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terça-feira, 12 de agosto de 2008

Pós-graduação em Letras Clássicas - USP

Serão abertas incrições para Pós-graduação em Letras Clássicas - USP/FFLCH a partir de 18/08/2008.

Confira o Edital: http://www.fflch.usp.br/pos/editais/LetrasClassicaOK.htm

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Final do Curso: Lendo Imagens

Hoje, dia 4 de julho, teve fim o curso de Pós-graduação em Letras Clássicas na USP: Lendo Imagens. Nos dois últimos encontros, houve duas palestras: a primeira, a cargo de João Angelo Oliva Neto (Professor do Programa) sobre as representações de Priapo; já, a segunda, sobre a ékphrasis e euidentia, sob a responsabilidade de Melina Rodolpho (Pesquisadora do Programa).

sábado, 28 de junho de 2008

João Angelo em Lendo Imagens


No dia 2 de julho, o Prof. Dr. João Angelo Oliva Neto (DLCV/FFLCH/USP) irá proferir palestra sobre a Figuração de Priapo em texto e imagens, aos alunos do Curso de Pós-graduação em Letras Clássicas na Disciplina Lendo Imagens (FLC5967), de minha responsabilidade. A palestra insere-se no programa da disciplina que se ocupa das imagines verbais e visuais da República e do Império. No caso específico, a figuração do pequeno-grande deus nos interessa pela versatilidade de sua representação em chave elevada (é deus) e baixa (é fescenino).

Tendo o curso, em suas primeiras 12 semanas, observado os processos de composição e circulação das imagens públicas e privadas, repuplicanas e imperiais, parece eficiente analisar esse tipo de figuração dupla e, essencialmente, diversa daquelas estudadas. Assim, Priapo, como divindade, poderia sintetizar o discurso epíditico em suas duas vertentes, além de ser, salvo engano, um tipo de representação que transborda dos limites da vila, do domus, da horta e dos jardins e, portanto, de caráter privado, repercutindo hiperbolicamente nos portos e nos grafitos, espaços públicos.

Por que achas que meninas querem vara, mesmo
de madeira, e me beijam bem no meio?
Nem áugure é preciso: "em mim", disse uma delas,
"vai ter uso perfeito a tosca vara".
A oportuna palestra de João Angelo lembrou-me de publicar duas resenhas veiculadas pela Folha de São Paulo, distantes 10 anos entre si. A primeira de minha autoria quando foi publicado "O Livro de Catulo" em 1996 (premiado pela APCA em 1997 como melhor tradução - hoje esgotado), contudo a ser reeditado, completamente revisto e ampliado. A segunda de autoria de Flávio Ribeiro de Oliveira (professor de grego da UNICAMP) por ocasião do já famoso "Falo no Jardim - Priapéia Grega, Priapéia Latina", que constou entre os 10 indicados ao prêmio Jabuti de 2007. Além dessas, ao fim, publico o verbete "João Angelo Oliva Neto" no Dicionário de Tradutores Literários no Brasil.

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Um Mestre Clássico da Métrica


Paulo Martins
ESPECIAL PARA FOLHA
25/08/1996

O Brasil, apesar de tentativas es­parsas na divulgação da literatura clássica antiga por meio de tradu­ções, ainda está muito distante da produção do dito Primeiro Mun­do. O desenvolvimento dessa ati­vidade atingiu tal ponto nestes países que hoje já se tem diacroni­camente uma tradição da tradu­ção.

A Edusp vem, mesmo que timi­damente e sem um projeto mais abrangente, incentivando a divul­gação de traduções e ensaios nessa área. Dessa forma, lança nesse semestre um texto inédito em língua portuguesa: a tradução da obra completa de Catulo, que foi objeto da dissertação de mestrado de João Angelo Oliva Neto, professor da USP.

Por si, tal fato já representaria um dado de suma importância pa­ra os estudos literários no Brasil, dada a representatividade e im­portância de Catulo que, segundo Ezra Pound no “ABC da Literatu­ra", seria o único autor a emular com Safo de Lesbos quanto à mé­trica, além de ser superior a poeti­sa grega arcaica no que se refere à economia das palavras.

O Livro de Catulo, poeta vero­nense que viveu em Roma entre 87 e 57 a.C., não é volumoso, contudo plural, abrangendo um espectro genérico que vai da sátira aguda ao hino, perpassando a poesia amo­rosa, circunstancial e a invectiva com a mesma excelência técnica comentada por Pound. O curioso nessa obra é o sentido de unidade dentro da diversidade, porquanto, apesar de apresentar distintos gê­neros, sedimenta-se em torno de um padrão compositivo, que na Roma Antiga diferenciava um grupo de poetas chamado poetas novos (poetae noui ou neóteroi), que divulgava a poética alexandri­na, assentada em Calímaco de Cirene.

Tal padrão técnico estava centra­do na economia das palavras, na sutileza, na leveza, na rapidez, na escrita e no livro, fato esse que tor­na-se evidente em Catulo ao ob­servarmos o primeiro poema de seu livro, quando denomina sua obra de lepidus nouus libellus (no­vo e gracioso livrinho) e seus tex­tos de nugas (versos ligeiros, ni­nharias).

Talvez a aparente simplicidade da poética de Catulo tenha sido um dos principais fatores para a disseminação de seus poemas entre nós, leitores modernos de poesia antiga. Contudo sempre estivemos sujeitos às traduções esporádicas que não contemplavam a magni­tude e riqueza métrica de seus tex­tos e tampouco davam valor a seus saborosos textos fesceninos por conta de um pudor que não deve­ria e não deve cercear o prazer do texto literário.

Estes dois dados traduzem re­dutoramente, o trabalho de Oliva Neto que, num brilhante em­preendimento de tradução para um ótimo português, não só pro­pôs soluções técnicas competentes à variedade métrica e à habilidade no uso das palavras, como, dada à natureza do trabalho, não se dei­xou levar por certo moralismo que encontramos em tradutores que se deparam com os textos mais pi­cantes do poeta de Verona.

Ademais, João Angelo Oliva Ne­to não se limita às traduções e nos contempla com riquíssimas notas,o que é fundamental para intelec­ção dos textos, tendo em vista os leitores não habituados à leitura dos clássicos, e com uma bem cui­dada e esclarecedora introdução que resgata o que há de mais atual na produção acadêmica.

Digna de ressalva também é a pertinência na escolha das ilustrações do livro. As imagens imediati­zam uma associação entre duas linguagens que se completam, tor­nando mais prazerosa a leitura do livro. Por outro lado, vale dizer que muitas dessas iconografias também são inéditas no mercado editorial brasileiro, tão escasso de publicações desse matiz. Assim, para o leitor de língua portuguesa, essa edição, que já valeria pelo iné­dito de Catulo, é duas vezes bem-vinda.




