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domingo, 29 de março de 2009

Sófocles, Sófocles, Sófocles

Folha de São Paulo São Paulo, sábado, 28 de março de 2009

RODAPÉ LITERÁRIO



FÁBIO DE SOUZA ANDRADE*
COLUNISTA DA FOLHA



QUANDO SE fala em traduções, o leitor brasileiro tem cada vez menos do que se queixar.
O mercado do livro ainda comporta preguiça ou vigarice ocasional, como no caso recente da Nova Cultural, editora que alimentou a plágio descarado toda uma coleção, mas nada disso passa mais batido. Se não chegamos a rivalizar com tradutores onívoros, como os franceses ou os americanos, aos poucos deixamos de fazer feio, e os sinais de vitalidade na extensão e na qualidade do que se traduz vêm superando os vexaminosos.

Recém-publicadas, três versões diretas das tragédias que abriram ("Aias") e encerraram ("Filoctetes", duas vezes) a produção em vida de Sófocles (496-406 a.C.), mais prolífico dos dramaturgos gregos, provam a tese. Apesar de propósitos e poéticas próprias, têm em comum o apuro editorial (textos bilíngues, apresentação e notas pertinentes, bibliografia), o cuidado filológico nas traduções e a aposta no não óbvio. Preenchem lacunas (não se trata de mais um Édipo Rei em português) e colhem frutos, todas, de uma decisão acadêmica acertada dos classicistas brasileiros: a de investir na oferta de textos criteriosos dos clássicos em vernáculo.

Heróis sofocleanos típicos, indivíduos do excesso (da excelência, no combate, da inflexibilidade, no caráter), confrontados com as razões da coletividade, Filoctetes e Ajáx sofrem ambos os reveses da sorte, privados da fama que, entre os gregos, coroa a existência dos mortais e premia a vida justa e bela. Herdeiro do arco divino de Héracles, Filoctetes é traído pelos comandantes na campanha contra Tróia, Menelau e Agamemnon e o astucioso Odisseu à frente. Sofrendo de ferida incurável no pé, vê-se abandonado numa ilha deserta, privado do convívio civilizado. Quando um oráculo mostra que sua presença é indispensável para que caia o inimigo, é hora de ajustar contas com sua honra ofendida.

Aias, ou Ájax, por sua vez, o segundo em força entre os gregos, sente-se ultrajado por não ter seu valor reconhecido e não receber as armas de Aquiles, morto em combate. Desprezando ajuda divina, arquiteta um plano de reparação do agravo imaginário, mas recebe de Atena, por punição, a loucura. Cego de fúria, avança cruento sobre ovelhas indefesas, seguro de estar matando a traição os inimigos. Quando recobra a lucidez, enfrenta o desafio de buscar uma saída digna para a vergonha pública que mancha seu nome. Conflitos entre pragmatismo político, reverência religiosa, altivez autossuficiente e compaixão humana fazem o interesse dessas peças sempre atual. Ter a chance de redescobri-las por meio de textos cuidados, essa é a boa novidade.


*Professor do Departamento de Teoria Literária e Literatura
Comparada da FFLCH da USP.

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Título: Filoctetes
Autor: Sófocles
Editora: 34
Tradutor: Trajano Vieira





Título: Filoctetes
Autor Sófocles
Editora Odysseus
Tradutor: Fernando Brandão dos Santos





Título: Aias (Ájax)
Autor: Sófocles
Editora: Iluminuras
Tradutor: Flávio Ribeiro de Oliveira

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Propércio 1, 12 - Uma Tradução

1, 12

Por que não paras de me imputar a calúnia da preguiça
Por que Roma, minha cúmplice, me retém?
Ela está a quilômetros longe de meu leito
Como está Hípanis (1) do vêneto Erídano (2)
Cíntia não me nutre amor com abraços de sempre
Nem me fala, doce, ao ouvido.
Outrora eu lhe era grato: naquele tempo, ninguém
teve a sorte de poder amá-la com igual fidelidade.
Fomos motivo de inveja! Um deus me oprimiu ou uma erva
colhida nos montes de Prometeu (3) nos separou?
Não sou o que fora: um longo caminho muda as meninas.
Hoje sozinho sou obrigado, antes, a conhecer
longas noites e a ser funesto aos meus próprios ouvidos!
Feliz aquele que pôde chorar com a menina presente;
o Amor em nada se alegra com lágrimas caídas
ou, se desprezado, pôde mudar as paixões,
Elas também são alegrias, mudado o jugo.
Mas nem fas amar outra nem desejar desistir desta:
Cíntia foi a primeira e o termo será Cíntia.

I, XII

Quid mihi desidiae non cessas fingere crimen,
quod faciat nobis Cynthia, Roma, moram?
tam multa illa meo divisast milia lecto,
quantum Hypanis Veneto dissidet Eridano;
nec mihi consuetos amplexu nutrit amores
Cynthia, nec nostra dulcis in aure sonat.
olim gratus eram: non ullo tempore cuiquam
contigit ut (4) simili posset amare fide.
invidiae fuimus: num me deus obruit? an quae
lecta Prometheis dividit herba iugis?
non sum ego qui fueram: mutat via longa puellas.
quantus in exiguo tempore fugit amor!
nunc primum longas solus cognoscere noctes
cogor et ipse meis auribus esse gravis.
felix, qui potuit praesenti flere puellae
(non nihil aspersus gaudet Amor lacrimis),
aut, si despectus, potuit mutare calores
(sunt quoque translato gaudia servitio).
mi neque amare aliam neque ab hac desistere fas est:
Cynthia prima fuit, Cynthia finis erit.


