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segunda-feira, 15 de setembro de 2008

O Amor entre os antigos II

Mosaico Romano de Nápoles - 70-10 a.C. - The British Museum - GR1856

Paulo Martins

Falar sobre o amor na Antigüidade grega e romana, seja após as inferências de Freud, seja a partir de uma diletante curiosidade, nascida dos inúmeros livros de mitologia, parece tarefa estéril senão tola. Contudo, um olhar mais atento acerca de sua permanência, ou mesmo, o que ela tem a dizer nesse mundo pós-moderno, pode ser uma aventura agradável e até mesmo interessante.

Quando falo da permanência desse amor antigo no mundo de hoje, nada há que nos leve a pensar que o amor em todas suas instâncias seria o mesmo, ou ainda, que para nos conhecermos melhor nessa matéria teríamos de buscar o princípio de tudo no mundo greco-latino - pura bobagem! O amor, sentimento, atração física, emoção, basta-se e qualquer teorização fica muito aquém do objeto observado.



Taça romana de vinho em prata - 50-25 a.C. - The Getty Museum, Malibu - 75-AM-55


Detalhe

Mas por que, então, nos referimos ao amor como obra de Vênus ou que fomos tocados pelas setas de Cupido, aquele pequenino ser alado que possui força inversamente proporcional ao seu tamanho? Rita Lee poderia muito bem responder dizendo "Lá no reino de Afrodite, o amor passa do limite...". Mas vamos deixar Rita em paz!

O amor em Roma e Grécia é mais palpável e, justamente, por possuir essa concretude, parece também mais digno de comentários e associações, coisas que faltam nas sociedades ditas ocidentais e pós-românticas que, vez por outra, propõem certa distância entre o sentimento e sua concretização, e qualquer tentativa de consolidação artística ou não do mesmo passaria por uma sublimidade que o amor efetivamente não tem. Afinal, não há como duvidar que ele seja concreto.


Carecemos, hoje, de algo, que no teatro do mundo ou no mundo das representações, constitua-se como representação concreta do amor. Por sermos essencialmente românticos, procuramos, paradoxalmente, a metafísica do amor, principalmente, quando esse amor não fornece sua própria consubstanciação. E mesmo quando a temos, buscamos representação factível, possível para ele fora do mundo sublime! E assim chegamos aos antigos. Eles nos dão explicações concretas para o que sentimos. Suas representações apesar de serem divinas, são concretas, são reais, realizáveis.


Mas os romanos e os gregos acreditavam em seus mitos? Eles conseguiriam entendê-los fora do âmbito religioso? Isso não seria apenas denominação do sublime “pós-tudo”? E, nesse sentido, não seriam tão românticos quanto nós?


Certo é que os romanos já não se encantavam tanto com os mitos quanto os gregos, porém as representações concretas do sentimento por intermédio dos mitos, senão eram as mesmas, estavam muito próximas daqueles que as inventaram. Tanto isto é verdadeiro que é impensável o amor antigo, em Roma ou na Hélade, apartado de sua condição representativa, o mito.


Dessa forma, careceríamos do veículo da representação. Pois bem, a única possibilidade para o mito é o texto (verbal ou não). A literatura e as artes figurativas são, portanto, os veículos capazes de produzir o resgate das categorias mentais que norteavam aqueles homens diante de seus sentimentos. Ou seja, um dicionário de mitologia não faz o menor sentido para nós se estiver distante da própria veiculação dos mitos que eram os poemas e as imagens. Amiúde, sou questionado sobre os mitos, e minha resposta é imediata: em que texto, em qual imagem?

The Mazarin Venus - Roma, 100-200 d.C. - The Getty Museum, Malibu - 54.AA.11

Hoje o mito sem a literatura e as artes não passa de lucubração, pela simples falta de referente textual e, portanto, concreto. Do que adianta saber que Afrodite nasceu da espuma do mar e do sexo extirpado de Urano? Que Apolo faz parte da segunda geração olímpica? Que doze eram os trabalhos de Hércules? Nada! Assim, prefiro a história de João e Maria (de Jacob e Wilhelm Grimm, os irmãos) ou a do Gato de Botas (de Charles Perrault), sem falar dos contos de Andersen que, por conta de sua proximidade com o meu imaginário, teriam muito mais a dizer.

Entretanto, quando associamos a divindade a um texto literário ou a uma imagem, resgatamos o tal do referente, o mundo concreto. O signo imposto pelo mito brilha, e conseguimos entendê-lo como categoria de pensamento que busca a união daquilo que é transcendente - o amor, por exemplo - com aquilo que é concreto: o mito.

Assim nos deparamos com textos como esses de Safo (poeta grega do século VII a. C.), rogando à Afrodite: Vem junto a mim ainda agora, desfaz/ o áspero pensar, perfaz quanto meu ânimo/ anseia ver perfeito. E tu mesma - sê /minha aliada. Ou ainda, contabilizando os efeitos do amor, produzidos pela mesma deusa: "Sim isso/ me atordoa o coração no peito:/ tão logo te olho, nenhuma voz/ me vem/ mas calada a língua se quebra,/ leve e sob a pele um fogo me corre,/ com os olhos nada vejo, sobrezum-/ bem os ouvidos//frio suor me envolve, tremo/ toda tremor, mais verde que relva/ estou, pouco me parece faltar-me/ para a morte. (Tradução de JAA Torrano)

Enquanto, no primeiro texto, tem-se um típico procedimento religioso de atenção, no caso no amor; no segundo, desnudam-se os efeitos que o agente do sentimento pode efetivar. Portanto, o mito aproxima aquilo que é injustificável daquilo que vivido e concreto, sem que, necessariamente, estejamos próximos do mundo ritualístico da religião.




