sábado, 18 de dezembro de 2010

Mais Propércio...

No IV Simpósio de Estudos Clássicos da USP - Novas Tendências em Filologia Clássica, entre os dias 8 e 12 de novembro de 2010, proferi uma conferência cujo título era Figurações do Amor na Elegia Erótica Romana, na qual tratava basicamente de dois poemas: o 65 de Catulo e o 2,12 de Propércio. Observei que o poema 65 de Catulo, poema que abre a seção elegíaca de seu livro, aponta para três vertentes temáticas ou tópicas da elegia romana, incipiente ainda à época de Catulo, mas que terá espaço relevante entre as artes poéticas do principado. São eles, os temas: o lamento, o jogo alusivo (mítico e metapoético) e o erótico. Os lugares de Catulo, engenhosamente, são oferecidos ao leitor em "fôrma" epigramática.
Lembremos o texto na tradução de João Angelo:
Embora, ilhado em magoas, uma dor sem fim
me afaste, ó Hórtalo, das virgens doutas
nem bons frutos das Musas possa pensamento
gerar (que já flutua em tantos males
pois uma onda, há pouco manando do abismo
do Oblívio, os alvos pés banhou de
meu irmão, em quem, roubado a meus olhos, na praia
Retéia areias pesam de Tróia, ah!
Nunca mais conversar nem ouvir-te contar-me
teus feitos, nunca mais te ver, irmão
mais amável que a vida, e sempre vou te amar,
meu canto tornar triste por tua morte,
qual canta sob as sombras dos ramos tão densas
– ave - a Daulíade a gemer a ausência
de Ítilo); em tanta dor porém te envio, ó Hórtalo,
estes versos vertidos de Calímaco
por teus ditos, dispersos aos ventos volúveis,
em vão não creres voaram de meu peito,
como a maça – furtivo presente do amante –
que cai do casto colo da menina
esquecida, coitada, do fruto escondido
entre as dobras do manto: vem a mãe,
ela salta e no chão foge o fruto, em sua face
infeliz um rubor lhe sobe cúmplice.
Esse texto dialoga com um pequeno trecho da elegia 1,3, 19-26 de Propércio:

Antes eu imóvel a observava com olhos fixos,
Como Argo, os chifres ignotos de Io. -20
Ora soltava a grinalda de minha fronte,
Ora a colocava em tua cabeça, Cíntia.
Ora me divertia compondo teus cabelos soltos,
Ora dava furtivos pomos a tuas mãos cavas
Ou concedia todos os dons ao teu sono ingrato, -25
Dons que, amiúde, deslizavam de teus seios.

domingo, 3 de outubro de 2010

Primeiro Congresso Brasileiro de Retórica - Sociedade Brasileira de Retórica




Entre os dias 27 e 30 de setembro de 2010, ocorreu em Ouro Preto/MG, o I Congresso Brasileiro de Retórica, que serviu de palco para a fundação da Sociedade Brasileira de Retórica (SBR), afiliada à Sociedad Latinoamericana de Retórica (SLR) e à International Society for the History of Rhetoric (ISHR) - http://ishr.cua.edu/.




Entre As Conferências; comunicações e outras atividades a que assisti, destaco: Retórica e a Arte da Memória da Profa. Dra. Angélica Chiappetta (USP); Estudos de Retórica nas Letras do Brasil colonial do Prof. Dr. João Adolfo Hansen (USP); Concerto didático: Cassiano Barros, doutorando da UNICAMP (Cravo), Prof. Dr. Luiz Fiaminghi da UDESC (violino) e Profa. Dra. Mônica Lucas da USP (flauta doce); TouRetórico: Ruas do centro e Igreja do Pilar Profa. Dra. Daniele Nunes Caetano de Sá da UFMG e da PUC/MG.; Quintiliano, Instituições Oratórias (X, 1, 43-118) ou a poesia como processo heurístico, Doutorando Alexandre Agnolon, USP, Prof. UFOP, O fulcro da relação entre forma e conteúdo na retórica de Cícero: a fusão da inventio com a elocução, Doutorando Fernando Joaquim Ferreira Maia, UFPE; Épica e retórica na estrutura do Carmen LXIV de Catulo, Prof. Dr. Francisco Edi de Oliveira Sousa, UFC. Orator Regulus, vir malus dicendi imperitus: o orador perfeito para Plínio o jovem, Profa. Dra. Marly de Bari Matos , USP;



Pausânias e a segunda sofística: ékphrasis e arcaísmo, Mestranda Vivian da Cunha Mendes Caldeira, UFMG; Do tropo ao gênero – a autonomização da écfrase, Mestranda Rosangela Santoro de Souza Amato, USP; Usos da ecfrase no gênero histórico seiscensista, Pós-doutorando Eduardo Sinkevisque, UNICAMP; Análise do discurso e sofística: um casamento possível, Prof. Dr. Melliandro Mendes Galinari, UFOP; A controvérsia ciceroniana no Renascimento, Profa. Dra. Elaine Cristine Sartorelli, USP e A influência da Institutio oratoria de Quintiliano na concepção retórica do humanista Erasmo de Rotterdam, Dra. Fabrina Magalhães Pinto, PUC-RJ.

domingo, 19 de setembro de 2010

Manhattan - Woody Allen

Aos 18 anos (1980), fui ao Cine Gazetinha assistir ao Manhattan de Woody Allen e, confesso, não entendi nada...
Entretanto, minha arrogância infanto-juvenil mandava-me dizer aos outros que o filme era espetacular, plástico, vivo, inteligente, sarcástico, afora meu lado pernóstico que ditava aos pobres mortais comentários igualmente pernósticos sobre as canções e trechos de peças sinfônicas de George Gershwin. Começando com Rhapsody in Blue - fabulosa composição -, perpassando canções como Someone to watch over me ( recentemente gravada por Amy Winehouse), cuja versão de Sinatra (da década de 50) ainda me parece insuperável, e terminando com um verdadeiro pontificado sobre Embraceable You, que resgata ainda hoje a minha mais tenra infância ao colo de meu pai.