Notas:

(1 )Rio que deságua no Mar Negro na Samartia.
(2) Rio Pó.
(3) O Cáucaso na Cólquida. Cf. elegias i, 1, 24 e i, 5, 6.
(4) contingo + ut = acontece que, ter a sorte de.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Reeditada A Ilíada por Odorico Mendes

Título: Ilíada
Autor: Homero
ISBN: 978-85-7480-393-7

Resumo: Matriz literária do Ocidente, a Ilíada de Homero é o mais antigo texto escrito nos limites do Sol-Poente que chegou até nós e, decorridos vinte e nove séculos, continua mais fresco que o jornal que vai sair amanhã. Registrados no então recém-criado alfabeto grego, no oitavo século antes de Cristo, numa Grécia ainda arcaica, porém remontando a uma tradição oral que extrapolava ao infinito este limite e este tempo, os dezesseis mil versos da Ilíada, nas palavras de Haroldo de Campos, nunca decaem, oscilam entre o Pico das Agulhas Negras e o Everest. Tal monumento literário mereceu em todas as línguas modernas ocidentais o esforço dos mais insignes tradutores. O português teve a fortuna de ter do brasileiro Manuel Odorico Mendes (1799-1864), seu mais bem-acabado humanista, segundo José Veríssimo, a primeira tradução completa, vertida diretamente do original grego para a nossa língua, culminando num original português da Ilíada. Outras boas versões vieram, novas virão, oxalá sobejem, explorando e expondo a riqueza e possibilidades oferecidas pelos originais homéricos, mas dificilmente alguma, ou por razões artísticas ou por razões históricas, poderá abalançar-se a este patrimônio cultural dos países de língua portuguesa. A Ilíada de Odorico Mendes sempre representará um tesouro a quem a possua, em que pese as dificuldades apresentadas pelo texto. Restringir essas dificuldades aos últimos limites de nossa competência, entregando o leitor às delícias do poema, mais que traduzido, transgrecizado, foi o firme propósito desta edição, que traz, a cada verso, uma nota espelhada ao texto.

Sálvio Nienkötter
Medidas: 16 x 23 cm
Páginas: 912
Edição: 1ª
Ano: 2008
Encadernação: Capa dura
R$ 88,00

quarta-feira, 26 de março de 2008

Três Tragédias Gregas


ALMEIDA, GUILHERME DE E VIEIRA, TRAJANO - Três Tragédias Gregas. São Paulo: Perspectiva. 1997. 310p.



