Mostrando postagens com marcador Ovídio. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ovídio. Mostrar todas as postagens

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Dissertação de Mestrado

Na sexta-feira, 19 de fevereiro, Cecília Gonçalves Lopes, apresentou sua dissertação de mestrado junto ao PPG em Letras Clássicas da USP. A Banca composta por Paulo Sérgio de Vasconcellos do IEL da Unicamp e por mim e Adriano Scatolin do DLCV/USP APROVAMOS O EXCELENTE TRABALHO cujo título é Confluência Genérica na Elegia Erótica de Ovídio ou A Elegia Erótica em Elevação.

***************

Segue o Resumo do trabalho e o texto que Cecília apresentou à assistência.

LOPES, Cecilia Gonçalves. Confluência genérica na Elegia Erótica de Ovídio ou a elegia Erótica em elevação. 2009. 161f. Dissertação (Mestrado) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2009.



No final do século I a.C., a Elegia Erótica Romana desafiou os gregos e as convenções poéticas apresentando um poeta-amante que cantava suas aventuras amorosas em primeira pessoa. Como se isso não bastasse, esse eu-elegíaco se dedicava à puella como se tal tarefa fosse uma militia, um seruitium amoris, e que exigia tempo integral. Galo, Propércio e Tibulo nos apresentaram suas dominas e se negaram a servir à pátria.
Ovídio foi além: seguiu seus predecessores mas fez com que seus leitores aprendessem a entender o papel de cada uma das normas na construção desse gênero. Escreveu seu primeiro livro, Amores, e , a partir daí, começou a traçar um caminho ascendente: queria sua Elegia elevada, não apenas média.
Para isso, produziu recusationes, elegias programáticas e, o mais importante, confluiu gêneros. Fez uso da Epistolografia, da Retórica, da Didática e de personas e exempla míticos para compor Heroides, Ars amatoria e Remedia amoris.Nesta dissertação, mostra-se a trajetória do poeta na elevação da Elegia Erótica de Ovídio.

*******************
Confluência genérica na Elegia Erótica de Ovídio
ou a Elegia Erótica em elevação
Defesa de Mestrado - Cecília Gonçalves Lopes
Roma: em um espaço restrito da cidade, os Fóruns, parece concentrar-se toda sua vida: trabalho, lazer, políticos e poetas, malandros, punguistas, soldados e lenas. O Palatino e as insulae: Roma é barulho durante o dia e à noite.
A cidade que preserva sua memória em monumentos arquitetônicos e literários é o lugar onde se encontram pessoas vindas de todas as partes do mundo, e sob Augusto Roma se modifica bastante. Nas letras, agora há quem cante o ócio. A guerra civil acabou e alguns poetas, os elegíacos, falam sobre o amor em versos desiguais, os dísticos. Roma é, afinal de contas, um anagrama desse sentimento capaz de escravizar, de tornar doentes aqueles que são sadios. Ovídio conseguiu, assim como Catulo, Propércio e Tibulo antes dele, perceber tal sutileza e fez, a partir do tema e do gênero, poemas deliciosos. Fez do amor, nas letras, o objetivo de viver.
Por cerca de cinqüenta anos, ao final do século I a.C., os elegíacos falaram, em primeira pessoa, sobre suas aventuras amorosas com as puellas, mulheres que não queriam casamento e tampouco ver-se imortalizadas em versos. Queriam presentes e dinheiro. Quem eram elas? Prostitutas, casadas, solteiras? Reais ou imaginárias? E o que dizer dos próprios amantes? Por que tornar-se escravos de mulheres tão caprichosas? Por que falar de um tema médio, em métrica tampouco elevada? Por que dedicar-se à militia amorosa quando mais nobre era participar de guerras, defender a pátria?
Muitas são as perguntas que persistem quando falamos da Elegia Erótica Romana. Mas felizmente inúmeros são os versos que chegaram até nós e, ainda que não consigamos dirimir todas as dúvidas, podemos ao menos reconhecer algumas características próprias do gênero.
E assim, com a ideia de tentar organizar, para mim, o que era a Elegia Erótica, cheguei a Ovídio. Não era ele apenas um elegíaco, um amante sofrendo por sua Corina, mas também, e principalmente, um poeta preocupado em mostrar convenções das letras latinas e, assim, transformar seu público, torná-lo apto a uma leitura mais aprofundada.

