quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Óstia - 2 Filmes

Abaixo seguem dois pequenos filmes sobre Óstia. O primeiro: uma reconstituição da cidade feita em computação gráfica. O segundo: alguns registros dos sítios arqueológicos. Vale a pena ver. Ambos for extraídos do site dedicado às escavações na cidade portuária romana: http://www.ostia-antica.org/


segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Uma diferença obsessiva

Paulo Martins

Certo dia, uma colega, Tatiana Fadel, numa dessas salas de professores da vida, admoestou-me a refletir sobre a distinção entre o verbo obcecar e o substantivo obsessão que, para ela e, logo em seguida, para mim, tornou-se dúvida compulsiva. Enrubesci, gaguejei, não conseguindo, pois, lhe dar explicação etimológica para o problema. Pensei comigo que o fenômeno que ocorria entre essas duas palavras poderia ser similar, grosso modo, ao caso de estender e extensão que, apesar de possuírem a mesma raiz, isto é, o verbo extendo latino, em nossa língua, como bem aponta o Dicionário Houaiss, “a grafia oficial (...) exige o s, em confronto com o étimo latino que é com x, o qual, no entanto, foi mantido em extensão, extensivo, extenso etc.”. Ledo engano.

O verbo obcecar é do latim obcaeco ou occaeco, e assim sua origem é: o prefixo ob- (prep. ou prev.), cujo significado percorre largo espectro semântico que vai da idéia de posição, como em diante de, em frente de; passando por causa e conseqüência, como em por causa de ou em conseqüência de; chegando à idéia de oposição como, por exemplo, em contra. E, a base da palavra, seu radical, caecus, cujo significado inicial é cego, e também pode ter um significado objetivo como invisível, obscuro, tenebroso, oculto, obscurecido de espírito e, portanto, incerto e duvidoso. Assim o verbo em latim tem uma significação precisa em seu sentido literal: cegar, tornar cego, impedir de ver (física e moralmente). Em seu sentido figurado, por seu turno, quer dizer: tornar obscuro, ininteligível, escurecer e, por fim, curiosamente, cobrir e encobrir, paralisar ou privar de movimentos.

Esse mesmo verbo em nossa língua é menos usado em seu sentido físico, apesar de os dicionários o atestarem em primeira acepção, isto é, cegar ou tornar cego. Não é de outra forma que a professora Maria Helena Moura Neves o descreve em seu Guia de Uso do Português (2003). Assim, seu uso mais comum parece-me de matiz menos fisiológico e mais anímico: privar do discernimento, deslumbrar, ofuscar, perturbar e, daí, fazer perder a razão, desvairar, alucinar e, conseqüentemente, fazer incorrer em erro por absoluta falta de “lucidez do espírito”, com o perdão do trocadilho.

Curiosamente, o substantivo cognato desse verbo em Português, obcecação – pouco usado – possui, sim, significado menos fisiológico, não sendo atestado o senso físico, a não ser em sua última acepção que é marcadamente técnica, e, dessa forma, significa ação ou efeito de obcecar(-se), obscurecimento da razão, insistência numa determinada idéia, pertinácia excessiva. Entretanto, no jargão, médico, o significado “original” se mantém minimizado: cegueira parcial.

Lendo Florbela Espanca (1895-1930), poeta portuguesa, atentei que o obcecar e a obcecação, a despeito de não aparecerem explicitamente, surgem traduzidos em um de seus poemas, o soneto “Fanatismo” de 1923: “Minh’alma de sonhar-te, anda perdida/ Meus olhos andam cegos de te ver!/Não és sequer a razão do meu viver,/ Pois que tu és já toda minha vida!// Não vejo nada assim enlouquecida.../ Passo no mundo, meu amor, a ler/ No misterioso livro do teu ser/ A mesma história tantas vezes lida!// ‘Tudo no mundo é frágil, tudo passa...’/ Quando me dizem isto, toda a graça/ Duma boca divina fala em mim!// E, olhos postos em ti, digo de rastros: / ‘Ah! Podem voar mundos, morrer astros,/ Que tu és como Deus: Princípio e Fim!...’. Parece-me que o fanatismo descrito no poema, não é outra coisa senão algo como uma obcecação, nascida do ato de obcecar, afinal “meus olhos andam cegos de te ver” e “Não vejo nada assim enlouquecida”.