Paulo Martins




Três tragédias gregas, livro elaborado por Trajano Vieira, professor de Língua e Literatura Grega da Unicamp, pode ser elencado no rol de raridades de qualquer biblioteca. O qualificativo não provém de um ineditismo ou qualquer outro valor atribuído costumeiramente às obras raras. Antes, advém de um audacioso projeto cuja linha mestra reside no conceito do que venha a ser uma tradução poética.
Contudo, valores mais comuns também podem ser depreendidos dessa obra, que zelosamente é publicada pela Editora Perspectiva dentro da Coleção Signos, que tantas contribuições e gratas surpresas já proporcionou ao mundo das letras no Brasil.
O primeiro deles é a possibilidade de termos contato com 3 tragédias gregas de dois expoentes do gênero: Sófocles (496-406 a.C.) e Ésquilo (525-426 a.C.). O segundo, seguramente, está centrado na divulgação de traduções inéditas e poéticas, extremamente competentes, de Trajano Vieira para obras dos dois tragediógrafos, precedidas de cuidadosos ensaios introdutórios. Em terceiro, o acesso a inéditos de estudiosos das letras helênicas do século passado, em forma de tradução. E, por último, a revisão daquela que para muitos é a melhor tradução poética de Sófocles em língua materna: Antígone de Guilherme de Almeida, poeta modernista cuja verve no mundo da tradução é reconhecida por seu trabalho em As Flores do Mal de Charles Baudelaire.
Além disso, o livro Três Tragédias Gregas nos põe em contato com um belíssimo ensaio de Haroldo de Campos acerca das traduções do Prometeu de Ésquilo no XIX, afora uma tradução de sua lavra da Antígone de Hölderlin (Ato I, cena I).
Dessa forma, é composto dialogicamente por textos de tradução poética, sem os excessos de blá, blá, blá teórico que, muita vez, subverte a importância da poesia, ao deslocar o eixo da leitura do objeto para o sujeito, ou seja, não se dá mais importância ao texto crítico do que ao texto que o gerou. Assim, seqüencialmente os textos poéticos são apresentados e, a partir daí, o leitor atento pode se ater naquilo que há de semelhante e dissemelhante entre as diversas traduções de gerações diversas.
Talvez, a única falha editorial dessa obra esteja numa certa dissimetria editorial, que soa esquisito, pois é oferecido o contato com o texto original em grego em apenas uma das tragédias — Antígone. Se fosse sanada esta questão, o livro contribuiria ainda mais para o mercado editorial de Letras Clássicas.
Quanto às tragédias em si, imergem o leitor em dois estilos diferentes, porquanto Sófocles diverge muito de Ésquilo, não só quanto à complexidade como, também, quanto à forma de desenvolver a ação trágica e a construção de personagens e coros. Observará que em Ésquilo há uma maior importância do coro que dialoga de forma mais lírica e incisiva, além de submeter a vontade dos homens à dos deuses. Sófocles, por sua vez, um inovador segundo a concepção aristotélica da tragédia, concede uma maior importância às ações humanas, suas personagens são fundamentais ao desenvolvimento da ação.
Sófocles mostra as pessoas como elas deveriam ser, não obstante seus personagens estarem sujeitos a falhas humanas, são realmente heróis, afetados, pois, por motivos elevados. Não é de outra forma, por exemplo, que Antígone desafia nobremente o poder de Créon, ao não deixar seu irmão, Polinices, insepulto; desencadeando conseqüências trágicas fabulosas como sua própria morte, a morte do filho de Créon e o suicídio de Eurídice, esposa de Créon. Vale lembrar que esta ação se desenrola a partir da saga do genos de Édipo, uma vez que Polinices é um dos seus filhos amaldiçoados por ele, Édipo.
Ajáx, protagonista da tragédia homônima, é um excelente representante da arrogância humana (hýbris), pois inconformado de as armas de Aquiles terem sido dadas a outro (Odisseu/Ulisses), mata-se após recuperar-se de seu estado de demência com sua própria espada. Por conta de seus atos é condenado por Menelau e Agamemnon a permanecer insepulto. Contudo, num gesto de grandeza de alma, Odisseu os dissuade desta pena imposta àquele, constituindo-se assim o caráter típico do herói sofocliano.
Por sua vez, Ésquilo é, sem sombra de dúvidas, mais lírico que Sófocles, contudo isto não significa que seja melhor ou menor. Pode-se dizer, efetivamente, que são diferentes. Há que se pensar, sim, que suas tragédias possuem um viés religioso mais vigoroso. Suas personagens, afinal, estão submetidas às vontades divinas. Por conta de seu lirismo exacerbado, por vezes, foi tido como grandiloqüente — Quintiliano o considera por vezes canhestro —, principalmente, se comparado aos seus sucessores conhecidos (Sófocles e Eurípides). Suas tragédias constróem idéias edificantes acerca da fatalidade que é condicionada pelas vontades divinas e pelas paixões humanas.
O Prometeu acorrentado ou prisioneiro ou encadeado — variações possíveis para o título original — insere-se nesta característica da tragédia de Ésquilo. O titã Prometeu, que fora auxiliar de Zeus na imposição de seu poder sobre Cronos nas origens dos tempos (arché), constituí-se, como afirma Paul Harvey, no paladino da humanidade, por conta da defesa intransigente das carências e necessidades humanas, contrariando as vontades do poder supremo. Nesse sentido, é-lhe imposta por Zeus uma pena de prisão da qual só sairá após trinta mil anos.
A partir desses mananciais mítico-literários, que são inesgotáveis, Três Tragédias Gregas servem de palco para a proposição transcriativa ou recriativa de Guilherme de Almeida e de Trajano Vieira e, nesse ponto, atingimos o fulcro central da obra, porquanto as transcriações são o objeto dialógico sobre o qual o leitor deve se ater com mais vagar.
Ambos, cada qual a seu modo, não cedem a soluções simplistas e rápidas, tão comuns hoje em dia. Manejam o verso com a presteza necessária à empreitada a que se propuseram — oferecer ao leitor brasileiro tradução digna. Descartam soluções escolares ou tentativas humildes de um simples resgate cadencial. Interferem, assolam, debulham, esmerilham, burilam o verso de sorte a retirar dos mesmos efeitos sonoros, rítmicos, metafóricos, alegóricos propostos no original. Contudo, adaptados às necessidades vernaculares.
Nesse sentido, estabelecem um ambiente agonístico com os gregos antigos, tornam-se seus êmulos ao mesmo tempo em que os respeitam. O universo da tradução, enfim, foi representado nesta obra rara de brilho singular, mostrando aos incautos o quão difícil é a vida do (bom) tradutor.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

W.H. Auden

Ao republicar o texto sobre Poesia Alheia de Nelson Ascher que fora publicado no Jornal da Tarde em 1998, lembrei-me de uma belíssima cena de Quatro Casamentos e um Funeral, filme em que é falado o poema Funeral Blues de Auden.
Funeral Blues
Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.

Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message He Is Dead,
Put crepe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.

He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last for ever: I was wrong.

The stars are not wanted now: put out every one;
Pack up the moon and dismantle the sun;
Pour away the ocean and sweep up the wood,
For nothing now can ever come to any good.

Tradução de Nelson Ascher:

Que parem os relógios, cale o telefone,
jogue-se ao cão um osso e que não ladre mais,
que emudeça o piano e que o tambor sancione
a vinda do caixão com seu cortejo atrás.