***

Minha pesquisa começou apenas com Heroides. O intuito era estudar, na Elegia, traços de gêneros diversos nessas epístolas escritas por personagens mitológicas – e por Safo. Retórica, Elegia e Epistolografia eram itens básicos, mas que acabaram se mostrando, apenas no estudo desse livro, enfadonhos.
Foi então que, buscando mais informações, encontrei algo que me pareceu extremamente interessante: Ovídio dedicava-se, sim, à poikilia, e não apenas nas Heroides. Seu plano parecia maior: a partir de Amores, obra média, sua intenção era ascender genericamente, produzir textos mais elevados valendo-se da mistura de convenções de diferentes gêneros. Seu objetivo era confluir gêneros, transgredi-los, desafiá-los.
A poikilia, portanto, aparecia em Amores, Heroides, n’A Arte de Amar e em Remédios – pra ficar com os livros estudados nesta dissertação -, e não estavam lá apenas por capricho ou para demonstrar o ingenium do poeta, mas para levá-lo a outras obras, como dissemos, mais elevadas. O caminho traçado desde o começo por ele existia realmente e poderia ser encontrado?
Acreditava que poderia, não sabia se por mim. Ovídio, desde os primeiros versos dos Amores, brinca. O poeta-amante é mais experiente, seja nas letras ou no amor. Ele já aparece como um magister, tentando tornar claras as convenções usadas por aqueles que se diziam sinceros e que passavam por sofrimentos e torturas, pela recusa da amada e pela rigidez de suas portas.
A todo o momento, ainda, Ovídio escreve sobre o escrever. A todo o momento ele tenta nos abrir os olhos, mostrar a Elegia, composta em dísticos, a partir de um ponto de vista não somente elegíaco, mas mais amplo. Estão ali em seus poemas as normas do gênero, passíveis de identificação, mas com ironia, com uma piscadela - para fazer uso da expressão de Paul Veyne.
Assim, ainda que nos Amores sofra o amante, sua situação é diferente daquela retratada por Tibulo ou Propércio. O apaixonado de Ovídio gosta também da escrava de Corina e de alguma outra mulher que lhe aprecie os poemas. Ele ama o jogo elegíaco mais do que qualquer outra coisa. O poeta gosta mais de escrever sobre o amor do que o amante, de amar.
Com Heroides, o sofrimento é feminino, não mais masculino. Há a ausência, a queixa. A querela. A remetente da epístola, além disso, nos é superior, pois personagem mitológica. Conhece, assim como o outro autor, as regras das letras. Preocupa-se com o escrever, é escritora. Safo é escritora, se diz autora no terceiro verso de sua epístola. E tomamos contato com a Retórica e a Epistolografia na ascensão genérica. O amor permanece tema majoritário, e continua causando dor.
Com a Ars Amatoria, manual de conquista amorosa, Ovídio utiliza principalmente a Didática. A Elegia e a Tragédia já haviam brigado por ele em Amores, e ele tinha dito que ainda iria se dedicar a eles por mais um tempo – e assim o faz, seguindo aquilo que havia falado ao marido de sua puella: o ludus há que existir. Mas não pode ser muito fácil nem entregar todo seu regulamento. Quando isso acontece, ele parte para nova empreitada.
Não nos esqueçamos que, com a Arte, interessa-nos perceber que se separam de vez os dois papéis: o de amante e o de magister. Este se vale da experiência daquele e, assim, está apto a dar conselhos. A mitologia é usada para dar-lhe mais autoridade.
Com os Remedia, finalmente, acaba o amor. O que havia começado com Corina vai esmorecendo. Se com a Ars Ovídio queria ensinar, nas letras, a arte da conquista e de sua manutenção, com os Remédios ele chega a um marco de sua obra ascendente. Acaba seu jogo. Está preparado para voos mais altos. A Didática permanece, mas agora o tema é levado à exaustão.
Mas, novamente, trata-se de Ovídio. Seu jogo acabou? Uma das leituras que se pode fazer é que, mais uma vez, ele ironicamente desafia os limites: o poema didático que pretende acabar com o amor, que quer ensinar algo não passível de ser esquematizado, que parece desdizer a Ars é, na verdade, uma volta a ele, o sentimento. Um exemplo, presente nos versos 757 a 766:

Que eu seja obrigado a falar: não toque os poetas eróticos! / Eu mesmo, ímpio, afasto meus dotes. / Evita Calímaco: ele não é inimigo do Amor: / e como Calímaco, tu também, Filetas, fazes mal. / Safo, certamente, me tornou melhor para minha amiga, / e a Musa de Teos não me deu rígidos costumes. / Quem poderia ter lido, sem medo, os poemas de Tibulo? / ou os teus, em cuja obra Cíntia foi única? / Quem, tendo lido Galo, poderia, insensível, partir? / E sei que meus poemas ressoam como tal.


