quarta-feira, 26 de março de 2008

Três Tragédias Gregas


ALMEIDA, GUILHERME DE E VIEIRA, TRAJANO - Três Tragédias Gregas. São Paulo: Perspectiva. 1997. 310p.



Paulo Martins




Três tragédias gregas, livro elaborado por Trajano Vieira, professor de Língua e Literatura Grega da Unicamp, pode ser elencado no rol de raridades de qualquer biblioteca. O qualificativo não provém de um ineditismo ou qualquer outro valor atribuído costumeiramente às obras raras. Antes, advém de um audacioso projeto cuja linha mestra reside no conceito do que venha a ser uma tradução poética.
Contudo, valores mais comuns também podem ser depreendidos dessa obra, que zelosamente é publicada pela Editora Perspectiva dentro da Coleção Signos, que tantas contribuições e gratas surpresas já proporcionou ao mundo das letras no Brasil.
O primeiro deles é a possibilidade de termos contato com 3 tragédias gregas de dois expoentes do gênero: Sófocles (496-406 a.C.) e Ésquilo (525-426 a.C.). O segundo, seguramente, está centrado na divulgação de traduções inéditas e poéticas, extremamente competentes, de Trajano Vieira para obras dos dois tragediógrafos, precedidas de cuidadosos ensaios introdutórios. Em terceiro, o acesso a inéditos de estudiosos das letras helênicas do século passado, em forma de tradução. E, por último, a revisão daquela que para muitos é a melhor tradução poética de Sófocles em língua materna: Antígone de Guilherme de Almeida, poeta modernista cuja verve no mundo da tradução é reconhecida por seu trabalho em As Flores do Mal de Charles Baudelaire.
Além disso, o livro Três Tragédias Gregas nos põe em contato com um belíssimo ensaio de Haroldo de Campos acerca das traduções do Prometeu de Ésquilo no XIX, afora uma tradução de sua lavra da Antígone de Hölderlin (Ato I, cena I).
Dessa forma, é composto dialogicamente por textos de tradução poética, sem os excessos de blá, blá, blá teórico que, muita vez, subverte a importância da poesia, ao deslocar o eixo da leitura do objeto para o sujeito, ou seja, não se dá mais importância ao texto crítico do que ao texto que o gerou. Assim, seqüencialmente os textos poéticos são apresentados e, a partir daí, o leitor atento pode se ater naquilo que há de semelhante e dissemelhante entre as diversas traduções de gerações diversas.
Talvez, a única falha editorial dessa obra esteja numa certa dissimetria editorial, que soa esquisito, pois é oferecido o contato com o texto original em grego em apenas uma das tragédias — Antígone. Se fosse sanada esta questão, o livro contribuiria ainda mais para o mercado editorial de Letras Clássicas.
Quanto às tragédias em si, imergem o leitor em dois estilos diferentes, porquanto Sófocles diverge muito de Ésquilo, não só quanto à complexidade como, também, quanto à forma de desenvolver a ação trágica e a construção de personagens e coros. Observará que em Ésquilo há uma maior importância do coro que dialoga de forma mais lírica e incisiva, além de submeter a vontade dos homens à dos deuses. Sófocles, por sua vez, um inovador segundo a concepção aristotélica da tragédia, concede uma maior importância às ações humanas, suas personagens são fundamentais ao desenvolvimento da ação.
Sófocles mostra as pessoas como elas deveriam ser, não obstante seus personagens estarem sujeitos a falhas humanas, são realmente heróis, afetados, pois, por motivos elevados. Não é de outra forma, por exemplo, que Antígone desafia nobremente o poder de Créon, ao não deixar seu irmão, Polinices, insepulto; desencadeando conseqüências trágicas fabulosas como sua própria morte, a morte do filho de Créon e o suicídio de Eurídice, esposa de Créon. Vale lembrar que esta ação se desenrola a partir da saga do genos de Édipo, uma vez que Polinices é um dos seus filhos amaldiçoados por ele, Édipo.
Ajáx, protagonista da tragédia homônima, é um excelente representante da arrogância humana (hýbris), pois inconformado de as armas de Aquiles terem sido dadas a outro (Odisseu/Ulisses), mata-se após recuperar-se de seu estado de demência com sua própria espada. Por conta de seus atos é condenado por Menelau e Agamemnon a permanecer insepulto. Contudo, num gesto de grandeza de alma, Odisseu os dissuade desta pena imposta àquele, constituindo-se assim o caráter típico do herói sofocliano.
Por sua vez, Ésquilo é, sem sombra de dúvidas, mais lírico que Sófocles, contudo isto não significa que seja melhor ou menor. Pode-se dizer, efetivamente, que são diferentes. Há que se pensar, sim, que suas tragédias possuem um viés religioso mais vigoroso. Suas personagens, afinal, estão submetidas às vontades divinas. Por conta de seu lirismo exacerbado, por vezes, foi tido como grandiloqüente — Quintiliano o considera por vezes canhestro —, principalmente, se comparado aos seus sucessores conhecidos (Sófocles e Eurípides). Suas tragédias constróem idéias edificantes acerca da fatalidade que é condicionada pelas vontades divinas e pelas paixões humanas.
O Prometeu acorrentado ou prisioneiro ou encadeado — variações possíveis para o título original — insere-se nesta característica da tragédia de Ésquilo. O titã Prometeu, que fora auxiliar de Zeus na imposição de seu poder sobre Cronos nas origens dos tempos (arché), constituí-se, como afirma Paul Harvey, no paladino da humanidade, por conta da defesa intransigente das carências e necessidades humanas, contrariando as vontades do poder supremo. Nesse sentido, é-lhe imposta por Zeus uma pena de prisão da qual só sairá após trinta mil anos.
A partir desses mananciais mítico-literários, que são inesgotáveis, Três Tragédias Gregas servem de palco para a proposição transcriativa ou recriativa de Guilherme de Almeida e de Trajano Vieira e, nesse ponto, atingimos o fulcro central da obra, porquanto as transcriações são o objeto dialógico sobre o qual o leitor deve se ater com mais vagar.
Ambos, cada qual a seu modo, não cedem a soluções simplistas e rápidas, tão comuns hoje em dia. Manejam o verso com a presteza necessária à empreitada a que se propuseram — oferecer ao leitor brasileiro tradução digna. Descartam soluções escolares ou tentativas humildes de um simples resgate cadencial. Interferem, assolam, debulham, esmerilham, burilam o verso de sorte a retirar dos mesmos efeitos sonoros, rítmicos, metafóricos, alegóricos propostos no original. Contudo, adaptados às necessidades vernaculares.
Nesse sentido, estabelecem um ambiente agonístico com os gregos antigos, tornam-se seus êmulos ao mesmo tempo em que os respeitam. O universo da tradução, enfim, foi representado nesta obra rara de brilho singular, mostrando aos incautos o quão difícil é a vida do (bom) tradutor.

sábado, 8 de março de 2008

pictoribus atque poetis omnia licent

HASKELL, Francis - Mecenas e Pintores: as relações entre arte e sociedade na Itália Barroca. Trad.: Luiz Roberto Mendes Gonçalves. São Paulo: Edusp. 1997 - 18x25. 726p. Ilustrado.





Paulo Martins



Mecenas e Pintores foi publicado pela primeira vez na Inglaterra em 1963, tempo em que raríssimas eram as publicações sérias a respeito dos artistas italianos do séculos XVII e XVIII. Sua segunda edição surge em 1980, quando foram corrigidos erros e acrescentados novos comentários sobre as novas descobertas e abordagens de história da arte. Em 1991, ou seja, 28 anos após a primeira edição inglesa, publicou-se a primeira edição francesa que, sob o ponto de vista do próprio autor, seria a forma mais acabada de seu trabalho e, assim, aquela que deveria nortear as futuras edições. Portanto, a presente edição brasileira seque a “opção francesa” do livro.

Horácio, autor latino muito discutido e trabalhado no renascimento e, conseqüentemente, no barroco, em uma de suas odes, propôs metalingüisticamente “exegi monumentum aere perenius /regalique situ pyramidum altius - “construi um monumento mais perene que o bronze, mais alto que a velhice das pirâmides dos reis”. Esta metáfora da perenidade da obra de arte pode ser, objetivamente, aplicada à obra de Haskell, tanto no que se refere ao seu objeto de estudo — a arte barroca do século XVII na Itália — quanto ao seu texto — a história das práticas artísticas e suas relações com a sociedade — pois, além de a construção da metáfora ser corriqueira, ou melhor, absolutamente programática, à época; efetivamente a obra de Francis Haskell é um monumento sem igual nesse campo científico.

O mecenato — conceito apropriado pela edição francesa, uma vez que o título em inglês é Patrons and painters — é compreendido por fenômeno social datado que associava artistas ao poder, possibilitando o servitù particolare . Vale dizer que o termo mecenato foi resgatado da antigüidade clássica latina, quando um círculo de autores foi patrocinado pelo poder imperial de Augusto no século I a C. , sob os auspícios de seu lugar-tenente Mecenas. Logo, a solução francesa e brasileira (e não a Inglesa) aproximam, via título, o trabalho de Haskell e seu objeto de estudo a um fenômeno sócio-cultural, distante pelo menos em 1600 anos. Contudo, tal fato não desabona a tradução tampouco o empreendimento científico, porquanto, certamente, o termo já havia sido apropriado pela cultura do período para designar fenômeno semelhante, provocando leitura metonímica do conceito. (cf.ilustração 145, p.586)

Giambattista Tiepolo (1696-1770) - "Mecenas e Augusto" (1745) - Hoje no Hermitage de São Petersburgo


O livro é proposto a partir de uma saborosa narrativa histórica que resgata a produção artística dos séculos XVII e XVIII na Itália, observando círculos do poder privados e públicos cuja preexistência determinaria, quantitativamente e qualitativamente, a própria produção. Dessa forma, são analisados cuidadosamente os mecanismos de uma patronage política, eclesiástica e econômica que propiciariam a produção artística de valor sem precedentes na história da arte.

Divido em três partes e em dezessete capítulos, o livro pretende esgotar critérios de seletividade das obras de arte do período, revisitando as estruturas de poder, primeiramente, em Roma durante o papado de Urbano VIII (Maffeo Barberini), elemento central no texto de Haskell. Observa também a importância das ordens religiosas, fundamentalmente a dos jesuítas, a dos oratorianos e a dos teatinos, além de cuidar também da existência do mecenato privado. Tais instituições seriam importantíssimas na constituição e difusão artística dessa época.