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O deus das pequenas coisas"Falo no Jardim" reúne os poemas gregos e latinos dedicados a Priapo, divindade obscena e zombeteira


ESPECIAL PARA A FOLHA
17 de setembro de 2006

"Priapéia" é uma coletânea de breves e jocosos poemas anônimos, compostos em latim entre os séculos 1º a.C. e 1º, cujo tema é Priapo, deus da fertilidade, burlesco e itifálico (representado normalmente em estado de ereção).

O culto de Priapo surgiu na Ásia Menor por volta do século 4º a.C., de onde se difundiu pelo mundo grego e, mais tarde, pelo romano.

Priapo era um deus menor, disforme e desprovido da imponência e da beleza severa dos olímpicos. Mas, por isso mesmo, era popular entre as classes mais humildes da população que, além de considerá-lo protetor da fertilidade animal e vegetal, se valia de seu caráter apotropaico: Priapo seria capaz de afastar malefícios e maus-olhados que pudessem prejudicar a virilidade dos homens e a fertilidade do solo.

Os poemas da "Priapéia" têm, pela própria natureza do deus, um caráter zombeteiro e francamente obsceno -o que perturba sensibilidades mais delicadas. São, até hoje, pouco conhecidos, pouco estudados e pouco traduzidos. "Falo no Jardim", livro de João Ângelo Oliva Neto, nos oferece não só o texto latino completo e traduções impecáveis de todos os poemas da "Priapéia" mas também todos os poemas da chamada "Priapéia Grega" (coletânea dos poemas priapeus gregos que faziam parte da "Antologia Palatina"), também em edição bilíngüe.

Três capítulos iniciais situam e analisam minuciosamente o fenômeno do culto de Priapo no mundo antigo e suas manifestações literárias; os cinco capítulos finais trazem, respectivamente, poemas latinos de autoria conhecida (Catulo, Horácio etc.) cujo tema é Priapo, mas que não faziam parte da "Priapéia" (texto original e tradução); excertos de poemas que, sem ter tema priapeu, mencionam Priapo (texto original e tradução); os poucos poemas priapeus compostos em língua portuguesa; as raras traduções de poemas da "Priapéia" em língua portuguesa anteriores às de Oliva e, por fim, o texto e a tradução de "Er Padre de li Santi", poema priapeu de Belli, escrito em dialeto romanesco no século 19.

Linguagem franca


Fecha o volume um aparato de grande utilidade para o leitor -esquemas métricos, relação dos epítetos de Priapo, glossário, bibliografia e índices. Além disso, o livro traz rico material iconográfico. As seções teóricas, de extremo rigor analítico e sólida fundamentação bibliográfica, são de grande interesse acadêmico para o especialista e, agora mesmo, os leitores desta resenha devem estar pensando: "Ah, mais um livro erudito da academia, destinado a meia dúzia de gatos-pingados da academia...". Nada disso. Oliva tem o raríssimo mérito de, sem abrir mão da profundidade que um estudo crítico do tema requer, ser perfeitamente acessível a qualquer leitor inteligente. Seu texto, escrito em linguagem clara e, eventualmente, bem-humorada, nunca apela para jargões acadêmicos abstrusos.

Ao longo dos séculos, a "Priapéia" e os temas priapeus têm provocado indignação pudibunda entre os tartufos e os ilibados defensores da moral e dos bons costumes, desde os pais da igreja até os editores alemães que censuraram a palavra "Priapia" (entre outras) em diversas edições de "Frühlings Erwachen" [Despertar da Primavera], de Frank Wedekind (1864-1918).

Ainda hoje, muitas traduções de obras clássicas de caráter erótico empregam eufemismos ou termos científicos para traduzir palavras que, em grego ou latim, pertencem ao registro chulo da linguagem. As traduções de Oliva, de grande valor e invenção poética, são rigorosamente fiéis à obscenidade burlesca, à graça provocadora e ao bom humor debochado dos originais. Nelas, a mêntula não é chamada de membro viril ou pipi.

*FLÁVIO RIBEIRO DE OLIVEIRA é professor de língua e literatura gregas na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

FALO NO JARDIM - PRIAPÉIA GREGA, PRIAPÉIA LATINA
Organização e tradução: João Angelo Oliva Neto
Editora: Unicamp/Ateliê (tel. 0/ xx/11/4612-9666)
Quanto: R$ 90 (428 págs.)

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João Angelo Oliva Neto

Há muitos tipos de tradutores. Há muitos tipos de escritores. Existem pessoas que fazem da tradução a sua maneira de escrever. Para estas, traduzir é uma maneira legítima de fazer literatura, pois concebem a tradução como algo que contém a escrita em si. Entre os tradutoes literários brasileiros que se debruçam sobre a Antigüidade clássica, João Angelo Oliva Neto destaca-se por apresentar esse tipo de concepção da prática tradutória. Em desacordo com o ideário que subvaloriza a tradução perante outros empreendimentos de um literato, sua trajetória demonstra que traduzindo se pode alcançar um nível de excelência na composição literária.
Oliva Neto iniciou-se no estudo de letras em 1978, quando ingressou no bacharelado de inglês e português, pela USP. Quatro anos após, assim que concluíra esse curso, começou o de latim e grego. Ao final de seu segundo bacharelado, motivado pela grande quantidade de textos latinos em prosa e verso sem tradução em português, lançou-se ao ofício da tradução. Ainda na USP, obteve os títulos de mestre e doutor. Junto à sua dissertação de mestrado, apresentou a tradução de toda a obra poética de Catulo, que intitulou O livro de Catulo. Durante o doutorado, ocupou-se com a tradução de um conjunto de poemas anônimos gregos e latinos, cuja figura central é Priapo, deus fálico, protetor da fecundidade e da fertilidade. Estas duas traduções vieram a ser publicadas e são reconhecidas como seus principais trabalhos. Em 1996, O livro de Catulo recebeu o prêmio de melhor tradução, conferido pela APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte).

A dedicação de João Angelo Oliva Neto à tradução de literatura clássica grega e latina aparentemente deve-se a duas grandes afeições que possui. A primeira - fácil de se inferir - é por essa literatura, inerente ao chamado período clássico. A segunda é pela língua portuguesa e toda a sua literatura. Pelo rigor que se observa em suas traduções, Oliva Neto concebe a transposição da literatura da Antigüidade clássica para a língua portuguesa como um exercício de grande valor artístico. Para ele a literatura traduzida deve ter seu lugar na literatura de uma língua. Sua prática é fundamentada em critérios que transparecem no próprio texto traduzido.

Em paratextos às traduções e em artigos publicados paralelamente, Oliva Neto declara preferência por uma tradução que explicite seus critérios teóricos. Isto é, a tradução deve pressupor e esclarecer os fins que pretende atingir e, portanto, o público que pretende alcançar. Na poesia, ele se preocupa com a métrica original e demais características formais, como as figuras de estilo.

