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domingo, 2 de setembro de 2012

Questões Poéticas em Roma


Curso de Pós-Graduação em Letras Clássicas - Primeiro Semestre de 2013


Universidade de São Paulo – PPG- Letras Clássicas
LATTIM – Laboratório de Tradução de Textos e Imagens
IAC – Imagens da Antiguidade Clássica
VerVe – Verbum Vertere



Primeira Parte:  entre 10 e 20 de março de 2013 (PREVISTO)
Concentrado em uma semana

Professor Kirk Freudenburg (Yale)


1. “Structures of Influence in Roman Poetry” (a general introduction to the week’s seminars, with special emphasis on the imperial logic of the Augustan poets’ deductum Carmen).
2. ‘Callimachean Refusals as Roman Poetry” (a study of the political theatrics of recusatio in Rome, with reference to the recusationes of the Augustan poets).
3. “Greek Irony among Roman Friends” (on Horace’s remaking of satire’s signature aggression).  Assigned readings to include: Horace Sermones 1.1, 2.8, Epistles 1.17, Catullus 1, 5 and 8.
4. “The Cinematography of Virgil’s Aeneid” (on the structuring and manipulation of vision in the Aeneid, with emphasis on the Roman ‘imperialist’ eye-view generated by certain scenes).
5. “Structures of the Self in Roman Epic” (on how tiny details of gestures made, clothing worn, protocols observed and assumptions made in Roman epic refer ‘intertextually’ to Greek poems and ‘interculturally’ to Roman practices).


Segunda Parte:  entre 29 de março e 9 de maio de 2013 (PREVISTO)
Encontros semanais


Professores Paulo Martins, João Angelo Oliva Neto e Alexandre Hasegawa


Dias Previstos: Março: 29; Abril: 4, 11, 18, 25 e Maio: 2 e 9.

6. “O epigrama como fundamento da elegia”. A primeira elegia latina. O jogo como necessidade poética.  A metapoesia. Questões relativas à prevalência temática da Elegia Romana.  (PM)
7. Visualidades épicas. Écfrase e Digressão. A dispositio da écfrase e o enredo da narrativa épica. Homero e Virgílio. O palácio de Alcino e O templo de Juno em Cartago. (PM)
8. Virtude e vício na composição das Sátiras de Horácio (sat. 1, 1; 1, 6; 2, 1) – (APH)
9. A aurea mediocritas no segundo livro das Odes de Horácio (Odes II, 1-10) – (APH)
10. "Catulo 64 ou a resposta antes da pergunta: épica e écfrase neotéricas". – (JAON)
11. "Catulo 22: um livro para ver". – (JAON)
12. “Propércio 2,12: digressão e écfrase”. Divisão do Livro 2 de Elegias. Antecipação e recapitulação. – (PM)

sábado, 15 de novembro de 2008

Bucólicas de Virgílio - Odorico Mendes


BucólicasVirgílio
ISBN: 978-85-7480-394-4
As Bucólicas de Virgílio, com sua densa musicalidade e seus pastores-poetas que, em meio à paisagem amena do campo, celebram seus amores e disputam entre si a primazia no canto, são recriadas em português por Manuel Odorico Mendes, um dos mais hábeis e interessantes tradutores de poesia que o Brasil já teve. Esta edição – bilíngüe e ricamente anotada e comentada pelo Grupo de Trabalho Odorico Mendes, sediado no Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp –, além do esclarecimento do vocabulário e da sintaxe, traz para cada poema um comentário minucioso, em que se apontam, para o leitor que deseja penetrar nesse laboratório brilhante de recriação poética, os modos vários como Odorico Mendes recria em português os sons, ritmos, efeitos de sintaxe e a ordem expressiva das palavras do original latino. Nos 150 anos de sua primeira publicação no livro Virgílio Brasileiro, a Ateliê Editorial e a Editora da Unicamp, com apoio da Fapesp, reeditam esta obra do grande poeta latino em uma de suas traduções mais bem cuidadas e instigantes.
Medidas: 18 x 27 cm

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

As Bucólicas de Virgílio

“Phyllidis hic idem teneraeque Amaryllidis ignes
bucolicis iuvenis luserat ante modis.”