Ontem, contudo, atendendo aos pedidos de Tatiana e ainda tendo na memória recente reverberações dos comentários de Paulo, meu filho mais velho, que seguindo o meu caminho de juventude põe o filme entre seus dez mais, assisti a ele novamente, 30 anos depois.
E afirmo sem medo de errar ele continua sendo inteligente, sarcástico, vibrante, vivo, plástico, enfim espetacular.
Allen põe em relevo dois amores: a cidade e o humano. O primeiro, apesar de despojado de suas cores reais, nos é apresentado plasticamente em seus tons e nuanças de cinza, reflexo de sua própria decomposição apaixonante e caótica: Manhattan. Ela, que além de ser alvo do filme, empresta-lhe o nome e também serve como palco, pano de fundo, para o desfilar de dois níveis de personagens: aquele cuja vetustez se coaduna com o espaço e aquele do qual a mocidade salta aos olhos dos espectadores. Assim, são essas personae que Woody Allen nos brinda como um de seus amores.

O protagonista Issac (Allen) vive o desconforto da maturidade estéril. Seu casamento (com Maryl Streep) acaba e ele se vê abandonado enquanto sua ex passa a viver "com outra", sem falar no livro que ela lança expondo ao público suas mazelas sexuais e comportamentais. Se isso não bastasse, passa a relacionar-se com Tracy (Mariel Hemingway), 25 anos mais nova, isso, talvez, mais uma referência à degenerescência de Issac, sob o ponto de vista burguês e puritano da sociedade nova-iorquina.
Separa-se e passa a relacionar-se com Mary (Diane Keaton), que era amante de seu amigo casado, Yale (Michael Murphy). Ela passa a ser um dos vértices do "bizarre love triangle" que se rompe quando Mary decide ficar com Yale e não com Issac que, desacorsoado, se vê impelido a retornar para Tracy, cujo amor desprezara. Ela ainda o esperava... mas estava de mudança para outra cidade, "Londres".
Entretanto, Tracy é axial. Ela traz, com sua juventude, a solução. Entre os mais velhos, e supostamente mais sábios e bem resolvidos, ela se destaca, pois é a única, que, sob os nossos olhos, age em acordo com uma "normalidade e simplicidade" desejadas. Metaforicamente Tracy é a antítese de Manhattan. Tracy é toda cor, já que ainda está longe de ser e de estar decaída, está longe de não saber viver ou amar profundamente. Sua simplicidade, por exemplo, em certo momento, é posta em contraste com os ares pseudo-intelectuais de Mary. Mais do que isso, Tracy é a complementaridade de Issac.
O enredo é espelho, portanto, do espaço. A cidade degenerada é palco para relações degeneradas e degradadas, mas a cidade e as pessoas continuam a ser sempre belas, a despeito disso. Quanto aos dramas de Issac, bem, esses só "Londres" multicolorida solucionará...

domingo, 12 de setembro de 2010

Literatura Latina


Alguns colegas vêm me falando sobre a dficuldade em comprar meu livro Literatura Latina. Informo que ele apenas está sendo vendido on-line no site da editora.
O Link é: http://www.videolivraria.com.br/videolivraria/interface/product.asp?template_id=138&partner_id=&utm_source=&departamento=&produto=LITERATURA+LATINA&dept%5Fid=610&pf%5Fid=18411

Imagem e Poder

The Getty Museum - Malibu/EUA
MFA, Boston/EUA


Na sexta, dia 10 de setembro, começou a ser finalizado meu novo livro que deverá sair ainda este ano pela Edusp. Imagem e Poder trata das representações de Otávio Augusto na Roma do século I. Está dividido nas seguintes partes:



I. Aspectos preliminares

A. O estado da questão

B. Contexto
1. Fim da República
2. Início do Principado

II. A construção da representação: uma história de conceitos

A. O nome de imagem
1. Os helênicos
a. Platão
b. Aristóteles
c. Epicuristas
d. Estóicos
2. Os romanos
a. Repraesentare
repraesentatio
b. Adumbrare
c. Fingere
d. Effingere
e. Pingere
f. Simulare
simulacrum
g. imaginare/i
imago

III. A finalidade da imagem

A. O Passado: memória

B. O Presente: poder

C. O Futuro: divinização e perpetuação

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Avaliação - I Colóquio Visões da Antiguidade

Manhã do Primeiro dia: Alexandre Pinheiro Hasegawa, Paulo Martins e Rosângela Amato
O I Colóquio Visões da Antiguidade (IAC, PROAERA e VerVe) teve ótimos momentos. Muitas questões discutidas, muita advertência e correção de caminhos nas pesquisas, mas, fundamentalmente, a certeza de que devemos realizá-lo todos os anos, a fim de afinar as pesquisas dos grupos e fazê-las interagir.

Ao avaliar o evento a Profa. Marly de Bari Matos disse: "Acredito que um evento tão bem sucedido mereça uma publicação à altura".


Já o Prof. Robson Tadeu Cesila nos informou: "o resultado desse primeiro Colóquio foi extremamente positivo, com alunos e professores apresentando suas pesquisas, independentemente do momento em que elas estão...", ou ainda, "Pareceu-me também que o clima durante as apresentações e posteriormente durante as discussões foi leve, de bate-papo aberto, de debate sem peias, cumprindo o objetivo da organização quanto a esse aspecto".


O Professor Fábio P. Cairolli nos diz: " A alta qualidade do evento também esteve, me parece, relacionada à alta qualidade das relações entre os participantes. É isso que propicia diálogos maduros, discussões construtivas e críticas não-constrangedoras. Felizmente, estas virtudes, incomuns na academia, estão presentes nas Letras Clássicas".