Atualmente, é professor da graduação na área de Língua e Literatura Latina da Faculdade Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, onde atua desde 1989. Nessa mesma faculdade, também atua no programa de Pós-graduação em Letras Clássicas. Como tradutor, Oliva Neto almeja colaborar para uma história da tradução poética no Brasil ou ao menos para uma história da tradução de textos clássicos no Brasil. Entre seus projetos está o de traduzir os poemas de Calímaco de Cirene, um poeta grego do século III a.C., por quem nutre grande admiração.

Verbete publicado em 28 de setembro de 2005
por: Luiz Henrique Milani Queriquelli
Mauri Furlan

sábado, 21 de junho de 2008

Armas e Varões

CORRÊA, PAULA DA CUNHA - Armas e Varões. A guerra na Lírica de Arquíloco. São Paulo: Editora Unesp. 1998. 363 páginas.

Paulo Martins

Na Antigüidade Clássica, há determinados textos que são considerados inaugurais, protótipos, iniciais. Isto é, a partir deles somam-se outros tantos, apropriando-se de seus motivos, valendo-se de seus temas e, fundamentalmente, seguindo seus gêneros. Não foi de outra forma que Homero e Hesíodo tornaram-se monumentos sobre os quais a cultura clássica se sedimentou e se alastrou pelo ocidente, dando origem ao que se convencionou chamar civilizações mediterrâneas.

Assim, Platão n’A República, em que se pese a crítica e conseqüente exclusão do poeta e da poesia de sua cidade perfeita, ainda, estabelece que “este poeta ensinou a Hélade”. E Hesíodo, ainda hoje, é manancial didático-poético dessa mesma cultura tanto no que se refere ao mundo cotidiano (Os trabalhos e os dias) como no que se refere ao mundo religioso (A teogonia).

Contudo, pouco se fala daqueles poetas e respectivas obras que, no rastro dos dois anteriores, foram fundadores de um gênero poético muito caro nos dias atuais: o lírico. Ou seja, muito embora a épica homérica esteja na base de todas as práticas letradas ou composicionais gregas, outras fontes devem ser consideradas a fim de que se produza certo reconhecimento genérico da poesia lírica. Arquíloco de Paros é uma destas.

Poeta, que viveu na Grécia no período arcaico (VII a.C.), é depositário de uma série de lugares (tópoi, loci communes) que, posteriormente, se repetiram na dita literatura clássica, firmando determinados gêneros e servindo de êmulo para outros tantos poetas, dentre os quais destaca-se, e.g., Horácio.

Uma característica observável neste poeta é sua habilidade métrica, que desponta em seus poemas elegíacos, jâmbicos e trocaicos, que, por sua vez, mesclados às variados modos de expressão poética, firmam uma série de temas como a guerra, a invectiva, o convivial e o simposiático, perpetrando, originariamente, gêneros e sub-gêneros líricos. Talvez, tal dado tenha ampliado o leque desse tipo de composição, firmando, o material poético prévio que determinou a formatação de preceptivas poéticas e retóricas a partir do século V a.C..

Paula Corrêa, professora de língua e literatura grega na FFLCH/USP, acaba de lançar o livro Armas e Varões: A guerra na lírica de Arquíloco (sua tese de doutoramento) no qual recupera o percurso poético de Arquíloco e institui, na verdade, aquilo que pode ser chamado de uma poética da lírica arcaica, mesmo se considerado, o estado fragmentário dos textos que nos restaram de Arquíloco e o recorte temático considerado.

Seu trabalho (como já foi bem aferido por Trajano Vieira) tem lugar garantido em qualquer biblioteca de estudos clássicos, não só pela competência técnica desenvolvida, como, também, pela sensibilidade de avaliar questões pantanosas que cercam trabalhos deste quilate, como por exemplo, a distância das fontes, o estado físico do objeto, escassez material, entre outros dados concernentes à pesquisa de ponta em Ciências Humanas, principalmente, em Letras Clássicas no Brasil. Por outro lado, o trabalho agora publicado pela profissional e respeitável editora da Unesp é uma resposta cabal às mazelas e descasos de editores equivocados e a pareceristas de plantão ou de última hora, que não conseguiram compreender a dimensão do trabalho de Paula Corrêa, que poderia hoje citar e. e. cummings e, retribuir a atenção e consideração dispensada, propondo um no, thanks!.

A questão que move o livro é a caracterização do tema "guerra" em Arquíloco. Naturalmente, se o tema é este e o sujeito da enunciação poética é construído por um poeta lírico grego arcaico, aproximações deverão existir entre o poeta em questão e Homero — afinal está muito próximo de Arquíloco temporal e tematicamente. Contudo, tais aproximações são complexas uma vez que há discordâncias quanto ao caráter de continuidade e de distanciamento ou de ruptura entre as técnicas poéticas do poeta de Paros e Homero.

Esse relacionamento, não resolvido no âmbito poético, é levado às últimas conseqüências pela pesquisadora, pois que não se limitaria à questão genérica elementar: Arquíloco lírico e Homero épico. O que, então, é proposto por Paula Corrêa é a observação de alguns dados de cultura que podem caracterizar o homem e o pensamento grego tanto no período homérico como no arcaico.

Entretanto, como muito adequada e competentemente é demonstrado, esses dados sofrem, sincrônica e diacronicamente, mutação entre os críticos modernos do século XIX e XX como: Hegel, Nietzsche, Wilamowitz-Möllendorff, Snell, Fränkel, Vernant, Detienne e outros. Isto é, determinados conceitos levantados pela autora são analisados por eles ora de forma análoga, ora de maneira antagônica. Assim, observam-se questões concernentes ao corpo e à alma; às emoções mistas, à reflexão e à responsabilidade humana com a intenção de reconstituir o caráter desses homens ou desse homem grego, fator imprescindível na aferição dos fragmentos de Arquíloco.

Num segundo momento da obra, Paula Corrêa passa a discorrer sobre Arquíloco dentro da obra de Snell (A descoberta do Espírito) — fundamental dentro do percurso proposto e longe de certa impregnação que seria nefasta — observando os posicionamentos modernos acerca da efemeridade humana; da descoberta do indivíduo e da questão do gênero. Este último, talvez, possa deixar um leitor mais ansioso pouco decepcionado, caso espere encontrar, nesse momento, o desvelar sistemático da questão genérica em Arquíloco.

Na segunda parte do trabalho (II - O guerreiro arcaico: hoplitas, armas e táticas), passamos a tomar contato direto com a obra do poeta. A autora propõe, sistematicamente, uma leitura de fontes, o que, diga-se de passagem, é obrigatório diante deste tipo de “arqueotexto”. E ora aderindo ao comentário, ora distanciando-se, Paula Corrêa passa, indutivamente, a consolidar suas propostas para uma poética arqueloquéia.

A primeira delas é justamente a crença de modificação de status social na Grécia arcaica em detrimento daquela presente no mundo homérico. Ao cabo do primeiro capítulo da segunda parte, encontra-se: “Portanto, não há em Arquíloco, pelo menos nesse fragmento (FR 1W), evidência de uma nova postura ante as Musas, ou de uma noção diversa de arte poética. (...) Em razão disso, seria exagero acreditar, como Page (1964, p.134), que ‘esse dístico resume uma revolução social’”.