Deux Amours présentant le buste de Gê (la Terre) dans une couronneVe - VIe siècle après J.-C.Gê et les Amours Epoque byzantine, 395-643 apr. J.-C. - Musée du Louvre, Paris

Não só preocupados com esta relação (transcendente-real), os antigos se preocuparam em pintar a divindade com palavras. Assim não só temos o que o amor causa, o que pode propiciar sendo divindade, mas também como é figurado concretamente. Propércio, poeta erótico romano do século I a. C., numa bela elegia assim diz: "Quem quer que seja que pintou o Amor criança,/ não é certo que tinha mãos extraordinárias?/ Ele viu que os amantes vivem sem cuidado e que grandes bens pereceram por loucas paixões./ Ele mesmo adicionou, não em vão asas ligeiras/ e fez o deus voar no coração humano." (tradução Paulo Martins)


O exemplo, portanto, caracteriza justamente o que falamos no início, pois o amor só tem seus efeitos "existenciais", a partir da caracterização concreta. Os Cupidos (segundo a Mitologia, filhos gêmeos de Vênus) possuem asas rápidas como o vento, e nesse sentido, teríamos a representação da afecção amorosa que rapidamente penetra e agita o coração humano. Além do que a própria figuração é questionada e julgada, afinal quem quer que tenha sido seu pintor, as suas mãos eram extraordinárias, conseguiram efetuar a relação daquilo que sentimos com algo que absolutamente explicado no mundo concreto.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Marco Aurélio: Nova Descoberta Arqueológica na Turquia

Cabeça foi encontrada em ruínas de termas romanas na Turquia


Paul Rincon
Da BBC News

Arqueólogos desenterraram na Turquia partes de uma estátua gigante do imperador romano Marco Aurélio.

Os especialistas encontraram a cabeça, o braço direito e partes inferiores das pernas da estátua em um sítio arqueológico na antiga cidade de Sagalassos, no sudoeste do país.

Foi no mesmo local que a equipe liderada pelo arqueólogo Marc Waelkens, da Universidade Católica de Leuven, na Bélgica, encontrou, há pouco mais de duas semanas, a cabeça de uma estátua da imperatriz Faustina, a Velha.

No ano passado, os arqueólogos já haviam encontrado em Sagalassos uma estátua gigante do imperado Adriano.

Os pesquisadores acreditam que o local onde as estátuas estavam reunidas era provavelmente um frigidário, uma sala enorme com uma piscina de água fria, onde romanos se banhavam após mergulhar nas termas.

O sítio arqueológico faz parte de um complexo de termas romanas que está sendo cuidadosamente escavado pelos especialistas há 12 anos. O local teria sido atingido por um terremoto entre os anos 540 e 620 d.C., destruindo muitas estátuas.

Reprodução fiel

Os fragmentos da estátua de Marco Aurélio começaram a ser desenterrados no dia 20 de agosto, quando os arqueólogos encontraram um par de pernas quebradas na altura do joelho. Em seguida, acharam um braço direito com 1,5 metro de comprimento, cuja mão segurava um globo terrestre.

Mas foi ao encontrar a enorme cabeça de mármore que os pesquisadores identificaram a estátua como sendo de Marco Aurélio.

Marc Waelkens disse que a peça é uma das reproduções mais fiéis do imperador, que reinou do ano 161 d.C a 180d.C.

Marco Aurélio é lembrado por suas escrituras e já chegou a ser considerado mais como "um filósofo do que um soldado".

Mas apesar de sua paixão por filosofia, ele passou boa parte de seu reinado lutando contra tribos germânicas ao longo do rio Danúbio, na Áustria, onde morreu em 180 d.C.

Em 2000, o ator Richard Harris fez o papel de Marco Aurélio no filme O Gladiador.

Junto com Nerva, Trajano, Adriano e Antonio Pio, Marco Aurélio foi um dos "Cinco Bons Imperadores" de Roma.

Em geral, as administrações desses imperadores foi marcada por relativa paz e prosperidade política, militar e econômica.

sábado, 19 de julho de 2008

Metapintura e Intertextualidade

Hoje no acervo do MET de Nova Iorque, esta cratera, conhecida como cratera do grupo de Boston 00.348, parece-me bem interessante, por três motivos:

1) Representa aristotelicamente homens como nós, isto é, apesar de o deus Héracles, em escultura, estar sendo retocado e estar figurado no vaso, a atividade comum do artífice é central na pintura vascular.

2) Parece-me também que tal pintura é um caso típico de autoreferência, constituindo, pois, uma linguagem cuja função é metalingüística.