Diz Gdalva Maria da Conceição: "Foi um evento de alto nível e, com certeza, de grande contribuição para os estudos clássicos. Tendo em vista que foi um sucesso, resta esperar que o próximo encontro seja tão bom quanto esse". A Profa. Elaine Sartorelli: "O grande acerto me pareceu o tempo de duração das apresentações: nem tão curto que se exponha pouco conteúdo, nem tão longo que leve a platéia à dispersão".
O Prof. Agnolon da UFOP expressou: "O saldo de tudo é: o evento deve se repetir. Não sei se há uma obrigatoriedade de ser sempre aí. Seja como for, se desejarem fazer o evento aqui em Mariana, podem contar comigo. Acho que o clima aqui tem absolutamente tudo a ver."

sábado, 24 de julho de 2010

Curso de Pós

A partir de Agosto nas manhãs de sexta-feira, ministrarei o curso de Pós-Graduação do PPGLC/FFLCH/USP:

Disciplina FLC6093: Poesis Tacens, Pictura Loquens: homologias Discursivas entre o Verbal e o Não-Verbal na Roma Tardo-Republicana e Imperial.

A programação inicial está à disposição em: http://www.usp.br/iac/iac_pm.html

Nova Publicação

Caros colegas:

é com grande satisfação que informamos que o número 24 da Revista de Estudos Filosóficos e Históricos da Antiguidade - Boletim do Centro doPensamento Antigo Clássico, Helenístico e de sua Posteridade Histórica (julho de 2007 - junho de 2008) está disponível em seu formato digital - http://www.antiguidadeonline.org

Nos próximos dias o número 25 também estará no ar. Notificamos, ainda, que a Revista continuará a ser publicada também em papel, com periodicidade semestral, e que se encontra aberta a novas contribuições.Solicitamos a gentileza de divulgar amplamente essas informações.

Glaydson José da Silva
Diretor do CPA - Unicamp

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Nesse Número está publicado meu artigo:

"Imagines e Parataxe"

cujo resumo é:

O presente artigo visa a discutir o conceito de parataxe, que foi largamente utilizado por estudiosos da História da Arte e da Literatura para definir a estrutura dispositiva de certas obras da Antigüidade greco-romana. Porém, o termo, sincronicamente tomado, é estranho ao período, configurando certo anacronismo. Seu uso sistemático, assim, nos leva, erradamente, a crer que a parataxe pertence ao vocabulário teórico da poesia, da pintura, da gramática ou da retórica, o que é inconsistente. Contudo, o mesmo uso seria autorizado, se houvesse entre os modernos consenso sobre o significado, o que não ocorre. Dessa forma, se, de um lado, a teorização antiga – gramatical, poética ou retórica – não nos dá a chave do uso e, de outro, a modernidade não colabora com a precisão de sentido, a aplicação do conceito gera dúvidas na hermenêutica do objeto analisado. Nosso intuito, portanto, é delimitar o conceito modernamente e aplicá-lo na observação de algumas imagens da Antigüidade.

Palavras-Chave:

Iconografia; Retórica; Lingüística, Parataxe, Hipotaxe.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

I Colóquio "Visões da Antiguidade"

I Colóquio "Visões da Antiguidade"

Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo - Programa de Pós-Graduação em Letras Clássicas
Av. Prof. Luciano Gualberto, 403 - Cidade Universitária - São Paulo - SP
Prédio de Letras, Sala 260
28, 29 e 30 de Julho de 2010 - Das 9:00 às 12:00 e Das 14:00 às 17:00
Informações e-mail: iac@usp.br
Livro de Resumos [PDF]
Programação

Dia 28 de julho
Manhã - 9:00 h às 12:00

Paulo Martins (USP/IAC) - Reflexões sobre a observação e a análise de imagines da Antiguidade Clássica
Alexandre Pinheiro Hasegawa (USP/VerVe)- A imagem de Flaco no livro dos Epodos
Melina Rodolpho (USP/IAC)- Écfrase: A construção da imagem verbal
Tarde - 14:00 h às 17:00

Alexandre Agnolon (UFOP/VerVe) - Práticas fisiognomônicas em epigramas de Marcial
Cecília Gonçalves Lopes (USP/IAC)- Uma leitura metapoética de Amores, 1.15 - o retrato da elegia
Henrique Fiebig (USP/IAC)- Monumenta uerbalia: uma análise do corpus latino da obra "As fontes escritas antigas para uma história das artes plásticas entres os gregos" de Johannes Adolf Overbeck
Lya Grizzo Serignolli (USP/IAC)- Uma figuração do Amor: Militia Amoris

Dia 29 de Julho

Manhã - 9:00 h às 12:00

Henrique Cairus (UFRJ/Proaera)- De uisu hipocrático: o mundo nos olhos
Marly de Bari Matos (DLCV/USP)- A imagem da criança e uma criança destituída de imagem: considerações sobre a infância nas cartas de Plínio o Jovem
Fábio Paiffer Cairolli (VerVe/USP)- A imagem do imperador em Marcial e em moedas de seu tempo

Tarde - 14:00 h às 17:00

Irene Cristina Boschiero (USP/IAC)- As Imagines do poeta em Horácio
Rosângela Santoro de Souza Amato (USP/IAC)- Eikones de Filóstrato, o velho: um método
Cynthia Helena Dibbern (USP/IAC)- O retrato de Aníbal entre dois gêneros historiográficos: reflexões sobre a construção de seu éthos em Nepos e em Tito Lívio
Gdalva Maria da Conceição (USP/IAC)- O retrato de Júlio César por ele mesmo
Dia 30 de Julho
Manhã - 9:00 h às 12:00

João Angelo Oliva Neto (USP/VerVe)- Bibliopoemas: a poesia prevista
Roberto Bolzani Filho (DF/USP)- As imagens de Sócrates
Adriano Scatolin (DLCV/USP)- A auctoritas no De Oratore de Cícero
Tarde - 14:00 h às 17:00

Julieta Alsina (UFRJ/Proaera)- A discreta écfrase dietética: a descrição hipocrática do alimento
Denise de Souza Ablas (USP/IAC)- Entre a carta e a elegia: uma das Heróides de Ovídio
Anna Carolina Barone (USP/IAC/VerVe)- Uma reflexão tradutológica sobre as formas de nomear objetos de arte no De signis de Cícero
Simone Demboski Tonidandel (USP/IAC)- A Imagem de Lívia Drusila/ Júlia Augusta em Tácito

Melina Rodolpho e a Écfrase

Dissertação APROVADA PELA COMISSÃO JULGADORA NO DIA 9 DE ABRIL DE 2010 COM O SEGUINTE PARECER:

Tendo em vista que a dissertação apresentada:
- mostrou uma inusitada disposição de enfrentar um assunto intricado e de difícil percurso terminológico e conceitual;
- Pelo eficiente cotejo, síntese e coerência das definições recolhidas em ampla bibliografia de fontes antigas, resolveu questões que há muito resistiam às abordagens críticas mais capazes;
- Exibiu um esforço notável de análise de exemplos selecionados;
- a Banca Examinadora tem a honra e satisfação de considerar o trabalho aprovado, e insiste em recomendá-lo à publicação.