Num outro momento é proposta pela pesquisadora nova interpretação àquilo que durante muito tempo se propôs como o novo espírito grego, nascido com a lírica arcaica a partir da figuração de um tipo de soldado que abandona suas armas ou assume posturas não condizentes com sua posição. Demonstra que nada de novo há na figuração. Assim, o que se pode aferir é que certas situações produzidas por Arquíloco apenas determinam a intenção de reproduzir cenas anti-heróicas.

Um outro ponto trabalhado trata de dois conceitos interessantes que poderiam determinar ruptura entre o mundo homérico e o da lírica arcaica: a questão da vaidade e da coragem, partindo de uma possível representação de física de generais em Arquíloco.

A autora evoca o fragmento que dispõe a preferência do sujeito da enunciação pelo general cambaio em detrimento do general vaidoso. Tal juízo de valor indica que não há pelo menos neste caso distanciamento entre os poetas em questão, pois o ponto crucial da preferência não estaria no âmbito da aparência externa, mas no das qualidades internas: “Não gosto do grande general, nem do que anda a largo passo,/ nem do que é vaidoso de seus cachos, nem do bem barbeado,/ mas que me seja pequeno e com pernas tortas/ de se ver, plantado firme sobre os pés, cheio de coragem” (Frag. 5W).

Nos dois capítulos seguintes, pode-se observar aspectos fundamentais na reconstituição desse homem desenhado pelo poeta, discorre-se nesse ponto sobre os aliados e sobre o modo de guerra. A primeira questão perfaz um estudo acerca da philía, conceito que, segundo Aristóteles na Ética a Eudemo (1236a15), não é uno, mas triplo, pois ora está baseado na virtude, ora na utilidade e ora no prazer. Em Arquíloco, a autora constata a ambigüidade do conceito, pois ele afirma “o aliado é amigo enquanto luta” (Frag. 15W).

A terceira parte do livro objetiva situar as narrativas marciais de Arquíloco em termos genéricos, principalmente, se observados os textos anteriores a ele em que o tema central é o mesmo: a guerra. Nesse sentido, seria crucial particularizá-lo em relação à Ilíada. Talvez, esta discussão fosse a mais importante dentro da obra em questão, porquanto revigoraria o que mais se discute hoje em dia em termos de práticas letradas da Antigüidade Clássica, ou seja, o gênero.

O texto, contudo, decorre a partir de Hegel (Estética), buscando aproximações entre Arquíloco e outros dois poetas arcaicos, Calino e Tirteu que haviam sido trabalhados pelo filósofo na chave da dicotomia entre uma forma que é essencialmente narrativa e um tom que é essencialmente lírico. Dessa maneira, careceu a obra de preocupação mais sincrônica, isto é, haveria na Grécia arcaica, efetivamente, a dicotomia proposta pelo filósofo alemão? O conteúdo poderia delimitar o gênero? A forma seria fator preponderante para a caracterização genérica? Apesar de Hegel, Paula produz sua arqueologia com exata precisão que percorre seu texto desde o início e dessa forma, reconstitui o gênero de Arquíloco, até então não normatizado.

Enfim, a obra é essencial para aqueles que desejam debruçar-se sobre o princípio do pensamento grego e sua repercussão literária, ou mesmo, para aqueles que desejam ter um justo e preciso modelo de um raro e excelente trabalho de pesquisa em Ciências Humanas.


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ISBN: 8571392048
Assunto: História, Literatura
Idioma: Português
Formato: 14 x 21cm
Páginas: 363
Edição: 1ª
Ano: 1998
Acabamento: Brochura com orelhas
Peso: 445g

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Imitação, emulação e poesia em Racine

Jean Racine


Paulo Martins

É preciso saborear esses frutos amadurecidos ao sol do Grande Século, onde se metamorfosearam em mel os sucos vindos do mais profundo da tradição antiga e da tradição cristã.”
Roger Bastide

Jean Racine (1639-1699), seguramente, é um dos grandes mestres do teatro moderno e, em conjunto com Shakespeare, com Corneille e com Molière, representa até hoje referência obrigatória para aqueles que desejam reconstituir a trajetória das artes dramáticas do ocidente.

Pouco ou quase nada se fala de sua habilidade em reciclar as obras da Antigüidade Clássica greco-latina em prol de uma nova arte dramática que surge a partir do renascimento e que se desenvolve até os dias de hoje. A capacidade de “reciclar” ou, simplesmente, “aludir” não é nova, como podem imaginar alguns que se debruçam, sistematicamente, sobre a tão propalada e reverenciada intertextualidade, pedra de toque da pós-modernidade.

Durante muito tempo, mormente no período romântico, muitos autores foram taxados de pouco originais e, até mesmo, de plagiadores por tomarem motivos das práticas letradas da Antigüidade Clássica e os colocarem a serviço de uma poética inovadora. Tal vitupério, contudo, não possuía e não possui escopo teórico algum, pois o que faziam, ao tratar o manancial poético antigo, nada mais era do que aplicar determinados conceitos retóricos antigos dentro do processo de invenção (inuentio) que, entre outras coisas, previa o reaproveitamento de temas, segundo categorias próprias à paidéia coetânea do produto pretendido.

Não foi de outra forma que críticos românticos do século XIX e XX, observaram, por exemplo, um plágio contumaz de Gregório de Matos em relação à poesia de Gôngora, ou mesmo, exigiam e exigem certa “originalidade” de poetas anteriores ao século XIX. Por sua vez, a crítica francesa romântica - e um exemplo típico é Vacquerie - não poupa Racine e propõe outros âmbitos de desqualificação: “Shakespeare est un chêne,/Racine est un pieu” (Shakespeare é um carvalho /Racine uma estaca).

Essa é também a opinião de Victor Hugo, apesar de elogiar determinados aspectos de Esther e Athalie, é enfático ao lhe recusar talento dramático. Assim, a metáfora apresentada, muito além de minimizar as qualidades de Racine, as desqualifica, propondo-as como rasteiras, limitadas, superficiais, e, fundamentalmente, estéreis, se comparadas às do carvalho Shakespeare que, via de regra, é depositário sistêmico de lugares-comuns desse mesmo manancial da Antigüidade, principalmente, se for aferido o colorido senequiano de suas tragédias e outros aspectos de circunstâncias que cercam os temas de suas obras, inseridas no contexto renascentista.

Assim como a absoluta maioria de autores do século XVII, Racine é tido pelos autores e críticos do XIX como menor, sem importância e inepto se comparado aos mestres clássicos da modernidade, dentre os quais destaca-se o autor de Júlio César. Ou seja, o século XIX leu e lê o século XVII sob a égide da deformidade, do excesso e da corrupção do XVI e, dessa maneira, seria pouco provável que um poeta desse período pudesse erigir algo novo e digno de ser reconhecido, aproveitado, ou mesmo, reaproveitado pelas gerações vindouras no âmbito da invenção poética. Além do mais, os critérios propostos para a exclusão são, absolutamente, inócuos a partir do momento em que balizam-se, romanticamente, na originalidade que Shakespeare teria, e outros como Racine não.