“Aquele mesmo, ainda rapaz, cantara os ardores de Fílis
e da tenra Amarílis, em versos bucólicos.”
Ovídio, Tristia 2, 537-8




Por Paulo Martins
Nas aulas de Literatura muitas vezes o professor, ao falar acerca do Arcadismo, propõe como uma das características desse estilo de época “o bucolismo” (boukólikos em grego significa algo relativo a bóus – boi), associado a duas expressões latinas: locus amoenus (lugar aprazível) e fugere urbem (fugir da cidade). Assim a poesia árcade, cuja essencialidade está centrada na retomada de valores “estético-literários” da Antigüidade Clássica greco-romana, torna-se mais clara e óbvia para os leitores contemporâneos pelo simples motivo de revelar certos preceitos nomeados numa língua extinta, o latim.

Contudo, a simples citação dessas características soa como receita ou etiqueta vazia de conteúdo, porquanto estão absolutamente descontextualizadas de sua origem: o mundo antigo greco-latino. Em que se pese aqui o seu caráter romântico, isto também pode ser observado na música erudita, se observamos a 6ª Sinfonia de Beethoven, A Pastoral (1808), pois temos uma divisão assim proposta: “Despertar de sentimentos alegres diante da chegada ao campo” (1º Movimento), “Cena à beira de um regato” (2º Movimento), “Dança campestre” (3º Movimento), “A tempestade” (4º Movimento) e “Hino de ação de graças dos pastores, após a tempestade” (5º Movimento). Notemos que o compositor nada mais fez do que relacionar os conceitos literários antigos (locus amoenus/fugere urbem) à vida pastoral.


Beethoven por Karl Joseph Stieler - 1820

Tais referências, entretanto, não são uma exclusividade desse professor de Literatura/Música, antes assolam também descontextualizadas e, talvez, com maior freqüência, ao professor de História quando trata desse mesmo período (o século XVIII), propondo culturalmente a relevância das Academias que surgem nesse período, ou ainda, quando observa a Inconfidência Mineira e fala do lema dos inconfidentes: libertas quae sera tamen (liberdade ainda que tardia).

Certamente, a vida seria mais simples aos professores de Literatura e de História se mostrassem que o século XVIII, antes de ser devedor do Mundo Clássico Antigo como um todo (e vale dizer que esse espectro temporal é vastíssimo, pois vai, pelo menos, do século IX a.C. ao século V d.C.) é, sim, calcado fundamentalmente em uma obra do mundo latino: As Bucólicas de Virgílio - autor d’A Eneida (Discutindo Literatura, 7 – março de 2006) e d’As Geórgicas. Essa obra se constitui como marco diferenciado da Antigüidade, pois que poucos foram os autores que se dedicaram a esse gênero específico. Nesse sentido, daquilo que nos restou do mundo antigo temos cronologicamente: Teócrito de Siracusa (310 – 250 a.C.), Virgílio (70 -19 a.C.) e Calpúrnio Sículo (século I d.C.). Entretanto a despeito da exigüidade de textos, o gênero “bucólico”, metonímica e tematicamente, tornou-se referência da “simplicidade” na literatura naquilo que ela se opõe à grandiloqüência.

As Bucólicas são compostas de dez poemas, escritos em hexâmetros, curiosamente o mesmo verso da poesia épica (seja de Homero, seja do próprio Virgílio). Digo que isso é curioso porque se o gênero bucólico é “humilde” (genus humile), formalmente, deveria se esperar um tipo de verso distinto daquele da elevação épica (genus altum).