Prof. Dr. João Angelo Oliva Neto (VerVe/USP)
Prof. Dr. João Batista Toledo Prado (FCL/UNESP/Araraquara)
Orientador - Prof. Dr. Paulo Martins (IAC/USP)

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A dissertação encontra-se disponível no site: www.usp.br/iac

Veja em produção científica.

Atualizando e fazendo balanço

Antes de tudo, ter um blog é ter a responsabilidade de ser atual, pois é... Meu negócio é a Antiguidade, logo ser atual me é sempre muito difícil!!!

Em todo caso, digo que esse semestre me foi frutífero, afinal fiz algumas falas bem legais para mim:

1) Buenos Aires - Sociedad Latinoamericana de Retorica - Ius Imaginum.
2) Mariana - História/UFOP/LEIR - Os Romanos, o direito e a Imagem.
3) Rio de Janeiro - Filosofia/UERJ - Aristóteles e As imagens.
4) Rio de Janeiro - Filosofia/UFRJ - Simpósio Ousia - Natura et ars.

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Em Mariana, Norberto Guarinelo e Fábio Faversani, não sei se um deles ou os dois, questionaram-me a respeito do ius imaginum quando eu dizia que nos séculos I a.C. e I d.C. esse era um direito patrício. No momento, respondi peremptoriamente que era um direito patrício e não plebeu, tendo por fundamento Políbio e Cícero.

Depois, encontrei este trecho de Propércio que comprova minha tese:

Propércio 2,13, 18-26:

accipe quae serues funeris acta mei.
nec mea tunc longa spatietur imagine pompa,
nec tuba sit fati vana querela mei;
nec mihi tunc fulcro sternatur lectus eburno,
nec sit in Attalico mors mea nixa toro.
desit odoriferis ordo mihi lancibus, adsint
plebei paruae funeris exsequiae.
sat mea, sat magnast, si tres sint pompa libelli,
quos ego Persephonae maxima dona feram.


Seja quando for que a morte me feche meus olhos,
Observa que atos deves encomendar ao meu funeral.
Que, então, o cortejo de imagem não se estenda longo,
Tampouco a tuba não seja vã queixa de meu fado;
Nem meu leito seja posto, lá, em pés de marfim,
Nem meu corpo esteja inclinado em atálico leito,
Que a fileira de bandejas odoríferas me falte,
Mas me venham simples exéquias de um funeral plebeu.
Me é bastante, me é maior, se no meu cortejo houver três livros,
Os quais eu levarei, os maiores presentes à Perséfone.

Acho que respondo às indagações dos colegas.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Mariana, eu te amei!

Disse o poeta: Minas não há mais... Pois é ... Minas não só há, mas é realmente plural!
Fui ao Colóquio do LEIR (Laboratório de Estudos sobre o Império Romano) "As Formas do Império Romano" e vi desfilar, como um time de futebol: No gol: Tácito (Leitor de Elster) Augusto, Nero e Cláudio. Propércio, Pretônio e Catulo. Elster, Norberto e Farvesani. (No banco: Joly, Alex e Paulo; Ygor, Agnolon, Willian, Sarah e Alex): time de gente grande que gosta de rir. Disse Caetano e João Angelo: "Respeito muito minhas lágrimas, mas muito mais minhas risadas ..." Na Academia ainda há espaço para ser feliz! Acho!

Agnolon e eu que charme!



Norberto, Joly e Faversani - História de verdade


Praça Minas Gerais

É nóis!

Norberto e a Galera!

Fábio e Jacynto!

" O lugar"

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Uma crônica

A HISTÓRIA DO DIA EM QUE FUI VER ALICE RUIZ

Comecei o dia num ônibus para USP. Lá, dei com os burros n'água, porque a pessoa que iria encontrar não foi ter comigo. Eu fui ter com ela. Ela se esqueceu. Esquecerem de mim não sei que número ... Então, no ônibus, em pé metade do caminho, outra metade sentado, pensava em poemas, na poesia, pensava que veria Alice Ruiz; tudo isso para não ruir, para vencer o ruim do desconfortável do ônibus, o difícil do dia. Não faço drama, não exagero, foi assim que foi. Foi. Fui ...

Na USP, sem a pessoa que encontraria, nem grupo de estudos, com a mochila cheia de ecfrases, descrições de batalhas, de cidades, tomei um café com leite, escuro, sem espuma, amargo. O que salvou foi a conversa fortuita com uma descendente de libaneses muito sorridente, cheia deles, dos dentes, de seus parentes.

Esperei por uma hora, nada. Burros n'água. Parti a caminho da PUC/SP, para ver Alice Ruiz. Tuca Arena. Não é aqui, mudou para ... Fui para o Prédio Novo, 3º andar. O elevador passou reto, não me deixou entrar. Fui a pé, pela rampa. Três andares. Lá: não é aqui, é no 2º andar. Fui lá ... Vi, ouvi, senti Alice Ruiz. Tinha que ser assim, tão difícil? Para chegar à poesia, havia a necessidade desse trajeto? Foi minha dor de dentes, minha nevralgia o dia, até ver e ouvir a poesia de Alice Ruiz. Foi. Fui eu na travessia ... até que a poesia de Alice Ruiz abriu o dia, abriu meu dia de poesia.

