ceteris quoque studiis a multis eligere homines commodissimum quodque quam sese uni alicui certe vellent addicere, minus in arrogantia[m] offenderent; non tanto opere in vitiis perseverarent; aliquanto levius ex inscientia laborarent. ac si par in nobis huius artis atque in illo picturae scientia fuisset, fortasse magis hoc in suo genere opus nostrum quam illius in suo pictura nobilis eniteret. ex maiore enim copia nobis quam illi fuit exemplorum eligendi potestas. ille una ex urbe et ex eo numero virginum, quae tum erant, eligere potuit; nobis omnium, quicumque fuerunt ab ultimo principio huius praeceptionis usque ad hoc tempus, expositis copiis, quodcumque placeret, eligendi potestas fuit.

[1] Genus, generis por espécie, qualidade, tipo.

Cícero – Sobre a Invenção[1]

[I,1] Outrora os habitantes de Crotona, como prosperassem em meio a muitas riquezas e, na Itália, fossem considerados como ricos entre os ricos, desejaram locupletar o templo de Juno[2], a qual cultuavam com muita devoção, com pinturas insignes. Então, convidaram Zeuxis[3] de Heracléia, contratado por uma quantia significativa, ele que, à época, estimava-se que era, de longe, superior aos demais pintores. Ele havia pintado muitos quadros, alguns dos quais sobreviveram, em vários lugares, à nossa memória por conta da veneração de um lugar consagrado. E, como imagem muda em si mesma encerrasse a beleza da forma feminina, disse que desejaria pintar um retrato de Helena. Por isso, os habitantes de Crotona, que amiúdo ouviam dizer que ele superava aos demais pintores ao pintar o corpo de mulher, de bom grado, ficaram satisfeitos. Julgaram, pois, se nesse gênero era o melhor, ele elaboraria, num grande trabalho, uma egrégia obra que, para eles, cronatitas, haveria de sobreviver naquele templo. Dessa maneira, essa opinião não os abandonou. [2] Assim, Zeuxis perguntou-lhes se havia lá formosas virgens. Por sua vez, eles o conduziram imediatamente ao ginásio e a ele apresentaram muitos rapazes, reconhecidos por serem de extrema beleza. Porquanto, há tempos, os cronatitas tiveram a primazia inegável entre todos pela força e pela beleza dos corpos e trouxeram para casa honradíssimas vitórias de certames de luta com louvor máximo.
Como, pois, ele admirasse verdadeiramente a beleza e os corpos, Eles falaram: “As irmãs virgens deles estão em nossa cidade. Porque podes a partir deles supor a beleza delas”. “Apresentai-me, pois, as mais bonitas destas virgens, peço, ele disse, enquanto pinto aquilo que prometi-vos, para que ao retrato mudo, a partir de um modelo vivo, a verdade seja transferida [3] Então, os habitantes de Crotona a um único local conduziram, por uma decisão pública, as virgens e ao pintor deram o poder que desejasse para escolher. Ele, por sua vez, escolheu cinco, cujos nomes muitos poetas propagaram à memória porque foram aprovadas pelo juízo dele que devia tê-lo justíssimo sobre a beleza. Julgou, com efeito, que não podia encontrar em um só corpo tudo que procurava para (representar) a beleza, pois que a natureza nada cultivou perfeito em todas as partes uma única espécie. E, assim, como (a natureza) não haveria de possuir o que tivesse dado em abundância a muitos, se tudo tivesse concedido a um único tudo, ela presenteia a cada um de vantagens em cada parte, tendo unido as desvantagens.


[II, 4] Como escrevesse uma arte retórica, isto também aconteceu com minha intenção. Não propus um único exemplo do qual, por mim, todas as partes devessem ser extraídas, qualquer que fosse a espécie, quando parecesse que isto fosse necessário. Ao contrário, num único local, de todos escritores reunidos, tomei aquilo que cada um parecesse prescrever vantajosamente. E escolhi de vários engenhos e recolhi as melhores partes. Desses, pois, aqueles que são dignos do nome e da memória, nenhum me parecia dizer tudo de bom nem só coisas excelentes. Pelo que pareceu tolice ou afastar-me de algo bom de alguém que inventa[4], se por ele fui tocado no seu vício, ou, também, me aproximar do vício de quem fui conduzido por algum bom preceito. [5] E se os estudiosos, também, em outros estudos, preferissem escolher entre muitos os mais valiosos a aprovar para si um único exclusivamente, esbarrariam menos na arrogância e não persistiriam tanto nos vícios na obra e sofreriam muito pouco por sua ignorância. E se nesta minha arte fosse semelhante àquele na ciência da pintura, provavelmente esta nossa obra se distinguisse mais do que na sua a nobre pintura dele. Pois, eu tive a possibilidade de escolher mais exemplos a partir de um maior repertório do que ele teve. Ele uma de uma cidade e de um numero de virgens que, então, havia, pôde escolher; Para mim, de todos, quaisquer que tenham sido desde o mais longínquo princípio desta preceptiva de então até nosso tempo, apresentados os repertórios, qualquer que me agradasse, tive a possibilidade de escolher.