Em dísticos elegíacos, Ovídio elenca poetas que não devem ser lidos porque falam de amor. Ele quer ou não que os leiamos? Quer, e quer ainda que voltemos aos Amores. O Amor, afinal de contas vence tudo e todos. Em gênero baixo, médio ou elevado.
De qualquer forma, ainda que com essa volta aos seus primeiros versos, Ovídio parece conseguir atingir seu objetivo: desafiando limites, fazendo da Elegia um supergênero, escrevendo na fronteira entre gêneros, sua poesia ascende. O amor vivido como aventura em Amores é sentido por personae mitológicas e se torna tema a ser ensinado na Ars. O que torna tudo mais engenhoso é a forma como o poeta produz, como brinca, ironicamente, enquanto nos ensina a lê-lo.

***

Roma é a cidade dos monumentos, do Palatino, do Capitólio. De Cícero, de Plauto, de Virgílio. Suas múltiplas vozes, construídas e reconstruídas em mármore em versos, ainda aparecem vivas, estejam elas falando de guerras ou de amores. Mas quando fala de Amor, fala de si mesma e de Vênus. Especificamente com Ovídio, somos levados por caminhos diversos, e às vezes não sabemos aonde vamos chegar – nem como. O que ficou para mim, entretanto, é que não importa o quanto releia seus poemas: por causa de seu engenho, de suas artimanhas e de sua ironia, ele conseguiu o que queria. Continuo apaixonada. Pelas suas palavras e pelo amor.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Ovídio – Tristia, 2,515-556 - Uma Tradução

scribere si fas est imitantes turpia mimos, -515
materiae minor est debita poena meae.
an genus hoc scripti faciunt sua pulpita tutum,
quodque licet, mimis scaena licere dedit?
et mea sunt populo saltata poemata saepe,
saepe oculos etiam detinuere tuos. -520
scilicet in domibus vestris ut prisca virorum
artificis fulgent corpora picta manu,
sic quae concubitus varios Venerisque figuras
exprimat, est aliquo parva tabella loco.
utque sedet vultu fassus
[1] Telamonius iram, -525
inque oculis facinus barbara mater habet,
sic madidos siccat digitis Venus uda capillos,
et modo maternis tecta videtur aquis.
bella sonant alii telis instructa cruentis,
parsque tui generis, pars tua facta canunt. -530
invida me spatio natura coercuit arto,
ingenio vires exiguasque dedit.
et tamen ille tuae felix Aeneidos auctor
contulit in Tyrios arma virumque toros,
nec legitur pars ulla magis de corpore toto, -535
quam non legitimo foedere iunctus amor.
Phyllidis hic idem teneraeque Amaryllidis ignes
bucolicis iuvenis luserat ante modis.
nos quoque iam pridem scripto peccavimus isto:
supplicium patitur non nova culpa novum; -540
carminaque edideram, cum te delicta notantem
praeterii totiens rite citatus eques.
ergo quae iuvenis mihi non nocitura putavi
scripta parum prudens, nunc nocuere seni.
sera redundavit veteris vindicta libelli, -545
distat et a meriti tempore poena sui.
ne tamen omne meum credas opus esse remissum,
saepe dedi nostrae grandia vela rati.
sex ego Fastorum scripsi totidemque libellos,
cumque suo finem mense volumen habet, -550
idque tuo nuper scriptum sub nomine, Caesar,
et tibi sacratum sors mea rupit opus;
et dedimus tragicis sceptrum regale tyrannis,
quaeque gravis debet verba cothurnus habet;
dictaque sunt nobis, quamvis manus ultima coeptis -555
defuit, in facies corpora versa novas.


[1] Fassus – fateor. Como partcípio passado do depoente, traduzo ativamente.