Eduardo Sinkevisque
28/04/10

domingo, 4 de abril de 2010

Mais um lançamento de março


MARTINS, PAULO. Literatura Latina. Curitiba: IESDE. 2009. ISBN: 978-85-387-0901-5
DVD 1/ISBN: 789-09-980-4989-0
DVD 2/ISBN: 789-09-980-4990-6




Trata o texto de questões gerais e genéricas das Letras Latinas. Um manual de Literatura Latina cuja preocupação cronológica é deixada, parcialmente, de lado, para observar essencialmente gêneros letrados transhistoricamente, sem abrir mão, entretanto, do contexto e, naturalmente, da recepção coetânea aos textos, elementos importantes para o autor na compreensão dessas práticas letradas antigas, devido à distância que existe entre elas e nós, leitores modernos.




O compêndio obverva 11 gêneros literários, sigificativos em Roma, entre o século III a.C. e o século IV d.C., matiza diferenças e assinala semelhanças entre autores, apresentando mais do que informações acerca de autores, os seus próprios textos, comentados e anotados.


Iniciando pelo capítulo que apresenta o contexto dessas práticas letradas, o livro contém informações acerca da: Lírica (Horácio e Catulo), Elegia (Propércio, Ovídio e Tibulo)), Bucólica (Virgílio), Épica (Virgílio), Comédia (Plauto e Terêncio), Tragédia (Sêneca), Historiografia (Salústio, Tito Lívio e Tácito), Retórica (Cícero, A Herênio e Quintiliano), Oratória (Cícero), Poesia didática (Horácio e Ovídio) e Sátira (Horácio, Sêneca, Juvenal e Petrônio.




Acompanha ao livro, 2 DVDs, contendo 12 aulas de Literatura Latina, proferidas pelo Prof. Dr. Paulo Martins, da Universidade de São Paulo.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Buenos Aires - 2010


Faculdad de Derecho
Local do evento
Faculdad de Derecho - Universitad de Buenos Aires

Durante 17 e 19 de março de 2010, houve na Faculdade de Direito da Universidade de Buenos Aires, Argentina: o Ier Coloquio Nacional de Retórica "Retórica y Política" e as Iras Jornadas Latinoamericanas de Investigación en Estudios Retóricos.
Aqui da USP, participaram, apresentando trabalhos importantes às suas pesquisas, Adriano Scatolin, Marcos Martinho dos Santos, Marly de Bari Matos, Pablo Schwartz Frydman, Paulo Martins e Rosângela Santoro de Souza Amato. Entretanto, o Brasil esteve representado por pesquisadores da UNICAMP, UERJ e UFC .

Paulo Martins

Minha comunicação tratava da questão do ius imaginum, o direito de imagens que era concedido aos patrícios como forma de reverenciar seus antepassados. Essas imagens eram de "consumo" privado, não só porque eram feitas a partir do molde de cera modelado logo que o homem insigne morria, mas também por ser colocada no columbarium em pequenos nixos juntos aos Lares e Manes de uma gens. Ocorre, entretanto, que no dia das pompa gentilicia, essa imagem era retirada da casa e era levada ao forum para que lá, junto aos rostros, fosse feito um discurso em honra ao morto. Tal migração da imagem pode ser considerada uma transgressão de sua função elocutiva, já que o forum é um local público. Discuti fundamentalmente esse rito tendo como base Políbio VI,53.

Rosângela Santoro de Souza Amato

Rosângela tratou de forma bem clara o início de sua pesquisa de Mestrado que versa acerca da obra Eikones de Filóstrato, o Velho. Autor pouco estudado que teria cunhado o termo "Segunda Sofística". Em sua comunicação, Rosângela tratou de uma das descriptiones ou ékphraseis realizada pelo autor: Os Erotes.

Marcos Martinho dos Santos

Marcos Martinho, coinvidado pelo grupo promotor da Associação Argentina de Retórica, proferiu conferência sobre os Progymnásmata de Priciano, verificando as relação entre essa obra e a de outros gramáticos.
Sociedad Latinoamericana de Retórica

Estava previsto pelos oraganizadores não só a fundação da Associação Argentina de Retórica (que efetivamente ocorreu), mas também a da Sociedad Latinamericana de Retórica cuja fundação foi postergada devido a dificuldades técnicas, entretanto um grande passo foi dado, tendo sido acertado que a Sociedade não terá sócios individuais, mas outras sociedades e/ou grupos de pesquisa devidamente organizados e atuantes com trabalhos de relevo na grande "Área Retórica".
Buenas Vistas e Aires

Por outro lado, Buenos Aires nos brindou com alguns lugares excepcionais sob o ponto de vista gastronômico, cultural e livresco, aqui vão algumas dicas.
Cultura

Arcadia/Libros

Marcelo T. Avelar, 1548 - aecadialibros@fibertel.com.ar
Pequena Livraria com grande acervo em ciências humanas, incluindo os grecos e os latinos.

El Ateneo/Santa Fé


El Ateneo - SantaFé

Talvez a mais linda ("mas linda"!) livraria que já vi. O acervo é ótimo, mas o espaço é espetacular...

MALBA - Museo de Arte Latinoamericana de Buenos Aires


Malba

O Museu, além de sua localização especial e cojunto arquitetônico invejável, possui uma belíssima coleção na qual encontramos o Abapuru de Tarsila do Amaral.

Vale dizer que tivemos sorte, pois durante o período havia uma exposição da Arte da vanguarda cubana do início do século XX.


MNBA - Museo Nacional de Belas Artes de Buenos Aires


MNBA

O Museu nos traz surpresas. A primeira delas é ter uma coleção vastíssima da arte produzida desde o século XII até o século XX, com obras efetivamente significativas. Para se ter uma pequena ideia o próprio Rodin ofereceu ao Museu a obra original de "O beijo".

O Beijo de Rodin - Original, doação do autor


"O Pensador" de Rodin (Terceiro original)

Praça do Congresso Nacional

Porto Madero




La Parolaccia - Pasta excelente!

Em Porto Madero: Alicia Moreau de Justo 1052
Tel: 4343-1679
http://www.laparolaccia.com/

Cabaña Las Lilas - (Carnes muito boas)
Em Porto Madero: Alicia Moreau de Justo 516
Tel: 4315-1010



Nós, brazucas em BA, no Las Lilas

Plaza Mayor (Comida Espanhola fantástica)
Venezuuela 1399, Congreso


Plaza Mayor


Cardápio em forma de leque: sui generis!