Por seu turno, cada uma das bucólicas recebe o nome de écloga ou idílio (do grego eidón/imagem, eidýllion é um pequeno quadro) e tais termos referem-se basicamente à brevidade das cenas por eles descritas, assim As Bucólicas são, antes de tudo, o registro de pequenos quadros cujo motivo primeiro é a vida simples dos campesinos, dos pastores e pastoras em seu ambiente natural. Daí o próprio Beethoven ter chamado a atenção para o fato de ser sua sinfonia uma pintura, uma fantasia sobre a qual a audiência deveria imaginar cenas como que se a música pintasse um quadro.

Sob o aspecto da forma, os dez poemas, cuja extensão varia de 63a 110 versos, são marcados por uma regularidade estrutural diferenciada, isto é, os poemas ímpares são dialógicos, enquanto os pares são monólogos. Os diálogos são levados a termo por pastores de nomes gregos, propostos intertextualmente numa referência a Teócrito de Siracusa, e assim temos: Títiro e Melibeu (1ª écloga), Menalcas e Dametas (3ª écloga), Menalcas e Mopso (5ª écloga), Melibeu e Córidon (7ª écloga) e Lícidas e Méris (9ª écloga). A citação de Teócrito fica mais explicita quando na 4ª écloga, Virgílio propõe: “Ó Musas da Sicília, erga-se um pouco o nosso tom//nem todos prezam o arvoredo e os baixos tamarizes; //cantamos selvas; selvas sejam, pois, dignas de um cônsul” (Trad.: Péricles Eugênio da Silva Ramos). Vale lembrar que Siracusa é uma cidade da Sicília.

Do ponto de vista da elaboração da obra, um dos primeiros comentadores de Virgílio, Mauro Sérvio Honorato no século IV, assevera: “Sua principal qualidade, por seu turno, é, naturalmente o caráter humilde. De fato, dos três caracteres existentes: humilde, médio e grandiloqüente - encontramos todos eles no poeta. Porque, na Eneida, há o grandiloqüente; nas Geórgicas, o médio; e nas Bucólicas, o humilde conforme a qualidade dos temas e das personagens, pois, nesta obra elas são rústicas e estão satisfeitas com a simplicidade e às quais nada de elevado deve ser exigido.” (Trad.: Paulo Martins) São também antigos os comentários sobre a motivação de Virgílio para escrever As Bucólicas, Hélio Donato (século IV) diz que o poeta primeiro trata dos campos in natura (Bucólicas), depois do seu manejo (Geórgicas) e mais tarde dos feitos humanos na terra (Eneida). Tal ordem segundo ele vai de encontro ao interesse do poeta: “ele cantou primeiro os pastores; depois, os agricultores e, por último, os guerreiros”.

A natureza, em seu estado não-latente, portanto óbvio, e a vida que ela proporciona é o leitmotiv da obra. Melibeu na 1ª écloga diz: “Ó Títiro, deitado à sombra de uma vasta faia,//aplicas-te à silvestre musa com uma frauta leve;//nós o solo da pátria e os doces campos nós deixamos;//nós a pátria fugimos (patriam fugimus); tu, na sombra vagaroso,// fazes a selva ecoar o nome de Amarílis bela.” (Trad.: P. E. da S. R.) O que temos nesses primeiros cinco versos no diálogo entre Melibeu e Títiro é o programa da obra: Primeiro, o pastor despreocupado deitado sob uma vasta árvore. Segundo, sua aplicação na flauta suave, leve, logo, humilde. Terceiro, o abandono do campo. Assim, o lugar-comum do fugere urbem é apresentado pelo avesso. Por último, além da função de produzir, Títiro ocupa-se em louvar Amarílis, produzindo uma relação entre a vida campestre e a amorosa, que tão bem foi emulada por Tomás Antônio Gonzaga em Marília de Dirceu. Vale observar aqui o anagrama quase perfeito: Amarílis/Marília.