Num segundo momento, trata o livro da dispersão, ou melhor, descentralização da produção artística, que abandona Roma e sofre a intervenção de outros centros de poder, disseminando-se pela Europa, até se fixar numa nova “capital” cultural: Veneza. Nesse sentido, abre-se espaço para a avaliação de um novo sistema de poder, centrado nas relações entre estado, nobreza e Igreja, sem prejuízo da observância, por conta de uma nova situação geográfica, de influências estrangeiras e de um novo conceito filosófico, que propõem uma nova orientação para a produção pictórica, arquitetônica e escultórica.

Na verdade, o livro traz à tona certa estrutura de confluência e dispersão da produção. Resumidamente, propõe um sistema de poder, cuja centralidade estaria no Papa e em seus “sobrinhos”, que propiciaria a confluência de artistas de toda Europa (algumas cidades da Itália, França, Países Baixos, Espanha etc) para Roma, a fim de realizarem trabalhos que refletiriam o real poder do chefe da secular instituição — a Igreja Católica — diante de ameaças políticas e religiosas oriundas da Reforma. A confluência, a serviço do poder, segundo Haskell, imprimiria nas obras do XVII certa tendência artística, uma vez que, em muitos casos, as encomendas eram acompanhadas de um receituário que o artista ou arquiteto deveria seguir rigidamente. Esse fenômeno redunda em duas conseqüências: a primeira diz respeito a um processo “inflacionário” de artistas em Roma, isto é, seguem para Roma inúmeros artistas que buscam seu lugar ao sol na corte papal. A segunda, a reprodução da patronage em escalões inferiores de poder: reis, cardeais, ordens religiosas, banqueiros, etc.

Por outro lado, esta estrutura era garantida por uma opulência que, com o passar do tempo, apresentou sinais claros de desgaste pelos mais diversos aspectos, culminando com a diminuição sensível do espaço das artes em Roma, como bem esclarece o autor: “A desordem financeira que se seguiu ao pontificado de Urbano VIII veio mudar toda a situação e forneceu aos comerciantes a ocasião de realizar seus primeiros grandes negócios. A política de retração econômica implantada por Inocêncio X havia deixado os artistas desamparados. Muitos deles haviam sido atraídos a Roma e ali conquistado a sua principal clientela durante o longo e próspero pontificado de Urbano VIII. Agora o mercado parecia entrar em colapso.” (p.206)

Dessa forma, a partir do terceiro quartel do século XVII, há a dispersão dos artistas por diversos centros políticos da Europa, a saber: a Paris de Richelieu e de Luís XIV, a Londres de Carlos I e II, a Madri de Felipe IV, a Viena de Leopoldo I, etc.: “É verdade que a Espanha e a França exerceram uma influência considerável sobre os artistas italianos, doravante privados de seus grandes mecenas autóctones. Mas foi o Sacro Império Romano, depois a Inglaterra, que de fato retomaram progressivamente a sucessão desses grandes mecenas à medida que o século se aproximava de seu final.” (p. 313)

O papa Urbano VIII instaura em Roma um novo momento no fenômeno do mecenato, embora não tenha sido o primeiro nem o único a promover as artes em Roma naquela época. Uma série de fatores concorreram para que ele se tornasse figura eminente na patronage artística: o término da Basílica de São Pedro e sua conseqüente decoração, a construção do palácio familial e uma villa, apoio e enriquecimento de novas fundações religiosas no esteio da Contra-Reforma e a constituição de coleções privadas de quadros, esculturas e antigüidades pelos parentes e amigos.

Segundo o historiador, ele submeteu Roma ao tratamento mais radical que a cidade conheceu em toda sua vasta história. Foram abertas novas ruas, um eixo monumental foi traçado, unindo todas as principais igrejas construídas, ao mesmo tempo em que era pontuado por praças e fontes. Enfim, os anos desse pontificado mudaram a feição da cidade que até então era marcada por características típicas da Idade Média. Pode-se entrever certa função dessas obras: “visava em parte sufocar as dúvidas no seio da própria Itália — daí a importância do elemento ‘persuasão’, que é a outra grande característica do barroco que todos os observadores assinalaram.” (p. 61)

Tendo em vista a existência do interesse em arte, inúmeros artistas durante o início do XVII afluíram para Roma. Invariavelmente, seguiam o mesmo esquema de sobrevivência: “Em primeiro lugar, o jovem pintor tinha de achar um lugar onde morar, talvez num mosteiro, através de um cardeal que no passado fora legado papal em sua cidade natal. Por intermédio desse benfeitor, o artista conhecia algum influente prelado bolonhês que lhe encomendava um retábulo para a igreja de que era titular e encarregava-o da decoração de seu palácio familial — no qual, a partir daí o artista se instalava. Desses dois dignatários, o primeiro assegurava ao artista um certo reconhecimento público, ao passo que o segundo apresentava-o a outros mecenas potenciais, dentro do círculo de amizades do cardeal. Essa era de longe a etapa mais importante. Durante vários anos, o pintor recém-chegado trabalhava exclusivamente para um grupo restrito de clientes, até que, afinal, depois de um número crescente de retábulos, estabelecesse solidamente a sua reputação junto a um público mais amplo e pudesse tirar disso rendimento e prestígio suficientes para trabalhar por conta e aceitar encomendas de fontes diversas. Atingindo este estágio, o artista podia receber a morte de seu patrono ou mudança de regime com certa tranqüilidade de alma.” (p.19)

Havia, contudo, uma segunda possibilidade de sobrevivência para os artistas no período: o mecenato levado a termo pelas ordens religiosas que, se não independententes em relação ao Papa, possuíam alguma autonomia. Em Roma, na primeira metade do século, três ordens destacaram-se pela contribuição ao desenvolvimento das artes por conta de três construções de suma importância: os jesuítas e a decoração da Igreja Gesù de Sant’Ignazio; os teatinos e a igreja em honra de Santo André (Sant’Andrea della Valle) e os oratorianos e a Chiesa Nuova.

Porém, Haskell destaca que os principais artistas em Roma do período, Pietro da Cortona e Bernini, não puderam participar da decoração dessas igrejas a princípio, porquanto estavam ocupados nas obras de decoração da Basílica de São Pedro e do palácio familial dos Barberini (família de Urbano VIII), portanto impedidos , hierarquicamente, de realizar obras para as ordens religiosas. Vale ressaltar que ambos tivessem estreita relação com os jesuítas, não trabalharam num primeiro momento na decoração da Gesù, que, segundo os críticos, haveria de ser uma das maiores glórias do barroco italiano. Entretanto, após a morte de Maffeo Barberini em 1644, estas obras puderam receber a atenção destes artistas, que contribuíram para que elas se tornassem grandes monumentos.

Mesmo sem a participação de Bernini e Pietro da Cortona, estes empreendimentos arquitetônicos sofreram a intervenção de nomes como Gaulli, Caravaggio, Lanfranco e Baciccio, entre outros, e foram resultado “de uma síntese de forças contrárias, que se opuseram com maior ou menor virulência durante todo o século XVII” (p. 118). Tal afirmação, extremamente pertinente, indica uma avaliação muito interessante, consumada por Haskell, ao opor os interesses pessoais do Papa aos das ordens religiosas, ou, mesmo, os interesses daqueles que detinham o poder espiritual aos daqueles que detinham o poder econômico.

Nada mais natural que uma cidade, para a qual confluíam fortunas advindas de diversas partes da Europa, possuísse mais de um centro de poder econômico, isto é, seria pouco verossímil crer que, em Roma, nessa época, apenas o Papa detivesse todo o poder econômico. Dessa forma, Roma fervilhava de membros de uma alta casta econômica cuja única função é integrar grupos de amateurs e de virtuosi. Assim, há mais um tipo de mecenato: o privado. Sua principal característica e única preocupação era seguir a moda ditada pela corte papal no que se refere às artes.

Estes colecionadores possuíam coleções absolutamente invejáveis tanto dos artistas “modernos” (leia-se aqui barrocos) quanto dos antigos (renascentistas). Além do mais, tinham uma enorme preocupação com as antigüidades clássicas greco-latinas. Haskell, neste capítulo, faz uma compilação daquelas que foram as maiores coleções particulares de Roma no período, indicando no que tais amateurs influíram na consolidação do estilo. Dentre os muitos amateurs, o autor destaca três: o Marquês Giustiniani, Camilo Massimi e Cassiano dal Pozzo, cuja coleção de antigüidades constitui peça de grande valor científico até hoje, pois empregara grandes mestres do quilate de um Poussin para elaborar cópias das antigüidades encontradas na cidade. A partir dessas cópias foi constituído aquilo que o próprio Cassiano chamou de Museu de papel (Museum Chartaceum).

Segundo Haskell, para Dal Pozzo “os vestígios de Roma antiga eram os testemunhos fragmentários de um mundo desaparecido cujos valores apresentavam o maior interesse intrínseco. Por conseqüência, tudo o que subsistira era importante, pois mesmo o baixo-relevo mais danificado ou a inscrição menos perfeita podia esclarecer algum costume importante”. (p.172)

O último mecanismo de divulgação de obras de arte analisado por Haskell é a relação das obras com o grande público, por meio das sucessivas exposições a que o século assistiu e por meio da atividade dos comerciantes de arte. Na verdade, a presença dos mecenas privados, de certa maneira, incentivou o cultivo das artes em esferas mais miúdas das população, ou seja, o monopólio da aristocracia e da Igreja foi sendo paulatinamente quebrado. “A chegada em Roma de uma multidão cada vez maior de turistas e a crescente instabilidade da economia transformaram pouco a pouco as condições do mecenato, e viu-se multiplicar o número dos comerciantes de arte que tratavam diretamente com os artistas.”(p.204)

Haskell salienta que esses comerciantes gozavam de péssima reputação em Roma, pois, várias vezes, agiam de forma a coibir o contato direto do artista com seu cliente, ou mesmo, incentivavam a circulação de cópias das obras. Subtraindo-se a flagrante desonestidade desses marchands, o historiador tece comentários acerca da degradante atividade desses comerciantes que, em geral, eram considerados aviltadores das obras, o que, seguramente, é uma proposição extremamente romântica, posto que supervaloriza a atividade artística em detrimento da atividade comercial.

