sábado, 9 de agosto de 2008

Site sobre os Jogos Olímpicos na Antigüidade


Por ocasião da abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim - 2008 ontem dia 8 de Agosto, o departamento de História Antiga da Universidade de Leuven (Bélgica) publica um site dedicado aos Jogos Olímpicos na Antigüidade Clássica.

Lançamento de Livro organizado pelo Prof. Luiz Marques

Luiz Marques (org.) - A Fábrica do Antigo. Campinas: Ed.
Unicamp. 2008.
Dia 13 de Agosto - Livraria Cultura - Loja de Artes - Conjunto
Nacional - Av. Paulista - às 19:00h

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Tempo e Idade

Paulo Martins


“Breves sunt dies hominis... sola Aeternitas longa”
“Breves são os dias dos homens ... apenas a eternidade é longa”


Talvez o tempo seja a criação mais instigante e curiosa da raça humana. Conceito complexo e interessante que incessantemente não pára de ser reciclado e re-observado pelas mais diversas áreas do conhecimento. Da Filosofia à Física. Da Gramática à Astronomia. Da Culinária à Poesia. Contudo, poucos são aqueles que atentam que a Língua e mais precisamente o estudo dos étimos trans-historicamente nos oferece diversos e variados matizes do termo, associando-lhe nomes específicos e aplicações práticas próprias igualmente específicas. Bom exemplo disso, entretanto, ocorre não no Português, mas no Inglês, afinal nenhum falante dessa língua teria dúvidas em distinguir tense e time. Enquanto o primeiro nomeia o tempo verbal, que toma como referência o momento da enunciação, o segundo se ocupa do conceito abstrato e relativo que é traduzido pelo primeiro lingüisticamente.

Apesar de não encontrarmos em Português tal especificidade, temos, assim como eles, falantes do Inglês, nuanças várias do conceito que, vez por outra, são empregadas de maneira indistinta e pouco atenta. Penso, por exemplo, em dois conceitos temporais: tempo e idade. Antes, contudo, de tratá-los com vagar sob a ótica lingüística da diacronia, poderíamos pensá-lo, o tempo, de forma mais geral.

Na Antigüidade Clássica greco-romana, abundam exemplos dessa sistemática reciclagem e re-observação do conceito. Desde os pré-socráticos, Parmênides (530 – 460 a.C.) e Zenão de Eléia (495 - 430 a.C.), até Santo Agostinho (354 – 430 d.C.) já nas portas da Idade Média, encontram-se filósofos que, com muita habilidade e, por vezes, com pouca clareza, ousam desvelar seus segredos e mistérios.

Para Platão (427 - 348 a.C.), por exemplo, o tempo não é um conceito verdadeiro, pois que apenas participa do mundo sensível, aquele em que as coisas são mutáveis, mediadas que são pelos mortais, agentes, portanto, do “não-ser”. A despeito de sua origem cosmológica, o tempo teria nascido, pois, da organização do caos, ele subsiste graças às sensações inerentes a cada pessoa, distante, assim, de uma Verdade absoluta.

Seu discípulo, Aristóteles (384 - 322 a.C.), por seu turno, em momento algum discordando da natureza essencialmente humana do tempo, vai adiante e propõe a estreita relação entre o tempo e o movimento, daí jamais ser possível sua desvinculação do “antes”, do “agora” e do “depois”, marcadores que estabelecem mentalmente a medida do movimento. Dessa maneira, já que as noções de passado, presente e futuro são compreensíveis apenas do ponto de vista da subjetividade humana, a própria condição de entidade real e autônoma do tempo é posta em xeque.

Certo é que essa noção antiga do tempo, como fenômeno subjetivo e cíclico, encontra guarida também, em certa medida, na própria natureza, uma vez que não há como se negar a existência das marés, das estações, dos ciclos lunares e dos dias que sucedem as noites.