Se é direito escrever algo torpe, que imitam os mimos,
pena menor é devida à minha matéria.
Acaso seus tablados tornam este gênero de escrita seguro,
Algo lícito, ou a cena deu aos mimos ser lícito?
Amiúde meus poemas são apresentados ao povo
Amiúde até mesmo têm ocupado os teus próprios olhos.
É lógico, em tua casa, assim como fulgem as antigas imagens
De varões, também há corpos pintados com as mãos do artista,
Assim há também, em algum lugar, um pequeno quadro que
Exprime figuras de Vênus e variadas fodas.
E como Telamônio
[1], indicando ira na face, está pendurado,
E a mãe bárbara reflete crime nos olhos,
Assim Vênus úmida seca com os dedos os cabelos molhados,
E é vista coberta apenas pelas águas maternas.
Outros soam guerras erigidas com dardos cruentos,
Uns cantaram tua estirpe, outros, teus feitos.
A ínvida natureza me refreou com estreito espaço,
Deu exíguas forças a meu engenho.
Contudo, aquele feliz autor de tua Eneida
Reuniu armas e varões em leitos tírios
[2]
Nenhuma parte de todo corpo é mais lida do que
O amor jungido por uma união não legítima.
Aquele mesmo, ainda rapaz, cantara os ardores de Fílis
e da tenra Amarílis, em versos bucólicos.
Nós também já erramos há tempos com este escrito:
Um erro antigo sofre um novo suplício;
Eu publicara carmes, quando, cavaleiro ligeiro
[3], tanta vez,
Passei diante de ti que comentava exatamente os meus delitos.
Logo estes escritos de juventude não julguei, pouco prudente,
Que seriam nocivos, já agora são nocivos ao velho.
A punição do velho livrinho redundou tardia
E a pena dista no tempo de seu mérito.
Não creias, entretanto, que toda minha obra seja frouxa
[4],
Sempre dei grandes velas aos nossos remos.
Já escrevi seis livros e tantos outros de Fastos,
E com o teu mês dou fim ao volume,
E, ainda há pouco, a minha sorte interrompeu esta obra,
Escrita e consagrada a ti, sob teu nome, César;
E dediquei o cetro real ao trágico tirano,
O grave coturno possui as palavras que deve ter;
Cantadas por mim, ainda que a última demão falta à empresa
Em novas faces estão os corpos transformados.

[1] Ájax.
[2] Cartagineses.
[3] Citatus – rápido, ligeiro. Na retórica, vivo.
[4] Remissus – de remittere. Em sentido estilístico: frouxo, doce, mole, suave.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Ovídio, Epistulae Ex Ponto 4, 16 - Uma Tradução

Inuide, quid laceras Nasonis carmina rapti?
Non solet ingeniis summa nocere dies
famaque post cineres maior uenit et mihi nomen
tum quoque, cum uiuis adnumerarer, erat,
cumque foret Marsus magnique Rabirius oris
Iliacusque Macer sidereusque Pedo
et qui Iunonem laesisset in Hercule, Carus,
Iunonis si iam non gener ille foret,
quique dedit Latio carmen regale, Seuerus
et cum subtili Priscus uterque Numa,
quique uel inparibus numeris, Montane, uel aequis
sufficis et gemino carmine nomen habes,
et qui Penelopae rescribere iussit Vlixem
errantem saeuo per duo lustra mari,
quique suam Troezena inperfectumque dierum
deseruit celeri morte Sabinus opus,
ingeniique sui dictus cognomine Largus,
Gallica qui Phrygium duxit in arua senem,
quique canit domito Camerinus ab Hectore Troiam,
quique sua nomen Phyllide Tuscus habet,
ueliuolique maris uates, cui credere posses
carmina caeruleos composuisse deos,
quique acies Libycas Romanaque proelia dixit,
et scriptor Marius dexter in omne genus,
Trinacriusque suae Perseidos auctor et auctor
Tantalidae reducis Tyndaridosque Lupus,
et qui Maeoniam Phaeacida uertit, et, une
Pindaricae fidicen, tu quoque, Rufe, lyrae,
Musaque Turrani tragicis innixa coturnis
et tua cum socco Musa, Melisse, leui;
cum Varius Graccusque darent fera dicta tyrannis,
Callimachi Proculus molle teneret iter,
Tityron antiquas Passerque rediret ad herbas
aptaque uenanti Grattius arma daret,
Naidas a satyris caneret Fontanus amatas,
clauderet inparibus uerba Capella modis,
cumque forent alii, quorum mihi cuncta referre
nomina longa mora est, carmina uulgus habet,
essent et iuuenes, quorum quod inedita cura est,
adpellandorum nil mihi iuris adest.
Te tamen in turba non ausim, Cotta, silere,
Pieridum lumen praesidiumque fori,
maternos Cottas cui Messalasque paternos,
Maxime, nobilitas ingeminata dedit.
Dicere si fas est, claro mea nomine Musa
atque inter tantos quae legeretur erat.
Ergo submotum patria proscindere, Liuor,
desine neu cineres sparge, cruente, meos!
Omnia perdidimus, tantummodo uita relicta est,
praebeat ut sensum materiamque mali.