Por outro lado, a festa de corpus Christi, a de São Bartolomeu, a de São José e a de San Giovanni Decollato, com o desenrolar do século, tornaram-se o centro de contato das grandes obras com o grande público. Nestas festas, realizadas em quatro datas distintas do ano, os artistas, com o fito de honrar um santo e seus devotos com um grande espetáculo decorativo, expunham suas obras. No entanto, as mesmas não podem ser consideradas de forma isolada. Antes, devem ser observadas como possibilidade de contato da obra com um público que jamais poderia adentrar a um palácio familial.

Haskell vai mais longe, ao propor que mesmo os estrangeiros as utilizavam como meio de introduzir em Roma a arte de culturas estrangeiras. Nesse sentido, as exposições contribuíram para, primeiramente, tornar a produção artística um “negócio público” e, em segundo lugar, inserir na produção romana características alienígenas.

Esta data possui um valor marcante dentro da estrutura do mecenato romano. A morte de Maffeo Barberini, o Papa Urbano VIII, gerou dentro do círculo artístico que o cercava um grande desconforto, uma vez que ele próprio, agora morto, e seus sobrinhos, apesar de cardeais da Santa Madre Igreja, não mais detinham o poder de financiamento das artes em Roma e, com isto, grandes pintores, arquitetos e escultores viram-se numa situação absolutamente desconfortável para trabalhar. Poussin, por exemplo, um ano após a morte afirma: “As coisas em Roma mudaram muito sob o papado atual, e não desfrutamos mais de qualquer favor especial na corte”. (p. 243)

Apesar disto, alguns artistas ainda conseguiram manter seu status quo, como é o caso de Bernini. Sob o pontificado de Inocêncio X e sob os auspícios de Camilo Pamphili, pôde desenvolver alguns trabalhos monumentais como a Fonte dos Quatro Rios, na Piazza Navona e, ainda, a construção de San Andrea al Quirinale. Contudo, os artistas mais jovens sofreram muito com a mudança de direção, imposta pelo novo papado. Segundo o historiador, tal fato esclarece o avanço de importância dos marchands e dos comerciantes de arte que passaram a ser responsáveis pela venda da produção em outros centros da Europa, disseminando as características do estilo ao mesmo tempo em que, por conta das encomendas, passavam a sofrer uma certa influência de outras escolas e de outros gostos. Em 55, Inocêncio X morre e assume Alexandre VII que, de certa forma, resgata o vigor da corte dos Barberini. Contudo, o declínio das artes em Roma já se fazia arraigado e os novos centros passam a receber os artistas italianos.

A partir da segunda metade do século, raríssimos eram os pintores italianos que não recebiam de clientes estrangeiros uma parcela significativa de encomendas. “Até a queda dos Barberini, as oportunidades de trabalho em Roma eram tão grandes que poucos governantes estrangeiros logravam vencer a supremacia dos papas. Com o declínio do mecenato papal, no entanto, a situação inverteu-se e muitos pintores tomaram consciência das extraordinárias oportunidades oferecidas pelo estrangeiro”. (p.276)

Iniciada a dispersão dos artistas pela Europa, talvez a Inglaterra seja o maior exemplo da importância que este fato imprimiu não só no âmbito das artes como, também, no da política. O isolamento impresso pela Contra-Reforma a este Estado começa a sofrer refluxo. Carlos I, após sistemáticas tentativas de contratar um artista italiano para sua corte, consegue contratar Orazio Gentileschi. Mais tarde é “coroado” por um busto de Bernini, elaborado a partir de uma obra de Van Dyck.

A França, que desde a época de Richelieu insistia na contratação de Bernini para realizar algumas obras, sob as benesses do Cardeal Giulio Mazzarino, passa a receber sistematicamente visitas de inúmeros artistas italianos que passam a gozar de certa penetração na corte francesa. O próprio Bernini irá dedicar-se a uma obra fantástica que é o busto de Luís XIV, considerada por muitos como “o registro mais veemente do absolutismo” na história das artes visuais (cf. ilustração 69, p.309). Com efeito, a França do período, segundo Haskell, supera a qualquer outro país, ou mesmo, coligação de países da Europa. no poderio militar, na literatura e em todas esferas.



Louis XIV - Bernini - Château de Versailles



Velázquez, talvez um dos maiores expoentes do período no âmbito da pintura, já há algum tempo mantinha contatos estreitos com a pintura italiana. Como membro da Accademia di San Luca e da Congregazione dei Virtuosi, podia praticamente ser considerado um italiano. Portanto, as relações entre os pintores italianos e a Espanha já estavam, até certa medida, consolidadas. No entanto, a partir do fim da primeira metade do século, Felipe IV “não saciado pelos serviços de Rubens e Velázquez” (p.279) encomendou diversas obras a Lorrain e Poussin, porque, “conservava o maior interesse pelo cenário romano”.

Dentre os centros políticos europeus que durante o XVII receberam artistas italianos e, muita vez, imprimiram influência na produção artística do período, Haskell destaca a Viena de Leopoldo I, a Liechtenstein de Eugênio e a Pommersfelden da família Schönborn. “Não há dúvida de que o mecenato alemão foi decisivo para a própria existência da pintura” (p.317). Por exemplo, o nu feminino, sob pressão dos príncipes alemães, adquire uma importância até então ignorada e que jamais será superada em período posterior (cf. ilustração 72, p.318 e 73, p. 319).





Marcantonio Franceschini - Diana e Acteão - Liechtestein Museum



Guido Cagnacci - A Morte de Cleópatra - Kunsthistorisches Museum - Viena



Caso não houvesse um capítulo dedicado à dispersão provinciana da obra barroca, a narrativa histórica de Francis Haskell,certamente, poderia induzir o leitor a um erro grave, pois poder-se-ia imaginar que a arte deste período só circularia nos grandes centros políticos, o que é absolutamente inverossímil. Nesse sentido, o livro trata pontualmente de alguns mecenas, residentes fora dos grandes centros políticos que propiciaram o desenvolvimento dessa arte. Destacam-se, em Nápoles, Gaspar Roomer e Antonio Ruffo (cf. ilustração 82, p.346), possuidor de nada menos que 189 quadros de Rembrandt; em Florença, a família Rosso e Ferdinando de Médicis; em Ferrara, Tommaso Ruffo (cf. ilustração 83, p. 361) e, por fim, em Macerata, Raimondo Buonaccorsi.

Velázquez - Juan de Pareja - MET - Nova Iorque

Muito embora estes mecenas não residissem em Roma, foram capazes , em suas próprias coleções, de refletir a variedade de gostos — característica marcante e mais sedutora do barroco — além, naturalmente, de difundir características autóctones da escolas provincianas nas quais estavam absolutamente imersos. Por outro lado, amiúde, a distância do centro do poder propiciava em alguns casos um desinteresse pelo cânone romano. Portanto, muitos pintores que estavam em desacordo com os dogmas impostos pela escola romana e haviam sido desqualificados na corte papal, já na província puderam “dar livre curso a um gosto que repousava sobre cânones e valores completamente diferentes”. (p.352)

A terceira e última parte do livro trata de Veneza. A rigor, o sistema proposto pelo autor para estudar a questão do mecenato romano é reproduzido ipsis litteris em Veneza. Ou seja, observam-se o mecenato oficial, o das ordens religiosas e o privado, nesta seqüência. Há, contudo, um detalhe importante que deve ser pensado diante desta leitura: a cronologia proposta.

Ao estudar o mecenato desta importantíssima cidade italiana, Haskell demonstra sublinarmente que o barroco lá constituído é tardio, isto é, em Veneza o estilo desenvolve-se em pleno XVIII, o que poderia, de certa forma, para o leitor brasileiro, aproximá-lo daquele que se desenvolveu em terras brasileiras, mormente em Minas e na Bahia, no que diz respeito às práticas arquitetônicas, pictóricas e escultóricas, haja vista, por exemplo, as obras de Aleijadinho e Ataíde em Vila Rica.
Tal fenômeno, entretanto, não pode ser reproduzido, se analisada a produção literária, uma vez que, no XVII brasileiro, as práticas letradas de Gregório de Matos e Pe. Antonio Vieira indicam a apropriação do estilo na colônia, enquanto o XVIII já é marcado pelo desenvolvimento do movimento academicista, inserido completamente no ideário do iluminismo europeu.

A explicação desse barroco tardio em Veneza é, de chofre, oferecida pelo historiador: “Ao longo do século XVIII, uma surpreendente contradição perpassa toda a história de Veneza. Esta cidade era um dos grandes centros cosmopolitas da Europa, um famoso ponto de encontro do turismo internacional, e o governo favorecia esse tipo de turismo por todos os meios possíveis. No entanto, esse mesmo governo fazia esforços sistemáticos para manter Veneza ao abrigo das influências estrangeiras e para torná-la impermeável a todas as forças que operavam uma mudança nas noções dos homens e na sua concepção do mundo, e que foram englobadas sob o termo genérico de Iluminismo”. (p.399)

As correspondências entre os mecenatos romanos e venezianos podem ser avaliadas a partir de simples equações: Bernini e Pietro da Cortona estão para Roma assim como Tiepolo está para Veneza. Ou, ainda, da mesma forma que jesuítas, oratorianos e teatinos foram fundamentais para a produção artística romana no XVII, os carmelitas, dominicanos e capuchinhos o foram para Veneza do XVIII. Contudo, há de ressaltar diferenças na estrutura do estado veneziano do XVIII em relação à corte papal do XVII em Roma, e tais diferenças são bem estabelecidas pelo historiador.

Enquanto em Roma o poder religioso confundia-se com o próprio estado político, em Veneza sempre existiu uma tensão entre ambos, uma vez que certa “burguesia mercantil” passa a disputar com a aristocracia tradicional o poder político e econômico. Se é certo que a nobreza tradicional da cidade era quem dirigia a Igreja, via de regra, o tensionamento transferia-se para o eixo burguesia emergente e ordens religiosas. Assim, a burguesia, segundo o autor, jamais desempenhará qualquer poder político ou cultural em Veneza, fato que demonstra, claramente, o quanto esta cidade, apesar do incrível fluxo cosmopolita, era tradicional e refratária às mudanças ou inovações. Dessa maneira, a arte produzida em Veneza será considerada conservadora pelos críticos, operando elementos distintivos da Contra-Reforma. Destarte, coadunada com aquelas praticadas em países em algo semelhantes: Espanha e Alemanha do Sul.

