Espaço dedicado às letras e às artes, especialmente e não exclusivamente do mundo greco-romano antigo. Paulo Martins - IAC/PPGLC/USP
sexta-feira, 6 de junho de 2008
Vt Pictura Poesis II
Por outro lado, o atento crítico literário pode também vislumbrar em sua exegese os contornos de um texto, os comparando com uma técnica pictórica. Não é de outra maneira, por exemplo, que Haroldo de Campos em sua introdução às Memórias Sentimentais de João Miramar de Oswald de Andrade nos informa: "É bem possível que a influencia primordial na prosa de Oswald – um visual por excelência – seja ainda, para além da assimilação da teoria e da prática futurista, a transposição imediata de suas descobertas pictóricas nas exposições de Paris Como explicar, de outra forma, o cubo-futurismo de tantos trechos do Miramar”.
Destarte, pode-se afirmar que a pintura não só auxilia na qualificação de um determinado texto pelo crítico, mas, também, pode engendrar uma escritura, com a aplicação de suas técnicas específicas pelo autor. Assim a relação entre a pintura e o texto está determinada por uma "dupla-mão", uma que nasce da observação da pintura pelo crítico que a aplica em sua análise Literária e outra que vem da observação da pintura pelo autor e que o leva a transformá-la em texto.
Seria uma tolice, por outro lado, se pensar que essa indene ligação fosse um fenômeno da belle époque, ou de um modernismo radical naquele texto representado tanto pela critica de HC como pelo citado romance de Oswald de Andrade, como poderia inferir o leitor mais incauto.
A especulação acerca dessa complementaridade ou homologia, pintura-textos, remonta à época de Semônides na Grécia arcaica e percorreu toda Antigüidade Clássica, estando em todos os tempos presente nas palavras dos poetas e dos retores nas preceptivas.
Um bom exemplo clássico da operação com o retrato literário é a obra historiográfica de Salústio, A Conjuração de Catilina, pois lá se observam pelo menos quatro imagens que seguem a proposta retórica da enargia. Entretanto, seria impossível expor tais visões do retrato em Salústio, sem antes, se fazer uma breve exposição do quadro geral da preceptiva retórica, pois que esclarecesse principalmente as questões concernentes ao gênero e sua respectiva invenção.
Como foi dito, daquilo que se pode chamar retrato, qual seja, uma descrição precisa dos caracteres físicos, morais e éticos de uma personagem, nas monografias de Salústio, pode-se encontrar pelo menos quatro significativos: O retrato de Catilina, o de Semprônia, esposa de D. Júnio Bruto, e o de Júlio César e de Catão de Útica.
Tais descrições, retoricamente, se enquadram, quanto ao gênero do discurso, no epidítico, pois, como transmite a norma aristotélica, esse gênero é aquele que sempre trabalha uma situação pressuposta como res certa no presente, atribuindo-lhe vitupérios ou elogios. Esse ato de se encontrar pensamentos (res) adequados (aptum) conforme o interesse do partido representado dá-se o nome de inuentio. Tais pensamentos, porém, devem ser entendidos como instrumentos intelectuais e afetivos que se concretizam pelas palavras para que se obtenha êxito na argumentação.
Assim, Salústio, seguindo a preceptiva do gênero demonstrativo, atribuiu às personagens vitupérios ou elogios quando tais categorias se lhe pareciam oportunas dentro da propositura de monografia. A Retórica a Herênio nos informa a respeito de tal procedimento, ao propor a invenção nesse genus: "Quoniam haec causa diuitur in laudem et uituperationem, quibus ex rebus laudem constituerimus, ex contrariis rebus erit uituperatio comparata. Laus igitur esse rerum externarum, corporis, animi. Rerum externarum sunt ea. quae casu aut fortuna secunda aut aduersa accidere possunt: genus, educatio, diuitiae, potestates, gloriae, ciuitas, amicitia, et quae huiusmodi sunt et qua his contraria. Corporis sunt.ea quae natura corpori attribuit commoda aut incommoda: uelocitas, uires, dignitas, ualetudo, et quae contraria sunt. Animi sunt ea. quae consilio et cogitatione nostra constant: prudentia, iustitia, fortitudo, modestia, et quae contraria sunt."