3) Apresenta um dialogismo com outra arte, a escultura. Porém não uma qualquer e, sim, uma específica, ou pelo menos, um escultor Policleto ou Policleito, como pode ser observado, principalmente pela posição das pernas, do torso e braços que imprimem, no final do século 5 e início do 4, mais movimento as formas e será canônica em Praxíteles, Lisipo e Míron:



Column-krater with artist painting a marble statue of Herakles, ca. 350–320 B.C.; Red-figure Greek, South Italian, Apulian. Attributed to the Group of Boston 00.348. Terracotta; H. 20 1/4 in. (51.51 cm). Rogers Fund, 1950 (50.11.4) - MET, Nova Iorque



Doríforo de Policleto - Museus do Vaticano


Apoxyomene de Lisipo - Museus do Vaticano



Hermes com o jovem dionísio de Praxíteles

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Assalto Medieval à Loba Capitolina

Texto extraído de La Reppublica, por indicação do Prof. Dr. João Batista Toledo Prado, diretamente da Cidade Eterna





La lupa del Campidoglio è medievalela prova è nel test al carbonio
La scultura era stata variamente attribuita all´arte antica, dagli etruschi ai romani


di Adriano La Regina


Nuove analisi al radiocarbonio eseguite sulla Lupa Capitolina confermano l´attribuzione della scultura all´epoca medievale. Le indagini sono state svolte in uno dei più attrezzati laboratori scientifici italiani per questo genere di attività, il Centro per la datazione e la diagnostica dell´Università del Salento. Accertamenti sulla datazione del celebre bronzo erano stati preannunciati dai responsabili dei Musei Capitolini il 28 febbraio 2007 a Roma, alla Sapienza.

Ma poi non se ne era saputo più nulla. Solamente nell´agosto del 2007 trapelarono le prime notizie sull´effettivo svolgimento delle analisi. Il 31 ottobre, infine, una nota di agenzia fece sapere che le indagini erano state eseguite, ma i risultati non furono divulgati: il Comune di Roma si era riservato il diritto di pubblicarli, ma non lo ha fatto. Le nuove informazioni sull´epoca del bronzo capitolino sono state così sottratte per circa un anno alla conoscenza del pubblico e degli studiosi.

La scultura era stata variamente attribuita all´arte antica: etrusco-italica, magno-greca, romana; secondo l´opinione più diffusa era considerata un oggetto di produzione etrusca dei primi decenni del V secolo avanti Cristo. A riconoscerne la fattura medievale è stata Anna Maria Carruba, la quale per prima aveva accertato che la Lupa era stata fusa a cera persa col metodo diretto in un sol getto, tecnica adottata per i grandi bronzi nel Medio Evo e non in epoca precedente; aveva anche constatato che le superfici della scultura non presentavano i segni caratteristici delle lavorazioni antiche, bensì quelli riscontrabili su tutti i bronzi di epoca medievale. I risultati, insospettati e strabilianti, furono pubblicati dalla Carruba nel dicembre 2006 suscitando attenzione internazionale, specialmente in Germania ove le ricerche sulle antiche tecnologie sono molto avanzate.

In Italia, nel mondo degli studi di storia dell´arte antica, si ebbero reazioni non unanimi con segni di contrarietà tra quegli archeologi del Comune di Roma che avevano sottovalutato e respinto le ripetute segnalazioni di Anna Maria Carruba, impegnata nel restauro della Lupa tra il 1997 e il 2000. Anche contrari sono stati taluni ambienti accademici insofferenti dei successi dovuti alle nuove tecniche di indagine; il lavoro della Carruba ha inoltre infranto definitivamente il vecchio pregiudizio di un rapporto gerarchico tra lo storico che interpreta i fenomeni artistici, e gli altri ricercatori che studiano la materia dell´opera d´arte e le sue trasformazioni.

La Lupa è un´opera d´arte possente, raffinata e complessa. Ha sempre esercitato un fascino particolare, ha evocato miti e leggende. Theodor Mommsen (1845) osservò che il bronzo, da lui considerato genericamente antico, benché horridum et incultum lo commuoveva più delle belle sculture presenti nel museo. L´attribuzione all´arte etrusca risaliva però già al Winckelmann (1764), il quale aveva tratto questa convinzione dalla rappresentazione appiattita dei riccioli e delle ciocche del pelame che in ogni successiva trattazione sarebbero rimasti l´oggetto di raffronto stilistico con altre opere d´arte.

La successiva storia degli studi riguardanti la Lupa è stata offuscata da informazioni erronee, superficiali e fuorvianti su restauri mai eseguiti, come quelli relativi alla coda, oppure su danni subiti, che in realtà sono difetti di fusione. Già nella sua Roma antica Famiano Nardini (1704) attribuiva a un fulmine le lesioni alle zampe, identificando così la scultura con la statua di bronzo dorato, raffigurante Romolo allattato dalla lupa, folgorata nel 65 avanti Cristo sul Campidoglio. Gli aspetti iconografici del bronzo capitolino hanno dimostrato solo generiche analogie con l´arte antica. L´analisi stilistica si è per lo più rivolta all´interpretazione dei caratteri non classici, considerati «italici». Soprattutto nella scuola germanica la critica ha insistito anche per la Lupa nella ricerca strutturale (Strukturforschung), teorizzata negli anni Trenta da Guido Kaschnitz von Weinberg, un eminente storico dell´arte antica. Sulla scia teorica di Kaschnitz sono gli studi sulla Lupa di Friedrich Matz (1951), che vi ha riconosciuto un prodotto dell´arte etrusca. Questa posizione interpretativa è stata ancora ribadita da Erika Simon (1966).