Na primeira metade do século XVIII, assim como ocorreu em Roma na segunda metade do XVII, contudo por motivos diferentes, os artistas venezianos passam a circular pela Europa, constituindo, assim, uma segunda “diáspora” dos italianos. No entanto, salienta Haskell que não havia apenas uma Veneza, a do conservadorismo, da censura e da Contra-Reforma; havia outra que era a Veneza dos turistas e dos dilettantes, e esta produziu um novo tipo de pintura que ora tendia para o rococó ora para o neoclássico e que , ao contrário da outra, poderia ser digerida mais avidamente por países como França e Inglaterra que já se encontravam inseridos no contexto do liberalismo e do Iluminismo.

Assim, Veneza contribui para circulação e divulgação artística sob dois prismas distintos: o primeiro, o do barroco cujos expoentes são Tiepolo e Piazzetta; o do segundo, rococó ou neoclássico que possui como representantes Sebastiano e Marco Ricci, Pellegrini, Bellucci, Canaletto e Zuccarelli. Estes, sim, operam “novas e sutis combinações de cores, com malva e verdes, vermelhos translúcidos e prateados” que reforçam um singular frescor de uma nova pintura que emerge no XVIII.

A contradição indicada pelo historiador pode ser facilmente aferida a partir de um tipo de pintura erótica que surge na cidade, fora do círculo austero do poder: “Era, sobretudo, um porto de paz, ainda prodigiosamente rico, onde o governo encorajava seus prazeres, ansioso que estava por conquistar o maior número possível de amigos; era uma cidade cujos palácios transbordavam, como em nenhuma outra parte da Europa, de obras-primas facilmente apreciadas por sua beleza sensual, e de cortesãs que eram famosas por seus encantos. Não é de surpreender que tenham desejado registrar em telas, que pudessem levar para seus reinos guerreiros ao norte, a lembrança da cidade e de suas mulheres”. (p.451)

Mantendo a estrutura proposta de simetria do livro, passa o autor a avaliar o mecenato privado de Veneza que, diferentemente de Roma, estava centrado em três estrangeiros, residentes em Veneza. São eles o Cônsul Joseph Smith, o Marechal Schulemburg e Sigismund Streit. A importância desses mecenatos é fundamental para o divulgação da pintura veneziana, porquanto, sistematicamente, estes mecenas enviaram para o exterior obras de autores da cidade, além de patrocinar outros cuja obra já se distanciava do estilo vigente, como é o caso de Rosalba Carriera.

Talvez um dos grandes momentos da obra de Francis Haskell esteja reservado para seu final, pois, no momento em que o leitor identifica a questão do barroco tardio de Veneza, automaticamente, se questiona: como uma cidade, com um fluxo comercial tão grande, teria ficado imune às inúmeras publicações iluministas do período? Nesse sentido, o autor propõe: “Veneza permanecera imóvel — ou pelo menos parecia— mas a Europa havia mudado. Nos últimos dez anos do século XVII, a Inglaterra e a França haviam visto os inícios de uma revolução intelectual que iria destruir os alicerces sobre os quais estava assentada a civilização barroca”. (p.521)

Em países como França e Inglaterra, a supremacia absoluta de qualquer autoridade era seriamente questionada, a tolerância e a diversidade passavam a ser aceitas e o comércio substituía a propriedade como referência de riqueza. Tais transformações afetaram sensivelmente a natureza do mecenato e das artes. Dessa maneira, passa a haver um interesse crescente por um realismo tingido de sátira ou coberto por um certo didatismo. No bojo destas mudanças, uma nova investigação acerca do papel da pintura, que deveria representar a vida de um país, foi empreendida.

Na Itália estas idéias começaram a ser discutidas, segundo Haskell, em 1690, quando foi fundada a Sociedade Arcádia, que marcou, pelo menos no âmbito da literatura, uma ruptura com a cultura do barroco do século XVII. Porém, a despeito das publicações parisienses, a Itália demorou a reconhecer as mudanças, e os artistas, que desejassem ter um contato mais profundo com as mesmas, deveriam ir a Paris e a Londres. Nesse sentido, excetuando algumas possibilidades indicadas por Haskell, Veneza é dentre as cidades italianas a mais resistente às idéias difundidas no XVIII. Dois nomes foram importantes para a consolidação dessas novas idéias em Veneza: Antonio Conti e Carlo Lodoli. Conti manteve contatos diretos com Newton a quem conheceu em 1715 e Lodoli dirigiu uma escola na qual as leituras principais eram Bacon e Galileu, além de se corresponder com Montesquieu.

O primeiro efeito das novas idéias “esclarecidas” sobre as artes, afirma o historiador, foi a reavaliação da função didática da pintura. Isto seguramente deve-se a um novo esforço de recuperar valores classicizantes da arte. Vale lembrar que os dicursos desde a antiguidade clássica greco-latina possuiam três funções: deleitar, persuadir e ensinar. Nesse sentido, como eram inquestionáveis, durante o barroco, o deleite e o caráter persuasório dos discursos e das pinturas, este novo momento atenta para a valorização da função didática que será uma característica do estilo neoclássico.

Enfim, o livro de Francis Haskell, pelo que se pode observar, é um caminho necessário para quem pretende conhecer as obras artísticas do período. Não se limita, pois, a ser um manual ou um catálogo de obras e autores; vai além, e, a partir de um estudo incansável das relações sociais de uma época, consegue resgatar um sistema de produção e disseminação das artes no desenrolar de dois séculos. Fornece inúmeras fontes possíveis de pesquisas para aquele que pretende se debruçar sobre a história da arte e, simultaneamente, pode ser simplesmente degustado por aquele que deseja conhecer um pouco mais sobre as artes e que não tenha a pretensão de se tornar um connaisseur.

Outra característica a ser salientada é o vasto material iconográfico proposto, afinal são mais de 150 ilustrações que, via de regra, são analisadas pelo autor com uma sensata pertinência. Nesse sentido, a obra de Haskell jamais perde de vista um certo didatismo, por vezes esquecido pelos responsáveis pela divulgação científica. Por outro lado, seu livro deleita o leitor não só pela narrativa histórica proposta como também pelo contato com as belas obras do barroco italiano e, por fim e fundamentelmente, nos convence de uma tese, amparada por argumentos muito bem construídos e constituídos. Assim, pode-se dizer que Haskell não só cumpriu tecnicamente as funções de um discurso bem construído como, também, erigiu um monumento dificilmente superável no âmbito da história das artes.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

O amor entre os antigos

Imagem de Afrodite do British Museum - Londres
Grega-helenística, I século a.C., encontrada na antiga cidade de Satala, a moderna cidade de Sadak, no nordeste da Turquia. Altura: 38.100 cm. Inv: GR 1873.8-20.1 (Bronze 266)



Paulo Martins

Falar sobre o amor na Antigüidade, seja após as inferências de Freud, seja a partir de uma diletante curiosidade, nascida dos inúmeros livros de mitologia, parece tarefa estéril senão tola. Contudo, um olhar mais atento acerca de sua permanência, ou mesmo, o que a mesma tem a dizer nesse mundo pós-moderno, pode ser uma aventura agradável e até mesmo interessante.

Quando falo da permanência desse amor antigo no mundo de hoje, nada há que nos leve a pensar que o amor em todas suas instâncias seria o mesmo, ou ainda, que para nos conhecermos melhor nessa matéria teríamos de buscar o princípio de tudo no mundo greco-latino - pura bobagem! O amor, sentimento, atração física, emoção, basta-se e qualquer teorização fica muito aquém do objeto observado.

Mas por que, então, nos referimos ao amor como obra de Vênus ou que fomos tocados pelas setas de Cupido, aquele pequenino ser alado que possui força inversamente proporcional ao seu tamanho? Rita Lee poderia muito bem responder dizendo "Lá no reino de Afrodite, o amor passa do limite...". Mas vamos deixar Rita em paz!

O amor em Roma e Grécia é mais palpável e, justamente, por possuir essa concretude, parece também mais digno de comentários e associações, coisas que faltam nas sociedades ditas ocidentais e pós-românticas que, vez por outra, propõem certa distância entre o sentimento e sua concretização, e qualquer tentativa de consolidação artística ou não do mesmo passaria por uma sublimidade que o amor efetivamente não tem. Afinal, não há como duvidar que ele seja concreto.


Imagem de Vênus do British Museum - Londres. Mármore de Vênus do tipo da Vênus Capitolino. Romana, circa: 100-150 d.C., encontrada no Campo Iemini, próximo de Torvaianica, Lácio, Itália. 223.520 cm. Inv: GR 1834.3-1.1 (Sculpture 1578)

Carecemos, hoje, de algo que no teatro do mundo ou no mundo das representações constituam-se como a representação concreta do amor. Por sermos essencialmente românticos procuramos, paradoxalmente, a metafísica do amor, principalmente, quando esse amor não fornece sua própria consubstanciação. E mesmo quando a temos, buscamos representação factível, possível para ele fora do mundo sublime! E assim chegamos aos antigos. Eles nos dão explicações concretas para o que sentimos. Suas representações apesar de serem divinas, são concretas, são reais: realizáveis.

Mas os romanos e os gregos acreditavam em seus mitos? Eles conseguiriam entendê-los fora do âmbito religioso? Isso não seria apenas denominação do sublime “pós-tudo”? E, nesse sentido, não seriam tão românticos quanto nós?

Certo é que os romanos já não se encantavam tanto com os mitos quanto os gregos, porém as representações concretas do sentimento por intermédio dos mitos, senão eram as mesmas, estavam muito próximas daqueles que as inventaram. Tanto isto é verdadeiro que é impensável o amor antigo, em Roma ou na Hélade, apartado de sua condição representativa, o mito.

Dessa forma, careceríamos do veículo da representação. Pois bem, a única possibilidade para o mito é o texto (verbal ou não). A literatura e as artes figurativas são, portanto, os veículos capazes de produzir o resgate das categorias mentais que norteavam aqueles homens diante de seus sentimentos. Ou seja, um dicionário de mitologia não faz o menor sentido para nós se estiver distante da própria veiculação dos mitos que eram os poemas e as imagens. Amiúde, sou questionado sobre os mitos, e minha resposta é imediata: em que texto, em qual imagem?

