Espaço dedicado às letras e às artes, especialmente e não exclusivamente do mundo greco-romano antigo. Paulo Martins - IAC/PPGLC/USP
quarta-feira, 10 de setembro de 2008
segunda-feira, 8 de setembro de 2008
Uma diferença obsessiva
O verbo obcecar é do latim obcaeco ou occaeco, e assim sua origem é: o prefixo ob- (prep. ou prev.), cujo significado percorre largo espectro semântico que vai da idéia de posição, como em diante de, em frente de; passando por causa e conseqüência, como em por causa de ou em conseqüência de; chegando à idéia de oposição como, por exemplo, em contra. E, a base da palavra, seu radical, caecus, cujo significado inicial é cego, e também pode ter um significado objetivo como invisível, obscuro, tenebroso, oculto, obscurecido de espírito e, portanto, incerto e duvidoso. Assim o verbo em latim tem uma significação precisa em seu sentido literal: cegar, tornar cego, impedir de ver (física e moralmente). Em seu sentido figurado, por seu turno, quer dizer: tornar obscuro, ininteligível, escurecer e, por fim, curiosamente, cobrir e encobrir, paralisar ou privar de movimentos.
Esse mesmo verbo em nossa língua é menos usado em seu sentido físico, apesar de os dicionários o atestarem em primeira acepção, isto é, cegar ou tornar cego. Não é de outra forma que a professora Maria Helena Moura Neves o descreve em seu Guia de Uso do Português (2003). Assim, seu uso mais comum parece-me de matiz menos fisiológico e mais anímico: privar do discernimento, deslumbrar, ofuscar, perturbar e, daí, fazer perder a razão, desvairar, alucinar e, conseqüentemente, fazer incorrer em erro por absoluta falta de “lucidez do espírito”, com o perdão do trocadilho.
Lendo Florbela Espanca (1895-1930), poeta portuguesa, atentei que o obcecar e a obcecação, a despeito de não aparecerem explicitamente, surgem traduzidos em um de seus poemas, o soneto “Fanatismo” de 1923: “Minh’alma de sonhar-te, anda perdida/ Meus olhos andam cegos de te ver!/Não és sequer a razão do meu viver,/ Pois que tu és já toda minha vida!// Não vejo nada assim enlouquecida.../ Passo no mundo, meu amor, a ler/ No misterioso livro do teu ser/ A mesma história tantas vezes lida!// ‘Tudo no mundo é frágil, tudo passa...’/ Quando me dizem isto, toda a graça/ Duma boca divina fala em mim!// E, olhos postos em ti, digo de rastros: / ‘Ah! Podem voar mundos, morrer astros,/ Que tu és como Deus: Princípio e Fim!...’. Parece-me que o fanatismo descrito no poema, não é outra coisa senão algo como uma obcecação, nascida do ato de obcecar, afinal “meus olhos andam cegos de te ver” e “Não vejo nada assim enlouquecida”.
Por outro lado, o substantivo obsessão, cuja raiz latina é obsessio, possui o prefixo ob- exatamente igual ao de obcecar, contudo sua base é outra: sessio é do verbo sido ou sideo e obsido ou obsideo significam atacar, invadir, sitiar, ocupar, já obsessio, ação de sitiar, cerco, bloqueio. Vale salientar que a dupla etimologia, em obsido ou em obsideo, produz uma pequena diferença, já que o segundo termo significa primeiramente estar sentado ou estar instalado e, em sua última acepção, apresenta a possibilidade figurada de apoderar-se de e dominar. Fato esse que não ocorre com obsido. Daí, me parece ser a segunda possibilidade mais provável e não a primeira. Vale dizer que os maiores etimologistas da Língua Latina, A. Ernout e A. Meillet, em seu Dictionnaire Étymologique de La Langue Latine, não abonam esta discussão.
A questão em Português é interessante, pois que não há registro do termo obsessão na acepção latina física, ou seja, a ação de sitiar. Antes, apenas o senso figurado de obsideo nos chegou por viés diferenciado, por assim dizer, esdrúxulo. Nesse sentido, a obsessão significa: 1) suposta apresentação repetida do demônio ao espírito, 2) apego exagerado a um sentimento ou a uma idéia desarrazoada, 3) motivação irresistível para realizar um ato irracional; 4) compulsão, ação de molestar com pedidos insistentes; impertinência, perseguição, vexação. Seu adjetivo, por sua vez, ganha contornos patológicos e, assim, aquilo que é relativo à ou próprio da obsessão, se aplicado ao humano, esse granjeia uma neurose e passa a ser um obsessivo-compulsivo.