Convém lembrar que a crítica de estudos clássicos, em sua maior parte, afirma que tais retratos primam pela riqueza dos caracteres psicológicos pintados pelo autor, contudo, parece que tal afirmação soa um tanto anacrônica uma vez que as categorias psicológicas, ao tempo de Salústio, ainda não haviam sido formuladas, ou seja, a psicologia, a época de César, não existia, enquanto disciplina capaz de fornecer algum subsidio de análise. Desse modo, seria mais conveniente dizer que a riqueza de tal procedimento retórico, na verdade, está no estabelecimento do "éthos" das personagens e não de sua "psique", freudianamente falando.
Quintiliano, por sua vez, nos esclarece que as qualidades que devem ser louvadas ou vituperadas no discurso demonstrativo são as do espirito, do corpo e as dos bens da fortuna, sendo que as últimas, em todos os casos, são as menos importantes. Quanto as qualidades do espírito, afirma que são sempre verdadeiras e o orador, ao tratá-las, deve seguir uma cronologia partindo, inicialmente, da tenra infância, falando da índole e mais tarde, as aplicações dessa naquilo que o elogiado faz ou obra, naquilo que diz ou pensa, exaltando, então, as virtudes da temperança, da justiça e da fortaleza e suas ações correspondentes.
Das ações que se devem exaltar, Quintiliano propõe: atos que o homem faz por si, naqueles em que foi o primeiro, em que houve poucos que o seguissem, aqueles que excederam a esperança, os que foram imprevistos e, por fim, os que foram em utilidade dos outros do que em utilidade própria. Isso que os retores latinos estabelecem como decoroso acerca da invenção no gênero epidítico, Salústio segue. A Retórica a Herênio indica que são três as categorias, como foi visto, que o orador deve tratar em seu discurso aquilo que é relativo à alma, ao corpo e às coisas externas.
Salústio inicia o retrato de Catilina: nobre quanto ao nascimento (coisas externas), forsa de alma (alma) e, por fim, força de corpo (corpo). Por outro lado, Quintiliano esclarece: "quodque ante eos fuit quoque ipsi uixerunt qui fat;o sunt functi etiam quod est insectum." Por sua vez, o pintor afirma quanto ao protagonista da Conjuração: "Huic ab aduiescentia bella intestina, caedes, rapinae, discordia ciuile grat;a fuere, ibique iuuentutem suam exercitauit."
Poder-se-ia pensar que o historiador, por construir o discurso do retrato, epidítico por excelência, sob o viés do vitupério, poderia, pois, estar construindo uma sátira uma vez que tal gênero ''literário'', muita vez, adere a esse procedimento, estabelecendo assim uma crítica moral, ética ou mesmo, religiosa.
Um prefácio de um estudo sobre a sátira barroca daquele a quern chamamos Gregório de Matos Guerra, adverte que: "São cinco as divisões do livro, da retórica as partes são cinco. Cuida o livro da Sátira, logo, do vitupério." Tal comentário de Leon Kossovich para o livro de J. A. Hansen poderia engendrar um pensamento, qual seja, de que tudo quanto vitupério fosse, retoricamente, sátira seria. Isso não é verdadeiro, pelo menos, no discurso demonstrativo de Salústio. Os vitupérios são cortantes e indicam um éthos negativo no que concerne à imagem ética do protagonista que atinge aquilo que Quintiliano propugna como mais verdadeiro; contudo, o autor não poupa elogios relativos ao corpo e às coisas externas, essa última, segundo a norma, a menos importante das "res" a serem louvadas.