La Biela
Av. Quintana 596, Recoleta


La Biela

Fica em frente à praça central da Recoleta, com mesinhas na calçada. Boas bebidas, drinks e doces. Muito Bom! Do outro lado da plaza: requiescant in pace!

Café Tortoni
Av. de Mayo 829, Centro


O café mais famoso e tradicional de Buenos Aires
La Boca

Caminito

El Paraiso - A melhor parrilla al carbón, al aire libre
Garibaldi 142B entre Magallanes y La madrid

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Propércio 2, 29a

Mais uma tradução do velho Propécio:

Propércio, II, 29

HESTERNA, mea lux, cum potus nocte vagarer,
nec me servorum duceret ulla manus,
obvia nescio quot pueri mihi turba minuta
venerat (hos vetuit me numerare timor);
quorum alii faculas, alii retinere sagittas,
pars etiam visa est vincla parare mihi.
sed nudi fuerant. quorum lascivior unus,
'Arripite hunc,' inquit, 'iam bene nostis eum
hic erat, hunc mulier nobis irata locavit.'
dixit, et in collo iam mihi nodus erat.
. . .
hic alter iubet in medium propellere, at alter,
'Intereat, qui nos non putat esse deos!
haec te non meritum totas exspectat in horas:
at tu nescio quas quaeris, inepte, fores.
quae cum Sidoniae nocturna ligamina mitrae
solverit atque oculos moverit illa gravis,
afflabunt tibi non Arabum de gramine odores,
sed quos ipse suis fecit Amor manibus.
parcite iam, fratres, iam certos spondet amores;
et iam ad mandatam venimus ecce domum.'
atque ita me iniecto dixerunt rursus amictu:
'I nunc et noctes disce manere domi.'

À noite passada, luz minha, quando ébrio vagava
E coorte alguma de servos acompanhava
Turma diminuta – não sei de quantos meninos
Veio ao meu encontro – o temor impede de numerá-los –
Uns deles, pequenas tochas; outros levavam dardos
Uma parte pareceu preparar-me armadilha.
E estavam nus. Um deles era mais lascivo
E disse: “Agarrai-o, já bem o conheceis.”
“Era ele, é ele que a irada mulher nos entregou”
Disse e no meu pescoço um nó já havia.

****
Outro manda que me empurrem para o meio,
Mas outro:“Morra quem não nos crê deuses!”
Ela te espera, imerecedor, por horas:
E tu, inepto, não sei quais outras procuras.
Quando ela tiver soltado os laços noturnos da mitra sidônia
E tiver entreaberto olhos pensos de sono
Odores te chegaram não de ervas arábicas,
Mas os que os o próprio Amor fez com suas mãos.
“Poupai já, irmãos, já promete tudo de amor.”
“Eis já chegamos à casa mandada.”
E restituído meu manto, disseram:
“Vai agora e aprende a ficar em casa às noites!”

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Cursos de Graduação do 1o. Semestre de 2009

Com Início no dia 1o. de Março, ministrarei os seguintes cursos de graduação neste semestre:

1. Literatura Latina: Lírica - às 3as., 10:00h
2. Literatura Latina: Teatro - às 3as., 8:00h
3. Conceitos de Retórica - às 2as., 10:00h
4. Língua Latina V - às 4as, 10:00h

Os temas previstos para o curso de Lírica são:

1. Bases gregas de poesia lírica:
a. Performance e recepção das letras gregas e latinas
b. Extensão do termo lírica e contraste com a aulética e com a citarística
c. Monódica e Coral - Mélica
d. Temática

2. Os gêneros "líricos" de acordo com Menandro, Retor
Generic composition in greek and roman poetry - Francis Cairns
a. associação entre poesia e retórica - o epidítico e o epinício, o hino, etc.
b. Quintiliano Livro dez.
c. Tácito Diálogo dos Oradores, 10...

3. A poesia Lírica de Catulo e de Horácio
a. Contexto Histórico Republicano e os Neóteroi
b. Contexto Histórico do Principado de Augusto (o Mecenato - a "propaganda")

c. Leitura e Análise, Textos dentro desse universo.

Temas do curso de Teatro:

· A questão do coro e sua "voz" como interferência externa na ação trágica.
· A questão da catarse, terror e piedade - efeitos de sentido na audiência trágica.
· A construção retórica das tragédias de Sêneca.
· Sob o aspecto teórico, desenvolver a questão do riso x catarse.
· Riso e argumentação (retórica)
· Os Caracteres de Teofrasto na constituição da comédia nova.


Temas do curso de Conceitos de Retórica:

Origem e a doutrina diacronicamente observada
Questões de Retórica Grega
Retórica, sofística, dialética e filosofia
i. Platão
1. Fedro
2. Górgias
3. Sofista
4. Protágoras
Retórica e Ética
i. Aristóteles
1. Retórica
2. Ética a Nicômaco
Retórica x oratória x eloqüência
Objeto e finalidade - Quintiliano.
Partes do discurso
i. Exordium/proemium
ii. Narratio
iii. Argumentatio
iv. Confirmatio/Refutatio
v. Peroratio
Sistema retórico
i. Inuentio/Invenção
ii. Dispositio/Disposição
iii. Elocutio/Elocução
iv. Memória
v. Actio/Ação
A doutrina de Hermágoras.
O orador
O orador e a audiência: o contexto dos discursos.
O éthos do orador e fides/credibilidade.
O páthos - Cícero e Quintiliano.
Humor - Cícero e Quintiliano.
Virtudes da elocução (uirtutes elocutionis)
Decoro/Aptum/Pršpon
Perspicuitas
Latinitas
Ornatus
Gêneros do Discurso
Delimitação do termo genus, generis
Epidítico
Judicial
Deliberativo
Práxis e Doutrina
Performance
Apropriação (o discurso na historiografia, na épica)
Poesia e Retórica
i. Pseudo Longino – Sobre o sublime.
ii. Menandro: Dois tratados de Retórica Epidítica

Quintiliano, Livro 10

Dissertação de Mestrado

Na sexta-feira, 19 de fevereiro, Cecília Gonçalves Lopes, apresentou sua dissertação de mestrado junto ao PPG em Letras Clássicas da USP. A Banca composta por Paulo Sérgio de Vasconcellos do IEL da Unicamp e por mim e Adriano Scatolin do DLCV/USP APROVAMOS O EXCELENTE TRABALHO cujo título é Confluência Genérica na Elegia Erótica de Ovídio ou A Elegia Erótica em Elevação.