Il primo a dubitare dell´antichità della Lupa è stato Emil Braun (1854), segretario dell´Istituto di corrispondenza archeologica di Roma, il quale riconobbe nei danni alle zampe dell´animale un difetto di fusione e non i guasti prodotti da un fulmine. Successivamente Wilhelm Fröhner (1878), conservatore del Louvre, ravvisò nella scultura caratteri stilistici attribuibili all´epoca carolingia; infine Wilhelm Bode (1885), direttore del Museo di Berlino, fu parimenti dell´avviso che si trattasse con tutta probabilità di un´opera d´arte medievale. Queste rapide osservazioni nel corso del Novecento caddero in totale oblio.

La Lupa capitolina resta un´opera problematica, dovuta a una personalità artistica di cui occorrerà definire la posizione e il ruolo nel contesto della produzione scultorea, e in particolare bronzea, del Medio Evo nell´Italia centrale. I dati finora acquisiti consistono nell´accertamento del luogo di produzione, circoscrivibile in base alle terre di fusione nella vallata del Tevere da Roma a Orvieto (G. Lombardi, 2002); nel riconoscimento di una tecnica di fusione adottata in età medievale, documentata a partire dal XII secolo (Carruba, 2006); in una serie di analisi (radiocarbonio, termoluminescenza) più volte eseguite negli ultimi anni, che concorrono a indicare un´epoca di produzione compresa tra il secolo VIII dopo Cristo e il secolo XIV; le ultime, ripetute una ventina di volte l´anno scorso, offrono un´indicazione molto puntuale nell´ambito del XIII secolo.

L´autore è stato soprintendente ai beni culturali di Roma

(09 luglio 2008)

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Novo Busto de Júlio César em Arles, França


Foi encontrado no fundo do rio Ródano nas proximidades da cidade francesa de Arles um busto de Júlio César. Vale dizer que esta é a mais antiga imagem do general romano que se tem notícia e anterior à sua morte. Todos os bustos que tínhamos de César, excetuando à mascára de Turim, eram posteriores ao seu assassinato, feitas a partir de sua máscara mortuária. Segundo a Agência de Notícias de Portugal:
"A descoberta apenas foi anunciada terça-feira mas o busto, em mármore, tinha sido encontrado por um membro da equipa durante uma campanha realizada entre Agosto e princípio de Outubro de 2007 na margem direita do Ródano.
No total, foram retirados do rio cerca de 100 objectos, entre os quais um capitel coríntio em mármore, colunas e estátuas, incluindo a de um Neptuno, do século III d.C. Depois de estudados, deverão ser expostos em Setembro de 2009 no Museu de Arles.
'Todos estes objectos - conta Luc Long - têm uma história diferente.O César é o mais antigo, data da época republicana de Roma e atesta que nesta margem de Arles havia referências ao César vivo que tinha criado a cidade'. O busto, esculpido provavelmente entre 49 e 46 a.C., terá sido lançado ao rio após o assassínio de César, no período agitado que antecedeu a ascensão ao poder do seu filho adotivo, Otávio, primeiro imperador romano."

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Sirenes e Sereias

No imaginário contemporâneo, temos as sereias como seres mistos (mulher/peixe), cuja principal característica é a capacidade de encantamento por meio da voz. Assim, no mito, elas assaltavam os navegantes, encantando-os com seu belo canto, faziam-nos bater contra os penhascos nas proximidades da ilha de Capri no Tirreno. Há, porém, que se lembrar de que suas primeiras figurações, longe de indicarem a píscia forma, antes as propõem com forma de pássaro:


Hic tamen indicio poenam linguaque videri
commeruisse potest; vobis, Acheloides, unde
pluma pedesque avium, cum virginis ora geratis?
an quia, cum legeret vernos Proserpina flores,
in comitum numero, doctae Sirenes, eratis?
quam postquam toto frustra quaesistis in orbe,
protinus, et vestram sentirent aequora curam,
posse super fluctus alarum insistere remis
optastis facilesque deos habuistis et artus
vidistis vestros subitis flavescere pennis.
ne tamen ille canor mulcendas natus ad aures
tantaque dos oris linguae deperderet usum,
virginei vultus et vox humana remansit
.
Ovídio - Metamorfoses, V, 551-63


Sirene de Canosa - Museu Arqueológico de Madri

Sirene do Museu Arqueológico Nacional de Atenas


Vaso de Figuras Vermelhas - Com a figuração da Sereia e a tripulação de Ulisses - British Museum - BM440



Sirene - Vaso de figuras negras - Louvre

segunda-feira, 30 de junho de 2008

A Cobra Glikon

O misto romano a “Cobra Glikon”, reencarnação de Asclépio[i]. Seu culto, segundo Bandinelli (1988), era praticado na Dácia, em Mésio e na própria Roma à época de Antonino Pio. A lenda de Glikon e seu conseqüente culto adquirem certa força em Roma por ocasião de uma grande epidemia que assolou a cidade no segundo século de nossa era. Quanto à origem dessa representação, parece ter sido criada por um Alexandre, apadrinhado pelo procônsul da Ásia, Rutiliano, que tomara filha daquele como esposa. Este Alexandre serviu-se de uma cobra domesticada e lhe cedeu uma cabeça de humana e crina de cavalo. Tal representação assemelha-se à hipóstase de Kun, deus criador da mitologia egípcia tardia, cuja representação é a de uma serpente com cabeça de leão.