Hoje o mito sem a literatura e as artes não passa de lucubração, pela simples falta de referente textual e, portanto, concreto. Do que adianta saber que Afrodite nasceu da espuma do mar e do sexo extirpado de Urano? Que Apolo faz parte da segunda geração olímpica? Que doze eram os trabalhos de Hércules? Nada! Assim, prefiro a história de João e Maria ou a do Gato de Botas, sem falar dos contos de Andersen que, por conta de sua proximidade com o meu imaginário, teriam muito mais a dizer.

Entretanto, quando associamos a divindade a um texto literário ou a uma imagem, resgatamos o tal do referente, o mundo concreto. O signo imposto pelo mito brilha, e conseguimos entendê-lo como categoria de pensamento que busca a união daquilo que é transcendente - o amor, por exemplo - com aquilo que é concreto - o mito.

Assim nos deparamos com textos como estes de Safo na tradução de JAA Torrano (poeta grega do século VII a. C.) rogando à Afrodite: "Vem junto a mim ainda agora, desfaz/ o áspero pensar, perfaz quanto meu ânimo/ anseia ver perfeito. E tu mesma - sê /minha aliada". Ou ainda, contabilizando os efeitos do amor, produzidos pela mesma deusa: "Sim isso/ me atordoa o coração no peito:/ tão logo te olho, nenhuma voz/ me vem/ mas calada a língua se quebra,/ leve e sob a pele um fogo me corre,/ com os olhos nada vejo, sobrezum-/ bem os ouvidos//frio suor me envolve, tremo/ toda tremor, mais verde que relva/ estou, pouco me parece faltar-me/ para a morte".

Enquanto, no primeiro texto tem-se um típico procedimento religioso de atenção, no caso no amor; no segundo desnudam-se os efeitos que o agente do sentimento pode efetivar. Portanto, o mito aproxima aquilo que é injustificável daquilo que vivido e concreto, sem que, necessariamente, estejamos próximos do mundo ritualístico da religião.


Imagem de Afrodite no banho do British Museum - Londres. Estátua de Mármore. Uma versão de um original helenístico. Romana do II século d.C. Altura: 1.120 m. Inv: GR 1963.10-29.1


Não só preocupados com esta relação (transcendente-real), os antigos se preocuparam em pintar a divindade com palavras. Assim não só temos o que o amor causa, o que pode propiciar sendo divindade, mas também como é figurado concretamente. Propércio, poeta erótico romano do século I a. C., numa bela elegia assim diz: "Quem quer que seja que pintou o Amor criança,/ não é certo que tinha mãos extraordinárias?/ Ele viu que os amantes vivem sem cuidado e que grandes bens pereceram por loucas paixões./ Ele mesmo adicionou, não em vão asas ligeiras/ e fez o deus voar no coração humano."

Estátua de Bronze de Eros do MET - Nova Iorque

O exemplo, portanto, caracteriza justamente o que falamos no início, pois o amor só tem seus efeitos "existenciais", a partir da caracterização concreta. Os Cupidos (segundo a Mitologia, filhos gêmeos de Vênus) possuem asas rápidas como o vento, e nesse sentido, teríamos a representação da afecção amorosa que rapidamente penetra e agita o coração humano. Além do que a própria figuração é questionada e julgada, afinal quem quer que tenha sido seu pintor, as suas mãos eram extraordinárias, conseguiram efetuar a relação daquilo que sentimos com algo que absolutamente explicado no mundo concreto.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Antologia narra quatro séculos de latinidade

Texto publicado no Jornal da Tarde - "Caderno de Sábado", São Paulo, p. 5, 20 nov. 1999.


NOVAK, MARIA DA GLÓRIA et alii - Historiadores Latinos. Antologia Bilíngüe. São Paulo: Martins Fontes.

Por Paulo Martins

"Sine ira et studio"
(Sem ira nem parcialidade)
Tácito

Historiadores Latinos, obra recentemente publicada pela Martins Fontes, propicia a, pelo menos, três reflexões pertinentes. A primeira delas concernente ao papel das antologias no estudo de práticas letradas. A segunda que tem como ponto de partida a recuperação genética do gênero historiográfico e the last but not the least, sobre o caráter da diversidade imposto pela tarefa da tradução.

Elaborada por um grupo de professores da área de Língua e Literatura Latina de diversas universidades brasileiras, durante as décadas de 80 e 90, esta antologia tinha como objetivo precípuo auxiliar o trabalho docente em Letras Clássicas que sofre por conta de escassez material de textos traduzidos, absolutamente necessários às aulas de língua e literatura latina.

Tal como a primeira obra da série (Poesia Latina, igualmente publicada pela Martins Fontes no início da década de 80), este livro tem como ponto de partida certo recorte diacrônico de determinado gênero dentro do universo literário de alguns séculos, ou seja, diferentemente daquilo a que estamos habituados, antologias que observam a produção de determinado autor ao longo de alguns anos, esta opera variações genéricas do ponto de vista de diversos autores, propiciando um retrato particular do desenvolvimento do gênero historiográfico na Roma Antiga.

Tal fato, seguramente, revelará viés diferenciado acerca do gênero em questão, uma vez que deixa de lado as questões teóricas e, de chofre, abre possibilidades de discussão a partir da efetiva prática letrada. Assim, o leitor ao fim e ao cabo da leitura poderá, indubitavelmente, teorizar sobre as variações do gênero em questão, podendo até mesmo refletir sobre a teorização que, geralmente, lhe é imposta pelas obras de teoria da literatura, e, mais especificamente, pelas obras de história da literatura latina que oferecem apenas o conceito deixando de lado o modus operandi a que se prendeu para que chegasse às conclusões expostas.

O uso desse expediente didático sempre foi muito utilizado dentro das Letras Clássicas e, portanto, não são poucos os títulos em países não periféricos que observam tal didatismo na formação dos críticos e estudiosos. Na verdade, os profissionais que adotam este tipo de intervenção desenvolvem a máxima retórica do “uerba mouent, exempla trahunt” (as palavras movem, os exemplos arrastam), ou a sentença de Sêneca nas Cartas a Lucílio: "Longum iter est per praecepta, breue et efficax per exempla" (O caminho pelos preceitos é longo, breve e eficaz pelos exemplos). Isto é, tanto no primeiro caso, como no segundo, o exemplo é o melhor caminho para o convencimento, logo, para a reflexão consciente e honesta, adequada.

A esta questão também deve ser somada uma “ideológica” – em seu senso mais amplo – no que tange à organização de antologias. Toda e qualquer reunião de textos faz despontar certa intencionalidade dessa seleção e organização. Portanto, à proposta antológica subjazem juízos que determinam opção, seleção, necessidade. E o que vemos na presente publicação, é absoluta proposta didática, sem, contudo, preterir prazer e convencimento. Nesse sentido, cumpre sua função horaciana, afinal a obra é dulce et utile (doce e útil), isto é, deleita, ensina e convence.

Esta seleção, cronologicamente, recorta quatro séculos de latinidade, oferecendo textos que vão de Júlio César (101 - 44 a.C.) a Salviano de Marselha (V d.C), passando por Santo Agostinho, São Jerônimo, Amiano Marcelino, Eutrópio, Floro, Suetônio, Tácito, Valério Máximo, Tito Lívio, Salústio, Cornélio Nepos, entre outros.


Tito Lívio


Tal fato opera, também, a diversidade de um mesmo gênero, fato dificilmente aferido na historiografia (mesmo na mais moderna); ao contrário daquilo que ocorre, por exemplo, com a poesia, tão diversa em si, contudo, tão propriamente poesia, singular, típica e isto, talvez, corrobore a afirmação aristotélica do capítulo IX da Poética, quando discute universalidade poética e particularidade histórica.

A historiografia latina e, conseqüentemente, a antologia em questão possui especificidades curiosas que determinam diferenças genéricas, ou melhor, subgenéricas, uma vez que tudo ali proposto é historiográfico. Assim, o que difere uma história de um breviário ou analística dos comentários? São questões subjacentes à interessante viagem factual e vivida proposta pela colagem de tempo morto e vivo em palavras.

Reavivada pelas palavras, o leitor brasileiro tem às mãos antologia que propicia o reconhecimento de certas instâncias de quatro séculos de história, vista pelos olhos de quem dela participou. Dessa maneira, o livro propõe textos de: Júlio César, grande nome da história republicana romana e hábil comentarista de campanhas bélicas (Recentemente foi comentada a mais nova tradução de sua obra A guerra Civil feita por Antônio da Silveira Mendonça); Tito Lívio, autor da época de Augusto, responsável pela mais completa narrativa da história romana desde a sua fundação até os primeiros dias do império; Tácito, agudo analista e historiador da segunda metade do século I d.C. e início do século II; Suetônio (69 -141), secretário do Imperador Adriano, cuja maior obra foi retratar biograficamente os primeiros doze césares, que, vale dizer, efetivamente foram onze, uma vez que Júlio César não era assim considerado.


Júlio César - Museus do Vaticano

Sob outro ponto de vista, podemos, também, por intermédio desses autores recuperar parte de um passado que, a princípio, é tido como inatingível. As obras desses autores, sistematicamente, tratam da vida pública, ou seja, estão presas ao fato histórico relevante, o fato público. No entanto, estilisticamente, é possível recuperar a história que não está na história, porquanto o estilo tem o poder de trazer à tona, elementos não presentes no texto, por exemplo, a recepção.

Tácito

Não foi de outra forma que Erich Auerbach (Mimesis, 1976. p. 40) adverte: "(...)Tácito escreve de uma posição superior que examina a multidão de acontecimentos e operações ordena-os e julga-os como um homem da mais alta posição social e educação, se não cai no árido ou ininteligível, isto se deve não somente ao seu gênio, mas também à incomparável cultura do visual e do sensorial durante toda a Antigüidade. Mas o mundo dos seus semelhantes, para o qual escreveu, exigia que o elemento visual e sensorial permanecesse dentro dos limites do gosto fixado por uma longa tradição, sendo que já nele aparecem sinais de uma transformação desse gosto, no sentido de um maior realce do sombriamente horrendo(...)".