Que os aviões, gemendo acima em alvoroço,
escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu.
Que as pombas guardem luto — um laço no pescoço —
e os guardas usem finas luvas cor-de-breu.

Era meu norte, sul, meu leste, oeste, enquanto
viveu, meus dias úteis, meu fim-de-semana,
meu meio-dia, meia-noite, fala e canto;
quem julgue o amor eterno, como eu fiz, se engana.

É hora de apagar estrelas — são molestas —
guardar a lua, desmontar o sol brilhante,
de despejar o mar, jogar fora as florestas,
pois nada mais há de dar certo doravante.

Poesia Alheia por Nelson Ascher

ASCHER, NELSON - Poesia Alheia. 124 poemas traduzidos. São Paulo: Imago. 1998. 378 páginas.



Paulo Martins



Poesia Alheia, livro de poemas traduzidos por Nelson Ascher, que acaba de ser publicado pela Imago, seguramente, é um marco na trajetória profissional deste poeta e crítico. Pelo menos desde 1983, quando publicou o pequeno grande livro Ponta da língua, que, estranhamente, não consta de sua bibliografia, Ascher nos encanta com sua capacidade de produzir boa poesia e, igualmente, excelente tradução poética, caso raro nos dias de hoje.
Infinitos seriam os argumentos que comprovariam tal acertiva, contudo três possibilidades já são válidas para que possamos incluí-lo no rol de grandes tradutores em língua portuguesa: sua consciência no trato do material poético a ser vertido, seu indiscutível conhecimento das línguas de origem e sua concisão.
Segundo ele próprio, “a tradução de poesia é uma arte à parte, singular, cercada por todos os lados de mal-entendidos e permeada, em todos os níveis, de paradoxos. Ela parece poesia, mas não é poesia; assemelha-se e, às vezes, confunde-se com a tradução propriamente dita (...), mas não é a tradução propriamente dita”. Esta consciência poética traz à tona conseqüências práticas dentro de sua “poesia-não-poesia traduzida" , ou seja, ao deparar-se com o empreendimento de tradução, Nelson sabe – e isto foi escrito por ele mesmo – que deverá trabalhar com um material que não foi elaborado “COM palavras”, como num romance ou numa novela, mas com um material composto “DE palavras”, a poesia.
Sua perspicácia, portanto, deriva da capacidade de compressão da importância da palavra, unidade singular, tijolo e cimento da construção de elefantes (perdoe-nos Drummond) ou, simplesmente, de poesia. Assim, tem a consciência de que o poeta utiliza todas, ou quase todas, as possibilidades semânticas, sonoras e significativas de seu material, buscando um resultado final denso, ou melhor, condensado o qual Pound tão bem soube expressar no ABC da Literatura , quando retomando Basil Buting, afirmava que a boa poesia observa a saturação da linguagem e, portanto, nada mais natural que o verbo alemão “Dichten” (Condensar) corresponde ao substantivo “Dichtung”, poesia.
Dessa forma, segundo Ascher, o resultado da tradução de poesia não é poesia, porquanto acata a proposição de Robert Frost que indica: “poesia é o que se perde na tradução”. Mas o que seria isto que resulta de um imenso engenho e arte? Outra solução não há, a não ser a de que o universo da tradução constitui um gênero da literatura no qual há uma interação física entre dois mundos, dois textos e dois indivíduos. Destarte, o resultado final desse “árduo trabalho” será algo que, apesar de calcado numa origem específica, será algo diferente: a poesia-não-poesia que jamais poderá ser considerada certa ou errada e tão somente boa ou ruim.
Realmente, o livro de Ascher compõe instrumentos inumeráveis para levar a cabo essa proposta de gênero literário, a começar pela diversidade temporal e espacial de seu manancial primeiro, o poema em língua estrangeira, diacronicamente tomado. Isto é, se o intuito é observar o resultado como gênero específico, pouco importa recorte temporal ou espacial, uma vez que o resultado é uma obra diferenciada, um génos específico, e este sim deve ser avaliado.
Noutro sentido, esta intenção soterra a possibilidade, talvez romântica, de se ler poesia estrangeira traduzida e, neste caso, quem deseje ler Yeats, Shakespeare, Borges, Horácio, cummings, Safo, Valéry, Ungaretti, Hölderlin não terá outra opção a não ser aprender, e muito bem, inglês, espanhol, latim, grego antigo, francês, italiano e alemão. E ainda, haverá de ter muito claro em mente que, ao ler as traduções desses autores, não estará lendo estes autores e, sim, um tradutor dos mesmos. Poder-se-ia crer, pois, na limitação da poesia à circunscrição lingüística que, talvez, a tornasse menos universal. Triste, porém instigante, dado que um poema geraria uma infinidade de outros poemas, quiçá, superiores àquele os gerou.