[i] Herói da Ilíada, conhecido por suas habilidades médicas, mais tarde elevado à condição de deus da medicina.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Exposição sobre Adriano - The British Museum


The British Museum
Hadrian: Empire and Conflit


http://www.britishmuseum.org/whats_on/future_exhibitions/hadrian.aspx


Opens 24 July



Explore the life, love and legacy of Rome's most enigmatic emperor, Hadrian (reigned AD 117–138). This unprecedented exhibition will provide fresh insight into the sharp contradictions of Hadrian's character and challenges faced during his reign. Objects from 28 museums worldwide and finds from recent excavations will be shown together for the first time to reassess his legacy, which remains strikingly relevant today.

Hadrian: Exhibition overview



This special exhibition will explore the life, love and legacyof Rome’s most enigmatic emperor, Hadrian (reignedAD 117–138).
Ruling an empire that comprised much of Europe, northern Africa and the Middle East, Hadrian was a capable and, at times, ruthless military leader. He realigned borders and quashed revolt, stabilising a territory critically overstretched by his predecessor, Trajan.
Hadrian had a great passion for architecture and Greek culture. His extensive building programme included the Pantheon in Rome, his villa in Tivoli and the city of Antinoopolis, which he founded and named after his male lover Antinous.
This unprecedented exhibition will provide fresh insight into the sharp contradictions of Hadrian’s character and challenges faced during his reign.
Objects from 28 museums worldwide and finds from recent excavations will be shown together for the first time to reassess his legacy, which remains strikingly relevant today.

Hadrian: Empire and Conflict catalogue by Thorsten Opper. This book is a great companion to the exhibition. £40 hardback, £25 paperback.


Hadrian (r. AD 117-138) is known for his restless and ambitious nature, his interest in architecture and his passion for Greece and Greek culture. This book and exhibition move beyond this image to give a new appraisal of this Emperor,Individual chapters of the book look at Hadrian the man as an individual; Hadrian the military leader and strategist; Hadrian the amateur architect who created magnificent buildings such as his villa at Tivoli; Hadrian the lover who defied his malefavourite Antinous after his mysterious death in the Nile; and Hadrian the traveller who tirelessly roamed his empire and its boundaries. The book will conclude with the legacy of Hadrian, including a discussion of the genesis of MargueriteYourcenar's famous Memoirs of Hadrian, about to be turned into a major Hollywood film.This important book is richly illustrated throughout with key works of art -both celebrated and less well-known sculptures, bronzes, coins and medals, drawings and watercolours.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Biquíni Antigo


É corrente atribuir a criação do primeiro biquíni ao estilista francês Louis Réard que o batizou com o nome do pequeno atol de Bikini, no Pacífico, onde os americanos haviam realizado uma série de testes atômicos. Mais do que isso "a famosa editora de moda Diana Vreeland (1903-1989) disse uma vez que o biquíni 'é a invenção mais importante deste século (20), depois da bomba atômica'. O lançamento do primeiro biquíni foi em 26 de junho de 1946 e causou o efeito de uma verdadeira bomba." (http://almanaque.folha.uol.com.br/biquini.htm)




Micheline Bernardini - 1946 no "primeiro" Biquíni

Entretanto, observando os mosaicos da Villa Armerina na Sicília, encontramos, talvez, os primeiros "biquínis" ocidentais, datados não da década de quarenta do século XX, mas do final do século III d.C.:



Talvez, a presença dessas imagens no final do século III ou início do IV d.C venha a produzir alguma reflexão acerca da liberalidade em relação ao corpo no mundo antigo greco-romano.

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No sítio oficial do sítio arqueológico tem-se o seguinte texto:

Presentazione di Iside Castagnola

"Ci sono luoghi per la storia, dove il tempo ha segnato la sua voce, la verità il suo enigma, nel cuore del mediterraneo, a Piazza Armerina nella dolce valle del casale, maestranze, ispirate scrissero, con la pietra, il testamento di tutta l'umanità classica mentre il vento del tempo, seppelliva le sue spoglie, apparì sulle tessere dei mosaici un racconto musivo, che aveva cucito l'eco di infiniti giorni per comporre le sembianze di memoria e cantare ai posteri il cunto, di Ulisse, di Ambrosia, il cunto della caccia e della vendemmia, il cunto dei giganti e quello dell'impero senza dimenticare mai il destino, umano, che nelle sue opere più significative rimane un mistero...."

La Villa Romana del Casale fu costruita tra la fine del sec. III e l'inizio del sec. IV d.C., nell'ambito di un sistema di latifondi appartenenti a potenti famiglie romane, che vi si recavano a caccia o in vacanza. Alcuni studiosi suppongono che la villa fosse appartenuta ad una personalità altolocata della gerarchia dell'Impero Romano (un Console), mentre altri sostengono che la villa sia appartenuta all'Imperatore M. Valerio Massimiano, detto Herculeos Victor.

Abitata anche in eta' araba, la villa fu parzialmente distrutta dai normanni, in seguito, una valanga di fango, provenienti dal monte Mangone, che la sovrasta, la coprì quasi totalmente.

Le prime campagne di scavo a livello scientifico, promosse dal Comune di Piazza Armerina, furono eseguite nell'anno 1881. Gli scavi furono ripresi nel 1935 fino al 1939, ed infine, con l'intervento della Regione Siciliana negli anni 50, fu portato completamente alla luce l'intero complesso, grazie all'opera dell'archeologo Vinicio Gentili.