Catilina, apesar de vituperado, vítima de um invectivador, certamente menos mordaz que Cícero, também não escapa dos inúmeros elogios de Salústio: sua origem patrícia, sua força de alma e de corpo, capaz de suportar fome, frio e insônia e, por último, muito eloqüente. Então, apesar dos vitupérios, em quantidade e qualidade, superarem aos elogios, esses, ainda assim não são poucos tal desenho poderia determinar uma certa imparcialidade de Salústio no que tange a figura histórica de Catilina, porém, o pincelar nebuloso do retrato erigido torna pouco determinável a intenção do autor.
terça-feira, 3 de junho de 2008
1 ano na rede - Letras & Artes - Mais um balanço
No dia 8 de junho de 2008, fará 1 ano que o Blog Letras & Artes está no ar. Nesse ano de atividades, tivemos 13.458 visitas (até dia 3 de junho de 2008) com 58 postagens. A partir do dia 26 de dezembro de 2007, foi também possível contabilizar geograficamente 6393 visitas:
794 cidades diferentes
86,63% - Brasil
10,19% - Portugal
3,18% - Outros Países
Entre as cidades que mais acessaram o blog temos:
No Brasil:
São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Curitiba, Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife, Salvador, Fortaleza, Campinas, Goiania, Florianópolis, Vitória e Niterói
Em Portugal:
Lisboa, Porto, Coimbra, Amadora, Funchal, Barreiro, Alvaro, Braga, Odivelas, Aveiro.
Entre os países à exceção do Brasil (5526) e de Portugal (650), temos em ordem decrescente de visitas os seguintes números:
- Estados Unidos (82),
- Itália (19),
- Espanha (18),
- França (11),
- Moçambique (11),
- Alemanha (10),
- Grã-Bretanha (7),
- Suiça (5),
- Argentina (5),
- México (4),
- Bélgica (4),
- Canadá (4),
- Japão (3),
- Comunidade Européia (3),
- Cabo Verde (3),
- Chile (3),
- Peru (2),
- Porto Rico (2),
- Rússia (2),
- Quênia (1),
- Holanda (1),
- Romênia (1),
- Guatemala (1),
- Israel (1),
- Polônia (1),
- Suécia (1),
- Bangladeche (1),
- El Salvador (1),
- Índia (1),
- Luxemburgo (1),
- Bolívia (1),
- Croácia (1),
- Coréia (1),
- Tailândia (1),
- República Tcheca (1),
- Grécia (1),
- Emirados Árabes (1)
domingo, 1 de junho de 2008
Palavra Peregrina
Paulo Martins
Desde muito tempo, pessoas ligadas às letras e à história debruçam-se sobre a questão do barroco. Estilo? Concepção artística? Prática letrada? Corrupção, deformidade, contrapartida, degeneração do clássico? Excesso? Tendência estética? Volúpia? Tormento? Sensualidade? Atitude, modo de governar, de agir? Referências ao termo multiplicam-se com o passar do tempo, e a etiqueta pregada ao conceito, que interessantemente é posterior ao tempo de sua prática, avoluma as possibilidades de conceituação daquela prática artística, temporalmente circunscrita aos séculos XVII e XVIII, que, em certos aspectos, se distancia do tipo de produção do renascimento e, noutros, se filia.
Ademais, Palavra Peregrina é um ótimo nome, pois associa arqueologia do conceito à peculiaridade característica de práticas artísticas (barrocas), que utilizam da construção da metáfora como marca distintiva de engenho e, ainda, salienta a idéia de percurso e desenvolvimento contínuo, fato essencial para o mundo do conhecimento.
terça-feira, 27 de maio de 2008
Platão – Sobre a poesia
domingo, 4 de maio de 2008
Homologia entre a poesia e a pintura - Algumas questões
Simônides de Céos (556-486 a.C.), poeta grego arcaico, segundo Plutarco (45-120 d.C.) teria dito:
- "a poesia é pintura que fala e a pintura a poesia muda".
- "Como a pintura, a poesia" (Vt pictura poesis)
Entre os filósofos, talvez, Aristóteles (384-322 a.C.) seja aquele que mais incisivamente perseguiu a homologia entre o discurso verbal e visual. Na Arte Poética, temos algumas passagens interessantes:
- 1448a - "Mas, como os imitadores imitam homens que praticam alguma ação, e estes, necessariamente, são indivíduos de elevada ou de baixa índole (porque a variedade dos caracteres só se encontra nestas diferenças [e, quanto a caráter, todos os homens se distinguem pelo vício ou pela virtude), necessariamente também sucederá que os poetas imitam homens melhores, piores ou iguais a nós, como o fazem os pintores: Polignoto representava os homens superiores; Páuson, inferiores; Dionísio representava-os semelhantes a nós. Ora, é claro que cada uma das imitações referidas contém estas mesmas, diferenças, e que cada uma delas há de variar, na imitação de coisas diversas, desta maneira."