Quid iuuat extinctos ferrum demittere in artus?
Non habet in nobis iam noua plaga locum.

Episatulae Ex Ponto - 4,16 - Tradução: Paulo Martins

Invejoso, por que rasgas os carmes do exilado Ovídio?
O último dia não costuma prejudicar os engenhos
e a fama depois das cinzas vem maior.
Assim também eu tinha um nome,
quando eu era contado entre os vivos.
Quando estavam entre nós, Marso[1]
e o Rabírio[2] grandiloqüente e o troiano Macro[3]
e o celeste Pedão[4] e aquele Caro[5]
que ultrajou Juno em seu Hércules,
como se agora este não fosse genro de Juno.
E aquele Severo[6] que deu ao Lácio um carme real.
E com o preciso Numa[7] e juntamente com cada Prisco[8].
E tu, Montano[9], que te sustentas,
seja nos versos desiguais, seja nos iguais
e tens renome por carme geminado.
E aquele que fez Ulisses, errante no sevo mar
por dois lustros[10], escrever à Penélope.
E aquele Sabino[11] que desertou sua Trezena[12]
à rápida morte, trabalho inacabado de dias.
E Largo[13], reconhecido pela alcunha de seu engenho,
que conduziu o velho frígio[14] na seara gaulesa.
E aquele Camerino[15] que canta Tróia de Heitor contido.
E aquele Tusco[16] que tem o nome de sua Fílis,
poetas do velivolente mar, para quem tu podes acreditar
que os deuses cerúleos compuseram os carmes.
Ele que cantou as armas líbias e as batalhas romanas.
E o escritor Mário[17], destro em qualquer gênero.
E o trinácrio
[18], autor da Perseida
e Lobo[19], autor da volta da Tindárida[20] com o Tantálida[21].
E aquele que traduziu a Feácia meônia

e tu também, Rufo, músico da lira de Píndaro.
E a Musa apoiada nos coturnos trágicos de Turrânio

e tua Musa, Melisso[22], com socos leves.
Enquanto Vário[23] e Graco[24] derem feros ditos aos tiranos;
Próculo[25] tiver suave caminho de Calímaco
e o Pásser[26] retornar a Títiro[27] junto as antigos prados
e Grácio[28] der armas aptas a quem caça;
enquanto Fontano[29] cantar as Ninfas, amadas pelos sátiros;
enquanto Capela[30] mancar as palavras em versos desiguais;
e existirem outros, cujos nomes me são longos
e demorados para referir, o vulgo terá poemas.
E quanto aos jovens, dos quais são inéditos os poemas,
nenhum juízo meu devo dirigir.
Embora não ousarei, em meio a turba,
silenciar-me sobre ti, Cota, lume das piérides
e patrono do fórum, a quem a nobreza geminada
deu precisamente de mãe os Cota e de pai os Messala.
Se fas é dizer, Musa de meu nome preclaro,
entre tantos que houve, ela haverá de ser lida.
Portanto, Inveja, pára de dilacerar o exilado da pátria,

nem, cruenta, esparge minhas cinzas!
Perdi tudo, somente a vida me resta;

que ela me ofereça sensibilidade e matéria do mal.
De que vale enviar o ferro ao extinto corpo?
Agora uma nova ferida não tem lugar em mim.