[1] Tradução nossa.
[2] Cf. Diodoro Sículo, Biblioteca Histórica, IV, 24.
[3] Cf. Aristóteles, Poética, 1450 a 23 e 1461 b 9. D. W. Lucas no comentário à Poética diz: “Zeuxis at Heraclea in southern Italy worked in the late fifth and early fourth centuries. He is mentioned at 61b12 as painting figures more faultlessly beautiful than any in real life. Zeuxis painted men more beautiful than they really are, though according to 50 a 28 they lacked éthos.
[4] No sentido retórico, aquele que produz o texto.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Textos a publicar

Nos últimos meses, preparei dois artigos a fim de serem publicados em revistas especializadas. Transcrevo abaixo o resumo de ambos. Caso exista interesse pelo conteúdo completo, encaminhem um e-mail. São eles:

1. Polignoto, Páuson, Dionísio e Zêuxis – Uma leitura da pintura antiga clássica grega –

O presente trabalho põe à luz reflexão acerca da pintura grega clássica, tendo em vista a homologias estabelecidas por Aristóteles na Poética. Essa discussão é imperiosa, pois que são apresentadas pelo filósofo comparações entre pintura e poesia, como recurso retórico de exemplum ou paradeigma, para explicar a segunda pela primeira arte. Entretanto, a preceptiva pictórica grega clássica que hoje se tem em mãos é insuficiente para que se esclareçam exatamente as categorias analíticas por ele utilizadas. Assim nos ocuparemos em delimitar como Aristóteles observava as pinturas de Polignoto, Páuson, Dionísio e Zêuxis, para, talvez, aferir e inferir conceitos preceptivos desses tipos de pintura e de pintores de maneira coetânea e não-anacrônica, ao contrário do que se pode observar em muitos manuais de História da Arte Clássica.

Palavras-chave: Poética, Retórica, Homologia, História da Arte, Pintura Grega Clássica.

2. Parataxe e Imagines

O presente artigo visa a discutir o conceito de parataxe, que foi largamente utilizado por estudiosos da História da Arte e da Literatura para definir a estrutura dispositiva de certas obras da Antigüidade greco-romana. Porém, o termo, sincronicamente tomado, é estranho ao período, configurando certo anacronismo. Seu uso sistemático, assim, nos leva, erradamente, a crer que a parataxe pertence ao vocabulário teórico da poesia, da pintura, da gramática ou da retórica, o que é inconsistente. Contudo, o mesmo uso seria autorizado, se houvesse entre os modernos consenso sobre o significado, o que não ocorre. Dessa forma, se, de um lado, a teorização antiga – gramatical, poética ou retórica – não nos dá a chave do uso e, de outro, a modernidade não colabora com a precisão de sentido, a aplicação do conceito gera dúvidas na hermenêutica do objeto analisado. Nosso intuito, portanto, é delimitar o conceito modernamente e aplicá-lo na observação de algumas imagens da Antigüidade.

PALAVRAS-CHAVE: Iconografia; Retórica; Lingüística, Parataxe, Hipotaxe.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Um Iambo de Horácio - Uma Tradução

Os Epodos de Horácio são poemas que podem ser considerados como a contrapartida das Odes. Isto é, enquanto estas ocupam o lugar do elogio, via de regra, operando subgêneros líricos como o epinício, o encômio, o hino; aqueles operam unicamente o vitupério, provocando a invectiva contumaz e feroz e emulando com os poetas líricos gregos arcaicos como Arquíloco de Paros e Hiponax.
Pode-se dizer, então, que sob o aspecto das poéticas antigas, poesia iâmbica (o iambo é o metro utilizado nos epodos e nos poemas de invectiva de modo geral) e poesia lírica (em seu sentido mais amplo) estabelecem uma estreita relação com o discurso oratório demonstrativo ou epidítico pelo simples motivo de se aparelharem dos memos lugares, ou seja, qualificativos positiva e negativamente utilizados no âmbito das coisas externas (ascendência, educação, amizades, riqueza, cidadnia, poder, glória); do ânimo (prudência, justiça, coragem, modéstia) e do âmbito do corpo (rapidez, força, beleza e saúde). Cf. Retórica a Herênio, III, 10-11 e Aristóteles - Retórica, I, 9.
Assim enquanto nas odes, Horácio salienta virtudes ligadas a esses lugares; nos iambos dos epodos, ele visa aos vícios concenentes a eles.
Vejamos um exemplo dessa poesia de gênero baixo:

Epodo VIII

Rogare longo putidam te saeculo,
uires quid eneruet meas,
cum sit tibi dens ater et rugis uetus
frontem senectus exaret
hietque turpis inter aridas natis
podex uelut crudae bouis?
Sed incitat me pectus et mammae putres,
Equina quales ubera,
uenterque mollis et femur tumentibus
exile suris additum.
Esto beata, funus atque imagines
ducant triumphales tuum
Nec sit marita quae rotundioribus
onusta bacis ambulet.
Quid? Quod libelli Stoici inter Sericos
iacere puluillos amant:
inlitterati num minus nerui rigent
minusue languet fascinum?
Quod ut superbo prouoces ab inguine,
ore adlaborandum est tibi.