Contudo, o fato mais diferenciado desta obra seja justamente observar estas diferenças genéricas, temporais e da recepção sob o ponto de vista diverso de tradutores diversos – são mais de duas dezenas no livro. A tradução como operação de linguagem pode também indicar, nos mesmos moldes da seleção antológica proposta, como vimos, propiciar à verificação de certo universo cultural e propositivo de tradutores, soluções, intenções e idiossincrasias que revestem o texto traduzido de estilo e pessoalidade.Portanto, a diversidade vista diversamente e unificada por intencionalidade “ideológica”, esta seria a definição mais adequada a este livro que ora se publica.


HISTORIADORES LATINOS - ANTOLOGIA BILINGUE
MARTINS FONTES
ISBN: 8533609124

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

AS TROIANAS DE SÊNECA





Por Paulo Martins


A publicação de textos traduzidos da antigüidade clássica greco-latina hoje no Brasil é ainda uma atividade rara e incipiente. Ao contrário do que ocorre em países como Inglaterra, França e Itália, onde coleções como a Loeb Classical Library, Les Belles Lettres e BUR (Biblioteca Universitaria Rizzoli) são responsáveis pela divulgação de obras fundamentais da literatura ocidental e atualmente já produzem novas gerações de traduções, o Brasil caminha a passos de tartaruga nesse filão do mercado editorial.

Tal fato não ocorre, como se poderia imaginar, pela ausência de profissionais competentes que conheçam com profundidade as letras latinas e gregas, manancial básico no ofício de tradução dos clássicos, mas, sim, pelo desconforto ou incompreensão das casas editoriais em investir nesse “produto” que, segundo alguns mais pessimistas, não possui público. Logo, é incapaz de gerar o lucro desejado.


O estado da questão gera um paradoxo interessante: não se publica porque não há público e não há público porque os textos não são divulgados. Remando contra a maré, há alguns editores que, a despeito de qualquer preconceito, investem nesse mercado, pequeno, porém cativo. Nesse sentido, encontramos algumas editoras como Edusp, Nova Alexandria, Vozes, Martins Fontes e Hucitec.

Esta última sistematicamente vem publicando livros pertencentes a uma série chamada Grécia e Roma, preocupada fundamentalmente em divulgar traduções acadêmicas dos textos do mundo clássico. Assim foi com Catulo - O Cancioneiro de Lésbia, Eurípides - As Bacas e Medéia, Aristóteles - A constituição de Atenas, Luciano - O diálogo dos mortos e , por fim, a recém-publicada obra de Sêneca - As troianas.

Sêneca sempre esteve envolvido com o poder de sua época, marcada por inúmeras turbulências. Viveu em Roma durante os governos dos cinco primeiros imperadores romanos (Augusto, Tibério, Calígula, Cláudio e Nero), ou seja, de, aproximadamente, 4 a. C. até 65 a. C.. A supor que a sociedade, na qual determinado escritor vive, imprime em seus textos alguma influência, aqui se explicaria certa força, violência, crueldade e tensão que há em seus textos. Afinal, Sêneca “foi hostilizado por Calígula, banido por Cláudio e condenado à morte por Nero”.


Sua vasta obra compreende gêneros diversos, a saber: cartas, tragédias e tratados filosóficos, toda ela impregnada, seguramente, de um matiz estóico, filosofia que ele pretendia difundir entre seus contemporâneos, fundada na busca da felicidade, na paz de espírito, na fugacidade da vida e no exercício da virtude, logo, objetivo de sua literatura.

A produção trágica latina não foi tão vibrante quanto a grega, no entanto o que nos restou — oito tragédias de Sêneca — demonstra uma grande capacidade técnica, exigida pelo gênero.

A despeito de alguma coincidência temática com as tragédias gregas, as de Sêneca possuem características próprias e são marcadas por um colorido diferencial e por uma retórica acuradíssima — afinal o autor era um grande orador, e sua formação assume uma posição de relevo na produção de sua obra. Estes fatores, provavelmente, influíram para colocá-lo no rol dos prediletos de um Shakespeare, de um Racine, de um Corneille, ou mesmo, de um Pe. Antônio Vieira, por exemplo.

Talvez o fato que cause maior estranheza ao leitor moderno de tragédias senequianas seja a coincidência temática com outras obras, mormente com as trágicas gregas e, nesse caso específico, com As troianas de Eurípides . Isto ocorre por conta do desconhecimento de alguns conceitos “literários” antigos como imitação e emulação.
Na antigüidade clássica greco-latina, não havia o conceito de plágio ou originalidade, que só aparecem no fim do século dezoito com a disseminação da imagem do autor como ser diferenciado, que, platonicamente, possui uma relação especial com o divino e, por força de conseqüência, detém uma habilidade impar, original e sem precedentes.

Para os antigos, a apropriação temática a título de imitação era salutar, e mais, era uma referência para a observação do engenho (ingenium), capacidade de propor soluções textuais melhores e, nesse sentido, de superar o modelo inicial (emulação). Desta forma, a teoria autoriza uma aproximação entre êmulos, no caso Eurípides e Sêneca.

A distância entre Sêneca e Eurípides reside justamente na ausência de teatralidade do primeiro em relação ao segundo. As peças de Sêneca, seguramente, foram escritas para serem lidas e não para serem encenadas, o que aristoleticamente retira da estrutura trágica, com a qual deve preocupar-se o tragediógrafo, aquilo que o filósofo grego chamou ópsis, a “encenatividade”. Isto, contudo, não impede que seu texto explore aspectos fundamentais como a perfeita construção dos caracteres (os éthe). Suas personagens são extremamente vigorosas e ricas, principalmente se forem observados os tipos femininos construídos em As troianas. E mais, sua estrutura externa adequa-se perfeitamente aos princípios aristotélicos.

O enredo, fundado na situação de desespero das mulheres troianas, após o fim da campanha militar de Tróia, com a morte de seus homens, provavelmente deve ter causado à época alguma comoção uma vez que, se observarmos a origem lendária de Roma, encontraremos Enéias, um general troiano, que conseguiu escapar da morte na famigerada guerra e que de maneira mítica está ligado à fundação da Cidade Eterna.


Sêneca, ao tratar do destino reservado às mulheres de Tróia, carrega nas tintas e produz, retoricamente, momentos patéticos notáveis (e leia-se aqui patético no seu sentido de afecção passional absolutamente programático - o páthos), de sorte que o fim de Hécuba, Andrômaca e seu filho Astíanax e Políxena é aguardado com ansiedade pelo leitor atento.

Cabe ressaltar que Sêneca introduz na sua versão d’ As troianas uma passagem que não encontramos em Eurípides: o sacrifício de Políxena, filha de Hécuba e Príamo, rei de Tróia, imolada no túmulo de Aquiles. Esta passagem, contudo, está presente em outra tragédia de Eurípides, Hécuba. Isto indica a presença da contaminação(contaminatio), fenômeno de intertexualidade, muito comum nas comédias latinas.

A presente edição deste texto até então inédito em português, elaborada por Zélia de Almeida Cardoso, professora e latinista da FFLCH da USP, propõe uma boa introdução que situa o leitor na época em questão, além de proporcionar informações preciosas no que se refere à obra de Sêneca e, mais especificamente, à composição de suas tragédias. São também oferecidas ricas notas ao fim do livro para que certa parcela de leitores modernos, desabituada com as referências mitológicas, tenha uma intelecção mais completa do texto. Há um glossário que registra antropônimos, nomes gentílicos e topônimos com seus respectivos esclarecimentos. Além disso, dispõe a edição do texto latino, permitindo que o leitor iniciado nestas letras possa cotejar a tradução com original.

A tradução absolutamente precisa resgata na maior parte das vezes o cunho sentencioso e patético do texto. Contudo, como a própria tradutora afirma, não foi proposta uma solução de tradução versificada, o que, de certa maneira, seria desejável, posto que as tragédias de Sêneca foram escritas em verso.

Bem esclarece, entretanto, que, nas partes dialogadas, o original se vale de metros jâmbicos, produzindo um efeito de linguagem falada, o que autoriza, assim, a tradutora a vertê-los em prosa, imprimindo um tom coloquial a estas partes. Quanto aos cantos corais que originariamente haviam sido escritos em metros líricos, esperava-se uma tradução mais poética, uma vez que estes trechos possuem no original uma beleza e força magníficas e, em certa medida, devem esses valores à habilidade técnica do autor no trato com o verso. Não obstante, Zélia de Almeida Cardoso procura solucionar tal situação com um possível resgate cadencial que, se não é uma rima, é uma solução.

Em todo caso, tais detalhes não desautorizam o trabalho eficiente de tradução, tampouco a importância do livro neste mundo globalizado tupiniquim, chamado Brasil, onde as distâncias com o dito mundo civilizado estão cada vez maiores também no que tange à cultura clássica.


As Troianas - Lúcio Aneu Sêneca
Introdução, Tradução e Notas de
Zélia de Almeida Cardoso
Editora Hucitec - SP/SP
1997 - 156p.



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Estudos Acadêmicos sobre Sêneca



Letras Clássicas é uma publicação anual, mantida pelo Programa de Pós-Graduação em Letras Clássicas da FFLCH-USP, que se destina à divulgação da produção científica de professores e alunos vinculados ao Programa. Cada volume compõe-se de artigos, traduções de autores gregos e latinos, resenhas de publicações relativas aos Estudos Clássicos e notícias sobre dissertações e teses defendidas ou sobre pesquisas em andamento em nossa área. Demais, os artigos e traduções seguem um eixo temático.