ou
- 1450a - "Sem ação não poderia haver tragédia, mas poderia havê-Ia sem caracteres. As tragédias da maior parte dos modernos não têm caracteres, e, em geral, há muitos poetas desta espécie. Também, entre os pintores, assim é Zêuxis comparado com Polignoto, porque Polignoto é excelente pintor de caracteres e a pintura de Zêuxis não apresenta caráter nenhum."
ou
- 1461b - “Com efeito, na poesia é de preferir o impossível que persuade ao possível que não persuade. Talvez seja impossível existirem homens quais Zêuxis os pintou; esses porém correspondem ao melhor, e o paradigma deve ser superado. E depois, a opinião comum também justifica o irracional, além de que às vezes irracional parece o que o não é, pois verossimilmente acontecem coisas que inverossímeis parecem. Expressões aparentemente contraditórias, importa examiná-las como nas refutações dialéticas; verificar se do mesmo se trata, na mesma relação e no mesmo sentido; e analogamente, se o poeta cai em contradição com o que ele próprio diz, ou com o que, sobre o que ele diz, pensa uma mente sã.”
ou na Política:
- 1340a - "Contudo, posto que nem todas as pinturas traduzem de igual forma estes aspectos, os jovens devem evitar contemplar as de Páuson, mas não as de Polignoto assim como as dos restantes pintores ou escultores de caráter nobre.”
Já Cícero (106-46 a.C.), orador e rétor romano, no início do segundo livro de uma de suas primeiras obras, o tratado Sobre a invenção, compara o seu tratado à pintura de Zêuxis, afirmando:
- "Como escrevesse uma arte retórica, isto também aconteceu com minha intenção. Não propus um único exemplo do qual, por mim, todas as partes devessem ser extraídas, qualquer que fosse a espécie, quando parecesse que isto fosse necessário. Ao contrário, num único local, de todos escritores reunidos, tomei aquilo que cada um parecesse prescrever vantajosamente. E escolhi de vários engenhos e recolhi as melhores partes. Desses, pois, aqueles que são dignos do nome e da memória, nenhum me parecia dizer tudo de bom nem só coisas excelentes. Pelo que pareceu tolice ou afastar-me de algo bom de alguém que inventa, se por ele fui tocado no seu vício, ou, também, me aproximar do vício de quem fui conduzido por algum bom preceito."
Além da clara possibilidade de podermos aplicar os conceitos teóricos da pintura na poesia e vice-versa, algumas considerações devem ser feitas e pensadas, principalmente, a partir de Aristóteles e Cícero:
- Se, segundo o objeto da imitação, existem pintores e poetas que imitam seres superiores, inferiores e iguais a nós, como essa idéia de gêneros elevado, médio e baixo seria aplicada à pintura e à escultura? Como imaginarmos na pintura, algo análogo a um poema épico ou trágico? A uma sátira ou a um iambo? A uma ode ou a um epinício?
- O que seria uma tragédia sem caracteres (éthe - personagens) e o que seria homologamente uma pintura sem caracteres?
- Por que a pintura de Páuson deve ser evitada pelos jovens e não a de Polignoto? Deveria ser evitada, pois, a comédia e a sátira?
- Se Zêuxis pintou seres impossíveis de existir na realidade, ele praticou mimesis? Seria o fato de não existirem que determinaria que ele produzisse pinturas sem caráter, sem éthos?
- A poesia engendra, sistematicamente, as phantasiai, disposição anímica que nos faz ver na mente. A pintura de Zeuxis seria o resultado visual das phantasiai, operando o caminho inverso da poesia?
- Chamar a pintura de Zêuxis de idealizante seria um equívoco, uma vez que se é pintura deve ser fruída pela visão, não participando, pois, do mundo das idéias, e sim do sensível?