Notas

[1] Domício Marso, poeta do século de Augusto, conhecido por seus epigramas. Escreveu um epitáfio sobre Tibulo e um poema épico sobre as amazonas.
[2] Poeta contemporâneo de Virgílio. Escreveu uma épica sobre os fados de Marco Antônio.
[3] Emílio Macro, poeta épico latino que escreveu sobre Tróia e que viajou com Ovídio para a Sicília.
[4] Provavelmente, Pedão Albidovano, poeta do século de Augusto, que serviu como soldado com Germânico na Germânia. Escreveu epigramas.
[5] Caro é um poeta da época de Augusto. Amigo de Ovídio que cuidou da educação dos filhos de Germânico, Nero e Druso.
[6] Cornélio Severo, poeta épico que escreveu sobre as guerras na Sicília entre Otávio e Pompeu entre (38-36 a.C.). Ele era membro do grupo de Messala, mencionado por Quintiliano e Sêneca.
[7] Poeta da época de Augusto.
[8] Dois poetas da época de Augusto: um é, provavelmente, Clutório Prisco, que escreveu um lamento sobre a morte de Germânico e o outro é desconhecido.
[9] Júlio Montano é um amigo de Tibério. Sêneca o considera um ótimo poeta.
[10] Lustro é o período de cinco anos.
[11] Poeta épico e elegiac da época de Augusto. Escreveu respostas àlgumas Heroides de Ovídio, um poema sobre o calendário e talvez um Tróia.
[12] Cidade do Peloponeso.
[13] Poeta épico que escreveu sobre as andaças de Antenor (fundador de Pádua), algumas vezes identificado como Valério Largo, acusador de Cornélio Galo.
[14] Antenor.
[15] Poeta épico da época de Augusto.
[16] Poeta da época de Augusto que escreveu Fílis. Cf. Propércio 2,22.
[17] Poeta da época de Augusto.
[18] Da Sicília.
[19] Poeta da época de Augusto que escreveu sobre o retorno de Helena e Menelau.
[20] Helena.
[21] Menelau.
[22] Gaio Melisso, um colaborador de Mecenas, gramático, poeta e bibliotecário. Ele escreveu Trabeatae, comédias romanas de costumes sobre a ordem equestre, desenvolvendo, pois, uma forma augustana da antiga Togatae. Protegido de Mecenas, ele organizou a biblioteca no pórtico de Otávia.
[23] Lúcio Vário Rufo, poeta augustano, reconhecido por suas tragédias e épicas.
[24] Provavelmente Tito Semprônio Graco, escritor de tragédias e descendente do grande Graco.
[25] Poeta augustano erótico que emulava Calímaco.
[26] Poeta augustano.
[27] Pastor símbolo da poesia pastoral.
[28] Poeta da época de Augusto que compôs poema sobre a caça Cinergética e bucólicas.
[29] Poeta bucólico da época de Augusto.
[30] Poeta desconhecido da época de Augusto que escreveu elegias.

domingo, 3 de agosto de 2008

Elegia Latina - FLC0257 - FFLCH/USP

Literatura Latina: Elegia - Programação da Disciplina FLC0257
Docente Responsável: Paulo Martins
3a Feira - Matutino e Noturno

Aula 01 – Apresentação do Curso
Aula 02 – Esquema Métrico e Prosódia e Concepções do Gênero: Moderna e Contemporânea
Aula 03 – Fontes primárias 1
Aula 04 – Fontes primárias 2
Aula 05 – Fontes Primárias 3
Aula 06 – Antecedentes Gregos
Aula 07 – Catulo: Os neotéricos e a poética alexandrina
Aula 08 – Cornélio Galo e Antecessores: Calímaco, Euforião. Elegia, Bucólica e Epílio
Aula 09 – Propércio 1
Aula 10 – Propércio 2 – Poética, ética, moral e Augusto
Aula 11 – Ovídio 1 – Metaliguagem
Aula 12 – Ovídio 2 – Epístola e Elegia
Aula 13 – Ovídio 3 – O gênero e o feminino
Aula 14 – Tibulo – Elegia e Idílio
Aula 15 – Tradição Moderna e Contemporânea – Camões, John Donne, Goethe, Drummond e Vinícius

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Sirenes e Sereias

No imaginário contemporâneo, temos as sereias como seres mistos (mulher/peixe), cuja principal característica é a capacidade de encantamento por meio da voz. Assim, no mito, elas assaltavam os navegantes, encantando-os com seu belo canto, faziam-nos bater contra os penhascos nas proximidades da ilha de Capri no Tirreno. Há, porém, que se lembrar de que suas primeiras figurações, longe de indicarem a píscia forma, antes as propõem com forma de pássaro:


Hic tamen indicio poenam linguaque videri
commeruisse potest; vobis, Acheloides, unde
pluma pedesque avium, cum virginis ora geratis?
an quia, cum legeret vernos Proserpina flores,
in comitum numero, doctae Sirenes, eratis?
quam postquam toto frustra quaesistis in orbe,
protinus, et vestram sentirent aequora curam,
posse super fluctus alarum insistere remis
optastis facilesque deos habuistis et artus
vidistis vestros subitis flavescere pennis.
ne tamen ille canor mulcendas natus ad aures
tantaque dos oris linguae deperderet usum,
virginei vultus et vox humana remansit
.
Ovídio - Metamorfoses, V, 551-63