Por outro lado, o substantivo obsessão, cuja raiz latina é obsessio, possui o prefixo ob- exatamente igual ao de obcecar, contudo sua base é outra: sessio é do verbo sido ou sideo e obsido ou obsideo significam atacar, invadir, sitiar, ocupar, já obsessio, ação de sitiar, cerco, bloqueio. Vale salientar que a dupla etimologia, em obsido ou em obsideo, produz uma pequena diferença, já que o segundo termo significa primeiramente estar sentado ou estar instalado e, em sua última acepção, apresenta a possibilidade figurada de apoderar-se de e dominar. Fato esse que não ocorre com obsido. Daí, me parece ser a segunda possibilidade mais provável e não a primeira. Vale dizer que os maiores etimologistas da Língua Latina, A. Ernout e A. Meillet, em seu Dictionnaire Étymologique de La Langue Latine, não abonam esta discussão.

A questão em Português é interessante, pois que não há registro do termo obsessão na acepção latina física, ou seja, a ação de sitiar. Antes, apenas o senso figurado de obsideo nos chegou por viés diferenciado, por assim dizer, esdrúxulo. Nesse sentido, a obsessão significa: 1) suposta apresentação repetida do demônio ao espírito, 2) apego exagerado a um sentimento ou a uma idéia desarrazoada, 3) motivação irresistível para realizar um ato irracional; 4) compulsão, ação de molestar com pedidos insistentes; impertinência, perseguição, vexação. Seu adjetivo, por sua vez, ganha contornos patológicos e, assim, aquilo que é relativo à ou próprio da obsessão, se aplicado ao humano, esse granjeia uma neurose e passa a ser um obsessivo-compulsivo.

Destarte, temos a explicação absolutamente razoável da confusão entre o obcecar e a obsessão, já que o campo semântico dos termos pode interagir numa intersecção entre eles. Isto é, se tomarmos, o sentido de obcecar como privação da visão racional sobre as coisas, ou, simplesmente, sermos tomados por uma obcecação, é possível que estejamos a um passo de uma obsessão, tornando-nos obsessivo-compulsivos.

Por outro lado, a obsessão pode, ao invés de caracterizar certa patologia anímica, pode ser fruto de certo sentimento a que os mais sensíveis, creio, chamam amor ou paixão. Como aquele que privava Bentinho de bom senso diante dos olhos de ressaca de Capitu. De forma inovadora na história do Romance Moderno, os olhos de Capitu deixam de ser reflexos da alma, e, portanto, passivos, para provocar, e daí, ativos, a cegueira anímica e a privação da razão do narrador, Bentinho. Nesse sentido é melhor deixar que esses, os sensíveis, nos falem:

Assim como fui para casa naquela primeira noite sem nenhuma satisfação, apenas com uma sensação de tristeza e resignação, muitas e muitas vezes voltei para casa em outros dias com a certeza de que era apenas um dentre muitos homens – o amante favorito do momento. Esta mulher, que eu amava tão obsessivamente, se acordasse à noite, imediatamente encontrava sua imagem em meu cérebro e desistia de dormir, parecia dedicar todo o seu tempo a mim. E, no entanto, não conseguia confiar: no ato do amor eu podia ser arrogante, mas, sozinho, bastava que me olhasse no espelho para ver a dúvida, na forma de um rosto marcado e de uma perna aleijada – por que eu?” (Greene, Graham – Fim de Caso, p.58)

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Reeditada A Ilíada por Odorico Mendes