Já o lema, que está ainda hoje presente na bandeira de Minas Gerais, foi deslocado e descontextualizado, uma vez que na origem, isto é, na 1ª écloga, assim aparece: “A liberdade que me viu ocioso, tarde embora,//quando, ao fazer a barba, esta caía já mais branca”. Assim os Inconfidentes deslocaram apenas parte do verso 27 para um contexto essencialmente político que não havia no texto virgiliano, além de romper com a estrutura sintática do período, soando sem nexo para aqueles que conhecem a língua latina.

Entretanto a écloga mais famosa entre as dez é indubitavelmente a 4ª. A tradição a chama de “Pólio”, nome daquele a quem Virgílio dirige os versos. Essa, que por muito tempo associou-se ao nascimento do cristianismo por tratar de um novo tempo, uma nova idade de ouro trazida pelas mãos de um menino, tem, sim, função política e não religiosa, celebrando a paz de Brundísio entre os discordes do 2º triunvirato (Marco Antônio e Otávio). Virgílio dessa forma vaza o poema com temas elevados, portanto distantes do gênero humilde, conforme as regras estabelecidas para os Idílios, entretanto são magistrais seus versos finais:

Já logo será tempo, marcha para as grandes honras,
Cara prole dos deuses, grande filho, tu, de Júpiter!
Vê como estão de acordo o mundo de pesada abóboda
E as terras todas, e a extensão do mar, e o céu profundo!
Vê como, com os séculos por vir, tudo se alegra.
A última parte desta vida seja-me tão longa,
Que para te dizer os feitos não me falte o alento!
O trácio Orfeu não poderá vencer-me nestes cantos,
Nem Lino, ainda que a Orfeu a mãe Calíope socorra
E por seu turno a Lino dê assistência o belo Apolo.
Se competir comigo o próprio Pã, por juiz a Arcádia,
Dar-se-á por vencido o próprio Pã, por juiz a Arcádia.
Começa, criança, a conhecer a própria mãe com teu sorriso;
Dez meses retiveram tua mãe em longo enfado.
Começa, criança: aquele que não ri à própria mãe
A mesa não terá de um deus, o leito de uma deusa.”

(trad.: P.E. da S. Ramos)

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

A Eneida de Virgílio e a tradição épica ocidental

Manuscrito d' A Eneida




Por Paulo Martins


Antes de qualquer coisa, faço aqui um pequeno excurso. É comum, todas as vezes que começamos a ler o maior e melhor poema épico em língua portuguesa, Os Lusíadas, nosso professor de literatura associar a idéia de Renascimento à tradição cultural greco-romana e, nesse caso específico, à tradição literária da poesia épica, mostrando o quanto Homero é importante como modelo que foi seguido nesse momento histórico dos séculos XV e XVI. Realmente, não há como negar que as epopéias homéricas, A Ilíada e A Odisséia, como frutos e flores de uma civilização são marcos incontestes do mundo grego, afinal, até mesmo Platão, séculos depois da composição desses dois poemas, afirmara, tratando de Homero em seu livro A República, que “este poeta ensinou a Grécia”.

Homero

Nesse sentido, se o poeta grego é o cerne da civilização helênica, também o seria para os romanos e, por conseqüência, para nós, ocidentais. Contudo, a poesia grega homérica possuía uma característica importante e diferenciada se comparada, por exemplo, ao Camões épico: a oralidade. Isto é, aquela poesia foi composta entre os séculos IX e VIII a.C. e transmitida oralmente por cantores (os aedos) antes de ser consignada pela escrita a partir do século VII a.C. Tal propriedade é importantíssima, pois determina características formais no poema, a saber: as repetições sistemáticas, a presença de epítetos (aspectos exemplares das personagens), as formulações lapidares que percorrem os milhares de versos das obras. Assim, se por um lado Homero é semelhante a Camões, por outro ele se distancia gravemente do mesmo, uma vez que o meio, pelo qual seus poemas são transmitidos, era diverso: o primeiro a voz; o segundo, a escrita.