O que surpreende na leitura de Poesia Alheia, além do próprio paradoxo do nome (a poesia é própria, é Ascher), é a habilidade técnica no trato de línguas tão diversas e tão distantes, assim como os próprios poetas que apresentam o material, a arché dos poemas do livro. Em 1983, em Ponta da Língua, já causava espanto o tratamento dado ao poema 32 do poeta latino Catulo (I a.C.), transformando um simples epigrama erótico numa inscrição romana “arqueo-erótica”.
Hoje muito mais do que em 83, Ascher produz ótima poesia para quem não conhece a língua de origem e uma excelente tradução para o caso do conhecimento dos originais. Um exemplo disso é a excepcional capacidade de reproduzir a concisão de uma língua declinada, como o latim, trabalhada originariamente por um mestre absoluto dessa língua que é Horácio. Seguramente, por mais que se tente reproduzir os efeitos propostos pelo poeta romano da época de Augusto, sempre esbarraremos em restrições de cunho econômico-poético, fato esse superado com precisão cirúrgica por Ascher.
Se consegue recuperar, economicamente Horácio, nada se pode dizer do cuidado com que trata os poetas de língua inglesa, francesa, provençal, alemã, espanhola, italiana, eslava e hebraica, tão mais próximos no tempo. Nesse sentido, o ecletismo de Ascher, que para muitos poderia soar pejorativamente, recupera o preceito poundiano de “paideuma” cuja intenção visava a propor a leitura dos melhores em diversas línguas e épocas. O que facilmente pode ser aferido, ao percorrermos os 124 poemas de Poesia Alheia.
Outro ponto que vale ressaltar é a proposta de edição bilingüe. Se aceitarmos sua proposta de texto traduzido, o que ocorrerá, ao adquirirmos o livro, é possuirmos dois ou mais, uma vez que leremos Ascher e uma gama de mais de cinqüenta poetas diferentes.
Este livro ímpar está divido em dez partes. Nove delas que compreendem grupos de poetas, ou mesmo, um poeta apenas, como é o caso de Ungaretti e de um poeta anônimo provençal, classificados pela língua de origem, e mais, uma parte primeira, à parte, dedicada a um diálogo poético, fundado no conceito de emulação, pois trabalha diacronicamente o tema Roma durante um lapso temporal de quatro séculos.
Dessa forma dialógica, nos deparamos com poemas de Janus Vitalis, Du Bellay, Szarzynsky, Heywood, Quevedo e Goethe que são observados e trabalhados por Ascher sob o ponto de vista do lugar-comum Roma em Ruínas. Os textos recuperam o conceito de fugacidade da vida diante da grandeza física do centro do maior império da Antigüidade, que deveria ser ou é eterno:
"Recém-chegado, buscas Roma em Roma
sem Roma achar em Roma e quanto vês
– arco, palácio e muro –, o que se toma
por Roma ficou velho e se desfez." (Bellay)
ou
"Procuras Roma em Roma, ó peregrino,
mas não há Roma em Roma onde as muralhas
altivas transformaram-se em mortalhas
e, em túmulo de si mesmo, o Aventino." (Quevedo)
ou
"Tudo está vivo eem teus sagrados muros, Roma
eterna – é frente a mim só que se cala? (Goethe)"
ou
"Recém-chegado que, buscando Roma em Roma,
não encontras, em Roma, Roma alguma,
olha, ao redor, muro e mais muro, pedras rotas,
ruínas, que assustam, de um teatro imenso:
Roma é isto que vês – cidade tão soberba,
Que ainda exala ameaças seu cadáver." (Janus Vitalis)
Apesar de parecer deslocada a primeira parte das demais, Nelson recupera uma estrutura imaginada, antológica, creio, procedendo a apresentação dos autores revisitados por origem lingüística. Nesse sentido, torna pública suas versões do latim que, como já vimos, primam pela concisão. Opera, portanto, uma mixagem temática que salta aos olhos dos mais atentos.
A seguir passa a compor bricolage poético: em provençal, inglês, francês, espanhol, italiano, alemão, húngaro, eslavo e hebraico onde ecoam preciosidades como a Ode 1,5 de Horácio (para Pirra), To his coy mistress do Metafísico Inglês Andrew Marvell, Funeral Blues de W.H. Auden, Le Sylphe de Paul Valéry, Amor constante más allá de la muerte de Quevedo, Instantáneas de Octavio Paz, Variazioni su nulla de Ungaretti, Der Abschied de Friedrich Hölderlin e outros.