Tais questões em breve serão discutidas com mais atenção em artigo que está em fase de redação.
sexta-feira, 18 de abril de 2008
II Colóquio do Grupo de Pesquisa Estudos sobre o Teatro Antigo
Home Page: www.classica.org.br/se3/gta
28/04, segunda-feira
[8:30] Ió! Condição feminina, humana e heróica: o itinerário de Io em cena e no
mitologema. - Prof. Dr. José Antonio Alves Torrano (USP)
[10:00] O feminino em Aristófanes: uma ausência em Cavaleiros? - Profa. Dra. Ana
Maria César Pompeu (UFC)
[19:30] Paradigmas do sacrifício humano masculino em Eurípides - Wilson Alves
Ribeiro Junior (doutorando USP)
[21:00] A briga entre Mica e O Parente: uma análise sobre o feminino em As
Tesmoforiantes - Milena de Oliveira Faria (mestranda USP, bolsista CNPq)
29/04, terça-feira
[8:30] Entre monstros e heróis: o lugar do feminino n’ As Traquínias - Prof. Orlando
Luiz de Araujo (UFC, doutorando USP)
[10:00] Heracles e o feminino ameaçado: a tragédia de Mégara e Dejanira - Maria
Cristina R. S. Franciscato (doutora em Letras Clássicas/USP)
[19:30] Cenas de um casamento em Plauto - Profa. Dra. Isabella Tardin Cardoso
(UNICAMP)
[21:00] A cortesã e a sedução: estudo comparativo entre Bacchides 35-108 e
Eunuchus 81-106 - Nahim Santos Carvalho Silva (doutorando USP)
30/04, quarta-feira
[8:30] Duas cenas de travestimento na comédia de Aristófanes - Profa. Dra. Adriane
da Silva Duarte (USP)
[10:00] Sessão de comunicação: o feminino no teatro grego
O mito de Helena - Ana Carolina C. G. Neves (graduação USP, bolsista Fapesp de
Iniciação científica); O Díscolo e o feminino - Helena de Negreiros Spinelli (mestranda
USP, bolsista Fapesp)
[19:30] Sêneca: a construção psicológica das mulheres nos cantos corais de As
Troianas - Profa. Dra. Zélia L. V. de Almeida Cardoso (USP)
[21:00] Helena, Lisístrata e seus homens no cinema pós-guerra - Maria Cecília de
Miranda Nogueira Coelho (doutora em Letras Clássicas/ USP; pesquisadora PUC/SP)
Evento com apoio do Programa de Pós-Graduação em Letras Clássicas e da
Secretaria Regional SE-3 da Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos
Programa do II Colóquio do Grupo de Pesquisa Estudos sobre o
Teatro Antigo: O masculino e o feminino no Teatro Greco-latino
Imitação, emulação e poesia em Racine
Paulo Martins
Roger Bastide
Durante muito tempo, mormente no período romântico, muitos autores foram taxados de pouco originais e, até mesmo, de plagiadores por tomarem motivos das práticas letradas da Antigüidade Clássica e os colocarem a serviço de uma poética inovadora. Tal vitupério, contudo, não possuía e não possui escopo teórico algum, pois o que faziam, ao tratar o manancial poético antigo, nada mais era do que aplicar determinados conceitos retóricos antigos dentro do processo de invenção (inuentio) que, entre outras coisas, previa o reaproveitamento de temas, segundo categorias próprias à paidéia coetânea do produto pretendido.
Não foi de outra forma que críticos românticos do século XIX e XX, observaram, por exemplo, um plágio contumaz de Gregório de Matos em relação à poesia de Gôngora, ou mesmo, exigiam e exigem certa “originalidade” de poetas anteriores ao século XIX. Por sua vez, a crítica francesa romântica - e um exemplo típico é Vacquerie - não poupa Racine e propõe outros âmbitos de desqualificação: “Shakespeare est un chêne,/Racine est un pieu” (Shakespeare é um carvalho /Racine uma estaca).