La morfologia del terreno ha determinato la planimetria molto articolata della villa: vi si possono distinguere una parte residenziale intorno al grande peristilio centrale su cui si affaccia anche la basilica, una zona di rappresentanza con il peristilio ellittico (Xistus) e la grande sala trilobata (Triclinio), il complesso delle terme dal movimentato impianto planimetrico. Il cortile-porticato d'ingresso, a pianta irregolare, funge da cerniera tra queste tre parti. I mosaici furono realizzati da diversi gruppi di maestranze nordafricane che mediavano eredità alessandrine e tendenze siriache.

Ciò che più piacerà ai visitatori, senza dubbio, sono i magnifici mosaici del pavimento, in tutte le sale, che sono di una ricchezza e di una varietà tale che non ci sono paragoni nel mondo.Sebbene niente possa dare un'idea compiuta della mirabile decorazione musiva di questa fantastica, singolare, misteriosa villa, consapevoli che non si può rendere con parole ciò che può essere gioia solo attraverso gli occhi, vogliamo tuttavia offrire al visitatore la descrizione e una chiave di comprensione dell'immenso tappeto di mosaici pavimentali che ne fanno una gemma inestimabile nella storia dell'arte.

(http://www.villaromanadelcasale.it/)


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Alguma Bibliografia

Luciano Catullo and Gail Mitchell. The Ancient Roman Villa of Casale at Piazza Armerina: Past and Present. 2000.

R. J. A. Wilson: Piazza Armerina, Granada Verlag: London 1983.

A. Carandini - A. Ricci - M. de Vos, Filosofiana, The villa of Piazza Armerina. The image of a Roman aristocrat at the time of Constantine, Palermo 1982.

S. Settis, "Per l'interpretazione di Piazza Armerina", in Mélanges de l'Ecole Française de Rome. Antiquité 87, 1975, 2, pp. 873-994.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Ius Imaginum - Direito de Imagens


Retrato Fúnebre - Musée du Louvre, Paris (1)

Há uma passagem em Políbio (Livro VI, 53-54) que me parece bem interessante. Ela trata da utilidade, da finalidade de imagines mortuárias romanas. Tais esculturas fúnebres, apoiadas nas informações de Políbio, apontam para duas reflexões interessantes.

Retrato Fúnebre - Musée du Louvre, Paris (2)


A primeira diz respeito a um tipo de escultura romana a que a tradição deu o nome de "retrato realístico" (nome, talvez, algo anacrônico), isto é, retratos em que há uma preocupação com a proximidade com o modelo, mimetizando com todas as (im)perfeições inerentes ao figurado.

A segunda diz respeito à circulação dessas. Se, de um lado, são essencialmente privadas, pois devem ser reverenciadas no âmbito do domus (no columbarium), por outro lado, extrapolam essa privacidade ao serem expostas sistematicamente nos funerais junto aos rostros do fórum por ocasião da morte de um patrício pertencente a um determinada gens.

Essas reflexões nos levam a crer que o direito de imagens (ius imaginum) que, em princípio, era apenas da aristrocacia, vazará às demais classes sociais nos séculos seguintes ao fim da República Romana, como bem demonstram os Retratos de Fayoum.



Retratos de Fayoum: (1) Musée du Louvre; (2) The Getty Museum e (3) Staatliche Museen, Berlim


Columbarium II de Vigna Codini na Via Latina


53. Por ocasião da morte de qualquer homem ilustre ele é levado em seu funeral com toda a pompa até o Fórum, perto dos chamados Rostros, algumas vezes bem à vista em posição vertical, e mais raramente reclinado. Ali, com todo o povo de pé em volta, um filho crescido, se ele deixou algum que esteja presente em Roma, ou se não outro parente, sobe aos Rostros e pronuncia um discurso alusivo às suas qualidades e aos seus sucessos e feitos ao longo da vida. Conseqüentemente toda a multidão, e não apenas quem teve alguma participação nesses feitos, mas também quem não teve, quando os fatos são relembrados e postos diante de seus olhos comove-se e é levada a tal estado e empatia que a perda parece não se limitar somente a quem chora o morto e ser extensiva a todo o povo. Em seguida, após o enterro e a realização das cerimônias usuais, coloca-se uma imagem do defunto no lugar mais visível de sua casa, numa espécie de tabernáculo de madeira. Essa imagem consiste numa máscara reproduzindo com notável fidelidade a tez e as feições do morto. Nos dias de festas religiosas públicas essas imagens são expostas e ornamentadas cuidadosamente, e quando alguma pessoa importante da família morre os parentes as levam para o funeral, conduzidas por homens que pareçam assemelhar-se mais a, cada defunto em estatura e compleição. Esses homens vestem uma toga, com um debrum cor de púrpura se o defunto era cônsul ou pretor, toda de púrpura se ele era censor, e bordada de ouro se ele tivesse recebido as honras do triunfo ou alguma distinção desse gênero. Tais homens são levados num carro precedido por fasces, machados e outras insígnias às quais cada um dos personagens por eles encarnados tinha direito de acordo com a função que exercera em vida; quando eles chegam aos Ros­tros, sentam-se em cadeiras de marfim enfileiradas. Não seria fácil imaginar um espetáculo mais nobilitante e edificante para um jovem que aspire à fama e à excelência. De fato, quem não se sentiria estimulado pela visão das imagens de homens famosos por suas qualidades excepcionais, todos reunidos como se estivessem vivos e respirando? Poderia haver um espetáculo cívico mais belo que esse?