Título: Ilíada
Autor: Homero
ISBN: 978-85-7480-393-7

Resumo: Matriz literária do Ocidente, a Ilíada de Homero é o mais antigo texto escrito nos limites do Sol-Poente que chegou até nós e, decorridos vinte e nove séculos, continua mais fresco que o jornal que vai sair amanhã. Registrados no então recém-criado alfabeto grego, no oitavo século antes de Cristo, numa Grécia ainda arcaica, porém remontando a uma tradição oral que extrapolava ao infinito este limite e este tempo, os dezesseis mil versos da Ilíada, nas palavras de Haroldo de Campos, nunca decaem, oscilam entre o Pico das Agulhas Negras e o Everest. Tal monumento literário mereceu em todas as línguas modernas ocidentais o esforço dos mais insignes tradutores. O português teve a fortuna de ter do brasileiro Manuel Odorico Mendes (1799-1864), seu mais bem-acabado humanista, segundo José Veríssimo, a primeira tradução completa, vertida diretamente do original grego para a nossa língua, culminando num original português da Ilíada. Outras boas versões vieram, novas virão, oxalá sobejem, explorando e expondo a riqueza e possibilidades oferecidas pelos originais homéricos, mas dificilmente alguma, ou por razões artísticas ou por razões históricas, poderá abalançar-se a este patrimônio cultural dos países de língua portuguesa. A Ilíada de Odorico Mendes sempre representará um tesouro a quem a possua, em que pese as dificuldades apresentadas pelo texto. Restringir essas dificuldades aos últimos limites de nossa competência, entregando o leitor às delícias do poema, mais que traduzido, transgrecizado, foi o firme propósito desta edição, que traz, a cada verso, uma nota espelhada ao texto.

Sálvio Nienkötter
Medidas: 16 x 23 cm
Páginas: 912
Edição: 1ª
Ano: 2008
Encadernação: Capa dura
R$ 88,00

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Conferências do Programa de Pós-graduação em Letras Clássicas - USP

Universidade de São Paulo
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas
Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas
Programa de Pós-graduação em Letras Clássicas


Dia 8 de setembro:

9:00-10:00h - Sala 266 - Prédio de Letras

"Entre philosophie, rhétorique et poétique: le sens de silva chez les penseurs latins"
Prof. Dr. Carlos Lévy (Sorbonne/Université de Paris IV)

10:30 -11:30h - Sala 266 - Prédio de Letras

"De l'esthétique alexandrine dans les Bucoliques de Virgile"
Profa. Dra. Hélène Casanova-Robin (Sorbonne/Université de Paris IV)

Dia 10 de setembro:

15:00 - 16:00h - Sala 266 - Prédio de Letras

"Le concept de venustas dans la pensée cicéronienne"
Prof. Dr. Carlos Lévy

16:30-17:30h

"Le langage du corps dans les Héroïdes d'Ovide: un mode de représentation de la passion"
Profa. Dra. Hélène Casanova-Robin

Palalestra de Francis Wolf

Francis Wolf (ENS/Ulm)

"Les fonctions ontologiques des catégoriques aristotéliciennes"

Seminário de Filosofia Antiga
Coordenação: Prof. Marco Antonio de Avila Zingano

Terça‐feira, 09 de Setembro de 2008
09h‐12h
15h‐18h

Local:

Sala 111
Conjunto didático de Filosofia e Ciências Sociais
Av. Prof. Luciano Gualberto, 315
Cidade Universitária - SP
Projeto temático - A filosofia de Aristóteles

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

20.000

É com prazer que informo

que o Blog Letras & Artes chegou

à marca de 20.000

acessos, às 18:36h do

dia 29 de agosto de 2008,

a contar de 08/06/2007.

Marco Aurélio: Nova Descoberta Arqueológica na Turquia

Cabeça foi encontrada em ruínas de termas romanas na Turquia


Paul Rincon
Da BBC News

Arqueólogos desenterraram na Turquia partes de uma estátua gigante do imperador romano Marco Aurélio.

Os especialistas encontraram a cabeça, o braço direito e partes inferiores das pernas da estátua em um sítio arqueológico na antiga cidade de Sagalassos, no sudoeste do país.

Foi no mesmo local que a equipe liderada pelo arqueólogo Marc Waelkens, da Universidade Católica de Leuven, na Bélgica, encontrou, há pouco mais de duas semanas, a cabeça de uma estátua da imperatriz Faustina, a Velha.