Entretanto, ainda na Antigüidade, nós encontramos, entre os hebreus e zoroastritas – representantes da “antiga religião persa fundada no século VII a.C. por Zoroastro, caracterizada pelo dualismo ético, cósmico e teogônico” –, um outro sentido do tempo: o linear e absoluto, calcado assim em eventos únicos e que, portanto, não se repetem. Essa possibilidade foi incorporada por uma ética judaico-cristão-mulçumana que toma um evento único como marco divisório e estabelece relação com os marcadores aristotélicos do movimento (antes, agora e depois). Assim temos o êxodo do Egito, a crucificação de Cristo, a migração de Maomé de Meca para Medina, marcadores essenciais aos seus respectivos calendários.

Parece, pois, inegável que essas duas vertentes do tempo coexistiram e coexistem no mundo moderno, porém ambas estão sujeitas à mesma rubrica: o tempo. Contudo, parece-me que algumas Línguas, entre as quais o Português, podem bem distinguir essas formas de pensar.
A palavra tempo tem origem na palavra “tempus” latina cuja origem é a mesma do verbo “témno” grego que significa fracionar, cortar. Assim o termo que hoje usamos em expressões como “perder e ganhar tempo” ou “tempo da colheita” deveria apenas ser utilizado quando a medida fosse absolutamente mensurada e determinada por um limite fracionado. Sob aspecto estético, poder-se-ia dizer que, por ser o tempo sempre limitado e, portanto, jamais contínuo, ele seria o tempo da poesia lírica, pois aquilo que ela observa sempre é diminuto, afinal ela é expressão do hic et nunc (do aqui e do agora). Por ser o tempo sempre limitado, ele corresponde no plano do conteúdo àquilo que é findável e não perene - efêmero. O tempo, em que se pese aqui o paradoxo, é absolutamente humano. Daí ser tão suscetível à “efusão lírica”.

O tempo em decorrência do proposto ainda repercute a melancolia, uma vez que, por ser limitado e humano, “escorre pelas mãos”, “voa” e “não volta”. Daí a incapacidade humana em geri-lo adequadamente.

Por outro lado, a idade (de aetas do latim), palavra cognata do advérbio aei grego, cujo significado é "sempre", dá conta de uma outra modalidade ou dimensão do tempo e esse é ilimitado, incontável, infinito, daí a palavra aeternitas (eternidade). Ela, aetas, é o tempo do mito, do herói, do deus e, por isso, filia-se aos gêneros literários cujos objetos da imitação são os homens superiores e não os homens como nós (com toda licença de Aristóteles). Assim, enquanto o tempo humano é efêmero, como vimos, a idade e a eternidade são perenes e divinos. Daí ser seguramente o tempo do Torá, da Bíblia e do Alcorão. Dessa maneira, enquanto a efemeridade da vida tem acolhimento no tempus, a perenidade da obra possui estreita relação com a aetas. Portanto, o nosso tempo e o tempo dos deuses são absolutamente distintos.

Horácio talvez seja o poeta, entre os romanos antigos, que mais tenha se dedicado ao tema/lugar-comum da efemeridade da vida, consciência de nossa incapacidade e fruto de nossa melancolia. Suas odes, assim como a poesia lírica como um todo, são reflexos dessa limitação humana, essencialmente humana. Não é por outro motivo que estão localizadas no universo do aqui e agora. Esse é um lugar-comum que tem larga difusão nas práticas poéticas da Antigüidade. Já o encontramos em Homero (séc. IX a.C.), em Mimnerno (630 – 600 a.C.) além de outros. Porém a precisão e a delicadeza helenística de Horácio saltam aos olhos nesta ode:

4,7
Dissolveram-se neves, já vergéis retornam
Aos campos e às árvores comas;
Mudam vezes a terra e às margens tornam
Descendentes os regatos
A Graça com Ninfas e com gêmeas irmãs
Ousa nua conduzir coros.
Vida eterna não esperes, ano e hora que rapta
Dia propício advertem.
Frios abrandam com Zéfiros, verão suplanta
Vera até que morto esteja;
Logo outono pomífero trará frutos e
Reviverá inverno sem pomos.
Luas céleres recuperam celestes danos
Quando, então, nós descemos
Onde estão Enéias pai, rico Tulo, Anco
E somos pó e sombra apenas.
Quem sabe se súperos somam ao todo,
De amanhãs um intervalo?
O que terás dado com ânimo amigo,
De ávido herdeiro fugirá.
Quando tiveres morrido e Minos tiver
Feito de ti juízo notável,
Nem estirpe, Torquato, nem fluência, nem
Piedade te darão vida;
Pois nem Diana livra de atroz inferno
Seu casto Hipólito,
Nem Teseu é forte para romper oblívios
Vínculos do caro Pirítoo.
Tradução: Paulo Martins