Camões

Bem, se proponho Homero, em certa medida, distante de Camões, a pergunta mais óbvia seria: Quem é o êmulo do poeta português na Antigüidade Clássica? E a resposta é imediata e direta: Virgílio. Tal afirmação seria até certo ponto irresponsável se não existisse um argumento de autoridade que a respaldasse. Todos sabem que Dante Alighieri (1265-1321), o autor da Divina Comédia, no século XIV, é um dos responsáveis pela grande síntese da história literária ocidental, ao associar a cultura medieval católico-cristã ao mundo clássico greco-latino, afinal, a idéia de paraíso, purgatório e inferno é, a um só tempo, cristã e pagã. Sem falarmos da presença de uma personagem fundamental no texto de Dante que é seu acompanhante ao mundo dos mortos: Virgílio. Vejam, não é Homero que o acompanha! Ainda hoje, também, nesse nosso mundo pós-moderno, “pós-tudo” ainda ecoa a voz de um poeta e crítico norte-americano radicado na Inglaterra nos anos 20 do século XX, T.S. Eliot (1888-1965). Ele nos informa sobre importância de Virgílio para a cultura ocidental ao propor: “Nenhuma língua moderna pode pretender produzir um clássico no sentido que considero Virgílio um clássico. O nosso clássico, o clássico de toda a Europa, é Virgílio.”


Dante

Outras indagações poderiam surgir a partir desta conclusão de Eliot que assumo como minha: O que fez Virgílio então para receber tamanha dignidade? O que produziu? Como e quando escreveu?

Nascido em Mântua, norte da península itálica, em 70 a.C., Virgílio produziu três grandes obras poéticas: As Bucólicas, As Geórgicas e A Eneida. Sua época é a do início do Império, isto é, momento em que a República romana sucumbe como conseqüência das guerras civis e da ditadura de Júlio César. Otávio Augusto assume a função de Príncipe e, a partir daí, se estabelece uma sucessão, em certa medida, hereditária e que só irá se extinguir com a queda do Império do ocidente, quinhentos anos mais tarde (em 476 da nossa era). Virgílio como escritor está associado à imagem de Augusto cujo lugar-tenente, Mecenas, aplica-se na constituição de um círculo cultural que serve ao poder, produzindo propaganda para feitos e poder do novo líder. Nesse mesmo grupo, surgem poetas como Propércio e Horácio (tão importantes quanto Virgílio na tradição literária ocidental).

A Eneida, a despeito do fato de ser uma poesia encomendada com a finalidade de exaltar o poder de Augusto, inaugura uma nova possibilidade de constituição da épica, tendo como meio a escrita e, ainda, tendo por trás de si uma tradição literária que inclui Homero além dos poetas da época helenística. Constituída por 12 cantos, a épica virgiliana trata, como argumento, da fundação de Roma e tem como personagem principal Enéias, guerreiro troiano que foi incumbido pelos deuses a fundar a nova Tróia, Roma. Em sua saga, Enéias percorre um longo caminho até sua chegada à região do Lácio, percurso que, do ponto de vista da estrutura do poema, dura exatamente os seis primeiros cantos. E, assim, ao chegar ao local que lhe fora determinado, age, seguindo sua sina, empreendendo guerras de conquista, afinal é um herói e como tal está predestinado a combater. E essa ação heróica percorre os seis cantos finais da epopéia.

