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sábado, 19 de julho de 2008

Metapintura e Intertextualidade

Hoje no acervo do MET de Nova Iorque, esta cratera, conhecida como cratera do grupo de Boston 00.348, parece-me bem interessante, por três motivos:

1) Representa aristotelicamente homens como nós, isto é, apesar de o deus Héracles, em escultura, estar sendo retocado e estar figurado no vaso, a atividade comum do artífice é central na pintura vascular.

2) Parece-me também que tal pintura é um caso típico de autoreferência, constituindo, pois, uma linguagem cuja função é metalingüística.

3) Apresenta um dialogismo com outra arte, a escultura. Porém não uma qualquer e, sim, uma específica, ou pelo menos, um escultor Policleto ou Policleito, como pode ser observado, principalmente pela posição das pernas, do torso e braços que imprimem, no final do século 5 e início do 4, mais movimento as formas e será canônica em Praxíteles, Lisipo e Míron:



Column-krater with artist painting a marble statue of Herakles, ca. 350–320 B.C.; Red-figure Greek, South Italian, Apulian. Attributed to the Group of Boston 00.348. Terracotta; H. 20 1/4 in. (51.51 cm). Rogers Fund, 1950 (50.11.4) - MET, Nova Iorque



Doríforo de Policleto - Museus do Vaticano


Apoxyomene de Lisipo - Museus do Vaticano



Hermes com o jovem dionísio de Praxíteles

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Joel, White, Krall, Caymmi e Propércio

por Paulo Martins




Hoje pela manhã, Tatiana mostrou-me a regravação feita por Diana Krall (1964) para o CD "Live in Paris" (2002) de uma canção antiga de autoria de Billy Joel (The Piano Man): "Just The Way You Are", lançada no LP "The Stranger" de 1977 e, posteriormente, regravada por Barry White (1944-2003), no LP "The Collection" de 1978, versão com a qual a música ganharia notoriedade no Brasil. Certo é que esses dois grandes compositores e interpretes do R&B das décadas de '70 e '80 pareciam ter dado à composição tudo o que poderia ser dado.




Entretanto, como é de costume, Diana Krall releu com precisão o hit, imprimindo à música novo colorido e sabor sem que as qualidades anteriores fossem obturadas na releitura. A suavidade e beleza natural da interpretação são impecáveis. O piano e o violão são dignos de atenção, afora a voz sensível e plena de calor, sem esquecermos o tênue limite de conversão do R&B no mais puro Jazz.



Contudo o que mais me chamou a atenção, foram os versos "Don't go trying some new fashion//Don't change the color of your hair", cunhados por Joel. Eles, em certa medida, podem ser relacionados a outros dois momentos. Um primeiro mais antigo: Propércio, "elegia 1,2". Um segundo, bem mais recente: a canção de Dorival Caymmi (1914), "Marina" que foi regravada por Gilberto Gil em "Realce" de 1979.

A beleza feminina natural é um lugar-comum bem interessante e recorrente.

*_*_*_*_*_*_*_*


"Just The Way You Are"

Billy Joel

Don't go changing, try and please me
You never let me down before
Don't imagine you're too familiar
And I don't see you anymore

I would not leave you in times of trouble
We never could have come this far
I took the good times, I'll take the bad times
I'll take you just the way you are

Don't go trying some new fashion
Don't change the color of your hair
You always have my unspoken passion
Although I might not seem to care

I don't want clever conversation
I never want to work that hard
I just want someone that I can talk to
I want you just the way you are.

I need to know that you will always be
The same old someone that I knew
What will it take till you believe in me
The way that I believe in you.

I said I love you and that's forever
And this I promise from the heart
I could not love you any better
I love you just the way you are

I don't want clever conversation
I never want to work that hard
I just want someone that I can talk to
I want you just the way you are.

*_*_*_*_*_*_*_*

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*_*_*_*_*_*_*_*

Marina

Dorival Caymmi


Marina, morena
Marina, você se pintou
Marina, você faça tudo
Mas faça um favor
Não pinte esse rosto que eu gosto
Que eu gosto e que é só meu
Marina, você já é bonita
Com o que Deus lhe deu
Me aborreci, me zanguei
Já não posso falar
E quando eu me zango, Marina
Não sei perdoar
Eu já desculpei muita coisa
Você não arranjava outra igual
Desculpe, Marina, morena
Mas eu tô de mal
Marina, morena
Marina, você se pintou
Marina, você faça tudo
Mas faça um favor
Não pinte esse rosto que eu gosto
Que eu gosto e que é só meu
Marina, você já é bonita
Com o que Deus lhe deu
Me aborreci, me zanguei
Já não posso falar
E quando eu me zango, Marina
Não sei perdoar
Eu já desculpei muita coisa
Você não arranjava outra igual
Desculpe, Marina, morena
Mas eu tô de mal
De mal com você
De mal com você.