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Literatura Latina: Historiografia

Programa da Disciplina
FLC1256 - Literatura Latina: Historiografia
3a Feira - Matutino e Noturno
Docente Responsável: Paulo Martins

Aula 1 - Apresentação do Curso
Aula 2 - O Nascimento da História – Tucídides x Homero – O sujeito da Enunciação Histórica
Aula 3 - A História sob a perspectiva de Tito-Lívio
Aula 4 - O Lugar do Historiador
Aula 5 - A História em Roma segundo Quintiliano e Cícero
Aula 6 - A História Antiga (re)visitada pelos modernos: Veyne, Salles, White
Aula 7 - Gêneros Historiográficos em Roma I
Aula 8 - Gêneros Historiográficos em Roma II
Aula 9 - Tipos e Estrutura de Relato e de Narrativa Históricos
Aula 10 - Salústio – A Conjuração de Catilina
Aula 11 - Salústio – A Guerra de Jugurta
Aula 13 - Cícero – Epístola a Luceio – Ad. Fam. 5,12
Aula 14 - As Vidas – Suetônio, Tácito e Plutarco
Aula 15 - Os Comentarii de César
Aula 16 - Res Gestae de Augusto

domingo, 3 de agosto de 2008

Elegia Latina - FLC0257 - FFLCH/USP

Literatura Latina: Elegia - Programação da Disciplina FLC0257
Docente Responsável: Paulo Martins
3a Feira - Matutino e Noturno

Aula 01 – Apresentação do Curso
Aula 02 – Esquema Métrico e Prosódia e Concepções do Gênero: Moderna e Contemporânea
Aula 03 – Fontes primárias 1
Aula 04 – Fontes primárias 2
Aula 05 – Fontes Primárias 3
Aula 06 – Antecedentes Gregos
Aula 07 – Catulo: Os neotéricos e a poética alexandrina
Aula 08 – Cornélio Galo e Antecessores: Calímaco, Euforião. Elegia, Bucólica e Epílio
Aula 09 – Propércio 1
Aula 10 – Propércio 2 – Poética, ética, moral e Augusto
Aula 11 – Ovídio 1 – Metaliguagem
Aula 12 – Ovídio 2 – Epístola e Elegia
Aula 13 – Ovídio 3 – O gênero e o feminino
Aula 14 – Tibulo – Elegia e Idílio
Aula 15 – Tradição Moderna e Contemporânea – Camões, John Donne, Goethe, Drummond e Vinícius

Nova Exposição no Museu Britânico a partir de 13 de Novembro


Babylon was the greatest city of ancient Iraq, and its name and image have endured throughout history with amazing vigour. This fascinating exhibition will explore both the archaeology of the city at its height during the reign of King Nebuchadnezzar II (605–562 BC), and the wealth of later art and legend that Babylon has engendered.

Babylon will reveal major archaeological finds, such as the city’s vivid lion reliefs and spectacular architecture, shedding light on the ancient city. At the same time the exhibition will explore our own myths and traditions about the city – such as the Tower of Babel and the Hanging Gardens – to uncover their origins and how we know about them.

Babylon’s reputation in all its richness inspired artists and poets as well as explorers and archaeologists. The scope of this exhibition represents something new for the Museum, and allows us to include oil paintings, prints and contemporary art displayed side by side with ancient sculptures and cuneiform texts written on clay tablets.

The exhibition will conclude with Babylon’s reinvention as a state icon and a consideration of its tragic recent history, including its subjection to damage through conflict.

A catalogue and gift book will accompany the exhibition. There will also be a broad programme of related events including lectures, film and storytelling.
Babylon follows related but independent exhibitions in Paris and Berlin organised by the Réunion des Musées Nationaux and the Staatliche Museen zu Berlin. The project is made possible by close scholarly collaboration and many loans between the British Museum, the Musée du Louvre and the Vorderasiatisches Museum, Berlin.
Image caption: Glazed brick relief of a lion from Babylon's Processional Way. Reign of King Nebuchadnezzar II (605–562 BC).