Sumário deste número:
Editorial

Artigos

I. Os textos de Sêneca

1. Consolações:

- A filosofia da dor nas Consolações de Sêneca - por Cleonice Furtado de Mendonça Van Raij

2. Diálogos:

- De tranquillitate animi como exercício espiritual - por Angélica Chiappetta

3. Epístolas:

- Por que Sêneca escreveu epístolas? - por Ingeborg Braren

- Arte dialógica e epistolar segundo as Epístolas morais a Lucílio - por Marcos Martinho dos Santos

- Uma visão senequiana da amizade - por Ariovaldo Augusto Peterlini

4. Sátira:

- Silêncio y furor en la Apokolokynthosis de Séneca - por Giuseppina Grammatico

5. Tragédias:

- O tratamento das paixões nas tragédias de Sêneca - por Zelia de Almeida Cardoso

- Medéia de Sêneca - por Maria da Gloria Novak

- A utilização de recursos formais na tragédia Fedra de Sêneca - por José Eduardo dos Santos Lohner

- O párodo de Fedra e a retórica - por Paulo Martins

- A Andrômaca de Eurípedes como fonte de As troianas de Sêneca - por Ana Maria César Pompeu

- Aspectos da liberdade em As troianas de Sêneca - por Isabella Tardin Cardoso

II - O contexto de Sêneca

1. Contexto Filosófico:

- Estoicismo e epicurismo em Roma - por Maria da Gloria Novak

2. Contexto Político:

- Sêneca entre a colaboração e a oposição - por Maria Luiza Corassin

3. Traduções:

- "A função dos males na vida humana". Sêneca, Sobre a providência, IV, 16; V, 1-11 - tradução de José Eduardo dos Santos Lohner

- "O valor do tempo". Sêneca, Epístolas morais a Lucílio, "Epístola 1" - tradução de Ingeborg Braren

- "Um deus habita nossa alma". Sêneca, Epístolas morais a Lucílio, " Epístola 41" - tradução de Ingeborg Braren

- "À natureza". Sêneca, Fedra, 956-88 - tradução de Zelia de Almeida Cardoso

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Palestra - As Línguas da América

Há uma semana, recebi um convite para falar a crianças de 11 e 12 anos sobre a origem e a história das línguas americanas. O pedido veio do professor de História do meu filho, Paulo. Titubeei no ínicio, pois uma coisa é falar sobre esse assunto a pessoas mais velhas e que possuem certo repertório de informações preeliminares e outra é traduzir conceitos complexos aos pré-adolescentes. Mas aceitei o desafio. Ontem foi o dia. Preparei uma aula de 110 minutos e desenvolvi os seguintes tópicos:

1. Linguagens
2. Língua
3. Famílias das Línguas
4. O Indo-europeu
5. O Latim Clássico e o Latim vulgar (o Romance)
6. As Línguas Neolatinas
7. O Português e o Árabe na Penísula Ibérica
8. O Português do Brasil e o Tupi.

A atenção, a receptividade e a participação desses meninos e dessas meninas foram impressionantes. Participaram com perguntas inteligentes, atenderam às minhas indagações com precisão, responderam com educação. Durante duas horas, permaneceram atentos! Mais pareciam alunos de Pós-graduação do que do Ensino Fundamental II. Não sei se no meu tempo de 6a. série nos anos 70, seria igual. Creio que não. A conclusão a que chego é nem tudo está perdido na educação do país.

Obrigado, Pequenos alunos da 6a. Série da Nova Escola.

http://www.novaescola-sp.com.br/site01/index.php

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

A tragédia grega e Ésquilo

Busto de Ésquilo



Por Paulo Martins

Muito se diz que uma das maiores contribuições da civilização grega antiga foi a literatura. Nomes, como o de Homero, sempre são citados pelos professores como modelos para a cultura ocidental desde a Roma Antiga até os nossos dias. Entretanto, não há como negar que essa civilização nos proporcionou o gênero literário mais diferenciado, o teatro, em suas duas modalidades: a tragédia e a comédia.












Máscara Trágica e Mácara Cômica


O teatro grego, mais do que um gênero literário, era uma instituição política, isto é, algo típico da cidade-estado. As peças teatrais eram apresentadas em festivais que eram mantidos pelo poder público e eram dedicados a Dionísio, deus do vinho. Ocorriam todos anos e elevavam os vencedores dos concursos à posição de cidadão insigne dentro da estrutura social da polis. Cada autor deveria apresentar três peças e um ditirambo satírico, gênero, do qual pouco se sabe (afinal apenas fragmentos chegaram até nós íntegros). Nessas festas, a população escolhia o melhor entre os concorrentes, e essa participação sistemática nos festivais nos leva a crer que a literatura entre os gregos ocupava uma posição de destaque, uma vez que fazia parte do dia-a-dia, era discutida e pensada como um assunto de estado.



Sátiro


A origem da tragédia são os cantos corais religiosos, uma espécie de jogral, que, em seu desenvolvimento histórico, evoluem para diálogos entremeados de cânticos. Dessa forma, temos outra característica que sobreviveu pelo menos até a Idade Moderna: o teatro como poesia, fato que, hoje em dia, nos soa estranhamente, mas que é facilmente observável na tradição do humanismo e do classicismo: Moliére, Racine, Shakespeare e, mesmo, entre nós, Gil Vicente. Eles representam essa modalidade literária com maestria e engenho. Suas peças, além da sutileza de enredo e da precisão na constituição das personagens, são modelos de uma forma de poesia acurada e cuidadosa.

Vale lembrar que a dupla origem da tragédia (religião e poesia) é atestada pela etimologia da palavra tragédia: “tragos” “oidia”, o canto do bode. O canto se associa à forma poética e o bode, animal ligado ao culto de Dionísio, à religião. Pode-se dizer que a tragédia se ocupa, então, de uma dupla dimensão que se verifica não só na sua própria estrutura, como também no seu conteúdo. De um lado o coro, personagem coletiva e anônima, que entoa cânticos religiosos e comenta os episódios da ação em versos líricos; de outro lado, as personagens que a partir de sua fala em versos que se aproximam do ritmo da fala do cotidiano, fazem o desenrolar da trama. Além disso, o coro, sob o aspecto do conteúdo de seu canto, representa uma dimensão humana da cidade, comenta a ação dos heróis sob a óptica do cidadão; enquanto os personagens, representam ações míticas e, portanto, divinas em certa medida.


Baco

Entre os tragediógrafos gregos, o tempo nos legou apenas três: Ésquilo, Sófocles e Eurípides, cada um dos quais representando um estágio desse gênero. Do primeiro, temos 7 tragédias ; do segundo, igualmente 7 e do terceiro, 18. Ésquilo é seguramente o autor cuja obra mais se distancia da nossa concepção de teatro, podemos dizer que, por conta de estar mais próximo das origens, ─ entre os três, é o mais antigo ─ é o mais lírico dos autores, seus coros são mais extensos e suas ações são mais simples. A produção de Ésquilo foi muito vasta, há notícias de que escreveu mais de cem tragédias, contudo apenas Os persas, Os sete contra Tebas, Prometeu Acorrentado, Agamêmnon, As suplicantes, As coéforas e As Eumênides chegaram até nós e, em todas elas, o duplo alcance das tragédias é verificado.


Nascido em 525 a. C. em Elêusis, antes, portanto, do apogeu ateniense com Péricles, ele participou das guerras médicas (contra os persas), tento lutado na famosa batalha de Maratona em 490 e depois em Salamina em 480. Tal fato influencia sua produção artística, já que Os Persas trata justamente dessa última batalha e se caracteriza por não se fixar em tema mítico, mas histórico. Contudo, isso não impede que dê luz mítica ao evento histórico como forma de amplificar a condição dos soldados gregos em relação aos bárbaros, os persas. Ao invés de glorificar a vitória grega, salienta a derrota persa, a justificando como desígnio divino, castigo que foi mantido por muito tempo em suspenso e que, naquele momento, se coloca como amostra do que podem os deuses contra os mortais.


Sob o viés da guerra, também está centrada a tragédia Os sete contra Tebas, porém, ao contrário d’Os Persas, Ésquilo propõe um enredo mítico: a maldição de Édipo. Seus filhos com Jocasta (mãe e esposa), Polineces e Etéocles devem combater e morrer. E é o que ocorre e mais uma vez o destino se cumpre como forma de demonstração de força dos imortais em relação a nós, mortais. Da mesma maneira que a peça anterior, a ação é muito reduzida e abundam descrições e momentos de extremo lirismo.


A aflição das mulheres é uma temática recorrente em Ésquilo. Entretanto, em As Suplicantes, isto é patente. O enredo é proposto a partir das 50 filhas de Dânao, as danaides, que segundo o mito foram condenadas a encher tonéis sem fundo pela eternidade. Dânao, que reinou no Egito com seu irmão durante muito tempo, com ele se indispôs e partiu de lá com suas filhas. Contudo, seus primos desejavam desposar suas filhas e, isto, não era o seu desejo. Dessa forma, pede asilo em Argos cujo rei as salvará de imediato, mas sua desdita já se prenuncia e seu sofrimento está predeterminado.


Talvez, sua tragédia mais conhecida seja o Prometeu Acorrentado, cujo enredo é de teor inverso ao d’Os Persas, pois é todo centrado no mundo divino. Prometeu descumpre a determinação de Zeus de ter dado aos mortais o conhecimento do fogo. Como pena, é cravado num rochedo e lá é visitado pelo coro que se apiedando, lhe dá conselhos. A questão central do Prometeu parece ser o caráter de Zeus que longe de piedoso, mostra-se tirânico e absolutamente humano nas suas atitudes.


O ponto alto da obra de Ésquilo é a trilogia Orestia ou Orestéia, formada pelas peças Agamêmnon, As Coéforas e As Eumênides. Agamêmnon guarda para si talvez uma das imagens mais belas da literatura ocidental, a morte de Ifigênia, mas seu ponto central é Clitemnestra, esposa adultera do grande general grego da guerra de Tróia. Apesar de seu caráter discutível sob o ponto de vista da moralidade mortal, ela é um instrumento da justiça divina: mata o esposo para vingar a filha. Em As Coéforas, a sina do clã se desenrola, pois os filhos Orestes e Electra matam a mãe para vingar o pai por ordem de Apolo. Em As Eumênides, a ordem divina se impõe sobre a humana, Orestes é julgado em Atenas. Tal julgamento celebra o triunfo da justiça sobre as vinganças cegas.A obra de Ésquilo que começara “com a vitória de Atenas sobre os bárbaros, termina com a esperança de sua vitória sobre todas as desordens internas susceptíveis de ameaçá-la.”


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Ésquilo em Português



Ésquilo - Orestéia. Tradução: Jaa Torrano. São Paulo: Iluminuras. 3 volumes.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Times Higher Education - 2007



Em que se pese o valor restrito de avaliações acadêmicas sob aspectos quantitativos e númericos apenas, vale observar o ranking do jornal britânico "The Times" (Times Higher Education Awards) . Entre as diversas avaliações desse tipo, talvez essa seja a mais conceituada e tradicional. Os mais curiosos dados são relativos às Universidades Brasileiras:


Universidade de São Paulo - 175

Universidade de Campinas - 176


Vale lembrar que, no ano de 2006, a colocação dessas Universidades era 284 e 484 respectivamente.