terça-feira, 3 de julho de 2007

Ovídio por Bocage ganha segunda edição

Ovídio por Bocage
por Paulo Martins
(Texto publicado originariamente na Revista Bravo!, v. 40, p. 102 - 102, 02 jan. 2001.)

Ovídio foi o poeta mais eclético e copioso de Roma. Seu repertório sintetiza largo espectro de gêneros, que passam a ser produzidos a partir do I séc. a. C. com a incursão de novas práticas poéticas, antagônicas às produzidas até então. Esta nova poética, cujas principais características eram a predileção pelo diminuto, pelo detalhe, pela rapidez e pela leveza, contrapunha-se à sisudez de versos civis e vetustos que ocupavam a cena poética até então. Entretanto, a novidade romana não era tão nova, antes se filiava ao alexandrinismo - momento artístico-cultural do mundo helenístico.
Assim, Ovídio deve ser visto como síntese, pois ocupa certa seara poética que já havia sido cultivada por Catulo, Horácio, Virgílio, Propércio e Tibulo, poetas significativos para aquilo que o Mundo Moderno chamou de Antigüidade Clássica e possuidores de importância decisiva na formulação de técnicas prescritivas e de motivos nas artes clássicas dos séculos XVI, XVII e XVIII.
Mais do que outro poeta antigo qualquer, Ovídio serviu de modelo e êmulo para Chaucer, Ben Jonson e Shakespeare, que não satisfeito em tomar motivos ovidianos em seus textos, chega a reproduzir seus versos como é o caso de "At lovers' perjuries/they say Jove laught - Dizem que Jove ri dos perjúrios dos amantes" (Romeu e Julieta, II, 2). A sua influência, contudo, não se restringe às artes verbais. Muito já discutiu sobre sua importância para as artes plásticas do século XVI. Seu texto mais relevante, As Metamorfoses, direta ou indiretamente, foi fonte para Ticiano em Perseu e Andrômeda (Wallace Collection - Londres) e para outras figurações do período.
As Metamorfoses são uma coletânea de relatos mitológicos que, aparentemente, não possuem conexão, a não ser pelo fato de revitalizarem a narrativa mitológica do ponto de vista de um gênero poético-didático. O poema é composto de 15 livros que tratam aproximadamente de 250 lendas etiológicas, mostrando o nascimento de seres e, fundamentalmente, sua transfiguração em outros e daí, justamente, o nome da obra.
Há de ser observado, também, como o mundo moderno se apropriou d'As Metamorfoses, tendo em vista sua circulação, nos meios eruditos e vulgares. Se a alusão já caracteriza certo empenho na divulgação, o que dizer de sua tradução ou de sua adaptação? Pois bem, são incontáveis as alusões e traduções deste texto de Ovídio, que, principalmente, em língua portuguesa permaneceram absolutamente inacessíveis.
Hoje está mais fácil entrar em contato com o Ovídio d'As Metamorfoses, pois uma belíssima edição, ou, pelo menos, parte dela em português, acaba de ser lançada pela jovem editora Hedra, em sua Coleção Tradutores, que procurará divulgar traduções clássicas de textos clássicos. No caso específico, a tradução - excepcional - é assinada por Bocage, que, nesse sentido, justifica sua filiação árcade ao traduzir parte dessa obra. Afinal, muito se fala na recuperação dos motivos clássicos a partir da renascença, mas pouco se mostra empiricamente como isso se efetiva.
O livro, muito bem cuidado, traz o texto original em latim ao final, fato que para os mais preciosistas pode incomodar, pois dificulta a conferência da tradução com o original. Por outro lado, oferece bela introdução acerca da técnica da tradução no século XVIII, feita com esmero e atenção por João Angelo Oliva Neto, professor de Língua e Literatura Latina da USP e conceituado tradutor das letras greco-latinas.

quinta-feira, 21 de junho de 2007

Odorico Mendes, beleza e engenho para verter os clássicos

(texto publicado originariamente no extinto Caderno de Sábado do Jornal da Tarde em 30/01/1999)

por Paulo Martins


“Consola-se o Maranhão, também à Atenas,
que lhe deram por antonomástico, nunca
jamais lhe voltou o tempo de Péricles”
José Veríssimo


Falar acerca de Manuel Odorico Mendes (1799-1864) é algo temerário, pois para parte da crítica literária, seu nome não vale mais do que uma nota de rodapé num manual de história da literatura brasileira ou, no máximo, a sua presença restringe-se como exemplo de mau gosto; por outro lado, para outra parte desta crítica seu nome é sinônimo de pioneirismo, habilidade técnica, audácia e competência artística.
Ao primeiro grupo filiam-se nada mais nada menos do que Antonio Candido e Sílvio Romero; ao segundo, Silveira Bueno, Haroldo de Campos, Antonio Medina Rodrigues, entre outros. Nesse sentido, não há como balizar nossa opinião sobre a obra de OM, pautando-nos em opiniões alheias, porquanto tanto um grupo como outro exigem respeito e atenção.
Maranhense, contemporâneo e amigo de Gonçalves Dias e mestre de Sousândrade (No seu Guesa Errante, o chamou de “pai rococó”), pouco nos deixou de sua obra poética, propriamente dita. Isto, se imaginarmos que o território da tradução poética não seja um gênero literário carecedor da mesma atenção e rigor que os gêneros tradicionais recebem por parte da teoria literária. Como esta questão parece-nos pacificada, a obra de Odorico Mendes deve ser considerada ingente e digna de ser observada atentamente.
Filiado ao pós-arcadismo ou ao pré-romantismo, operou uma tarefa sem precedentes nas letras portuguesas: a tradução poética das epopéias homéricas - Ilíada (1874) e Odisséia (1928 – reeditada por Antonio Medina Rodrigues, em 1992 – Edusp) e de todo o Virgílio que nos restou da Antigüidade - As Bucólicas, As Geórgicas e A Eneida. A este último grupo de obras foi dado o nome de Virgílio Brazileiro (1854 – única obra publicada em vida), algo curioso, pois renomeia as obras clássicas como se suas fossem. E, de fato, são.
As traduções de Homero e Virgílio até hoje são marcos para os estudos clássicos nos países de língua portuguesa. Primeiramente pela destreza com o verso decassilábico, em segundo, pela concisão, em terceiro pelo indiscutível conhecimento das línguas de origem, o grego e o latim, como a de chegada, o português.
Cabe aqui tornar público um caso muito comentado: Certa feita, uma pessoa se dirigiu a um conceituado livreiro e lhe encomendou uma tradução de uma das épicas homéricas, mais do que rapidamente, o livreiro, conhecedor da fama de OM nos meios acadêmicos, lhe trouxe as traduções do maranhense. Uma semana após, aquele que havia encomendado, assustadoramente, devolveu a obra, afirmando que para ler “aquilo” mais fácil seria aprender o grego antigo.
Este, talvez, seja o ponto nevrálgico das discordâncias sobre Odorico Mendes. Seu português é difícil, muito difícil, o que o torna quase intransponível, contudo, ainda assim, impecável. Tanto isto é verdade que José Veríssimo afirmava que suas versões eram fidelíssimas, contudo de leitura custosa.
Para assimilá-lo são necessárias calma e persistência – características dos bons leitores – , da mesma forma que para ler Guimarães Rosa, James Joyce, Saramago, Ezra Pound, T.S. Eliot e Camões também são necessárias as mesmas qualidades. Porém, passado o estágio inicial de adaptação, o leitor toma contato com preciosidades poéticas insuperáveis até hoje, mais de um século após sua publicação. Além do mais, há trechos onde a beleza e o bom gosto superam, de longe, a mínima dificuldade como, por exemplo, o símile homérico (Ilíada, Canto VI) acerca da efemeridade da vida:
“(...) Como as folhas somos;
Que umas o vento as leva emurchecidas,
Outras brotam vernais e as cria a selva:
Tal nasce e tal acaba a gente humana.”