On loan from the musée du Louvre, Paris. © Photo RMN / Franck Raux.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Casa de primeiro imperador romano é aberta ao público

Assimina Vlahou
De Roma para a BBC Brasil

A casa de Otávio Augusto, uma das figuras mais importantes da Antigüidade, foi aberta à visitação pública pela primeira vez depois de três décadas de meticulosos trabalhos de restauração - de, por exemplo, raros ciclos de afrescos - e reforço de estruturas.

A residência faz parte de um complexo mais amplo, de 12 mil metros quadrados, descoberto por arqueólogos durante escavações no final dos anos 1970. Depois da fase de identificação, eles iniciaram as obras que só agora foram parcialmente concluídas.

Apenas quatro salas estarão disponíveis para a visita, por enquanto. Uma delas é o "gabinete" de Augusto, uma espécie de escritório particular do homem que comandou Roma depois de Julio César, entre 27 a.C. e 14 d.C . O nome dele ficou ligado a um "período de ouro" da civilização romana.

"A casa é de grande interesse histórico, arqueológico e artístico. Os afrescos, especialmente do gabinete, são altamente refinados e riquíssimos, com cores que vão do vermelho pompeiano ao amarelo ocre, passando por tons de rosa, azul e uma infinidade de violeta", comentou a crítica de arte e historiadora brasileira Elisa Byington, em entrevista à BBC Brasil.

Ao examinar a área, os arqueólogos encontraram paredes inteiras pintadas com afrescos, mas também fragmentos pequenos nas proximidades, que os restauradores conseguiram recompor, num trabalho meticuloso que o ministro da cultura Francesco Rutelli definiu como "o quebra-cabeças mais fascinante da época contemporânea".

Obras de restauração da Casa Augusto levaram 20 anos

Cuidado


As autoridades italianas gastaram até agora cerca de US$ 3 milhões na recuperação da área. Para melhor conservar os delicados afrescos, há controle de temperatura e umidade dos ambientes e as visitas serão limitadas. Podem entrar nos cômodos apenas cinco pessoas de cada vez.

A residência de Augusto foi construída no ano 36 a.C., antes de ele se tornar o primeiro imperador romano, no ponto mais sagrado do monte Palatino, próximo ao Coliseu. Conta a tradição que foi ali que Rômulo e Remo fundaram a cidade de Roma.

Controle de temperatura e umidade preserva afrescos da casa

A casa era usada como residência privada e como palácio imperial para as funções civis, políticas e religiosas. Augusto, além de chefe supremo dos exércitos romanos, era também o Pontífice Máximo.

Otávio Augusto governou com o consenso do Senado e aprovação popular, e ficou conhecido pelo período de paz que impôs – a chamada pax augustea –, ao qual foi dedicado um monumento na cidade.

Ele diminuiu o Exército de 50 para 28 legiões e, depois de anos de lutas e guerras, trouxe bem estar e serenidade aos romanos.

Augusto teria dito: 'encontrei uma Roma de tijolos e deixei mármore'

No período em que comandou Roma, Augusto transformou o aspecto da capital, com obras e construção de templos, monumentos e teatros, usando materiais ricos como o mármore. Segundo os historiadores, pouco antes de morrer ele teria dito que quando chegou ao poder "encontrou uma cidade de tijolos e deixou uma cidade de mármores".

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Forum Imperial - Roma

Roma

I Fori Imperiali:
Mostra - "Roma - L' invenzione dei Fori Imperiali - Demolizioni e scavi: 1924-1940."

(23.07. - 23.11.2008).

Exhibition Photographs (with supplimentry visual documentation).

http://flickr.com/photos/imperial_fora_of_rome/sets/72157606320119383/detail/

http://roma.repubblica.it/multimedia/home/2574445

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Crise, Crítica e Discernimento

Por Paulo Martins

É muito comum, nos dias de hoje, lendo jornais, revistas e livros, ou ainda, assistindo aos noticiários da televisão, observar usos contínuos e sistemáticos de certas palavras, sem, no entanto, nos ater ao seu significado exato e verificar o sentido que lhes está sendo impresso, ou ainda, sem ter a curiosidade de pesquisar suas origens, seu étimo. Talvez imaginemos que apenas decodificar o sentido das palavras a partir do nosso próprio uso seja suficiente para detectar-lhes o significado exato que no momento da enunciação está sendo empregado. É possível que isso realmente seja válido e relevante, mas é certo também que poderá não ser completa a compreensão de certos textos em determinados momentos.