No ano passado, os arqueólogos já haviam encontrado em Sagalassos uma estátua gigante do imperado Adriano.

Os pesquisadores acreditam que o local onde as estátuas estavam reunidas era provavelmente um frigidário, uma sala enorme com uma piscina de água fria, onde romanos se banhavam após mergulhar nas termas.

O sítio arqueológico faz parte de um complexo de termas romanas que está sendo cuidadosamente escavado pelos especialistas há 12 anos. O local teria sido atingido por um terremoto entre os anos 540 e 620 d.C., destruindo muitas estátuas.

Reprodução fiel

Os fragmentos da estátua de Marco Aurélio começaram a ser desenterrados no dia 20 de agosto, quando os arqueólogos encontraram um par de pernas quebradas na altura do joelho. Em seguida, acharam um braço direito com 1,5 metro de comprimento, cuja mão segurava um globo terrestre.

Mas foi ao encontrar a enorme cabeça de mármore que os pesquisadores identificaram a estátua como sendo de Marco Aurélio.

Marc Waelkens disse que a peça é uma das reproduções mais fiéis do imperador, que reinou do ano 161 d.C a 180d.C.

Marco Aurélio é lembrado por suas escrituras e já chegou a ser considerado mais como "um filósofo do que um soldado".

Mas apesar de sua paixão por filosofia, ele passou boa parte de seu reinado lutando contra tribos germânicas ao longo do rio Danúbio, na Áustria, onde morreu em 180 d.C.

Em 2000, o ator Richard Harris fez o papel de Marco Aurélio no filme O Gladiador.

Junto com Nerva, Trajano, Adriano e Antonio Pio, Marco Aurélio foi um dos "Cinco Bons Imperadores" de Roma.

Em geral, as administrações desses imperadores foi marcada por relativa paz e prosperidade política, militar e econômica.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Hora e Vez do Choro Olímpico

Por Paulo Martins


"skiás ónar ánthropos"

"O homem é a sombra de um sonho"
Píndaro


Os Jogos são a dimensão humana dos deuses. Neles, nos jogos, os homens sonham atingir os limites humanos e, se possível, superá-los, emulando com próprios deuses. Esses, sim, capazes de realizar tarefas inimagináveis. “Mais alto, mais forte e mais rápido” (altius, fortius, citius), lema olímpico, cunhado por Henri Martin já na modernidade, impõe aos atletas olímpicos uma responsabilidade superlativa.

A atual medalha olímpica comporta a deusa Vitória, em grego Niké – note-se o acento agudo no “e”, o que a distancia da “marca”, para não dizer, do real símbolo moderno dos Jogos. Ela, a Vitória, em sua representação antiga e mais comum era conduzida por Palas Atena, a deusa da sabedoria, da guerra, do discernimento... Sua antípoda era Týche, divindade do Acaso, do Inelutável, daquilo que não depende de nós e apenas, da espera, da possibilidade ... do “quem sabe?”. Ela portava uma cornucópia e um timão que simbolizavam ao mesmo tempo, a fartura e a condução da vida humana, respectivamente. Não por acaso tinha seus olhos vendados, pois seus desígnios eram distribuídos aleatoriamente.




Niké de Éfeso

Assistindo, como boa parte dos brasileiros, aos Jogos Olímpicos de Pequim e ao seu final, notei que o Brasil não é profícuo em atletas regidos pela deusa parceira da sabedoria, antes são norteados pelas benesses de Týche. Foi assim com Jade, Hypolito, Murer, Derly e Larissa. Assim também, com o basquete feminino que joga só bem, mas não vence, com o Vai Thiago, que só vai no Brasil, com o handball, com o salto triplo de Jardel, com a calamidade institucional do boxe olímpico e do levantamento de peso. Não me venham dizer que estar nas quartas ou oitavas de final é bom ou que o que interessa é competir..., pois, ao atleta, que é considerado "de alto rendimento", o que realmente vale é o pódio.