Tradução de Paulo Martins:

Epodo 8

Tu perguntas, fétida, tanto tempo,
O que esgota meu ânimo,
Quando tu tens dentes podres e velha
Ruga sulca senil tua fronte
E torpe está escancarado teu cu entre
Bunda murcha qual a de encruada vaca.
Mas teu peito e tetas flácidas quais
Úberes de égua e tua lassa pança e
Tuas coxas mirradas somadas
A inchadas suras instigam-me.
Sê rica em breve e comandem imagens
Triunfais teu funeral
E não seja uma esposa que passeia,
Montada com as mais rotundas perlas.
Por quê? Que livros estóicos amam descansar
Por entre almofadas de Seres:
Acaso, minha pica iletrada está menos rija
Ou meu pau está menos desfalecido?
Para que tu provoques algo a partir da minha soberba
Virilha, com tua boca tu deves trabalhar.

domingo, 3 de fevereiro de 2008

A Mão Portuguesa de Deus - Sobre Vieira

Texto publicado na Revista Bravo!, 41. 01 de Fevereiro de 2001. pp.114-17. Por ocasião do lançamento do primeiro volume de obras escolhidas de Pe. Antonio Vieira, organizado por Alcir Pécora (UNICAMP)


A mão portuguesa de Deus

Por Paulo Martins

Padre Antonio Vieira (1608-1697) é certamente um dos maiores escritores da língua portuguesa. Não é por acaso que, academicamente, seja pleiteado ora pela Literatura Portuguesa, ora pela Brasileira - e que possa ser considerado o primeiro caso de transnacionalidade nas literaturas dessa língua. Veio para o Brasil aos 7 anos e, como jesuíta, dedicou parte de sua vida à colônia (Bahia, Olinda e São Luís), algo comum em pregadores do século 17 que tinham como missão a catequização dos povos. Também chegou a importantes investiduras na corte e no mundo, em diferentes períodos em que esteve fora do país: ocupou missões diplomáticas em Paris, Haia e Roma. Convicto de certas posições, em 1665/67 foi processado pela Inquisição por defender os cristãos-novos, condenado por "opiniões heréticas" e logo depois anistiado.
Longe das estantes das bibliotecas, estava muito difícil ter acesso a ele. Apenas excertos didáticos eram encontráveis. Ou ainda, espalhados pelos sebos e alfarrábios das grandes cidades, edições da década de 50 em quinze volumes, cujo preço está bem longe do razoável. Agora, acaba de chegar às livrarias o primeiro volume de uma coletânea em quatro, a ser lançada até o fim do ano pela editora Hedra e organizada por Alcir Pécora. A coleção é composta de dois volumes dedicados aos Sermões, um às obras proféticas (História do futuro e Defesa perante o Santo Ofício) e o último às Cartas.
Grande parte da crítica descontextualiza Vieira, atribuindo-lhe perfis inverossímeis, costurando-lhe máscaras imprecisas e pregando-lhe etiquetas incompatíveis. Se é certo que não devemos nos esquecer da afirmação de Italo Calvino - de que "os clássicos são aqueles livros que chegam até nós trazendo consigo as marcas das leituras que precederam a nossa" -, é certo, também, que o próprio Calvino diz que "um clássico é uma obra que provoca incessantemente uma nuvem de discursos críticos sobre si, mas continuamente os repele para longe". Assim, a despeito de todo e qualquer juízo crítico ou de valor que se faça acerca da obra de Vieira, é mais conveniente refletir sobre a pertinência de sua leitura hoje.
Pode-se afirmar que há pelo menos três razões que o tornam indispensável. A primeira diz respeito ao retrato da correlação de forças observadas à época de seus textos. Outra parte da delimitação de preceitos técnicos na elaboração de textos no século 17. A última é a aferição de um estilo preciso e difícil que deleita, ensina, convence, intriga e faz pensar sobre sua recepção.
A obra de Vieira é pragmática, longe de qualquer fruição romântica; é determinada pelo binômio poder eclesiástico e poder político. Suas letras são mundanas, práticas, efetivas e encerram a ação da Companhia de Jesus naquilo que lhe é mais característico: a expansão da fé como simulacro do poder político. O papel da Igreja, regulado pelo padroado real, que determinava a subserviência de Roma em relação a Lisboa, consistia na manutenção dos interesses econômicos e políticos da Coroa. A Igreja mantinha o monopólio da fé nas terras "descobertas" enquanto o Estado detinha o direito de recolher o tributo devido pelos fiéis, criar dioceses e nomear bispos.
Vieira devia zelar pelo Estado Colonial Português. Para tanto, construiu e proferiu diversos Sermões, entre os quais se destaca o famoso Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal contra as de Holanda (1640). Sua intenção era dupla: barrar o avanço dos hereges reformistas holandeses e garantir a viabilidade da máquina mercantil portuguesa, usando uma argumentação de fundo teológico. Ele dizia que Deus não pode serconivente com as mazelas heréticas e deve se posicionar de forma que a justiça divina abençoe os portugueses: "(...)Vossa mão [Senhor] foi que venceu, e sujeitou tantas nações bárbaras, belicosas e indômitas, e as despojou do domínio de suas próprias terras, para nelas os plantar, como plantou com tão bem fundadas raízes; e para nelas os dilatar, como dilatou, e estendeu em todas as partes do mundo, na África, na Ásia, na América.(...)". A mão de Deus, portanto, só poderia ser portuguesa. Não parece que em qualquer momento histórico algum texto tenha tido poder suficientemente abrangente para conseguir atingir objetivo semelhante.