Se observarmos mais atentamente o enredo, notaremos que ele está plenamente de acordo com a proposição do poema, afinal diz Virgílio logo no primeiro verso “Arma uirumque cano” (“As armas e o homem canto”) e isto significa que o poema tratará, de um lado, das desventuras de Enéias (homem) e, de outro lado, das campanhas bélicas empreendidas por ele (armas). Vale lembrar que, para os poetas romanos, a imitação (a mimese) é fundamental, portanto não seria possível produzir um texto épico que desconsiderasse Homero. E o poeta de Mântua, engenhosamente, estabelece a conexão de seu poema com a tradição, afinal de contas, essas desventuras do herói relacionam-se com o seu vagar pelo Mar Mediterrâneo, exatamente aquilo que ocorre na Odisséia, quando Ulisses é posto a realizar tarefas semelhantes até conseguir chegar aos braços de Penélope, sua fidelíssima esposa. Já na segunda parte do poema (os seis cantos finais) estão coadunados com o outro poema homérico (A Ilíada), uma vez que o fulcro é guerra. Curioso é observarmos que essa mesma estrutura permanece viva na épica moderna de Camões. Não é por acaso que em Os Lusíadas o homem Vasco da Gama e suas desventuras são decantadas.















Augusto e Vasco da Gama

Na verdade, não há, na literatura dita ocidental, nenhum poema épico que não se apóie na estrutura d’A Eneida e segundo Curtius “Para todo o fim da Antigüidade, para a Idade Média, como para Dante, é Virgílio ‘o altíssimo poeta’”.

quarta-feira, 18 de julho de 2007

A Eneida de Virgílio e a tradição épica ocidental

Virgil reading the ''Aeneid'' to Augustus and Octavia Kauffman, Angelica. Oil on canvas. 123x159 cm Germany. 1788 Source of Entry: Lazenki Palace, Warsaw. 1902