Destarte, temos a explicação absolutamente razoável da confusão entre o obcecar e a obsessão, já que o campo semântico dos termos pode interagir numa intersecção entre eles. Isto é, se tomarmos, o sentido de obcecar como privação da visão racional sobre as coisas, ou, simplesmente, sermos tomados por uma obcecação, é possível que estejamos a um passo de uma obsessão, tornando-nos obsessivo-compulsivos.
Por outro lado, a obsessão pode, ao invés de caracterizar certa patologia anímica, pode ser fruto de certo sentimento a que os mais sensíveis, creio, chamam amor ou paixão. Como aquele que privava Bentinho de bom senso diante dos olhos de ressaca de Capitu. De forma inovadora na história do Romance Moderno, os olhos de Capitu deixam de ser reflexos da alma, e, portanto, passivos, para provocar, e daí, ativos, a cegueira anímica e a privação da razão do narrador, Bentinho. Nesse sentido é melhor deixar que esses, os sensíveis, nos falem:
quarta-feira, 3 de setembro de 2008
Reeditada A Ilíada por Odorico Mendes
Título: IlíadaAutor: Homero
ISBN: 978-85-7480-393-7
Resumo: Matriz literária do Ocidente, a Ilíada de Homero é o mais antigo texto escrito nos limites do Sol-Poente que chegou até nós e, decorridos vinte e nove séculos, continua mais fresco que o jornal que vai sair amanhã. Registrados no então recém-criado alfabeto grego, no oitavo século antes de Cristo, numa Grécia ainda arcaica, porém remontando a uma tradição oral que extrapolava ao infinito este limite e este tempo, os dezesseis mil versos da Ilíada, nas palavras de Haroldo de Campos, nunca decaem, oscilam entre o Pico das Agulhas Negras e o Everest. Tal monumento literário mereceu em todas as línguas modernas ocidentais o esforço dos mais insignes tradutores. O português teve a fortuna de ter do brasileiro Manuel Odorico Mendes (1799-1864), seu mais bem-acabado humanista, segundo José Veríssimo, a primeira tradução completa, vertida diretamente do original grego para a nossa língua, culminando num original português da Ilíada. Outras boas versões vieram, novas virão, oxalá sobejem, explorando e expondo a riqueza e possibilidades oferecidas pelos originais homéricos, mas dificilmente alguma, ou por razões artísticas ou por razões históricas, poderá abalançar-se a este patrimônio cultural dos países de língua portuguesa. A Ilíada de Odorico Mendes sempre representará um tesouro a quem a possua, em que pese as dificuldades apresentadas pelo texto. Restringir essas dificuldades aos últimos limites de nossa competência, entregando o leitor às delícias do poema, mais que traduzido, transgrecizado, foi o firme propósito desta edição, que traz, a cada verso, uma nota espelhada ao texto.
Sálvio Nienkötter
Medidas: 16 x 23 cm
Páginas: 912
Edição: 1ª
Ano: 2008
Encadernação: Capa dura
R$ 88,00
terça-feira, 2 de setembro de 2008
Conferências do Programa de Pós-graduação em Letras Clássicas - USP
Dia 8 de setembro:
9:00-10:00h - Sala 266 - Prédio de Letras
"Entre philosophie, rhétorique et poétique: le sens de silva chez les penseurs latins"
Prof. Dr. Carlos Lévy (Sorbonne/Université de Paris IV)
10:30 -11:30h - Sala 266 - Prédio de Letras
"De l'esthétique alexandrine dans les Bucoliques de Virgile"
Profa. Dra. Hélène Casanova-Robin (Sorbonne/Université de Paris IV)
Dia 10 de setembro:
15:00 - 16:00h - Sala 266 - Prédio de Letras
"Le concept de venustas dans la pensée cicéronienne"
Prof. Dr. Carlos Lévy
16:30-17:30h
"Le langage du corps dans les Héroïdes d'Ovide: un mode de représentation de la passion"
Profa. Dra. Hélène Casanova-Robin
Palalestra de Francis Wolf
"Les fonctions ontologiques des catégoriques aristotéliciennes"
Seminário de Filosofia Antiga
Coordenação: Prof. Marco Antonio de Avila Zingano
Terça‐feira, 09 de Setembro de 2008
09h‐12h
15h‐18h
Local:
Sala 111
Conjunto didático de Filosofia e Ciências Sociais
Av. Prof. Luciano Gualberto, 315
Cidade Universitária - SP
Projeto temático - A filosofia de Aristóteles
sexta-feira, 29 de agosto de 2008
20.000
que o Blog Letras & Artes chegou
à marca de 20.000
acessos, às 18:36h do
dia 29 de agosto de 2008,
a contar de 08/06/2007.