Essa é também a opinião de Victor Hugo, apesar de elogiar determinados aspectos de Esther e Athalie, é enfático ao lhe recusar talento dramático. Assim, a metáfora apresentada, muito além de minimizar as qualidades de Racine, as desqualifica, propondo-as como rasteiras, limitadas, superficiais, e, fundamentalmente, estéreis, se comparadas às do carvalho Shakespeare que, via de regra, é depositário sistêmico de lugares-comuns desse mesmo manancial da Antigüidade, principalmente, se for aferido o colorido senequiano de suas tragédias e outros aspectos de circunstâncias que cercam os temas de suas obras, inseridas no contexto renascentista.
Assim como a absoluta maioria de autores do século XVII, Racine é tido pelos autores e críticos do XIX como menor, sem importância e inepto se comparado aos mestres clássicos da modernidade, dentre os quais destaca-se o autor de Júlio César. Ou seja, o século XIX leu e lê o século XVII sob a égide da deformidade, do excesso e da corrupção do XVI e, dessa maneira, seria pouco provável que um poeta desse período pudesse erigir algo novo e digno de ser reconhecido, aproveitado, ou mesmo, reaproveitado pelas gerações vindouras no âmbito da invenção poética. Além do mais, os critérios propostos para a exclusão são, absolutamente, inócuos a partir do momento em que balizam-se, romanticamente, na originalidade que Shakespeare teria, e outros como Racine não.
Tais inferências críticas, no entanto, soam hoje absolutamente anacrônicas, porquanto conceitos de originalidade e plágio não faziam parte do programa retórico-poético daqueles que propunham por deleite e utilidade (dulce et utile) a elaboração de textos a que hoje convencionou-se chamar literários. E isto, tanto na Grécia do século V a.C., na Roma do século de Augusto, como na França da corte de Luís XIV.
Racine, desta forma, não pode ser considerado, por exemplo, um pós-moderno avant la lettre, por produzir uma obra calcada em motivos e obras antigas, tampouco não criativo e original; antes deve ser observado como um produtor que sabia que, para realizar um trabalho decoroso (prépon, aptum), deveria observar normas que regiam a construção do textos. Caso não o fizesse, certamente, o seu próprio tempo o enterraria e, nós — cá distantes — não poderíamos saborear seu engenho (ingenium) e arte (ars).
A proximidade endêmica de Racine com a Antigüidade Clássica, por sua vez, pode ser aferida não só pela imitação e emulação propostas em Phèdre, Andromaque, La Thébaïde, Alexandre le Grand, Britannicus, etc., mas também e, mais precisamente, por seus escritos esparsos (Cf. Oeuvres Diverses. Gallimard, La Pléiade. 1952.), onde há cuidadosas e preciosas notas de suas leituras de Homero (A Ilíada e Odisséia); de Píndaro (Olímpicas); de Ésquilo (As Coéferas); de Sófocles (Ájax, Electra, Édipo Rei, Édipo em Colona e As Traquínias); de Eurípides (Medéia, Hipólito, As Bacantes, As Fenícias e Ifigênia em Áulis); de Platão (Banquete, Apologia de Sócrates, Fédon, Fedro, Górgias, República e As Leis); de Menandro; de Aristóteles (A poética e Ética a Nicômaco) e Plutarco. Sem falar, naturalmente, das observações feitas aos autores latinos como Horácio (Odes e Sátiras); Cícero (De Inuentione, De Oratore, Espistolae ad Atticum, Espistolae ad familiares, Tusculanas e De Divinatione) Sêneca (De Clementia, De breuitate uitae), Plínio, o velho (História Natural) e Plínio, o jovem (Cf. Knight, R.C. - Racine et la Grèce. 1974).
Este vasto legado (copia rerum e copia uerborum) erudito não poderia deixar de servir ao seu ofício. Racine é um clássico às últimas conseqüências, visceral, portanto nada lhe seria mais grato do que imitar aquilo que produziram as culturas grega e latina. Assim como foi lícito a Sêneca elaborar sua Medéia, sua Fedra, seu Édipo Rei, após, naturalmente, a manifestação de Eurípides e Sófocles; Racine se viu absolutamente autorizado pela tradição a realizar seu projeto de emulação.