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Segue o Resumo do trabalho e o texto que Cecília apresentou à assistência.

LOPES, Cecilia Gonçalves. Confluência genérica na Elegia Erótica de Ovídio ou a elegia Erótica em elevação. 2009. 161f. Dissertação (Mestrado) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2009.



No final do século I a.C., a Elegia Erótica Romana desafiou os gregos e as convenções poéticas apresentando um poeta-amante que cantava suas aventuras amorosas em primeira pessoa. Como se isso não bastasse, esse eu-elegíaco se dedicava à puella como se tal tarefa fosse uma militia, um seruitium amoris, e que exigia tempo integral. Galo, Propércio e Tibulo nos apresentaram suas dominas e se negaram a servir à pátria.
Ovídio foi além: seguiu seus predecessores mas fez com que seus leitores aprendessem a entender o papel de cada uma das normas na construção desse gênero. Escreveu seu primeiro livro, Amores, e , a partir daí, começou a traçar um caminho ascendente: queria sua Elegia elevada, não apenas média.
Para isso, produziu recusationes, elegias programáticas e, o mais importante, confluiu gêneros. Fez uso da Epistolografia, da Retórica, da Didática e de personas e exempla míticos para compor Heroides, Ars amatoria e Remedia amoris.Nesta dissertação, mostra-se a trajetória do poeta na elevação da Elegia Erótica de Ovídio.

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Confluência genérica na Elegia Erótica de Ovídio
ou a Elegia Erótica em elevação
Defesa de Mestrado - Cecília Gonçalves Lopes
Roma: em um espaço restrito da cidade, os Fóruns, parece concentrar-se toda sua vida: trabalho, lazer, políticos e poetas, malandros, punguistas, soldados e lenas. O Palatino e as insulae: Roma é barulho durante o dia e à noite.
A cidade que preserva sua memória em monumentos arquitetônicos e literários é o lugar onde se encontram pessoas vindas de todas as partes do mundo, e sob Augusto Roma se modifica bastante. Nas letras, agora há quem cante o ócio. A guerra civil acabou e alguns poetas, os elegíacos, falam sobre o amor em versos desiguais, os dísticos. Roma é, afinal de contas, um anagrama desse sentimento capaz de escravizar, de tornar doentes aqueles que são sadios. Ovídio conseguiu, assim como Catulo, Propércio e Tibulo antes dele, perceber tal sutileza e fez, a partir do tema e do gênero, poemas deliciosos. Fez do amor, nas letras, o objetivo de viver.
Por cerca de cinqüenta anos, ao final do século I a.C., os elegíacos falaram, em primeira pessoa, sobre suas aventuras amorosas com as puellas, mulheres que não queriam casamento e tampouco ver-se imortalizadas em versos. Queriam presentes e dinheiro. Quem eram elas? Prostitutas, casadas, solteiras? Reais ou imaginárias? E o que dizer dos próprios amantes? Por que tornar-se escravos de mulheres tão caprichosas? Por que falar de um tema médio, em métrica tampouco elevada? Por que dedicar-se à militia amorosa quando mais nobre era participar de guerras, defender a pátria?
Muitas são as perguntas que persistem quando falamos da Elegia Erótica Romana. Mas felizmente inúmeros são os versos que chegaram até nós e, ainda que não consigamos dirimir todas as dúvidas, podemos ao menos reconhecer algumas características próprias do gênero.
E assim, com a ideia de tentar organizar, para mim, o que era a Elegia Erótica, cheguei a Ovídio. Não era ele apenas um elegíaco, um amante sofrendo por sua Corina, mas também, e principalmente, um poeta preocupado em mostrar convenções das letras latinas e, assim, transformar seu público, torná-lo apto a uma leitura mais aprofundada.