Mas o monopólio jesuíta da fé não era hegemônico; outra ordem, a dos dominicanos, emulava com a primeira. Não só pela possibilidade expansionista, mas também pela capacidade de ser o instrumento verbal de Deus. Enquanto os primeiros diziam-se donos do estilo preciso, direto e eficiente para conservação e conquista de novos fiéis, os segundos praticavam o verbum, aproximando-se de uma organização discursiva sublime e engenhosa cuja complexidade, senão semelhante, estava para eles muito próxima da complexidade divina - uma engenhosidade celeste enigmática e culta. A querela estilística, que extemporaneamente foi proposta como dicotomia cultismo versus conceptismo (forma versus conteúdo), trazia à tona a luta de dois modelos eclesiásticos, o primeiro dado às cameratas da corte e o segundo interessado na conversão dos gentios.
Como adversário contumaz da elocução e da "ideologia" dominicana, Vieira constrói o Sermão da Sexagésima, que nada mais é do que a chave "metalingüística" de seus Sermões, aguda e prudentemente construída com vistas à posição hegemônica dos jesuítas diante da catequese. Ou melhor, diante daquele poder político associado a questões econômicas e eclesiásticas obviamente defendidas pelos "filhos" de Santo Inácio de Loyola ("E esta maravilha fez Deus em Santo Inácio. O livro foi a flor, ele o fruto; um fruto que contém em si todos os sabores; um Santo que sabe a tudo o que cada um deseja e há mister" - Sermão da terceira dominga da quaresma - 1655).
Assim, existe uma função intrínseca para os sermões. Eles não podem se efetivar apartados do reconhecimento de suas máximas, de seus preceitos; devem efetivamente significar, isto é, devem ser concebidos de acordo com a adequação entre linguagem e público. Fato que, do ponto de vista de Vieira, não era observado pelos dominicanos: "Sim, Padre; porém esse estilo de pregar, não é pregar culto. Mas fosse! Este desventurado estilo que se usa, os que o querem honrar chamam-lhe culto, os que o condenam chamam-lhe escuro, mas ainda lhe fazem muita honra. O estilo culto não é escuro, é negro, e negro boçal e muito cerrado. É possível que somos Portugueses, e havemos de ouvir um pregador em português, e não havemos de entender o que diz?" (Sermão da Sexagésima - 1655).
Ao lermos Vieira hoje, outro aspecto é intrigante. Será que oralmente seus textos eram entendidos? Uma coisa é lê-lo, podendo-se fazer o percurso das linhas com olhos num vai-e-vem constante, para daí termos certeza de sua mensagem; outra é ouvirmos sem a possibilidade de retornar, de rever a trajetória da argumentação, que tanto nos apraz.
Facilmente se chega à conclusão que seria quase impossível a compreensão completa da mensagem dos Sermões, quando ouvidos, dada sua construção complexa e imbricada. Logo, tanto jesuítas como dominicanos estariam longe da missão primeira que, segundo o próprio Vieira, seria a disseminação da palavra de Deus (uerbum semen Dei - a palavra de Deus é a semente). Dentro dessa mesma perspectiva, em 1657 ele elabora o Sermão do Espírito Santo, cujo argumento principal é a importância do aprendizado da língua portuguesa pelos gentios. Esse aprendizado, segura e intencionalmente, deveria ir além do ABC; caso contrário, o efeito dos seus sermões seria o mesmo que o dos dominicanos: nenhum. Ou seja, absortos ou não na palavra de Vieira, ou melhor, na de Deus, nobres ou índios podiam ou não entender os Sermões (não saberemos jamais). Independentemente disso, estes se constituem como registros significativos da história e das letras do século 17.
É freqüente a recuperação de sua elocução. Os jornais, as revistas e até mesmo as universidades são devedores de suas construções, de suas imagens, de suas metáforas agudas e prudentes e, mais, de sua excelência. Apesar de sua ínfima circulação, Vieira ainda encontra epígonos, que por si não valem muito mas, por conta de sua filiação estilística e técnica, devem ser observados com cautela e atenção.Por isso é obrigatório se ler Vieira - o Vieira absolutamente distante da crítica que lhe medeia. Aquele que, por si, é representante do que há de melhor em língua portuguesa. Resta esperar por um maior empenho editorial para termos a totalidade de sua obra: a publicação da famigerada Clavis Prophetarum (A Chave dos Profetas), ainda inédita em português - foi escrita em latim. Mesmo assim já podemos comemorar: temos de novo algum Vieira!