No entanto, para nós, pós-românticos, a palavra imitar traz consigo um sentido pejorativo, afinal quase todos pretendem ser originais e criativos em nossa época, e isto era, sem sombra de dúvidas, um imperativo no século XIX. Contudo, para os antigos, originalidade era uma possibilidade, talvez, apenas divina, a partir do momento que a origem é tudo aquilo que nada há antes. Dessa forma, aos deuses caberia a função original, o princípio, a arché. Tudo o que segue ao princípio passa pela imitação e, nesse sentido, o conceito adquire função propedêutica e didática. Afinal, não há nada mais seguro do que afirmar que qualquer processo educativo observa a imitação. Como propõe Aristóteles na Poética, os homens imitam porque se comprazem em imitar e se deleitam no imitado (Cf. Poética, IV).
Porém, não se pode confundir imitação com cópia servil. O ato de imitar pressupõe um processo cujo fim reside na superação do imitado pelo imitador, a emulação (aemulatio, zélosis). E tal superação depende exclusivamente do engenho (ingenium), conceito que prevê a capacidade inata e adquirida, simultaneamente, que ora pressupõe uma habilidade específica diante do material poético, ora uma habilidade de reconhecer procedimentos técnicos que devem ser utilizados adequada e decorosamente.
Daí, pode-se observar a distinção entre originalidade e novidade. Racine, seguramente, não buscava a originalidade romântica, contudo, pretendia a novidade. Ser inovador representava o ápice de sua função de poeta. E, de fato, o foi. Pois, apropriando-se, por exemplo, de temas clássicos, e até mesmo obras completas como Phèdre, conseguiu adaptá-los ao universo da França da corte de Luís XIV. Observe-se a acertiva de José Eduardo do Prado Kelly (Fedra e Hipólito. Tragédias de Eurípides, Sêneca e Racine. 1985): “Ao censurarem o poeta de haver pintado com antigos nomes cortesãos do Rei-Sol, o crítico o justifica pela reflexão de que todo teatro representa os costumes contemporâneos e pela observação de que a Corte era o lugar onde a arte de conviver se reduziu a ‘máximas’ e se erigiu em preceitos. O mérito de Racine terá sido impor aos seus dramas “les bienséances de la société (as conveniências da sociedade).”
Hipólito de Racine
A novidade em Racine, assim, indica a figuração de elementos antigos, observados à luz da retórica (sem limitações impostas pelo romantismo no qual há a subjetivação da elocução, e, por conseqüência, seu uso implica um matiz limitado e pejorativo da arte do bem falar e do bem escrever), associados aos costumes de época. Philip Butler (Classicisme et Barroque dans l’oeuvre de Racine. 1959) afirma, ainda, que na obra de Racine a retórica ocupa lugar de destaque e assume o papel particular de estilização no qual os discursos das personagens relacionam palavras e atos.
Dessa maneira, este estilo inovador visa a traduzir a face inteligível dos movimentos de anímicos dispostos no texto e, jamais, apenas, a apresentar uma foto, estática e instantânea da realidade observável. Esta característica, sem dúvida, vai de encontro à presunção de existência de uma sociedade barroca que está sujeita e submetida ao simulacro, à aparência e ao protocolo (Cf. Gracián, Baltazar - Oráculo Manual ou El Discreto) . O autor faz valer uma necessidade de época, temporal e datada pela qual as figurações deveriam seguir regras ditadas. Uma etiqueta estilisticamente esculpida que deveria permear a vida cortesã e sua inevitável alegoria, o texto produzido.
Roger Bastide, precisamente, estabelece a síntese quando diz que Racine deve ser saboreado, tendo em vista a observação de duas tradições complementares: a clássica e a cristã. Isto é, se por um lado o autor é movido pelos temas clássicos, por outro, eles estão a serviço de um mundo contra-reformista. Dessa forma, no esteio de Maravall ( A cultura do Barroco. 1998), o texto de Racine, assim como de Quevedo, pode servir para a compreensão de uma época, contudo, sem jamais deixar-se de lado “os fatores estilísticos e ideológicos enraizados no solo de uma dada situação histórica”.