Dessa maneira, os qualificativos depreciativos aplicados a Odorico Mendes nos parecem excessivos, principalmente, quando Sílvio Romero, afirma que são “monstruosidades, escritas em português macarrônico”; ou quando Antonio Candido o julga “bestialógico” ou considera sua obra um “preciosismo do pior gosto” ou um “pedantismo arqueológico”, ou um “ápice de tolice”.
O estranhamento por parte desses críticos reside ora na descontextualização da obra de OM, ora, o que é pior, na aplicação de conceitos anacrônicos que exigem do texto certa atitude que não lhe era exigida à época de sua composição, ora na falta do cotejo com os originais que faz saltar aos olhos as fantásticas soluções de tradução.
Daí soar perfeita a ponderação de Haroldo de Campos: “O pioneirismo odoriciano no enfoque dos problemas da tradução (tanto na prática desta, como nas notas teóricas que deixou a respeito) só poderá ser devidamente avaliado se pusermos em relevo, como traço marcante de todo o trabalho no campo, a concepção de um sistema coerente de procedimentos que lhe permitisse helenizar ou latinizar o português, em lugar de neutralizar a diferença dessas línguas de origem, restaurando-lhes arestas sintáticas e lexicais em nossa língua.”
No mesmo esteio, Antonio Henriques Leal (apud Bosi, 1983) afirma que “suas versões, estritamente literais, foram julgadas indigestas quando não ilegíveis; opinião discutível na medida em que o literalismo pode concorrer para a forja de um léxico novo e colar-se ao espírito do original.”
O que observamos, ao lermos as traduções de OM, é uma nítida intenção de projeto de tradução, fato esse somente levado em consideração no Brasil muitos anos após sua morte, quando tradutores como José Paulo Paes, Augusto e Haroldo de Campos, José Cavalcante de Souza, João Angelo Oliva Neto, Antonio Medina Rodrigues, Jaa Torrano e outros passaram a elaborar trabalhos de tradução que seguiam rigorosamente um projeto tradutório. Ou seja, Odorico é um mestre tradutor, avant la lettre. Isto, certamente, não foi considerado por seus detratores.
Há em seu trabalho, pois, linha condutora que é operada em todo o conjunto produzido. É coerente. Ademais, há, em seus textos traduzidos, um número sem fim de referências intertextuais que fazem despontar seu universo de leitura, sua paidéia. Poundianamente falando, seu paideuma torna-se visível. Assim, pode-se dizer que o resultado traduzido oferece mais que a simples transposição de um texto de uma língua para outra, antes, possibilita certo resgate crítico. Seria ele, Odorico Mendes, poeta, crítico e tradutor, simultaneamente, nos moldes que hoje em dia reconhecemos esta tríplice tarefa. O que o tornaria, no jargão letrado, um transcriador ou recriador.
Antonio Medina Rodrigues, bem salienta: “As notas [à tradução] compreendem não só observações sobre a obra completa dos grandes épicos, mas também sobre poetas como Camões, Ariosto, Milton, Tasso, Filinto Elísio, Chateaubriand, Chénier, Voltaire, Madame Staël etc., como referências comparativas, ligadas quase sempre ao esclarecimento de problemas direta ou indiretamene relacionados com a tradução.”
Porém, para evitar um quê de anacronismo crítico, OM simplesmente resgata o conceito antigo de emulação, na medida em que o processo inventivo, mimético por excelência, observa a produção textual anterior e a recicla como reflexo de modelo a ser seguido. Muita vez, ainda a citação é imediata, ipsis litteris, tal técnica, prevista retoricamente, cria certa cumplicidade entre autor e leitor, porquanto o primeiro cita para que o segundo reconheça, ludicamente.
Dessa forma, tanto para os mais modernos, como para os mais antigos, Odorico nisto é perfeito. No primeiro caso, agindo como transcriador que opera a tradição, formatando seu universo crítico. No segundo caso, tradutor que reconhece as práticas retóricas que passam pelo trinômio: inventar, imitar e emular.
Sob outro recorte, o grego em mais momentos do que o latim, ambas línguas de origem dentro do manancial de tradução do maranhense, oferece uma curiosidade interessante: a composição de palavras. Isto torna os textos homéricos extremamente concisos e com carga significativa diferenciada, uma vez que uma só palavra é composta de outras tantas. Assim, dentro de uma tradução, teríamos de usar em português uma frase para traduzir uma palavra.
Odorico foi o primeiro a solucionar este problema, criando inúmeros neologismos para aproximar o texto em português dos originais greco-latinos. Assim, surgem: infrugífero mar; altipotente Jove; celerípede Aquiles; olhiespertos gregos; nubicogo Saturno; arciargênteo Febo; Aurora dedirrósea; Nereida argentípede; auritrônea Juno; etc.
Tais epítetos, muito longe da bestialogia aferida por Candido, inserem-se, delicadamente no contexto, contribuindo com a fluidez desejada pelo épico, como nesta fala de Calipso na Odisséia (Canto V) :
“(...) Freme Calipso e rápido responde:
‘Cruéis sois todos, ínvidos, ciosos
De que em seu leito, às claras, uma deusa
Mortal admita e ame e aceite esposo.
Roubado Órion da Aurora dedirósea,
O invejastes, vós deuses, té Febe
Casta e auritrônia o derribou na Ortígia
Com brandas frechas;’ (...)”