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Curso de Pós-graduação na FFLCH/USP - 1o. Semestre de 2008

No primeiro semestre de 2008, a partir do dia 2 de abril, será oferecida a Disciplina de pós-graduação no programa de Letras Clássicas da FFLCH/USP: "Lendo imagens: a representação pública romana na República e no Império" (FLC5967).

Início: 2 de abril de 2008
Término: 25 de junho de 2008
Dia da semana: Quarta-feira
Horário: das 8:30 às 12:30
Local: Prédio das Ciências Sociais/Filosofia - FFLCH/USP
Docente: Prof. Dr. Paulo Martins


Inscrições

Alunos Especiais: 1 - 11 de Janeiro de 2008 (encerrada).
Alunos Regulares já matriculados anteriormente (http://www.fenix.usp.br/): 21 de Janeiro - 1 de Fevereiro de 2008.
Alunos Regulares Ingressantes: 11 - 15 de Fevereiro de 2008 no serviço de Pós-graduação da FFLCH, no prédio da Administração da Faculdade.


Mais informações no serviço de Pós-graduação da FFLCH/USP.

Observação


Caso exista interesse em assistir ao curso como aluno-ouvinte, enviar e-mail para pamar62@yahoo.com.br, indicando qual é o interesse no curso.

Segue abaixo a apresentação do curso:


FLC5967 - Lendo Imagens - A Representação Pública Romana na República e no Império


I. Objetivos

O curso visa a considerar as práticas imagéticas e textuais como representações de personagens da história romana nos séculos I a.C. e I d.C.. Para tanto, parte da constituição de procedimentos retóricos e poéticos para o discurso verbal e da preceptiva pictórica e escultórica na Roma Republicana e Imperial para aferição do discurso não-verbal. Dada a escassez desta última, resgatar-se-á certa forma mentis romana a partir da consideração de um vocabulário imagético, que, como consuetudo e ius, delimita a recepção apta para esse tipo de linguagem, e daí, explorar-se o efeito produzido por essas representações, isto é, a recuperação das afecções da recepção e as finalidades dessas linguagens dentro do poder público constituído no período.


II. Justificativa
Como a interseção entre linguagens é hoje alvo de vários estudos nas mais diversas épocas e sociedades, é necessário que, num programa de pós-graduação em Letras Clássicas, se forme este tipo de reflexão interdisciplinar que atente para práticas artísticas dentro de uma visão mais eclética e geral, observando-se pontos comuns e divergentes dentro da perspectiva do uso das linguagens na sociedade clássica, mais especificamente, romana. Mais do que a simples aferição de procedimentos técnicos, é fundamental a recuperação das afecções que caracterizam a fruição das obras imagéticas e textuais, pois essa delimita certo tipo de público para o qual eram produzidos os textos imagéticos e verbais.


III. Conteúdo

1. Questões Metodológicas I: História literária e historia da arte. As marcas da descontinuidade das representações. A impossibilidade de existência de “o Clássico”:

a. Plínio, o velho – História Natural, Livros XXXIV, XXXV e XXXVI
b. Marcas da elocutio nas representações arcaica, clássica e helenística:
i. O geométrico




ii. As kórai e os kouroi



iii. O movimento clássico




iv. O cânone de Policleito



2. Questões Metodológicas II: Homologia entre o discurso verbal e visual: Uma doutrina.

a. Aristóteles: Arte Poética, Arte Retórica, Política

b. Platão: A República, O Sofista

c. Cícero: O Orador, Sobre o orador, Sobre a invenção
d. Horácio: “Vt pictura Poesis
e. Quintiliano: Instituições Oratórias, Livro XII.
f. Epicuristas, Estóicos e a segunda sofistica:
i. Lucrécio
ii. Marco Aurélio
iii. Hermógenes, o rétor


3. Realismo e Idealismo. Público e privado. Marcas da elocutio. Virtus e uitium:

a. A tradição itálica – Identidade entre modelo e representação


b. A tradição helênica – Ausência de modelo




4. A historiografia das “vidas”: Suetônio e Plutarco. A retórica epídititica:

a. Anônimo, Retórica a Herênio
b. Menandro, o retor, Dois Tratados de Retórica Epidítica


5. Éthos e páthos: Afecções. Disposição anímica: Phantasiai:






a. Aristóteles: Sobre a alma, Livro III.

b. A dicotomia entre alma e corpo. A fisionomia como reflexo da alma. Os tratados de Fisiognomonia.


6. A moeda como instrumento de propaganda política: a circulação do poder:




a. O meio circulante.

b. As oficinas e a cunhagem
c. Possibilidades de representação:

7. O passado como memória. O poder privado das máscaras mortuárias e o rito dos antepassados:



a. Políbio - História, Livro VI

b. A extensão do poder público ao domus. Os retratos de Fayoum.


c. Exempla como Argumentatio

8. O presente como poder. “Certa microfísica” do poder. Monumento e Documento.


a. Res Gestae Divi Augusti




b. A coluna de Trajano.


c. Colossum de Constantino.




9. O futuro como perpetuação das imagines: Ars longa. A representação dos Deuses:


a. Hinos Homéricos – Apolo e Zeus

b. Poesia Lírica - Afrodite

c. Elegíaca – Eros/Cupido/Amor

d. Priapéia Grega e Latina – Priapo


10. A divinização dos imperadores: Vita breuis. O deus como imperador e o imperador como deus. O Sublime.



a. Augusto/Júpiter do Hermitage




b. Augusto/Netuno do Museum of Fine Arts, Boston




c. Augusto/Apolo do Museu Arqueológico de Tessalônica e do Museu do Teatro Romano de Arles


d. Augusto em:
i. Propércio
ii. Horácio
iii. Virgílio – A Eneida, Canto, VI
iv. Ovídio



11. A parataxe e a hipotaxe na representação. Sintaxe das representações.


a. A táxis das tessarae nos mosaicos



b. A táxis dos mistos: A cobra Glikon. O Hermes-Thot. A Esfinge.
As Sereias.



c. Homologia entre o Império Romano e Carolíngio. A sintaxe da “Cruz de Lotário”



i. Dispositio/táxis como argumentatio.


12. Euidentia e ekphrasisDescriptio e narratio: Descritividade e narratividade

a. Homero - Ilíada

b. Virgílio - Eneida

c. Salústio – Conjuração de Catilina

domingo, 30 de dezembro de 2007

Augusto e Horácio

IV,XV
Phoebus uolentem proelia me loqui

uictas et urbes increpuit lyra,
ne parua Tyrrhenum per aequor
uela darem. Tua, Caesar, aetas

fruges et agris rettulit uberes
et signa nostro restituit Ioui
derepta Parthorum superbis
postibus et uacuum duellis

Ianum Quirini clausit et ordinem
rectum euaganti frena licentiae
iniecit emouitque culpas
et ueteres reuocauit artes

per quas Latinum nomen et Italae
creuere uires famaque et imperi
porrecta maiestas ad ortus
solis ab Hesperio cubili.