Tais inferências críticas, no entanto, soam hoje absolutamente anacrônicas, porquanto conceitos de originalidade e plágio não faziam parte do programa retórico-poético daqueles que propunham por deleite e utilidade (dulce et utile) a elaboração de textos a que hoje convencionou-se chamar literários. E isto, tanto na Grécia do século V a.C., na Roma do século de Augusto, como na França da corte de Luís XIV.
Luís XIV


Estes períodos, separados por tanto tempo, guardam em si aproximações interessantes no que se refere à produção de textos as quais foram relegadas, ou melhor, esquecidas por insignes mestres. Imitação (mimesis, imitatio), emulação (zélosis, aemulatio), originalidade e plágio são conceitos que devem estar à mão de qualquer um que queira observar a poesia e a prosa anterior ao século do mal.

Racine, desta forma, não pode ser considerado, por exemplo, um pós-moderno avant la lettre, por produzir uma obra calcada em motivos e obras antigas, tampouco não criativo e original; antes deve ser observado como um produtor que sabia que, para realizar um trabalho decoroso (prépon, aptum), deveria observar normas que regiam a construção do textos. Caso não o fizesse, certamente, o seu próprio tempo o enterraria e, nós — cá distantes — não poderíamos saborear seu engenho (ingenium) e arte (ars).

A proximidade endêmica de Racine com a Antigüidade Clássica, por sua vez, pode ser aferida não só pela imitação e emulação propostas em Phèdre, Andromaque, La Thébaïde, Alexandre le Grand, Britannicus, etc., mas também e, mais precisamente, por seus escritos esparsos (Cf. Oeuvres Diverses. Gallimard, La Pléiade. 1952.), onde há cuidadosas e preciosas notas de suas leituras de Homero (A Ilíada e Odisséia); de Píndaro (Olímpicas); de Ésquilo (As Coéferas); de Sófocles (Ájax, Electra, Édipo Rei, Édipo em Colona e As Traquínias); de Eurípides (Medéia, Hipólito, As Bacantes, As Fenícias e Ifigênia em Áulis); de Platão (Banquete, Apologia de Sócrates, Fédon, Fedro, Górgias, República e As Leis); de Menandro; de Aristóteles (A poética e Ética a Nicômaco) e Plutarco. Sem falar, naturalmente, das observações feitas aos autores latinos como Horácio (Odes e Sátiras); Cícero (De Inuentione, De Oratore, Espistolae ad Atticum, Espistolae ad familiares, Tusculanas e De Divinatione) Sêneca (De Clementia, De breuitate uitae), Plínio, o velho (História Natural) e Plínio, o jovem (Cf. Knight, R.C. - Racine et la Grèce. 1974).

Este vasto legado (copia rerum e copia uerborum) erudito não poderia deixar de servir ao seu ofício. Racine é um clássico às últimas conseqüências, visceral, portanto nada lhe seria mais grato do que imitar aquilo que produziram as culturas grega e latina. Assim como foi lícito a Sêneca elaborar sua Medéia, sua Fedra, seu Édipo Rei, após, naturalmente, a manifestação de Eurípides e Sófocles; Racine se viu absolutamente autorizado pela tradição a realizar seu projeto de emulação.

No entanto, para nós, pós-românticos, a palavra imitar traz consigo um sentido pejorativo, afinal quase todos pretendem ser originais e criativos em nossa época, e isto era, sem sombra de dúvidas, um imperativo no século XIX. Contudo, para os antigos, originalidade era uma possibilidade, talvez, apenas divina, a partir do momento que a origem é tudo aquilo que nada há antes. Dessa forma, aos deuses caberia a função original, o princípio, a arché. Tudo o que segue ao princípio passa pela imitação e, nesse sentido, o conceito adquire função propedêutica e didática. Afinal, não há nada mais seguro do que afirmar que qualquer processo educativo observa a imitação. Como propõe Aristóteles na Poética, os homens imitam porque se comprazem em imitar e se deleitam no imitado (Cf. Poética, IV).

Porém, não se pode confundir imitação com cópia servil. O ato de imitar pressupõe um processo cujo fim reside na superação do imitado pelo imitador, a emulação (aemulatio, zélosis). E tal superação depende exclusivamente do engenho (ingenium), conceito que prevê a capacidade inata e adquirida, simultaneamente, que ora pressupõe uma habilidade específica diante do material poético, ora uma habilidade de reconhecer procedimentos técnicos que devem ser utilizados adequada e decorosamente.

Daí, pode-se observar a distinção entre originalidade e novidade. Racine, seguramente, não buscava a originalidade romântica, contudo, pretendia a novidade. Ser inovador representava o ápice de sua função de poeta. E, de fato, o foi. Pois, apropriando-se, por exemplo, de temas clássicos, e até mesmo obras completas como Phèdre, conseguiu adaptá-los ao universo da França da corte de Luís XIV. Observe-se a acertiva de José Eduardo do Prado Kelly (Fedra e Hipólito. Tragédias de Eurípides, Sêneca e Racine. 1985): “Ao censurarem o poeta de haver pintado com antigos nomes cortesãos do Rei-Sol, o crítico o justifica pela reflexão de que todo teatro representa os costumes contemporâneos e pela observação de que a Corte era o lugar onde a arte de conviver se reduziu a ‘máximas’ e se erigiu em preceitos. O mérito de Racine terá sido impor aos seus dramas “les bienséances de la société (as conveniências da sociedade).”

Hipólito de Racine

A novidade em Racine, assim, indica a figuração de elementos antigos, observados à luz da retórica (sem limitações impostas pelo romantismo no qual há a subjetivação da elocução, e, por conseqüência, seu uso implica um matiz limitado e pejorativo da arte do bem falar e do bem escrever), associados aos costumes de época. Philip Butler (Classicisme et Barroque dans l’oeuvre de Racine. 1959) afirma, ainda, que na obra de Racine a retórica ocupa lugar de destaque e assume o papel particular de estilização no qual os discursos das personagens relacionam palavras e atos.

Dessa maneira, este estilo inovador visa a traduzir a face inteligível dos movimentos de anímicos dispostos no texto e, jamais, apenas, a apresentar uma foto, estática e instantânea da realidade observável. Esta característica, sem dúvida, vai de encontro à presunção de existência de uma sociedade barroca que está sujeita e submetida ao simulacro, à aparência e ao protocolo (Cf. Gracián, Baltazar - Oráculo Manual ou El Discreto) . O autor faz valer uma necessidade de época, temporal e datada pela qual as figurações deveriam seguir regras ditadas. Uma etiqueta estilisticamente esculpida que deveria permear a vida cortesã e sua inevitável alegoria, o texto produzido.