Mais do que outros em seu tempo na França, Racine deixa de lado as regras aristotélicas da composição dramática e interessa-se apenas por uma teoria da mesma que visasse à emoção. Assim, figura o espetáculo poético da fragilidade humana. O homem desenhado pelo poeta “é um indivíduo em luta, com toda a comitiva de males que à luta acompanha, com possíveis proveitos que a dor traz consigo, mais ou menos ocultos. Em primeiro lugar, encontra-se o indivíduo em combate interno consigo mesmo, fonte de tantas inquietações, cuidados e até violências que do seu interior brotam e se projetam em suas relações com o mundo e com os demais homens.” (Maravall, J.A.- op.cit.).
Na verdade, esta observação da emoção como ponto central da composição significa que, entre as duas possibilidades de argumentação do discurso, ou seja, a ética (éthos) e a patética (páthos), o autor de Bérénice opta pela segunda. Isto é, tudo em Racine é mediado pelo páthos, daí o excesso de hipérboles, de acumulações e gradações no desenho dos caracteres dramáticos. Daí, o excesso dito barroco. Mesmo naquilo que é tido como uma possibilidade de época, característico do estilo, ele segue algo que não é de seu tempo na origem, e sim algo explícito por uma preceptiva retórica, fundamentalmente, aristotélica. (Cf. Retórica, II).
Racine, portanto, a partir das disputas simétricas entre Orestes e Pirro, os discursos fluviais de Agripina, as súplicas apaixonadas de Burrhus e as acusações de Ulisses, além de representar uma tradição clássica que, aparentemente, definhará nos estertores do século XVIII, contribui como êmulo, apropriando-se de desenhos antigos para retratar a alma do homem de seu século e uma cultura francesa do XVII.
domingo, 13 de abril de 2008
Descoberta nova estátua equestre de mármore em Roma

sexta-feira, 4 de abril de 2008
Ciclo de Poesia Helenística - USP
promove o
Ciclo de Poesia Helenística na USP
Prof. Alexander Sens
Georgetown University, E.E.U.U.
22/04/08, 10: 00 horas - O epigrama helenístico e memória literária
23/04/08, 19:30 horas - "Poesia encantadora?" A Alexandra de Licofronte e os épicos homéricos
24/04/08, 10:00 horas - Asclepíades de Samos e a sua poesia
* As conferências serão proferidas em português
LOCAL: Sala 8 do Dept. de Ciências Políticas, Prédio de Filosofia e Ciências Sociais,
Av. Professor Luciano Gualberto, 315 Cidade Universitária 05508-900 - São Paulo - SP
APOIO: Programa de Pós-graduação em Letras Clássicas da USP, Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas,Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.
quinta-feira, 3 de abril de 2008
Um Iambo de Horácio - Uma Tradução
Rogare longo putidam te saeculo,
uires quid eneruet meas,
cum sit tibi dens ater et rugis uetus
frontem senectus exaret
hietque turpis inter aridas natis
podex uelut crudae bouis?
Sed incitat me pectus et mammae putres,
Equina quales ubera,
uenterque mollis et femur tumentibus
exile suris additum.
Esto beata, funus atque imagines
ducant triumphales tuum
Nec sit marita quae rotundioribus
onusta bacis ambulet.
Quid? Quod libelli Stoici inter Sericos
iacere puluillos amant:
inlitterati num minus nerui rigent
minusue languet fascinum?
Quod ut superbo prouoces ab inguine,
ore adlaborandum est tibi.
Tradução de Paulo Martins:
Tu perguntas, fétida, tanto tempo,
O que esgota meu ânimo,
Quando tu tens dentes podres e velha
Ruga sulca senil tua fronte
E torpe está escancarado teu cu entre
Bunda murcha qual a de encruada vaca.
Mas teu peito e tetas flácidas quais
Úberes de égua e tua lassa pança e
Tuas coxas mirradas somadas
A inchadas suras instigam-me.
Sê rica em breve e comandem imagens
Triunfais teu funeral
E não seja uma esposa que passeia,
Montada com as mais rotundas perlas.
Por quê? Que livros estóicos amam descansar
Por entre almofadas de Seres:
Acaso, minha pica iletrada está menos rija
Ou meu pau está menos desfalecido?
Para que tu provoques algo a partir da minha soberba
Virilha, com tua boca tu deves trabalhar.