Custode rerum Caesare non furor
ciuilis aut uis exiget otium,
non ira, quae procudit enses
et miseras inimicat urbes.

Non qui profundum Danuuium bibunt
edicta rumpent Iulia, non Getae,
non Seres infidique Persae,
non Tanain prope flumen orti.

Nosque et profestis lucibus et sacris
inter iocosi munera Liberi
cum prole matronisque nostris
rite deos prius adprecati,

uirtute functos more patrum duces
Lydis remixto carmine tibiis
Troiamque et Anchisen et almae
progeniem Veneris canemus.


4,15
Desejando eu cantar as lidas e as vencidas
cidades, Febo tocou-me com a lira
para que parvas velas não desse ao
Mar Tirreno. Tua era, César,

Restituiu frutos fartos aos campos
restabeleceu ao nosso Jove insígnias
tomadas de soberbos portais
dos Partas. E isento de combates,

Jano Querinino fechou e freio lançou
sobre a desordem que estendia-se
acima da proba ordem. Crimes
extirpou; trouxe as antigas artes

Por elas elevaram-se o latino
nome, as forças da Itália, a fama e a grandeza
do Império, estendida da morada
Hespéria até onde é nascente o sol.

César, guardião de tudo, nem furor
de civis, força ou ira que forjou
espada e infelizes cidades
inimigas levarão à paz o termo.

Nem os que bebem do Danúbio profundo
Nem Getas, Seres ou infiéis Persas
Nem os que ao largo nasceram
do Tanáide, infringirão as leis júlias.

E nós, tanto nos dias sacros como nos meros
entre benesses de Líber jocoso,
com prole e esposa, no rito,
teremos orado, antes aos deuses;

Os chefes consumidos com virtude,
misturado poema às Lídias flautas,
como os pais, cantaremos Anquises,
Tróia e a progênie de Vênus nutriz.

sábado, 17 de novembro de 2007

A Arte Poética de Aristóteles



Retrato de Aristóteles. Mármore pentélico, cópia do período Imperial (1o. ou 2o século da nossa era), a partir de uma escultura em bronze de autoria de Lisipo.
Museu do Louvre - Paris
Paulo Martins

Ao invés de falar a respeito de um autor essencialmente literário, como venho fazendo nesta coluna, abro espaço a um filósofo, talvez dos mais significativos e copiosos que os gregos antigos nos legaram: Aristóteles. Isto não sem motivos. Afinal, pode-se dizer, de um lado, que, no âmbito das práticas letradas da Antigüidade Clássica greco-romana, a filosofia, sob a perspectiva da constituição do texto, assim como a história, representa um gênero que, por si, pode ser observado literariamente; de outro lado, não apenas na obra ora observada, a Arte Poética, o filósofo de Estagira centra sua reflexão sobre uma questão literária, mas também em outra cujo fulcro é o texto em prosa e, nesse sentido, encontramos a Arte Retórica, texto, sem o qual pouco ou quase nada poderíamos aferir das técnicas de construção literária até pelo menos o século XVIII. Dessa forma, falar de Aristóteles é também falar dos primeiros textos de teoria literária no ocidente.

Nascido em Estagira, na Calcídica, em 384 a.C., aos 17 anos, muda-se para Atenas onde passa a fazer parte da Academia platônica, isto é, passa a ser discípulo de Platão até a morte deste em 347. Em 343, assume a função de preceptor de Alexandre, o grande na Macedônia onde fica até 336. Retorna a Atenas e funda o Liceu. Apesar de sua filiação platônica, Aristóteles é conhecido, pelo menos, sob o ponto de vista de uma teoria literária antiga, como antípoda daquele filósofo. Enquanto Platão, seja n’A República, seja no Íon, assim como no Fedro, critica a idéia de valorização da poesia como imitação, julgando-a distante da Verdade e observando que o único tipo de poesia que deve ser valorizada é a inspirada - aquela que sobrevém como inspiração divina ou como “mania” (possessão) - Aristóteles, por seu turno, defende a concepção de poesia como técnica (técne/ars) e mimese (imitação), não construindo, em momento algum, juízo de valor sobre o fato de ela ser Verdadeira, ou ainda, perniciosa ou infesta como um todo à formação do homem político (homem da pólis).

Ao exalçar a atividade humana da técne (ars-técnica) como forma de conhecimento, o filósofo dedicou-se a descrever a atividade literária grega em duas grandes obras: A Poética e a Retórica. A primeira dividida em dois livros dos quais nos restou apenas o primeiro, trata da fundamentalmente de dois gêneros literários muito caros aos gregos: A epopéia e a tragédia. Há a informação de que o segundo livro da Poética trataria de outros dois gêneros: a comédia e a poesia jâmbica (típica da invectiva). Já a segunda obra, dividida em três livros, ocupa-se fundamentalmente da oratória e seus subgêneros: o judiciário, o deliberativo e o demonstrativo. Em que se pese a distinção entre prosa e poesia, vale dizer que os conceitos tratados na Poética podem ser aplicados à prosa, assim como os tratados na Retórica podem ser observados na produção poética. Dessa forma, há quem julgue que estas duas obras podem, de certa maneira, abarcar a totalidade do conhecimento literário antigo como doutrina, como sistema.