A triste queda de Hypolito - Foto de Marcelo Pereira/Terra

Mas por que somos regidos pelo Acaso, por Týche? A resposta é imediata. Não há sabedoria esportiva no Brasil. De um lado, para sermos vencedores e, portanto, ligados a Niké, necessitamos de atitude de vencedores e essa não nasce conosco, ela deve ser cultivada e cultuada e, para isso, os exemplos se avolumam a cada Olimpíada, basta olharmos para Phelps, para Bolt, para Cielo... De outro, precisamos de gestores esportivos que realmente desejem que os atletas sejam vencedores e não eles mesmos, os ganhadores. Necessitamos de uma política de esporte e não de políticos no esporte. Não precisamos de Nuzmans, de Orlandos, de Teixeiras, aliás, não lhes queremos. Do que precisamos e o que queremos? Escolas públicas de ensino fundamental e médio que garantam a prática sistemática do esporte. Espaços públicos dedicados a ele e para todos que o desejem.


Týche

Jade: duas quedas - Foto: Marcelo Pereira/Terra

Note-se que em alguns esportes isso já acontece. Não há como negar que nossa tendência à Vitória no vôlei masculino e feminino (indoor ou areia) e, a partir dessa Olimpíada, no Cielo que não é do Brasil, é dos Cielo, no futebol feminino que contra todos (con)vence, no Scheidt, o amigo dos ventos, na Maggi, de pés alados, e de outros poucos que aprenderam a ser devotos da deusa que interessa e dar pouca atenção àqueles que querem usar seus feitos para promoção política e econômica.



Maggi de pés alados - Foto: Marcelo Pereira/Terra

Cielo dos Cielos - Foto: Getty Images

Não quero aqui desmerecer o trabalho, o esforço, a dedicação de todos esses atletas brasileiros, antes desejo externar que a expectativa criada em torno deles é desmesurada se observadas as reais condições de suas habilidades no concerto mundial dos esportes. Digo que parte da mídia, mormente a Vênus prateada, é campeã em “vender” certa possibilidade de desempenho que não corresponde à realidade concreta. Digo que certos atletas, mesmo com condições de desempenhar bom papel, não são formados dentro de uma cultura vencedora. Digo que a cartolagem e os governantes não estão preocupados com o esporte de base. E diante disso, no Brasil, não somos regidos por Niké, mas por Týche.

As Bucólicas de Virgílio

“Phyllidis hic idem teneraeque Amaryllidis ignes
bucolicis iuvenis luserat ante modis.”

“Aquele mesmo, ainda rapaz, cantara os ardores de Fílis
e da tenra Amarílis, em versos bucólicos.”
Ovídio, Tristia 2, 537-8




Por Paulo Martins
Nas aulas de Literatura muitas vezes o professor, ao falar acerca do Arcadismo, propõe como uma das características desse estilo de época “o bucolismo” (boukólikos em grego significa algo relativo a bóus – boi), associado a duas expressões latinas: locus amoenus (lugar aprazível) e fugere urbem (fugir da cidade). Assim a poesia árcade, cuja essencialidade está centrada na retomada de valores “estético-literários” da Antigüidade Clássica greco-romana, torna-se mais clara e óbvia para os leitores contemporâneos pelo simples motivo de revelar certos preceitos nomeados numa língua extinta, o latim.

Contudo, a simples citação dessas características soa como receita ou etiqueta vazia de conteúdo, porquanto estão absolutamente descontextualizadas de sua origem: o mundo antigo greco-latino. Em que se pese aqui o seu caráter romântico, isto também pode ser observado na música erudita, se observamos a 6ª Sinfonia de Beethoven, A Pastoral (1808), pois temos uma divisão assim proposta: “Despertar de sentimentos alegres diante da chegada ao campo” (1º Movimento), “Cena à beira de um regato” (2º Movimento), “Dança campestre” (3º Movimento), “A tempestade” (4º Movimento) e “Hino de ação de graças dos pastores, após a tempestade” (5º Movimento). Notemos que o compositor nada mais fez do que relacionar os conceitos literários antigos (locus amoenus/fugere urbem) à vida pastoral.