Paulo Martins


Antes de qualquer coisa, faço aqui um pequeno excurso. É comum, todas as vezes que começamos a ler o maior e melhor poema épico em língua portuguesa, Os Lusíadas, nosso professor de literatura associar a idéia de Renascimento à tradição cultural greco-romana e, nesse caso específico, à tradição literária da poesia épica, mostrando o quanto Homero é importante como modelo que foi seguido nesse momento histórico dos séculos XV e XVI. Realmente, não há como negar que as epopéias homéricas, A Ilíada e A Odisséia, como frutos e flores de uma civilização são marcos incontestes do mundo grego, afinal, até mesmo Platão, séculos depois da composição desses dois poemas, afirmara, tratando de Homero em seu livro A República, que “este poeta ensinou a Grécia”.
Nesse sentido, se o poeta grego é o cerne da civilização helênica, também o seria para os romanos e, por conseqüência, para nós, ocidentais. Contudo, a poesia grega homérica possuía uma característica importante e diferenciada se comparada, por exemplo, ao Camões épico: a oralidade. Isto é, aquela poesia foi composta entre os séculos IX e VIII a.C. e transmitida oralmente por cantores (os aedos) antes de ser consignada pela escrita a partir do século VII a.C. Tal propriedade é importantíssima, pois determina características formais no poema, a saber: as repetições sistemáticas, a presença de epítetos (aspectos exemplares das personagens), as formulações lapidares que percorrem os milhares de versos das obras. Assim, se por um lado Homero é semelhante a Camões, por outro ele se distancia gravemente do mesmo, uma vez que o meio, pelo qual seus poemas são transmitidos, era diverso: o primeiro a voz; o segundo, a escrita.
Bem, se proponho Homero, em certa medida, distante de Camões, a pergunta mais óbvia seria: Quem é o êmulo do poeta português na Antigüidade Clássica? E a resposta é imediata e direta: Virgílio. Tal afirmação seria até certo ponto irresponsável se não existisse um argumento de autoridade que a respaldasse. Todos sabem que Dante Alighieri (1265-1321), o autor da Divina Comédia, no século XIV, é um dos responsáveis pela grande síntese da história literária ocidental, ao associar a cultura medieval católico-cristã ao mundo clássico greco-latino, afinal, a idéia de paraíso, purgatório e inferno é, a um só tempo, cristã e pagã. Sem falarmos da presença de uma personagem fundamental no texto de Dante que é seu acompanhante ao mundo dos mortos: Virgílio. Vejam, não é Homero que o acompanha! Ainda hoje, também, nesse nosso mundo pós-moderno, “pós-tudo” ainda ecoa a voz de um poeta e crítico norte-americano radicado na Inglaterra nos anos 20 do século XX, T.S. Eliot (1888-1965). Ele nos informa sobre importância de Virgílio para a cultura ocidental ao propor: “Nenhuma língua moderna pode pretender produzir um clássico no sentido que considero Virgílio um clássico. O nosso clássico, o clássico de toda a Europa, é Virgílio.”
Outras indagações poderiam surgir a partir desta conclusão de Eliot que assumo como minha: O que fez Virgílio então para receber tamanha dignidade? O que produziu? Como e quando escreveu?
Nascido em Mântua, norte da península itálica, em 70 a.C., Virgílio produziu três grandes obras poéticas: As Bucólicas, As Geórgicas e A Eneida. Sua época é a do início do Império, isto é, momento em que a República romana sucumbe como conseqüência das guerras civis e da ditadura de Júlio César. Otávio Augusto assume a função de Príncipe e, a partir daí, se estabelece uma sucessão, em certa medida, hereditária e que só irá se extinguir com a queda do Império do ocidente, quinhentos anos mais tarde (em 476 da nossa era). Virgílio como escritor está associado à imagem de Augusto cujo lugar-tenente, Mecenas, aplica-se na constituição de um círculo cultural que serve ao poder, produzindo propaganda para feitos e poder do novo líder. Nesse mesmo grupo, surgem poetas como Propércio e Horácio (tão importantes quanto Virgílio na tradição literária ocidental).
A Eneida, a despeito do fato de ser uma poesia encomendada com a finalidade de exaltar o poder de Augusto, inaugura uma nova possibilidade de constituição da épica, tendo como meio a escrita e, ainda, tendo por trás de si uma tradição literária que inclui Homero além dos poetas da época helenística. Constituída por 12 cantos, a épica virgiliana trata, como argumento, da fundação de Roma e tem como personagem principal Enéias, guerreiro troiano que foi incumbido pelos deuses a fundar a nova Tróia, Roma. Em sua saga, Enéias percorre um longo caminho até sua chegada à região do Lácio, percurso que, do ponto de vista da estrutura do poema, dura exatamente os seis primeiros cantos. E, assim, ao chegar ao local que lhe fora determinado, age, seguindo sua sina, empreendendo guerras de conquista, afinal é um herói e como tal está predestinado a combater. E essa ação heróica percorre os seis cantos finais da epopéia.
Se observarmos mais atentamente o enredo, notaremos que ele está plenamente de acordo com a proposição do poema, afinal diz Virgílio logo no primeiro verso “Arma uirumque cano” (“As armas e o homem canto”) e isto significa que o poema tratará, de um lado, das desventuras de Enéias (homem) e, de outro lado, das campanhas bélicas empreendidas por ele (armas). Vale lembrar que, para os poetas romanos, a imitação (a mimese) é fundamental, portanto não seria possível produzir um texto épico que desconsiderasse Homero. E o poeta de Mântua, engenhosamente, estabelece a conexão de seu poema com a tradição, afinal de contas, essas desventuras do herói relacionam-se com o seu vagar pelo Mar Mediterrâneo, exatamente aquilo que ocorre na Odisséia, quando Ulisses é posto a realizar tarefas semelhantes até conseguir chegar aos braços de Penélope, sua fidelíssima esposa. Já na segunda parte do poema (os seis cantos finais) estão coadunados com o outro poema homérico (A Ilíada), uma vez que o fulcro é guerra. Curioso é observarmos que essa mesma estrutura permanece viva na épica moderna de Camões. Não é por acaso que em Os Lusíadas o homem Vasco da Gama e suas desventuras são decantadas.
Na verdade, não há, na literatura dita ocidental, nenhum poema épico que não se apóie na estrutura d’A Eneida e segundo Curtius “Para todo o fim da Antigüidade, para a Idade Média, como para Dante, é Virgílio ‘o altíssimo poeta’”.