Sirene de Canosa - Museu Arqueológico de Madri

Sirene do Museu Arqueológico Nacional de Atenas


Vaso de Figuras Vermelhas - Com a figuração da Sereia e a tripulação de Ulisses - British Museum - BM440



Sirene - Vaso de figuras negras - Louvre

terça-feira, 3 de julho de 2007

Ovídio por Bocage ganha segunda edição

Ovídio por Bocage
por Paulo Martins
(Texto publicado originariamente na Revista Bravo!, v. 40, p. 102 - 102, 02 jan. 2001.)

Ovídio foi o poeta mais eclético e copioso de Roma. Seu repertório sintetiza largo espectro de gêneros, que passam a ser produzidos a partir do I séc. a. C. com a incursão de novas práticas poéticas, antagônicas às produzidas até então. Esta nova poética, cujas principais características eram a predileção pelo diminuto, pelo detalhe, pela rapidez e pela leveza, contrapunha-se à sisudez de versos civis e vetustos que ocupavam a cena poética até então. Entretanto, a novidade romana não era tão nova, antes se filiava ao alexandrinismo - momento artístico-cultural do mundo helenístico.
Assim, Ovídio deve ser visto como síntese, pois ocupa certa seara poética que já havia sido cultivada por Catulo, Horácio, Virgílio, Propércio e Tibulo, poetas significativos para aquilo que o Mundo Moderno chamou de Antigüidade Clássica e possuidores de importância decisiva na formulação de técnicas prescritivas e de motivos nas artes clássicas dos séculos XVI, XVII e XVIII.
Mais do que outro poeta antigo qualquer, Ovídio serviu de modelo e êmulo para Chaucer, Ben Jonson e Shakespeare, que não satisfeito em tomar motivos ovidianos em seus textos, chega a reproduzir seus versos como é o caso de "At lovers' perjuries/they say Jove laught - Dizem que Jove ri dos perjúrios dos amantes" (Romeu e Julieta, II, 2). A sua influência, contudo, não se restringe às artes verbais. Muito já discutiu sobre sua importância para as artes plásticas do século XVI. Seu texto mais relevante, As Metamorfoses, direta ou indiretamente, foi fonte para Ticiano em Perseu e Andrômeda (Wallace Collection - Londres) e para outras figurações do período.
As Metamorfoses são uma coletânea de relatos mitológicos que, aparentemente, não possuem conexão, a não ser pelo fato de revitalizarem a narrativa mitológica do ponto de vista de um gênero poético-didático. O poema é composto de 15 livros que tratam aproximadamente de 250 lendas etiológicas, mostrando o nascimento de seres e, fundamentalmente, sua transfiguração em outros e daí, justamente, o nome da obra.
Há de ser observado, também, como o mundo moderno se apropriou d'As Metamorfoses, tendo em vista sua circulação, nos meios eruditos e vulgares. Se a alusão já caracteriza certo empenho na divulgação, o que dizer de sua tradução ou de sua adaptação? Pois bem, são incontáveis as alusões e traduções deste texto de Ovídio, que, principalmente, em língua portuguesa permaneceram absolutamente inacessíveis.
Hoje está mais fácil entrar em contato com o Ovídio d'As Metamorfoses, pois uma belíssima edição, ou, pelo menos, parte dela em português, acaba de ser lançada pela jovem editora Hedra, em sua Coleção Tradutores, que procurará divulgar traduções clássicas de textos clássicos. No caso específico, a tradução - excepcional - é assinada por Bocage, que, nesse sentido, justifica sua filiação árcade ao traduzir parte dessa obra. Afinal, muito se fala na recuperação dos motivos clássicos a partir da renascença, mas pouco se mostra empiricamente como isso se efetiva.
O livro, muito bem cuidado, traz o texto original em latim ao final, fato que para os mais preciosistas pode incomodar, pois dificulta a conferência da tradução com o original. Por outro lado, oferece bela introdução acerca da técnica da tradução no século XVIII, feita com esmero e atenção por João Angelo Oliva Neto, professor de Língua e Literatura Latina da USP e conceituado tradutor das letras greco-latinas.