Beethoven por Karl Joseph Stieler - 1820

Tais referências, entretanto, não são uma exclusividade desse professor de Literatura/Música, antes assolam também descontextualizadas e, talvez, com maior freqüência, ao professor de História quando trata desse mesmo período (o século XVIII), propondo culturalmente a relevância das Academias que surgem nesse período, ou ainda, quando observa a Inconfidência Mineira e fala do lema dos inconfidentes: libertas quae sera tamen (liberdade ainda que tardia).

Certamente, a vida seria mais simples aos professores de Literatura e de História se mostrassem que o século XVIII, antes de ser devedor do Mundo Clássico Antigo como um todo (e vale dizer que esse espectro temporal é vastíssimo, pois vai, pelo menos, do século IX a.C. ao século V d.C.) é, sim, calcado fundamentalmente em uma obra do mundo latino: As Bucólicas de Virgílio - autor d’A Eneida (Discutindo Literatura, 7 – março de 2006) e d’As Geórgicas. Essa obra se constitui como marco diferenciado da Antigüidade, pois que poucos foram os autores que se dedicaram a esse gênero específico. Nesse sentido, daquilo que nos restou do mundo antigo temos cronologicamente: Teócrito de Siracusa (310 – 250 a.C.), Virgílio (70 -19 a.C.) e Calpúrnio Sículo (século I d.C.). Entretanto a despeito da exigüidade de textos, o gênero “bucólico”, metonímica e tematicamente, tornou-se referência da “simplicidade” na literatura naquilo que ela se opõe à grandiloqüência.

As Bucólicas são compostas de dez poemas, escritos em hexâmetros, curiosamente o mesmo verso da poesia épica (seja de Homero, seja do próprio Virgílio). Digo que isso é curioso porque se o gênero bucólico é “humilde” (genus humile), formalmente, deveria se esperar um tipo de verso distinto daquele da elevação épica (genus altum).

Por seu turno, cada uma das bucólicas recebe o nome de écloga ou idílio (do grego eidón/imagem, eidýllion é um pequeno quadro) e tais termos referem-se basicamente à brevidade das cenas por eles descritas, assim As Bucólicas são, antes de tudo, o registro de pequenos quadros cujo motivo primeiro é a vida simples dos campesinos, dos pastores e pastoras em seu ambiente natural. Daí o próprio Beethoven ter chamado a atenção para o fato de ser sua sinfonia uma pintura, uma fantasia sobre a qual a audiência deveria imaginar cenas como que se a música pintasse um quadro.

Sob o aspecto da forma, os dez poemas, cuja extensão varia de 63a 110 versos, são marcados por uma regularidade estrutural diferenciada, isto é, os poemas ímpares são dialógicos, enquanto os pares são monólogos. Os diálogos são levados a termo por pastores de nomes gregos, propostos intertextualmente numa referência a Teócrito de Siracusa, e assim temos: Títiro e Melibeu (1ª écloga), Menalcas e Dametas (3ª écloga), Menalcas e Mopso (5ª écloga), Melibeu e Córidon (7ª écloga) e Lícidas e Méris (9ª écloga). A citação de Teócrito fica mais explicita quando na 4ª écloga, Virgílio propõe: “Ó Musas da Sicília, erga-se um pouco o nosso tom//nem todos prezam o arvoredo e os baixos tamarizes; //cantamos selvas; selvas sejam, pois, dignas de um cônsul” (Trad.: Péricles Eugênio da Silva Ramos). Vale lembrar que Siracusa é uma cidade da Sicília.

Do ponto de vista da elaboração da obra, um dos primeiros comentadores de Virgílio, Mauro Sérvio Honorato no século IV, assevera: “Sua principal qualidade, por seu turno, é, naturalmente o caráter humilde. De fato, dos três caracteres existentes: humilde, médio e grandiloqüente - encontramos todos eles no poeta. Porque, na Eneida, há o grandiloqüente; nas Geórgicas, o médio; e nas Bucólicas, o humilde conforme a qualidade dos temas e das personagens, pois, nesta obra elas são rústicas e estão satisfeitas com a simplicidade e às quais nada de elevado deve ser exigido.” (Trad.: Paulo Martins) São também antigos os comentários sobre a motivação de Virgílio para escrever As Bucólicas, Hélio Donato (século IV) diz que o poeta primeiro trata dos campos in natura (Bucólicas), depois do seu manejo (Geórgicas) e mais tarde dos feitos humanos na terra (Eneida). Tal ordem segundo ele vai de encontro ao interesse do poeta: “ele cantou primeiro os pastores; depois, os agricultores e, por último, os guerreiros”.