***

Minha pesquisa começou apenas com Heroides. O intuito era estudar, na Elegia, traços de gêneros diversos nessas epístolas escritas por personagens mitológicas – e por Safo. Retórica, Elegia e Epistolografia eram itens básicos, mas que acabaram se mostrando, apenas no estudo desse livro, enfadonhos.
Foi então que, buscando mais informações, encontrei algo que me pareceu extremamente interessante: Ovídio dedicava-se, sim, à poikilia, e não apenas nas Heroides. Seu plano parecia maior: a partir de Amores, obra média, sua intenção era ascender genericamente, produzir textos mais elevados valendo-se da mistura de convenções de diferentes gêneros. Seu objetivo era confluir gêneros, transgredi-los, desafiá-los.
A poikilia, portanto, aparecia em Amores, Heroides, n’A Arte de Amar e em Remédios – pra ficar com os livros estudados nesta dissertação -, e não estavam lá apenas por capricho ou para demonstrar o ingenium do poeta, mas para levá-lo a outras obras, como dissemos, mais elevadas. O caminho traçado desde o começo por ele existia realmente e poderia ser encontrado?
Acreditava que poderia, não sabia se por mim. Ovídio, desde os primeiros versos dos Amores, brinca. O poeta-amante é mais experiente, seja nas letras ou no amor. Ele já aparece como um magister, tentando tornar claras as convenções usadas por aqueles que se diziam sinceros e que passavam por sofrimentos e torturas, pela recusa da amada e pela rigidez de suas portas.
A todo o momento, ainda, Ovídio escreve sobre o escrever. A todo o momento ele tenta nos abrir os olhos, mostrar a Elegia, composta em dísticos, a partir de um ponto de vista não somente elegíaco, mas mais amplo. Estão ali em seus poemas as normas do gênero, passíveis de identificação, mas com ironia, com uma piscadela - para fazer uso da expressão de Paul Veyne.
Assim, ainda que nos Amores sofra o amante, sua situação é diferente daquela retratada por Tibulo ou Propércio. O apaixonado de Ovídio gosta também da escrava de Corina e de alguma outra mulher que lhe aprecie os poemas. Ele ama o jogo elegíaco mais do que qualquer outra coisa. O poeta gosta mais de escrever sobre o amor do que o amante, de amar.
Com Heroides, o sofrimento é feminino, não mais masculino. Há a ausência, a queixa. A querela. A remetente da epístola, além disso, nos é superior, pois personagem mitológica. Conhece, assim como o outro autor, as regras das letras. Preocupa-se com o escrever, é escritora. Safo é escritora, se diz autora no terceiro verso de sua epístola. E tomamos contato com a Retórica e a Epistolografia na ascensão genérica. O amor permanece tema majoritário, e continua causando dor.
Com a Ars Amatoria, manual de conquista amorosa, Ovídio utiliza principalmente a Didática. A Elegia e a Tragédia já haviam brigado por ele em Amores, e ele tinha dito que ainda iria se dedicar a eles por mais um tempo – e assim o faz, seguindo aquilo que havia falado ao marido de sua puella: o ludus há que existir. Mas não pode ser muito fácil nem entregar todo seu regulamento. Quando isso acontece, ele parte para nova empreitada.
Não nos esqueçamos que, com a Arte, interessa-nos perceber que se separam de vez os dois papéis: o de amante e o de magister. Este se vale da experiência daquele e, assim, está apto a dar conselhos. A mitologia é usada para dar-lhe mais autoridade.
Com os Remedia, finalmente, acaba o amor. O que havia começado com Corina vai esmorecendo. Se com a Ars Ovídio queria ensinar, nas letras, a arte da conquista e de sua manutenção, com os Remédios ele chega a um marco de sua obra ascendente. Acaba seu jogo. Está preparado para voos mais altos. A Didática permanece, mas agora o tema é levado à exaustão.
Mas, novamente, trata-se de Ovídio. Seu jogo acabou? Uma das leituras que se pode fazer é que, mais uma vez, ele ironicamente desafia os limites: o poema didático que pretende acabar com o amor, que quer ensinar algo não passível de ser esquematizado, que parece desdizer a Ars é, na verdade, uma volta a ele, o sentimento. Um exemplo, presente nos versos 757 a 766:

Que eu seja obrigado a falar: não toque os poetas eróticos! / Eu mesmo, ímpio, afasto meus dotes. / Evita Calímaco: ele não é inimigo do Amor: / e como Calímaco, tu também, Filetas, fazes mal. / Safo, certamente, me tornou melhor para minha amiga, / e a Musa de Teos não me deu rígidos costumes. / Quem poderia ter lido, sem medo, os poemas de Tibulo? / ou os teus, em cuja obra Cíntia foi única? / Quem, tendo lido Galo, poderia, insensível, partir? / E sei que meus poemas ressoam como tal.


Em dísticos elegíacos, Ovídio elenca poetas que não devem ser lidos porque falam de amor. Ele quer ou não que os leiamos? Quer, e quer ainda que voltemos aos Amores. O Amor, afinal de contas vence tudo e todos. Em gênero baixo, médio ou elevado.
De qualquer forma, ainda que com essa volta aos seus primeiros versos, Ovídio parece conseguir atingir seu objetivo: desafiando limites, fazendo da Elegia um supergênero, escrevendo na fronteira entre gêneros, sua poesia ascende. O amor vivido como aventura em Amores é sentido por personae mitológicas e se torna tema a ser ensinado na Ars. O que torna tudo mais engenhoso é a forma como o poeta produz, como brinca, ironicamente, enquanto nos ensina a lê-lo.

***

Roma é a cidade dos monumentos, do Palatino, do Capitólio. De Cícero, de Plauto, de Virgílio. Suas múltiplas vozes, construídas e reconstruídas em mármore em versos, ainda aparecem vivas, estejam elas falando de guerras ou de amores. Mas quando fala de Amor, fala de si mesma e de Vênus. Especificamente com Ovídio, somos levados por caminhos diversos, e às vezes não sabemos aonde vamos chegar – nem como. O que ficou para mim, entretanto, é que não importa o quanto releia seus poemas: por causa de seu engenho, de suas artimanhas e de sua ironia, ele conseguiu o que queria. Continuo apaixonada. Pelas suas palavras e pelo amor.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Poesia e Eloquência

Muita discussão existe em torno das possíveis relações entre poesia e retórica na Antiguidade Clássica. Há quem julgue que uma e outra arte são inseparáveis, assim as categorias retóricas seriam aplicáveis à poesia e as categorias poéticas, à eloquência. Assim o fez Francis Cairns em Generic composition in greek and latin poetry*, quando, no final dos anos 70, tomando como base elementos característicos dos tratados acerca do discurso epidítico de Menandro, o retor, aplicou tais procedimentos à invenção poética.


Este pequeno trecho de Tácito, em Diálogo dos Oradores, parece-me que esclarece àqueles que são incrédulos à tese da indissociabilidade entre as artes:

"ego vero omnem eloquentiam omnisque eius partis sacras et venerabilis puto, nec solum cothurnum vestrum aut heroici carminis sonum, sed lyricorum quoque iucunditatem et elegorum lascivias et [10.4.5.] iamborum amaritudinem epigrammatum lusus et quamcumque aliam speciem eloquentia habeat, anteponendam [10.5.1] ceteris aliarum artium studiis credo."

"Eu mesmo, na verdade, considero a eloquência toda e todas as suas partes sagradas e dignas de veneração, não apenas o som de vossos coturnos ou de carmes heróicos, mas também encantos de poemas líricos, atrevimentos elegíacos, amargores iâmbicos, gracejos epigramáticos e qualquer que seja o gênero que eloquência possua, eu acredito que ela deva ser anteposta a outras práticas de outras artes."

Tradução de Paulo Martins

*Cairns, Francis. Generic composition in Greek and Roman poetry. rev.ed. . Ann Harbor: Michigan Classical Press. 2007. 336 pages.