Marco Aurélio: Nova Descoberta Arqueológica na Turquia
Arqueólogos desenterraram na Turquia partes de uma estátua gigante do imperador romano Marco Aurélio.
Os especialistas encontraram a cabeça, o braço direito e partes inferiores das pernas da estátua em um sítio arqueológico na antiga cidade de Sagalassos, no sudoeste do país.
Foi no mesmo local que a equipe liderada pelo arqueólogo Marc Waelkens, da Universidade Católica de Leuven, na Bélgica, encontrou, há pouco mais de duas semanas, a cabeça de uma estátua da imperatriz Faustina, a Velha.
No ano passado, os arqueólogos já haviam encontrado em Sagalassos uma estátua gigante do imperado Adriano.
Os pesquisadores acreditam que o local onde as estátuas estavam reunidas era provavelmente um frigidário, uma sala enorme com uma piscina de água fria, onde romanos se banhavam após mergulhar nas termas.
O sítio arqueológico faz parte de um complexo de termas romanas que está sendo cuidadosamente escavado pelos especialistas há 12 anos. O local teria sido atingido por um terremoto entre os anos 540 e 620 d.C., destruindo muitas estátuas.
Os fragmentos da estátua de Marco Aurélio começaram a ser desenterrados no dia 20 de agosto, quando os arqueólogos encontraram um par de pernas quebradas na altura do joelho. Em seguida, acharam um braço direito com 1,5 metro de comprimento, cuja mão segurava um globo terrestre.
Mas foi ao encontrar a enorme cabeça de mármore que os pesquisadores identificaram a estátua como sendo de Marco Aurélio.
Marc Waelkens disse que a peça é uma das reproduções mais fiéis do imperador, que reinou do ano 161 d.C a 180d.C.
Marco Aurélio é lembrado por suas escrituras e já chegou a ser considerado mais como "um filósofo do que um soldado".
Mas apesar de sua paixão por filosofia, ele passou boa parte de seu reinado lutando contra tribos germânicas ao longo do rio Danúbio, na Áustria, onde morreu em 180 d.C.
Em 2000, o ator Richard Harris fez o papel de Marco Aurélio no filme O Gladiador.
Junto com Nerva, Trajano, Adriano e Antonio Pio, Marco Aurélio foi um dos "Cinco Bons Imperadores" de Roma.
Em geral, as administrações desses imperadores foi marcada por relativa paz e prosperidade política, militar e econômica.
quarta-feira, 20 de agosto de 2008
Hora e Vez do Choro Olímpico
Píndaro
Os Jogos são a dimensão humana dos deuses. Neles, nos jogos, os homens sonham atingir os limites humanos e, se possível, superá-los, emulando com próprios deuses. Esses, sim, capazes de realizar tarefas inimagináveis. “Mais alto, mais forte e mais rápido” (altius, fortius, citius), lema olímpico, cunhado por Henri Martin já na modernidade, impõe aos atletas olímpicos uma responsabilidade superlativa.
A atual medalha olímpica comporta a deusa Vitória, em grego Niké – note-se o acento agudo no “e”, o que a distancia da “marca”, para não dizer, do real símbolo moderno dos Jogos. Ela, a Vitória, em sua representação antiga e mais comum era conduzida por Palas Atena, a deusa da sabedoria, da guerra, do discernimento... Sua antípoda era Týche, divindade do Acaso, do Inelutável, daquilo que não depende de nós e apenas, da espera, da possibilidade ... do “quem sabe?”. Ela portava uma cornucópia e um timão que simbolizavam ao mesmo tempo, a fartura e a condução da vida humana, respectivamente. Não por acaso tinha seus olhos vendados, pois seus desígnios eram distribuídos aleatoriamente.

Niké de Éfeso
Assistindo, como boa parte dos brasileiros, aos Jogos Olímpicos de Pequim e ao seu final, notei que o Brasil não é profícuo em atletas regidos pela deusa parceira da sabedoria, antes são norteados pelas benesses de Týche. Foi assim com Jade, Hypolito, Murer, Derly e Larissa. Assim também, com o basquete feminino que joga só bem, mas não vence, com o Vai Thiago, que só vai no Brasil, com o handball, com o salto triplo de Jardel, com a calamidade institucional do boxe olímpico e do levantamento de peso. Não me venham dizer que estar nas quartas ou oitavas de final é bom ou que o que interessa é competir..., pois, ao atleta, que é considerado "de alto rendimento", o que realmente vale é o pódio.