Roger Bastide, precisamente, estabelece a síntese quando diz que Racine deve ser saboreado, tendo em vista a observação de duas tradições complementares: a clássica e a cristã. Isto é, se por um lado o autor é movido pelos temas clássicos, por outro, eles estão a serviço de um mundo contra-reformista. Dessa forma, no esteio de Maravall ( A cultura do Barroco. 1998), o texto de Racine, assim como de Quevedo, pode servir para a compreensão de uma época, contudo, sem jamais deixar-se de lado “os fatores estilísticos e ideológicos enraizados no solo de uma dada situação histórica”.

Mais do que outros em seu tempo na França, Racine deixa de lado as regras aristotélicas da composição dramática e interessa-se apenas por uma teoria da mesma que visasse à emoção. Assim, figura o espetáculo poético da fragilidade humana. O homem desenhado pelo poeta “é um indivíduo em luta, com toda a comitiva de males que à luta acompanha, com possíveis proveitos que a dor traz consigo, mais ou menos ocultos. Em primeiro lugar, encontra-se o indivíduo em combate interno consigo mesmo, fonte de tantas inquietações, cuidados e até violências que do seu interior brotam e se projetam em suas relações com o mundo e com os demais homens.” (Maravall, J.A.- op.cit.).

Na verdade, esta observação da emoção como ponto central da composição significa que, entre as duas possibilidades de argumentação do discurso, ou seja, a ética (éthos) e a patética (páthos), o autor de Bérénice opta pela segunda. Isto é, tudo em Racine é mediado pelo páthos, daí o excesso de hipérboles, de acumulações e gradações no desenho dos caracteres dramáticos. Daí, o excesso dito barroco. Mesmo naquilo que é tido como uma possibilidade de época, característico do estilo, ele segue algo que não é de seu tempo na origem, e sim algo explícito por uma preceptiva retórica, fundamentalmente, aristotélica. (Cf. Retórica, II).

Racine, portanto, a partir das disputas simétricas entre Orestes e Pirro, os discursos fluviais de Agripina, as súplicas apaixonadas de Burrhus e as acusações de Ulisses, além de representar uma tradição clássica que, aparentemente, definhará nos estertores do século XVIII, contribui como êmulo, apropriando-se de desenhos antigos para retratar a alma do homem de seu século e uma cultura francesa do XVII.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Antologia narra quatro séculos de latinidade

Texto publicado no Jornal da Tarde - "Caderno de Sábado", São Paulo, p. 5, 20 nov. 1999.


NOVAK, MARIA DA GLÓRIA et alii - Historiadores Latinos. Antologia Bilíngüe. São Paulo: Martins Fontes.

Por Paulo Martins

"Sine ira et studio"
(Sem ira nem parcialidade)
Tácito

Historiadores Latinos, obra recentemente publicada pela Martins Fontes, propicia a, pelo menos, três reflexões pertinentes. A primeira delas concernente ao papel das antologias no estudo de práticas letradas. A segunda que tem como ponto de partida a recuperação genética do gênero historiográfico e the last but not the least, sobre o caráter da diversidade imposto pela tarefa da tradução.

Elaborada por um grupo de professores da área de Língua e Literatura Latina de diversas universidades brasileiras, durante as décadas de 80 e 90, esta antologia tinha como objetivo precípuo auxiliar o trabalho docente em Letras Clássicas que sofre por conta de escassez material de textos traduzidos, absolutamente necessários às aulas de língua e literatura latina.

Tal como a primeira obra da série (Poesia Latina, igualmente publicada pela Martins Fontes no início da década de 80), este livro tem como ponto de partida certo recorte diacrônico de determinado gênero dentro do universo literário de alguns séculos, ou seja, diferentemente daquilo a que estamos habituados, antologias que observam a produção de determinado autor ao longo de alguns anos, esta opera variações genéricas do ponto de vista de diversos autores, propiciando um retrato particular do desenvolvimento do gênero historiográfico na Roma Antiga.

Tal fato, seguramente, revelará viés diferenciado acerca do gênero em questão, uma vez que deixa de lado as questões teóricas e, de chofre, abre possibilidades de discussão a partir da efetiva prática letrada. Assim, o leitor ao fim e ao cabo da leitura poderá, indubitavelmente, teorizar sobre as variações do gênero em questão, podendo até mesmo refletir sobre a teorização que, geralmente, lhe é imposta pelas obras de teoria da literatura, e, mais especificamente, pelas obras de história da literatura latina que oferecem apenas o conceito deixando de lado o modus operandi a que se prendeu para que chegasse às conclusões expostas.

O uso desse expediente didático sempre foi muito utilizado dentro das Letras Clássicas e, portanto, não são poucos os títulos em países não periféricos que observam tal didatismo na formação dos críticos e estudiosos. Na verdade, os profissionais que adotam este tipo de intervenção desenvolvem a máxima retórica do “uerba mouent, exempla trahunt” (as palavras movem, os exemplos arrastam), ou a sentença de Sêneca nas Cartas a Lucílio: "Longum iter est per praecepta, breue et efficax per exempla" (O caminho pelos preceitos é longo, breve e eficaz pelos exemplos). Isto é, tanto no primeiro caso, como no segundo, o exemplo é o melhor caminho para o convencimento, logo, para a reflexão consciente e honesta, adequada.

A esta questão também deve ser somada uma “ideológica” – em seu senso mais amplo – no que tange à organização de antologias. Toda e qualquer reunião de textos faz despontar certa intencionalidade dessa seleção e organização. Portanto, à proposta antológica subjazem juízos que determinam opção, seleção, necessidade. E o que vemos na presente publicação, é absoluta proposta didática, sem, contudo, preterir prazer e convencimento. Nesse sentido, cumpre sua função horaciana, afinal a obra é dulce et utile (doce e útil), isto é, deleita, ensina e convence.

Esta seleção, cronologicamente, recorta quatro séculos de latinidade, oferecendo textos que vão de Júlio César (101 - 44 a.C.) a Salviano de Marselha (V d.C), passando por Santo Agostinho, São Jerônimo, Amiano Marcelino, Eutrópio, Floro, Suetônio, Tácito, Valério Máximo, Tito Lívio, Salústio, Cornélio Nepos, entre outros.


Tito Lívio


Tal fato opera, também, a diversidade de um mesmo gênero, fato dificilmente aferido na historiografia (mesmo na mais moderna); ao contrário daquilo que ocorre, por exemplo, com a poesia, tão diversa em si, contudo, tão propriamente poesia, singular, típica e isto, talvez, corrobore a afirmação aristotélica do capítulo IX da Poética, quando discute universalidade poética e particularidade histórica.

A historiografia latina e, conseqüentemente, a antologia em questão possui especificidades curiosas que determinam diferenças genéricas, ou melhor, subgenéricas, uma vez que tudo ali proposto é historiográfico. Assim, o que difere uma história de um breviário ou analística dos comentários? São questões subjacentes à interessante viagem factual e vivida proposta pela colagem de tempo morto e vivo em palavras.