54. Além disso, o orador incumbido de falar sobre o homem prestes a ser enterrado, após pronunciar-se a respeito do defunto evoca os sucessos e feitos dos outros defuntos cujas imagens também estão presentes, começando pelo mais antigo. Por esse meio, por essa renovação constante das referências às qualidades dos homens ilustres, a fama dos autores de feitos nobilitantes é imortalizada, e ao mesmo tempo o mérito de quem prestou bons serviços à pátria chega ao conhecimento do povo, constituindo um legado para as gerações futuras. O resultado mais importante, porém, é que os jovens são estimulados assim a suportar qualquer provação pelo bem da coletividade, na esperança de obterem a glória que acompanha os homens valorosos. Os fatos confirmam essas minhas palavras. Com efeito, muitos romanos empenharam-se em combate singular para decidir uma batalha, e não poucos enfrentaram a morte certa, uns na guerra, para salvar a vida dos companheiros restantes. e outros na paz para salvar a pátria. Alguns magistrados chegaram ao ponto de, no exercício de suas funções, ordenar a execução de seus próprios filhos sem levar em conta qualquer costume ou lei, pondo assim os interesses do Estado acima dos laços naturais que os vinculam aos parentes mais chegados e queridos. Muitos fatos desse gênero pertinentes a muitos homens são relatados na história de Roma, porém um deles a respeito de uma certa pessoa bastará no momento como exemplo e a título de confirmação de minhas asserções.
(tradução de Mário da Gama Cury)

domingo, 13 de abril de 2008

Descoberta nova estátua equestre de mármore em Roma


Confira parte da reportagem da RAI:


Italy: Ancient statue discovered in Rome

Rome, 9 April (AKI) - A fragment of an ancient Roman equestrian statue that once adorned the Colosseum has been found during excavations near the world famous Italian landmark.According to the Italian daily, Il Messaggero, the fragment was discovered among the remains of an ancient pavement that once surrounded the amphitheatre."A marble fragment measuring one metre by a metre and a half, is from an equestrian statue, probably a statue that embellished the arches of the Colosseum," said archaeologist Silvana Rizzo, advisor to the minister of culture and tourism, Francesco Rutelli. "The left flank of a rider with the detail of a leg, bridle and harness of a horse, as well as a part of a dagger scabbard are perfectly visible from the fragment," said Rizzo, who has spent his life doing Roman excavations."They are details that suggest the statue of an emperor and left us with the hope that we could find the entire statue."According to Il Messaggero, the archeological find is a reminder of how many pieces of ancient sculpture are discovered on a regular basis in the Italian capital when centimetres of soil are swept away.Angelo Bottini, Rome's archeological superintendent, called the discovery of the equestrian statue "an exceptional discovery"."What's clear is this new discovery is the umpteenth demonstration of the underground surprises in Rome that are a gift to us," Bottini told the Italian daily.The new discovery could shed light on the statues that once adorned the exterior wall of the Colosseum. The Colosseum, also known as the Flavian Amphitheatre, was constructed by the Emperor Vespasian in 72 A.D. and inaugurated by his son Titus in 80 A.D. It was the largest amphitheatre ever built in the Roman Empire and considered one of the greatest examples of Roman architecture and engineering. But it has suffered extensive damage over the centuries due to earthquakes and pillaging.The arches on the third floor of the Colosseum were decorated by three eagles, signs of power in Rome, while the second floor had statues of ancient gods, Hercules, Apollo and Aesculapius.Experts believe the uncovered equestrian fragment could have been part of a statue above the Imperial entrance to the amphitheatre.More archaeological discoveries are expected to be uncovered as the city proceeds with construction of its third subway line near the Roman Forum, in the heart of the Italian capital.Construction on the 30-station line has already been interrupted several times as archeologists have uncovered ancient and mediaeval treasures.Under Italy's strict conservation laws, the city must decide whether any historic objects are removed or preserved.The 4.6 billion dollar subway line is expected to be completed in 2015.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Curso de Pós-graduação na FFLCH/USP - 1o. Semestre de 2008

No primeiro semestre de 2008, a partir do dia 2 de abril, será oferecida a Disciplina de pós-graduação no programa de Letras Clássicas da FFLCH/USP: "Lendo imagens: a representação pública romana na República e no Império" (FLC5967).

Início: 2 de abril de 2008
Término: 25 de junho de 2008
Dia da semana: Quarta-feira
Horário: das 8:30 às 12:30
Local: Prédio das Ciências Sociais/Filosofia - FFLCH/USP
Docente: Prof. Dr. Paulo Martins


Inscrições

Alunos Especiais: 1 - 11 de Janeiro de 2008 (encerrada).
Alunos Regulares já matriculados anteriormente (http://www.fenix.usp.br/): 21 de Janeiro - 1 de Fevereiro de 2008.
Alunos Regulares Ingressantes: 11 - 15 de Fevereiro de 2008 no serviço de Pós-graduação da FFLCH, no prédio da Administração da Faculdade.