A poética parte, portanto, do pressuposto de que a poesia é imitação. Seja da realidade na qual estamos inseridos, seja da tradição poética a que pertence o poeta e, este axioma decorre do fato de ser inato ao ser humano imitar. A poesia como mimese pode ser observada sob três aspectos distintos: por imitar por meios diferentes, por imitar objetos distintos ou por imitar diferentemente ou de modo diferente. Estas três possibilidades de avaliação delimitam genericamente a composição poética, isto é, ao propor tal taxonomia, Aristóteles acabou por estabelecer as primeiras distinções de gêneros poéticos que, por vezes, algo distam da nossa concepção moderna de gêneros.

A imitação “por meios diferentes” decorre da possibilidade da utilização do ritmo e da harmonia: poesias há em que a música é indissociável – um exemplo seria a poesia lírica dos gregos antigos – já, outras existem em que a música seria utilizada em parte dela como ocorre nas tragédias onde a harmonia é trabalhada pelo coro e não nas partes dialogadas. Porém, também, existem poesias dissociadas da música como é o caso da epopéia. Por sua vez, “o imitar objetos diferentes” significa dizer que a atividade poética pode ser observada de acordo com aquilo que imitamos e ,nesse sentido, encontramos aquelas que se ocupam de ações superiores (a tragédia e a epopéia); aquelas que tratam de ações inferiores como ocorre na sátira e na comédia; ou ainda, aquelas que devem observar as ações de homens como nós, isto é, a lírica em geral. Já o “modo diferente da imitação” pode ser detectado quando verificamos que uma mesma ação pode ser apresentada de forma narrativa ou com a presença de agentes e, daí, derivaria a distinção entre poesia épica e trágica.

Certas categorizações aristotélicas são de suma importância. Um bom exemplo disto é a determinação das partes da tragédia e da epopéia. No processo de elaboração poética, o autor de tragédias não pode descuidar das suas partes constitutivas, a saber: o espetáculo cênico (a ópsis), a música (a melopoía), os personagens (os éthe/caracteres), o enredo (o mythos), a elocução (a léxis) e o pensamento (a diánoia). Mais uma vez, o filósofo propõe uma distinção entre tragédia e épica: a segunda, quanto às suas partes constitutivas está inserida na primeira, excetuando-se, assim, o espetáculo cênico e a música que não aparecem na epopéia.

Ao observar a tragédia mais atentamente, Aristóteles também indica que nela podem-se verificar enredos construídos de forma diferente. Um a que ele dá o nome de “simples”; outro a que ele chama de “complexo”. Seria o último o que não possuísse nem “peripécia”, tampouco “reconhecimento”, mecanismos que interferem na sucessão dos acontecimentos no enredo. A “peripécia” constitui na inversão do encaminhamento dos fatos em seu oposto, ou seja, uma “reviravolta”. Já, o “reconhecimento”, a que os gregos davam o nome de “anagnórisis”, ocorre quando certa personagem toma conhecimento de algo e tal fato muda o sucesso dos acontecimentos. Tais diferenciações quanto ao tipo de enredo (“mythos”), lá apreciados pelo filósofo, podem ocorrer na poesia épica.

Talvez, entre seus comentários acerca da poesia, levados a termo na Arte Poética, aquele que seja mais controverso e polêmico é o que aparece no capítulo IX quando compara poesia e história. Diz Aristóteles: “Pelas precedentes considerações se manifesta que não é ofício de poeta narrar o que aconteceu; é, sim, o de representar o que poderia acontecer, quer dizer: o que é possível segundo a verossimilhança e a necessidade. Com efeito, não diferem o historiador e o poeta por escreverem verso ou prosa (pois que bem poderiam ser postos em verso as obras de Heródoto, e nem por isso deixariam de ser história, se fossem em verso o que eram em prosa) – diferem, sim, em que diz um as coisas que sucederam, e outro as que poderiam suceder. Por isso a poesia é algo mais filosófico e mais sério do que a história, pois refere aquela principalmente o universal, e esta o particular. Por “referir-se ao universal” entendo eu atribuir a um indivíduo de determinada natureza pensamentos e ações que, por liame de necessidade e verossimilhança, convêm a tal natureza; e ao universal, assim entendido, visa a poesia, ainda que dê nomes às suas personagens; particular, pelo contrário, é o que fez Alcibíades ou o que lhe aconteceu.”

Propondo a poesia como “mais filosófica e mais séria que a história”, Aristóteles acabou por, de certa forma, “agredindo” o caráter científico das investigações? Ao que parece, por muito tempo historiadores importantes viram-se vilipendiados por ele, uma vez que o fato de a história ser menos séria ou menos filosófica, pode parecer um menosprezo pela “atividade científica” em nome de uma certa “criatividade poética”. Valeria mais o exercício de uma técne/ars do que a observação e análise dos eventos ocorridos. Tal leitura do texto parece-me equivocada. Aristóteles não menospreza a atividade das “históriai” (investigações em grego), antes a propõe como atividade específica, aquela que trata de questões pontuais e inequívocas.

Já a poesia, para ele, por ser uma atividade imitativa, abre a possibilidade de ser uma fictio/ficção e, assim observada, não trata de um evento específico, mas de um fato generalizante e genérico, no mais das vezes, exemplar que pode atingir por similaridade a todos aqueles que o observam, inserindo-os no eixo ativo da fruição poética. Dessa forma, a poesia trabalha o universal em contrapartida à história que se fixa no particular. Daí o caráter educativo da poesia e da pintura que tão bem é verificado em outra obra do filósofo de Estagira, a Política.