Reavivada pelas palavras, o leitor brasileiro tem às mãos antologia que propicia o reconhecimento de certas instâncias de quatro séculos de história, vista pelos olhos de quem dela participou. Dessa maneira, o livro propõe textos de: Júlio César, grande nome da história republicana romana e hábil comentarista de campanhas bélicas (Recentemente foi comentada a mais nova tradução de sua obra A guerra Civil feita por Antônio da Silveira Mendonça); Tito Lívio, autor da época de Augusto, responsável pela mais completa narrativa da história romana desde a sua fundação até os primeiros dias do império; Tácito, agudo analista e historiador da segunda metade do século I d.C. e início do século II; Suetônio (69 -141), secretário do Imperador Adriano, cuja maior obra foi retratar biograficamente os primeiros doze césares, que, vale dizer, efetivamente foram onze, uma vez que Júlio César não era assim considerado.


Júlio César - Museus do Vaticano

Sob outro ponto de vista, podemos, também, por intermédio desses autores recuperar parte de um passado que, a princípio, é tido como inatingível. As obras desses autores, sistematicamente, tratam da vida pública, ou seja, estão presas ao fato histórico relevante, o fato público. No entanto, estilisticamente, é possível recuperar a história que não está na história, porquanto o estilo tem o poder de trazer à tona, elementos não presentes no texto, por exemplo, a recepção.

Tácito

Não foi de outra forma que Erich Auerbach (Mimesis, 1976. p. 40) adverte: "(...)Tácito escreve de uma posição superior que examina a multidão de acontecimentos e operações ordena-os e julga-os como um homem da mais alta posição social e educação, se não cai no árido ou ininteligível, isto se deve não somente ao seu gênio, mas também à incomparável cultura do visual e do sensorial durante toda a Antigüidade. Mas o mundo dos seus semelhantes, para o qual escreveu, exigia que o elemento visual e sensorial permanecesse dentro dos limites do gosto fixado por uma longa tradição, sendo que já nele aparecem sinais de uma transformação desse gosto, no sentido de um maior realce do sombriamente horrendo(...)".

Contudo, o fato mais diferenciado desta obra seja justamente observar estas diferenças genéricas, temporais e da recepção sob o ponto de vista diverso de tradutores diversos – são mais de duas dezenas no livro. A tradução como operação de linguagem pode também indicar, nos mesmos moldes da seleção antológica proposta, como vimos, propiciar à verificação de certo universo cultural e propositivo de tradutores, soluções, intenções e idiossincrasias que revestem o texto traduzido de estilo e pessoalidade.Portanto, a diversidade vista diversamente e unificada por intencionalidade “ideológica”, esta seria a definição mais adequada a este livro que ora se publica.


HISTORIADORES LATINOS - ANTOLOGIA BILINGUE
MARTINS FONTES
ISBN: 8533609124

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

AS TROIANAS DE SÊNECA





Por Paulo Martins


A publicação de textos traduzidos da antigüidade clássica greco-latina hoje no Brasil é ainda uma atividade rara e incipiente. Ao contrário do que ocorre em países como Inglaterra, França e Itália, onde coleções como a Loeb Classical Library, Les Belles Lettres e BUR (Biblioteca Universitaria Rizzoli) são responsáveis pela divulgação de obras fundamentais da literatura ocidental e atualmente já produzem novas gerações de traduções, o Brasil caminha a passos de tartaruga nesse filão do mercado editorial.

Tal fato não ocorre, como se poderia imaginar, pela ausência de profissionais competentes que conheçam com profundidade as letras latinas e gregas, manancial básico no ofício de tradução dos clássicos, mas, sim, pelo desconforto ou incompreensão das casas editoriais em investir nesse “produto” que, segundo alguns mais pessimistas, não possui público. Logo, é incapaz de gerar o lucro desejado.


O estado da questão gera um paradoxo interessante: não se publica porque não há público e não há público porque os textos não são divulgados. Remando contra a maré, há alguns editores que, a despeito de qualquer preconceito, investem nesse mercado, pequeno, porém cativo. Nesse sentido, encontramos algumas editoras como Edusp, Nova Alexandria, Vozes, Martins Fontes e Hucitec.

Esta última sistematicamente vem publicando livros pertencentes a uma série chamada Grécia e Roma, preocupada fundamentalmente em divulgar traduções acadêmicas dos textos do mundo clássico. Assim foi com Catulo - O Cancioneiro de Lésbia, Eurípides - As Bacas e Medéia, Aristóteles - A constituição de Atenas, Luciano - O diálogo dos mortos e , por fim, a recém-publicada obra de Sêneca - As troianas.

Sêneca sempre esteve envolvido com o poder de sua época, marcada por inúmeras turbulências. Viveu em Roma durante os governos dos cinco primeiros imperadores romanos (Augusto, Tibério, Calígula, Cláudio e Nero), ou seja, de, aproximadamente, 4 a. C. até 65 a. C.. A supor que a sociedade, na qual determinado escritor vive, imprime em seus textos alguma influência, aqui se explicaria certa força, violência, crueldade e tensão que há em seus textos. Afinal, Sêneca “foi hostilizado por Calígula, banido por Cláudio e condenado à morte por Nero”.


Sua vasta obra compreende gêneros diversos, a saber: cartas, tragédias e tratados filosóficos, toda ela impregnada, seguramente, de um matiz estóico, filosofia que ele pretendia difundir entre seus contemporâneos, fundada na busca da felicidade, na paz de espírito, na fugacidade da vida e no exercício da virtude, logo, objetivo de sua literatura.

A produção trágica latina não foi tão vibrante quanto a grega, no entanto o que nos restou — oito tragédias de Sêneca — demonstra uma grande capacidade técnica, exigida pelo gênero.

A despeito de alguma coincidência temática com as tragédias gregas, as de Sêneca possuem características próprias e são marcadas por um colorido diferencial e por uma retórica acuradíssima — afinal o autor era um grande orador, e sua formação assume uma posição de relevo na produção de sua obra. Estes fatores, provavelmente, influíram para colocá-lo no rol dos prediletos de um Shakespeare, de um Racine, de um Corneille, ou mesmo, de um Pe. Antônio Vieira, por exemplo.

Talvez o fato que cause maior estranheza ao leitor moderno de tragédias senequianas seja a coincidência temática com outras obras, mormente com as trágicas gregas e, nesse caso específico, com As troianas de Eurípides . Isto ocorre por conta do desconhecimento de alguns conceitos “literários” antigos como imitação e emulação.
Na antigüidade clássica greco-latina, não havia o conceito de plágio ou originalidade, que só aparecem no fim do século dezoito com a disseminação da imagem do autor como ser diferenciado, que, platonicamente, possui uma relação especial com o divino e, por força de conseqüência, detém uma habilidade impar, original e sem precedentes.