*_*_*_*_*_*_*_*


Propércio

I,II
QUID iuvat ornato procedere, vita, capillo
et tenuis Coa veste movere sinus,
aut quid Orontea crines perfundere murra,
teque peregrinis vendere muneribus,
naturaeque decus mercato perdere cultu,
nec sinere in propriis membra nitere bonis?
crede mihi, non ulla tuaest medicina figae sponte sua melius,
surgat et in solis formosior arbutus antris,
et sciat indocilis currere lympha vias.
litora nativis praefulgent picta lapillis,
et volucres nulla dulcius arte canunt.
non sic Leucippis succendit Castora Phoebe,
Pollucem cultu non Helaira soror;
non, Idae et cupido quondam discordia Phoebo,
Eueni patriis filia litoribus;
nec Phrygium falso traxit candore maritum
avecta externis Hippodamia rotis:
sed facies aderat nullis obnoxia gemmis,
qualis Apelleis est color in tabulis.
non illis studium fuco conquirere amantes:
illis ampla satis forma pudicitia.
non ego nunc vereor ne sis tibi vilior istis:
uni si qua placet, culta puella sat est;
cum tibi praesertim Phoebus sua carmina donet
Aoniamque libens Calliopea lyram,
unica nec desit iucundis gratia verbis,
omnia quaeque Venus, quaeque Minerva probat.
his tu semper eris nostrae gratissima vitae,
taedia dum miserae sint tibi luxuriae.

1,2
EM QUE te adianta, minha vida, andar com cabelos ornados
e ondular os trajes transparentes de Cós
ou espargir com mirra de Orontes os cabelos
e gabar-te com produtos estrangeiros
e perder a natural graça com luxo comprado
e não deixar brilhar o corpo com seus próprios encantos?
Crê em mim, tua beleza não carece de nenhum cosmético:
o Amor desnudo não gosta das belezas artificiais.
Olha as cores que a bela terra produz,
como as heras brotam melhor espontaneamente,
como a árvore surge mais formosa em solitários antros
e como a água sabe correr por vias não ensinadas.
Os litorais brilham mais, bordados, com seus próprias conchas
e aves cantam mais docemente sem nenhum aprendizado.
Não foi assim que, a filha de Leucipo, Febe, inflamou a Castor;
nem a irmã dela, Hilaíra, com luxo, a Pólux.
Nem foi assim que outrora a filha de Eveno nas margens de um rio,
seu pai, foi motivo de discórdia para Idas e para Febo apaixonado.
Não com falso candor, Hipódame,levada para longe
por carro estrangeiro, atraiu um esposo frígio:
mas, sua face, não sujeita à gema alguma, o fizera
como a cor está presente nas telas de Apeles.
Aquelas se esforçam em conquistar amantes com o vulgo,
Para elas lhes é suficiente a beleza de elegante pudor.
Agora eu não temo que eu seja para ti mais pobre que esses.
Se uma menina agrada a um único, ela é suficientemente adornada.
Quando Febo a ti concede especialmente seus poemas
e Calíope, com prazer, a lira Aônia e
a única graça não abandonou às tuas agradáveis palavras,
Nem tudo, Vênus ou Minerva aprova.
Com essas qualidades, tu sempre serás a mais grata de minha vida,
até que os luxos deploráveis te sejam enfadonhos.

domingo, 2 de setembro de 2007

Tarantino's Mind - Uma preciosidade

Apesar de a discussão sobre cinema não ser meu objetivo neste blog, não posso deixar de dividir com vocês esta preciosidade de curta-metragem. O filme chama-se Tarantino's mind, dirigido pela dupla carioca 300ml, da Hungry Man e produzido pela Republika Filmes.

Ele foi exibido pela primeira vez no Festival Rio 2006. E está sendo exibido no programa Panorama Brasil, da 18ª edição do Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo. Na época de sua apresentação no Rio, há quem diga que foi o que ocorreu de melhor e, agora, tendo eu assistido, concordo plenamente, apesar de não ter visto os outros concorrentes.

O curta ambienta-se no antigo bar paulistano Pandoro (Av. Europa) e põe em cena dois personagens protagonizados por Selton Mello e Seu Jorge numa conversa de botequim, regada a chopp e batatas fritas.

O enredo, extremamente simples, gira em torno da possibilidade de decifração da "cabeça" do cineasta norte-americano Quentin Tarantino (do qual sou fã). Na verdade, o que o personagem de Selton Mello propõe é uma unidade possível dos filmes do afamado diretor, isto é, a partir de cenas, personagens e elementos cenográficos, ele verefica que o diretor recicla, repropõe, retoma os mesmos elementos, cenas e personagens constantemente, gerando, por assim dizer, um moto-continuo de intertextualidade ou dialogismo.

Assim, teria o criador de Pulp Fiction, Kill Bill, Grindhouse e Reservoir Dogs, segundo o diálogo impagável e mirabolante, feito um único filme, exibido em etapas. Por sua vez, a montagem curiosa e acurada faz com que a teoria proposta do “código Tarantino” torne-se visível a olhos nus para nós, meros espectadores leigos.

O filme será exibido e estará concorrendo a prêmios nos seguintes Festivais:

Festival de Curtas de Los Angeles - 05 a 16 de setembro.
Festival de Curtas de Veneza - 01 a 07 de setembro.

Clique e confira, são apenas 12 minutos. Vale mesmo!!!

http://video.google.com/videoplay?docid=1511515986562993804