A natureza, em seu estado não-latente, portanto óbvio, e a vida que ela proporciona é o leitmotiv da obra. Melibeu na 1ª écloga diz: “Ó Títiro, deitado à sombra de uma vasta faia,//aplicas-te à silvestre musa com uma frauta leve;//nós o solo da pátria e os doces campos nós deixamos;//nós a pátria fugimos (patriam fugimus); tu, na sombra vagaroso,// fazes a selva ecoar o nome de Amarílis bela.” (Trad.: P. E. da S. R.) O que temos nesses primeiros cinco versos no diálogo entre Melibeu e Títiro é o programa da obra: Primeiro, o pastor despreocupado deitado sob uma vasta árvore. Segundo, sua aplicação na flauta suave, leve, logo, humilde. Terceiro, o abandono do campo. Assim, o lugar-comum do fugere urbem é apresentado pelo avesso. Por último, além da função de produzir, Títiro ocupa-se em louvar Amarílis, produzindo uma relação entre a vida campestre e a amorosa, que tão bem foi emulada por Tomás Antônio Gonzaga em Marília de Dirceu. Vale observar aqui o anagrama quase perfeito: Amarílis/Marília.

Já o lema, que está ainda hoje presente na bandeira de Minas Gerais, foi deslocado e descontextualizado, uma vez que na origem, isto é, na 1ª écloga, assim aparece: “A liberdade que me viu ocioso, tarde embora,//quando, ao fazer a barba, esta caía já mais branca”. Assim os Inconfidentes deslocaram apenas parte do verso 27 para um contexto essencialmente político que não havia no texto virgiliano, além de romper com a estrutura sintática do período, soando sem nexo para aqueles que conhecem a língua latina.

Entretanto a écloga mais famosa entre as dez é indubitavelmente a 4ª. A tradição a chama de “Pólio”, nome daquele a quem Virgílio dirige os versos. Essa, que por muito tempo associou-se ao nascimento do cristianismo por tratar de um novo tempo, uma nova idade de ouro trazida pelas mãos de um menino, tem, sim, função política e não religiosa, celebrando a paz de Brundísio entre os discordes do 2º triunvirato (Marco Antônio e Otávio). Virgílio dessa forma vaza o poema com temas elevados, portanto distantes do gênero humilde, conforme as regras estabelecidas para os Idílios, entretanto são magistrais seus versos finais:

Já logo será tempo, marcha para as grandes honras,
Cara prole dos deuses, grande filho, tu, de Júpiter!
Vê como estão de acordo o mundo de pesada abóboda
E as terras todas, e a extensão do mar, e o céu profundo!
Vê como, com os séculos por vir, tudo se alegra.
A última parte desta vida seja-me tão longa,
Que para te dizer os feitos não me falte o alento!
O trácio Orfeu não poderá vencer-me nestes cantos,
Nem Lino, ainda que a Orfeu a mãe Calíope socorra
E por seu turno a Lino dê assistência o belo Apolo.
Se competir comigo o próprio Pã, por juiz a Arcádia,
Dar-se-á por vencido o próprio Pã, por juiz a Arcádia.
Começa, criança, a conhecer a própria mãe com teu sorriso;
Dez meses retiveram tua mãe em longo enfado.
Começa, criança: aquele que não ri à própria mãe
A mesa não terá de um deus, o leito de uma deusa.”

(trad.: P.E. da S. Ramos)

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Pós-graduação em Letras Clássicas - USP

Serão abertas incrições para Pós-graduação em Letras Clássicas - USP/FFLCH a partir de 18/08/2008.

Confira o Edital: http://www.fflch.usp.br/pos/editais/LetrasClassicaOK.htm