Para os antigos, a apropriação temática a título de imitação era salutar, e mais, era uma referência para a observação do engenho (ingenium), capacidade de propor soluções textuais melhores e, nesse sentido, de superar o modelo inicial (emulação). Desta forma, a teoria autoriza uma aproximação entre êmulos, no caso Eurípides e Sêneca.

A distância entre Sêneca e Eurípides reside justamente na ausência de teatralidade do primeiro em relação ao segundo. As peças de Sêneca, seguramente, foram escritas para serem lidas e não para serem encenadas, o que aristoleticamente retira da estrutura trágica, com a qual deve preocupar-se o tragediógrafo, aquilo que o filósofo grego chamou ópsis, a “encenatividade”. Isto, contudo, não impede que seu texto explore aspectos fundamentais como a perfeita construção dos caracteres (os éthe). Suas personagens são extremamente vigorosas e ricas, principalmente se forem observados os tipos femininos construídos em As troianas. E mais, sua estrutura externa adequa-se perfeitamente aos princípios aristotélicos.

O enredo, fundado na situação de desespero das mulheres troianas, após o fim da campanha militar de Tróia, com a morte de seus homens, provavelmente deve ter causado à época alguma comoção uma vez que, se observarmos a origem lendária de Roma, encontraremos Enéias, um general troiano, que conseguiu escapar da morte na famigerada guerra e que de maneira mítica está ligado à fundação da Cidade Eterna.


Sêneca, ao tratar do destino reservado às mulheres de Tróia, carrega nas tintas e produz, retoricamente, momentos patéticos notáveis (e leia-se aqui patético no seu sentido de afecção passional absolutamente programático - o páthos), de sorte que o fim de Hécuba, Andrômaca e seu filho Astíanax e Políxena é aguardado com ansiedade pelo leitor atento.

Cabe ressaltar que Sêneca introduz na sua versão d’ As troianas uma passagem que não encontramos em Eurípides: o sacrifício de Políxena, filha de Hécuba e Príamo, rei de Tróia, imolada no túmulo de Aquiles. Esta passagem, contudo, está presente em outra tragédia de Eurípides, Hécuba. Isto indica a presença da contaminação(contaminatio), fenômeno de intertexualidade, muito comum nas comédias latinas.

A presente edição deste texto até então inédito em português, elaborada por Zélia de Almeida Cardoso, professora e latinista da FFLCH da USP, propõe uma boa introdução que situa o leitor na época em questão, além de proporcionar informações preciosas no que se refere à obra de Sêneca e, mais especificamente, à composição de suas tragédias. São também oferecidas ricas notas ao fim do livro para que certa parcela de leitores modernos, desabituada com as referências mitológicas, tenha uma intelecção mais completa do texto. Há um glossário que registra antropônimos, nomes gentílicos e topônimos com seus respectivos esclarecimentos. Além disso, dispõe a edição do texto latino, permitindo que o leitor iniciado nestas letras possa cotejar a tradução com original.

A tradução absolutamente precisa resgata na maior parte das vezes o cunho sentencioso e patético do texto. Contudo, como a própria tradutora afirma, não foi proposta uma solução de tradução versificada, o que, de certa maneira, seria desejável, posto que as tragédias de Sêneca foram escritas em verso.

Bem esclarece, entretanto, que, nas partes dialogadas, o original se vale de metros jâmbicos, produzindo um efeito de linguagem falada, o que autoriza, assim, a tradutora a vertê-los em prosa, imprimindo um tom coloquial a estas partes. Quanto aos cantos corais que originariamente haviam sido escritos em metros líricos, esperava-se uma tradução mais poética, uma vez que estes trechos possuem no original uma beleza e força magníficas e, em certa medida, devem esses valores à habilidade técnica do autor no trato com o verso. Não obstante, Zélia de Almeida Cardoso procura solucionar tal situação com um possível resgate cadencial que, se não é uma rima, é uma solução.

Em todo caso, tais detalhes não desautorizam o trabalho eficiente de tradução, tampouco a importância do livro neste mundo globalizado tupiniquim, chamado Brasil, onde as distâncias com o dito mundo civilizado estão cada vez maiores também no que tange à cultura clássica.


As Troianas - Lúcio Aneu Sêneca
Introdução, Tradução e Notas de
Zélia de Almeida Cardoso
Editora Hucitec - SP/SP
1997 - 156p.



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Estudos Acadêmicos sobre Sêneca



Letras Clássicas é uma publicação anual, mantida pelo Programa de Pós-Graduação em Letras Clássicas da FFLCH-USP, que se destina à divulgação da produção científica de professores e alunos vinculados ao Programa. Cada volume compõe-se de artigos, traduções de autores gregos e latinos, resenhas de publicações relativas aos Estudos Clássicos e notícias sobre dissertações e teses defendidas ou sobre pesquisas em andamento em nossa área. Demais, os artigos e traduções seguem um eixo temático.

Sumário deste número:
Editorial

Artigos

I. Os textos de Sêneca

1. Consolações:

- A filosofia da dor nas Consolações de Sêneca - por Cleonice Furtado de Mendonça Van Raij

2. Diálogos:

- De tranquillitate animi como exercício espiritual - por Angélica Chiappetta

3. Epístolas:

- Por que Sêneca escreveu epístolas? - por Ingeborg Braren

- Arte dialógica e epistolar segundo as Epístolas morais a Lucílio - por Marcos Martinho dos Santos

- Uma visão senequiana da amizade - por Ariovaldo Augusto Peterlini

4. Sátira:

- Silêncio y furor en la Apokolokynthosis de Séneca - por Giuseppina Grammatico

5. Tragédias:

- O tratamento das paixões nas tragédias de Sêneca - por Zelia de Almeida Cardoso

- Medéia de Sêneca - por Maria da Gloria Novak

- A utilização de recursos formais na tragédia Fedra de Sêneca - por José Eduardo dos Santos Lohner

- O párodo de Fedra e a retórica - por Paulo Martins

- A Andrômaca de Eurípedes como fonte de As troianas de Sêneca - por Ana Maria César Pompeu

- Aspectos da liberdade em As troianas de Sêneca - por Isabella Tardin Cardoso

II - O contexto de Sêneca

1. Contexto Filosófico:

- Estoicismo e epicurismo em Roma - por Maria da Gloria Novak

2. Contexto Político:

- Sêneca entre a colaboração e a oposição - por Maria Luiza Corassin

3. Traduções:

- "A função dos males na vida humana". Sêneca, Sobre a providência, IV, 16; V, 1-11 - tradução de José Eduardo dos Santos Lohner

- "O valor do tempo". Sêneca, Epístolas morais a Lucílio, "Epístola 1" - tradução de Ingeborg Braren

- "Um deus habita nossa alma". Sêneca, Epístolas morais a Lucílio, " Epístola 41" - tradução de Ingeborg Braren

- "À natureza". Sêneca, Fedra, 956-88 - tradução de Zelia de Almeida Cardoso