A triste queda de Hypolito - Foto de Marcelo Pereira/Terra
Mas por que somos regidos pelo Acaso, por Týche? A resposta é imediata. Não há sabedoria esportiva no Brasil. De um lado, para sermos vencedores e, portanto, ligados a Niké, necessitamos de atitude de vencedores e essa não nasce conosco, ela deve ser cultivada e cultuada e, para isso, os exemplos se avolumam a cada Olimpíada, basta olharmos para Phelps, para Bolt, para Cielo... De outro, precisamos de gestores esportivos que realmente desejem que os atletas sejam vencedores e não eles mesmos, os ganhadores. Necessitamos de uma política de esporte e não de políticos no esporte. Não precisamos de Nuzmans, de Orlandos, de Teixeiras, aliás, não lhes queremos. Do que precisamos e o que queremos? Escolas públicas de ensino fundamental e médio que garantam a prática sistemática do esporte. Espaços públicos dedicados a ele e para todos que o desejem.
Týche
Jade: duas quedas - Foto: Marcelo Pereira/Terra
Note-se que em alguns esportes isso já acontece. Não há como negar que nossa tendência à Vitória no vôlei masculino e feminino (indoor ou areia) e, a partir dessa Olimpíada, no Cielo que não é do Brasil, é dos Cielo, no futebol feminino que contra todos (con)vence, no Scheidt, o amigo dos ventos, na Maggi, de pés alados, e de outros poucos que aprenderam a ser devotos da deusa que interessa e dar pouca atenção àqueles que querem usar seus feitos para promoção política e econômica.

Maggi de pés alados - Foto: Marcelo Pereira/Terra
Cielo dos Cielos - Foto: Getty Images
Não quero aqui desmerecer o trabalho, o esforço, a dedicação de todos esses atletas brasileiros, antes desejo externar que a expectativa criada em torno deles é desmesurada se observadas as reais condições de suas habilidades no concerto mundial dos esportes. Digo que parte da mídia, mormente a Vênus prateada, é campeã em “vender” certa possibilidade de desempenho que não corresponde à realidade concreta. Digo que certos atletas, mesmo com condições de desempenhar bom papel, não são formados dentro de uma cultura vencedora. Digo que a cartolagem e os governantes não estão preocupados com o esporte de base. E diante disso, no Brasil, não somos regidos por Niké, mas por Týche.
As Bucólicas de Virgílio
bucolicis iuvenis luserat ante modis.”
“Aquele mesmo, ainda rapaz, cantara os ardores de Fílis
e da tenra Amarílis, em versos bucólicos.”
Ovídio, Tristia 2, 537-8
Beethoven por Karl Joseph Stieler - 1820
Tais referências, entretanto, não são uma exclusividade desse professor de Literatura/Música, antes assolam também descontextualizadas e, talvez, com maior freqüência, ao professor de História quando trata desse mesmo período (o século XVIII), propondo culturalmente a relevância das Academias que surgem nesse período, ou ainda, quando observa a Inconfidência Mineira e fala do lema dos inconfidentes: libertas quae sera tamen (liberdade ainda que tardia).
Cara prole dos deuses, grande filho, tu, de Júpiter!
Vê como estão de acordo o mundo de pesada abóboda
E as terras todas, e a extensão do mar, e o céu profundo!
Vê como, com os séculos por vir, tudo se alegra.
A última parte desta vida seja-me tão longa,
Que para te dizer os feitos não me falte o alento!
O trácio Orfeu não poderá vencer-me nestes cantos,
Nem Lino, ainda que a Orfeu a mãe Calíope socorra
E por seu turno a Lino dê assistência o belo Apolo.
Se competir comigo o próprio Pã, por juiz a Arcádia,
Dar-se-á por vencido o próprio Pã, por juiz a Arcádia.
Começa, criança, a conhecer a própria mãe com teu sorriso;
Dez meses retiveram tua mãe em longo enfado.
Começa, criança: aquele que não ri à própria mãe
A mesa não terá de um deus, o leito de uma deusa.”
terça-feira, 12 de agosto de 2008
Pós-graduação em Letras Clássicas - USP
Confira o Edital: http://www.fflch.usp.br/pos/editais/LetrasClassicaOK.htm