Outro aspecto curioso da obra aristotélica é a sistemática aproximação entre a poesia e a pintura. Essa relação que, dentro da tradição ocidental, muitos atribuem a Horácio (Discutindo Literatura, 12) quando observa o “ut pictura poesis” (“como a pintura é a poesia”) na sua Arte Poética (Epístola aos Pisões), é muito anterior a ele. Na verdade, Simônides, poeta lírico grego arcaico já no século 6 a.C., tinha proposto: “a pintura é a poesia muda e a poesia é a pintura que fala”. Ou mesmo, Platão n’A República no século 5 a.C., quando critica a poesia mimética também se opõe a outras formas de mimese como a pintura. Entretanto, parece ponto recorrente na Arte Poética de Aristóteles esta aproximação. Compara, por exemplo, que pode haver pintura sem e com éthos (caráter), assim como poesia. Diz ainda que quanto ao objeto da imitação há pintores que se ocupam de imitar seres superiores; outros, de seres inferiores. Assim da mesma forma, que há uma poesia de caráter elevado ou baixo, também há pinturas desses matizes.

A Arte Poética, portanto, muito além de nos informar sobre o processo de composição de poesia na Antigüidade Clássica, nos indicando todos os passos que devem ser observados pelos poetas em sua atividade técnica, também registra certos aspectos culturais mormente aqueles que se filiam à educação e à formação do homem ocidental. Registre-se aqui, no entanto, um inconformismo que, talvez, tenha sido o mesmo que levou Umberto Eco a escrever o livro “O nome da rosa”: o desaparecimento do segundo livro da Poética.

**********************************************************************************

Para ler em português:



Aristóteles - Poética. Tradução: Eudoro de Souza. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda. 1992.


domingo, 22 de julho de 2007

As Catilinárias de Cícero

(Busto de Cícero - Musei Capitolini - Roma)

(Texto publicado na extinta Revista República. v. 52, p. 96, 01 fevereiro de 2001)


por Paulo Martins

Não é raro se ouvir em certos momentos de impaciência, ou mesmo, de intolerância a antiga sentença latina: "Quo usque tandem abutere, Catilina, patientia nostra?" (Até quando, enfim, Catilina, abusarás de nossa paciência?), absolutamente descontextualizada, fora de lugar mesmo, como forma de se mostrar que aqueles poucos anos de latinório do ginásio e clássico (desculpem a velha nomenclatura educacional) serviram para alguma coisa; mesmo que essa coisa, na maior parte das vezes, não passe de puro pedantismo, diletantismo, pernosticismo e outros "ismos" menos cotados.
Mal sabem os pronósticos (aplicados, é certo, nas aulas de rosa, rosae, rosam, rosa..., rosarum) que tal sentença abre um conjunto de quatro discursos pronunciados em Roma entre 8 de novembro e 5 de dezembro de 63 a.C. por Cícero, não o padre do sertão, mas o maior orador e retor romano, representante quase absoluto da oratória forense e senatorial, fato que, por si, o alavancou à magistratura máxima da República, o consulado.
Mas em que contexto a impaciência de Cícero deve ser aplicada? Dado que é um clássico, isso pouco importaria, mesmo assim, vale a pena lembrar que Catilina, a quem se refere o orador e mesmo o próprio Cícero faziam parte da elite, da aristocracia dominante que julgava, apesar do voto censitário, das desigualdades sociais, da impiedade econômica e do absoluto jugo expansionista, ser a República (Res publica) o modelo político mais adequado e até mesmo ideal para as plagas mediterrâneas.
No entanto, distinguiam-se. Um o senador atento às normas vetustas, um conservador; o outro, um homem empobrecido, arruinado, apesar da origem patrícia, e associado, por força de conseqüência, às causas populares (redistribuição de terras e perdão de dívidas junto ao estado), logo um populista empedernido. Mesmo sendo Cícero um homo nouus (homem novo), o que para os romanos muito significava, pois não possuía ascendência patrícia, conseguiu vencer Catilina pela via institucional para o Consulado de 63 e 62 a.C.
O segundo insatisfeito com este resultado optou pela via armada para chegar ao poder, defendendo a mudança de sistema. Foi veementemente rechaçado, ou melhor, morto por decisão do Senado a bem da República. A ação de Catilina tornou-se exemplar: contra o sistema vigente não há perdão, a exemplo de Cipião que anos antes já havia atentado contra Tibério Graco, este, porém, lídimo representante da plebe e defensor inconteste desta.
A série de discursos é tendenciosa, sem dúvida, no entanto traz à tona a questão do jogo do poder, não raramente, inescrupuloso, violento e, até mesmo, hediondo. Neles, Cícero traça o perfil do homem romano que ousou se colocar contra a urbs - bela metonímia de Roma. Ao lado d'As Catilinárias, outra obra deve ser lida: A conjuração de Catilina de Salústio cuja visão mais imparcial delineia monograficamente todo o processo de insurreição do período e mostra que próximo a Catilina somavam-se grandes homens da política da época, entre eles Crasso, aquele do erro. E isto significa que Catilina não agia tão pouco amparado como pode parecer com a leitura de Cícero. A história recente do Brasil oferece inúmeros exemplos de "Catilinas", homens que, ao se colocarem contra o establishment abraçam o populacho, aproximam-se das causas sociais, fingem agir em nome da maioria, porém, continuam sendo merecedores, hors-councurs, do troféu insensibilidade social. Distantes, portanto, das causas populares, homens públicos sistematicamente continuam a criar simulacros éticos em nome de seu próprio bem-estar. Nesse sentido, Cícero é atualíssimo.