Mais informações no serviço de Pós-graduação da FFLCH/USP.

Observação


Caso exista interesse em assistir ao curso como aluno-ouvinte, enviar e-mail para pamar62@yahoo.com.br, indicando qual é o interesse no curso.

Segue abaixo a apresentação do curso:


FLC5967 - Lendo Imagens - A Representação Pública Romana na República e no Império


I. Objetivos

O curso visa a considerar as práticas imagéticas e textuais como representações de personagens da história romana nos séculos I a.C. e I d.C.. Para tanto, parte da constituição de procedimentos retóricos e poéticos para o discurso verbal e da preceptiva pictórica e escultórica na Roma Republicana e Imperial para aferição do discurso não-verbal. Dada a escassez desta última, resgatar-se-á certa forma mentis romana a partir da consideração de um vocabulário imagético, que, como consuetudo e ius, delimita a recepção apta para esse tipo de linguagem, e daí, explorar-se o efeito produzido por essas representações, isto é, a recuperação das afecções da recepção e as finalidades dessas linguagens dentro do poder público constituído no período.


II. Justificativa
Como a interseção entre linguagens é hoje alvo de vários estudos nas mais diversas épocas e sociedades, é necessário que, num programa de pós-graduação em Letras Clássicas, se forme este tipo de reflexão interdisciplinar que atente para práticas artísticas dentro de uma visão mais eclética e geral, observando-se pontos comuns e divergentes dentro da perspectiva do uso das linguagens na sociedade clássica, mais especificamente, romana. Mais do que a simples aferição de procedimentos técnicos, é fundamental a recuperação das afecções que caracterizam a fruição das obras imagéticas e textuais, pois essa delimita certo tipo de público para o qual eram produzidos os textos imagéticos e verbais.


III. Conteúdo

1. Questões Metodológicas I: História literária e historia da arte. As marcas da descontinuidade das representações. A impossibilidade de existência de “o Clássico”:

a. Plínio, o velho – História Natural, Livros XXXIV, XXXV e XXXVI
b. Marcas da elocutio nas representações arcaica, clássica e helenística:
i. O geométrico




ii. As kórai e os kouroi



iii. O movimento clássico




iv. O cânone de Policleito



2. Questões Metodológicas II: Homologia entre o discurso verbal e visual: Uma doutrina.

a. Aristóteles: Arte Poética, Arte Retórica, Política

b. Platão: A República, O Sofista

c. Cícero: O Orador, Sobre o orador, Sobre a invenção
d. Horácio: “Vt pictura Poesis
e. Quintiliano: Instituições Oratórias, Livro XII.
f. Epicuristas, Estóicos e a segunda sofistica:
i. Lucrécio
ii. Marco Aurélio
iii. Hermógenes, o rétor


3. Realismo e Idealismo. Público e privado. Marcas da elocutio. Virtus e uitium:

a. A tradição itálica – Identidade entre modelo e representação


b. A tradição helênica – Ausência de modelo




4. A historiografia das “vidas”: Suetônio e Plutarco. A retórica epídititica:

a. Anônimo, Retórica a Herênio
b. Menandro, o retor, Dois Tratados de Retórica Epidítica


5. Éthos e páthos: Afecções. Disposição anímica: Phantasiai:






a. Aristóteles: Sobre a alma, Livro III.

b. A dicotomia entre alma e corpo. A fisionomia como reflexo da alma. Os tratados de Fisiognomonia.


6. A moeda como instrumento de propaganda política: a circulação do poder:




a. O meio circulante.

b. As oficinas e a cunhagem
c. Possibilidades de representação:

7. O passado como memória. O poder privado das máscaras mortuárias e o rito dos antepassados:



a. Políbio - História, Livro VI

b. A extensão do poder público ao domus. Os retratos de Fayoum.


c. Exempla como Argumentatio

8. O presente como poder. “Certa microfísica” do poder. Monumento e Documento.


a. Res Gestae Divi Augusti




b. A coluna de Trajano.


c. Colossum de Constantino.




9. O futuro como perpetuação das imagines: Ars longa. A representação dos Deuses:


a. Hinos Homéricos – Apolo e Zeus

b. Poesia Lírica - Afrodite

c. Elegíaca – Eros/Cupido/Amor

d. Priapéia Grega e Latina – Priapo


10. A divinização dos imperadores: Vita breuis. O deus como imperador e o imperador como deus. O Sublime.



a. Augusto/Júpiter do Hermitage




b. Augusto/Netuno do Museum of Fine Arts, Boston




c. Augusto/Apolo do Museu Arqueológico de Tessalônica e do Museu do Teatro Romano de Arles


d. Augusto em:
i. Propércio
ii. Horácio
iii. Virgílio – A Eneida, Canto, VI
iv. Ovídio



11. A parataxe e a hipotaxe na representação. Sintaxe das representações.


a. A táxis das tessarae nos mosaicos



b. A táxis dos mistos: A cobra Glikon. O Hermes-Thot. A Esfinge.
As Sereias.



c. Homologia entre o Império Romano e Carolíngio. A sintaxe da “Cruz de Lotário”



i. Dispositio/táxis como argumentatio.


12. Euidentia e ekphrasisDescriptio e narratio: Descritividade e narratividade

a. Homero - Ilíada

b. Virgílio - Eneida

c. Salústio – Conjuração de Catilina