Outra habilidade lapidar é o manejo com o verso decassílabo. Tanto as epopéias de Homero, como as obras de Virgílio haviam sido escritas utilizando o verso hexâmetro datílico (seis pés métricos cuja unidade mínima é o dátilo ou o espondeu), medida que se aproxima do alexandrino (doze sílabas poéticas). Odorico Mendes, entretanto, nos moldes renascentistas, opta pelo decassílabo (dez sílabas) – verso típico das epopéias em língua portuguesa (Cf. Os Lusíadas, O Uraguai e O Guesa). Afirma sobre esta questão Silveira Bueno em 1956, “Deu ao decassílabo toda a fluidez possível em tão pequena extensão de dez sílabas, movendo a cesura desde a quarta e oitava, acentuação par, até a de terceira e Sexta sílaba, acentuação ímpar.”
Esta opção lhe trouxe um problema significativo: a diminuição do espaço versificado. Ou seja, o poeta-tradutor além de adequar sua versão a uma língua menos concisa do que o grego e o latim, ainda se arvorou no direito de diminuir o espaço para efetivar sua tradução. Isto não é tudo. Suas traduções, limitadas pelo tipo de verso escolhido, ainda, são mais concisas que o original. OM consegue vestir um pé 42 num sapato 40 e o resultado lhe é excepcionalmente confortável. Isto é o resultado traduzido não deve nada em conteúdo e seu tamanho é menor que o original.
Assim, ao se fazer o cotejo com o original, facilmente, se observa a não-linearidade entre o texto de origem e o resultado final (a Odisséia no original possui 12106 versos, enquanto sua versão 9302) . Este feito, se, por um lado, dificulta a operação de comparação para aqueles que não tem acesso ao idioma de origem, por outro, assevera a indiscutível habilidade do mestre tradutor com o sistema de metrificação e com aquilo que se espera da boa poesia, concisão.
O mundo da tradução no Brasil, apesar de tentativas esparsas, constituí-se, ainda hoje, incipiente, principalmente, se forem observados os clássicos greco-latinos. Em outros países, mormente, os centrais, há aquilo que chamamos tradição da tradução. Somam-se, diacronicamente, séries de tradução de um mesmo texto. Dessa maneira, imperfeições, erros e titubeios – e afinal como diria Horácio até Homero dormita – são sanados de geração para geração.
Isto ainda não ocorre no Brasil, haja vista que para as obras homéricas só possuímos duas versões em verso (Odorico Mendes e Carlos Alberto Nunes), da mesma forma que para as obras de Virgílio são também escassas as possibilidades. Nesse sentido, mesmo que verídicas as afirmações depreciativas acerca do trabalho de OM (e não acredito que sejam), sua relevância já estaria posta à prova, pois ele foi o primeiro perpetuar no vernáculo as obras fundadoras da civilização ocidental, além de apresentar caminhos importantes na difícil vida do tradutor.
Ademais, deixemos que a dedirrósea Aurora faça os seus textos falar, pois somente o tempo e as letras podem comprovar sua importância primeva; além disso, fiat iustitia et pereat mundus! (faça-se a justiça ainda que o mundo pereça!).