Para ter acesso às pesquisas 2005, 2006 e 2007, clique no link http://www.timeshighereducation.co.uk/ e abra a aba statitiscs.

domingo, 3 de fevereiro de 2008

A Mão Portuguesa de Deus - Sobre Vieira

Texto publicado na Revista Bravo!, 41. 01 de Fevereiro de 2001. pp.114-17. Por ocasião do lançamento do primeiro volume de obras escolhidas de Pe. Antonio Vieira, organizado por Alcir Pécora (UNICAMP)


A mão portuguesa de Deus

Por Paulo Martins

Padre Antonio Vieira (1608-1697) é certamente um dos maiores escritores da língua portuguesa. Não é por acaso que, academicamente, seja pleiteado ora pela Literatura Portuguesa, ora pela Brasileira - e que possa ser considerado o primeiro caso de transnacionalidade nas literaturas dessa língua. Veio para o Brasil aos 7 anos e, como jesuíta, dedicou parte de sua vida à colônia (Bahia, Olinda e São Luís), algo comum em pregadores do século 17 que tinham como missão a catequização dos povos. Também chegou a importantes investiduras na corte e no mundo, em diferentes períodos em que esteve fora do país: ocupou missões diplomáticas em Paris, Haia e Roma. Convicto de certas posições, em 1665/67 foi processado pela Inquisição por defender os cristãos-novos, condenado por "opiniões heréticas" e logo depois anistiado.
Longe das estantes das bibliotecas, estava muito difícil ter acesso a ele. Apenas excertos didáticos eram encontráveis. Ou ainda, espalhados pelos sebos e alfarrábios das grandes cidades, edições da década de 50 em quinze volumes, cujo preço está bem longe do razoável. Agora, acaba de chegar às livrarias o primeiro volume de uma coletânea em quatro, a ser lançada até o fim do ano pela editora Hedra e organizada por Alcir Pécora. A coleção é composta de dois volumes dedicados aos Sermões, um às obras proféticas (História do futuro e Defesa perante o Santo Ofício) e o último às Cartas.
Grande parte da crítica descontextualiza Vieira, atribuindo-lhe perfis inverossímeis, costurando-lhe máscaras imprecisas e pregando-lhe etiquetas incompatíveis. Se é certo que não devemos nos esquecer da afirmação de Italo Calvino - de que "os clássicos são aqueles livros que chegam até nós trazendo consigo as marcas das leituras que precederam a nossa" -, é certo, também, que o próprio Calvino diz que "um clássico é uma obra que provoca incessantemente uma nuvem de discursos críticos sobre si, mas continuamente os repele para longe". Assim, a despeito de todo e qualquer juízo crítico ou de valor que se faça acerca da obra de Vieira, é mais conveniente refletir sobre a pertinência de sua leitura hoje.
Pode-se afirmar que há pelo menos três razões que o tornam indispensável. A primeira diz respeito ao retrato da correlação de forças observadas à época de seus textos. Outra parte da delimitação de preceitos técnicos na elaboração de textos no século 17. A última é a aferição de um estilo preciso e difícil que deleita, ensina, convence, intriga e faz pensar sobre sua recepção.
A obra de Vieira é pragmática, longe de qualquer fruição romântica; é determinada pelo binômio poder eclesiástico e poder político. Suas letras são mundanas, práticas, efetivas e encerram a ação da Companhia de Jesus naquilo que lhe é mais característico: a expansão da fé como simulacro do poder político. O papel da Igreja, regulado pelo padroado real, que determinava a subserviência de Roma em relação a Lisboa, consistia na manutenção dos interesses econômicos e políticos da Coroa. A Igreja mantinha o monopólio da fé nas terras "descobertas" enquanto o Estado detinha o direito de recolher o tributo devido pelos fiéis, criar dioceses e nomear bispos.
Vieira devia zelar pelo Estado Colonial Português. Para tanto, construiu e proferiu diversos Sermões, entre os quais se destaca o famoso Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal contra as de Holanda (1640). Sua intenção era dupla: barrar o avanço dos hereges reformistas holandeses e garantir a viabilidade da máquina mercantil portuguesa, usando uma argumentação de fundo teológico. Ele dizia que Deus não pode serconivente com as mazelas heréticas e deve se posicionar de forma que a justiça divina abençoe os portugueses: "(...)Vossa mão [Senhor] foi que venceu, e sujeitou tantas nações bárbaras, belicosas e indômitas, e as despojou do domínio de suas próprias terras, para nelas os plantar, como plantou com tão bem fundadas raízes; e para nelas os dilatar, como dilatou, e estendeu em todas as partes do mundo, na África, na Ásia, na América.(...)". A mão de Deus, portanto, só poderia ser portuguesa. Não parece que em qualquer momento histórico algum texto tenha tido poder suficientemente abrangente para conseguir atingir objetivo semelhante.
Mas o monopólio jesuíta da fé não era hegemônico; outra ordem, a dos dominicanos, emulava com a primeira. Não só pela possibilidade expansionista, mas também pela capacidade de ser o instrumento verbal de Deus. Enquanto os primeiros diziam-se donos do estilo preciso, direto e eficiente para conservação e conquista de novos fiéis, os segundos praticavam o verbum, aproximando-se de uma organização discursiva sublime e engenhosa cuja complexidade, senão semelhante, estava para eles muito próxima da complexidade divina - uma engenhosidade celeste enigmática e culta. A querela estilística, que extemporaneamente foi proposta como dicotomia cultismo versus conceptismo (forma versus conteúdo), trazia à tona a luta de dois modelos eclesiásticos, o primeiro dado às cameratas da corte e o segundo interessado na conversão dos gentios.
Como adversário contumaz da elocução e da "ideologia" dominicana, Vieira constrói o Sermão da Sexagésima, que nada mais é do que a chave "metalingüística" de seus Sermões, aguda e prudentemente construída com vistas à posição hegemônica dos jesuítas diante da catequese. Ou melhor, diante daquele poder político associado a questões econômicas e eclesiásticas obviamente defendidas pelos "filhos" de Santo Inácio de Loyola ("E esta maravilha fez Deus em Santo Inácio. O livro foi a flor, ele o fruto; um fruto que contém em si todos os sabores; um Santo que sabe a tudo o que cada um deseja e há mister" - Sermão da terceira dominga da quaresma - 1655).
Assim, existe uma função intrínseca para os sermões. Eles não podem se efetivar apartados do reconhecimento de suas máximas, de seus preceitos; devem efetivamente significar, isto é, devem ser concebidos de acordo com a adequação entre linguagem e público. Fato que, do ponto de vista de Vieira, não era observado pelos dominicanos: "Sim, Padre; porém esse estilo de pregar, não é pregar culto. Mas fosse! Este desventurado estilo que se usa, os que o querem honrar chamam-lhe culto, os que o condenam chamam-lhe escuro, mas ainda lhe fazem muita honra. O estilo culto não é escuro, é negro, e negro boçal e muito cerrado. É possível que somos Portugueses, e havemos de ouvir um pregador em português, e não havemos de entender o que diz?" (Sermão da Sexagésima - 1655).
Ao lermos Vieira hoje, outro aspecto é intrigante. Será que oralmente seus textos eram entendidos? Uma coisa é lê-lo, podendo-se fazer o percurso das linhas com olhos num vai-e-vem constante, para daí termos certeza de sua mensagem; outra é ouvirmos sem a possibilidade de retornar, de rever a trajetória da argumentação, que tanto nos apraz.
Facilmente se chega à conclusão que seria quase impossível a compreensão completa da mensagem dos Sermões, quando ouvidos, dada sua construção complexa e imbricada. Logo, tanto jesuítas como dominicanos estariam longe da missão primeira que, segundo o próprio Vieira, seria a disseminação da palavra de Deus (uerbum semen Dei - a palavra de Deus é a semente). Dentro dessa mesma perspectiva, em 1657 ele elabora o Sermão do Espírito Santo, cujo argumento principal é a importância do aprendizado da língua portuguesa pelos gentios. Esse aprendizado, segura e intencionalmente, deveria ir além do ABC; caso contrário, o efeito dos seus sermões seria o mesmo que o dos dominicanos: nenhum. Ou seja, absortos ou não na palavra de Vieira, ou melhor, na de Deus, nobres ou índios podiam ou não entender os Sermões (não saberemos jamais). Independentemente disso, estes se constituem como registros significativos da história e das letras do século 17.
É freqüente a recuperação de sua elocução. Os jornais, as revistas e até mesmo as universidades são devedores de suas construções, de suas imagens, de suas metáforas agudas e prudentes e, mais, de sua excelência. Apesar de sua ínfima circulação, Vieira ainda encontra epígonos, que por si não valem muito mas, por conta de sua filiação estilística e técnica, devem ser observados com cautela e atenção.Por isso é obrigatório se ler Vieira - o Vieira absolutamente distante da crítica que lhe medeia. Aquele que, por si, é representante do que há de melhor em língua portuguesa. Resta esperar por um maior empenho editorial para termos a totalidade de sua obra: a publicação da famigerada Clavis Prophetarum (A Chave dos Profetas), ainda inédita em português - foi escrita em latim. Mesmo assim já podemos comemorar: temos de novo algum Vieira!

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Bologna University Summer School in Latin Language and Classical Culture (16 June - 4 July 2008)

The Department of Classics (http://www.classics.unibo.it) and the Department of International Relations of Bologna University are organizing a Summer School in Latin Language and Classical Culture.The courses will be focused both on language and on literature;further classes will touch on moments of Roman history and the history of art, supplemented by visits to museums and archaeological sites (especially in Rome).The course will be held in Bologna from 16 June to 4 July 2008 (three weeks) for a total of 60 hours (50 hours of classes + 10 hours ofcultural activities). No specific qualification is required for course admission. On the basis of their previous knowledge of the Latin language, the participants will be divided into classes of different levels(beginners and intermediate).

All tuition will be in English.

For further information (e.g. application form, credits, accommodation, etc.):

http://www.unibo.it/summerschool/latin
E-mail: summerschool@unibo.it