Recentemente, pudemos assistir no Brasil ao caótico “apagão aéreo”. Tal expressão, que para o falante do português de quaisquer dos países lusófonos, à exceção dos brasileiros, pode soar incongruente, sem sentido, sem lógica, pois que tem seu significado associado ao uso cotidiano da língua. Assim, por conta da falta de energia elétrica, que assolou nosso país há alguns anos, por contigüidade, foi aproximado da falta de controle do tráfego aéreo. Assim “o apagão” que fora o de luz efetiva, foi ligado à outra carência que era a de organização do sistema de controle de vôo e dos aeroportos brasileiros. É ... A língua pode funcionar assim. Uma simples associação de significados de caráter meramente circunstancial e localizado que resume em uma só palavra um conceito, uma idéia, por vezes, complexa.

Por outro lado, se ao invés de “apagão”, usássemos crise, indubitavelmente, teríamos um sentido mais claro e, seguramente, denotativo. Sem se dizer no efeito de seu uso. Esse, é certo, é de matiz pejorativo. Afinal, o termo “crise” diacronicamente e, portanto, desde, pelo menos, o século XIX no português está ligado ao jargão médico, especificamente, determinando o ápice de uma doença e, segundo determina a lógica humana, nenhuma doença é boa. Antes disso, em outros países, como França (crise), Inglaterra (crisis), Alemanha (krise), Itália (crisi) e Espanha (crisis), nos séculos XV, XVI, XVII e XVIII, respectivamente, o termo surge, estabelecido pelos falantes como algo relativo ao campo da Economia. Não é de outra forma - isto é negativa - que a Língua Portuguesa, hoje, por sua vez, oferece um espectro muito largo de utilização do termo, a saber: três acepções utilizadas pela Medicina; quatro pela Psicanálise; duas pela Economia; cinco pela Sociologia.

O fato de a palavra crise aparecer nas línguas apontadas evidencia ao leitor cuidadoso um caminho etimológico fundamental para verificação de seus significados. O que haveria de comum entre elas? A resposta é imediata, uma vez que o inglês e o alemão são línguas que pertencem à família das línguas anglo-germânicas e o espanhol, o francês e o italiano são línguas derivadas do Romance (o latim vulgar), ou seja, são neolatinas. Entretanto essa separação em dois grupos é muito posterior ao uso da palavra, pois uma língua suposta, o proto indo-europeu uniria todas elas em um só grupo e por dedução já registraria a raiz “kr-”. Como não se tem registro dessa língua suposta, tomemos suas origens mais remotas hoje conhecidas: o grego antigo e o latim.

A palavra crise origina-se do verbo grego “kríno” que significa de acordo com o Dictionnaire Étymologique De La Langue Grecque de Pierre Chantraine: separar, apartar, escolher, cortar, decidir, fazer passar por um julgamento. Curiosamente, verificando esses significados, encontramos no latim um verbo cognato: “cerno”, cujos significados historicamente propostos no respectivo verbete do Oxford Latin Dictionary são: peneirar, separar, decidir, determinar, discernir com os olhos, discernir com o intelecto, perceber claramente, procurar, examinar. A crise, portanto, seria o resultado dessas atividades: a separação, a decisão, o julgamento, a escolha e a eleição. É digno de observação que em nenhuma dessas acepções o sentido do termo é exclusivamente negativo. Antes, assume certa neutralidade da atividade, seja ela advinda do ato mental, seja do ato mecânico. Assim, a “crise aérea”, ou simplesmente, o dito “apagão” no Brasil, sob a ótica da etimologia do termo, deveria ser vista como aferição de um processo e como tal servir para separar o joio do trigo, longe, portanto da constatação apenas de um caos que se instaurou no país.

Entretanto, para que esta última atividade fosse levada a bom termo, seria necessária uma disciplina reguladora da atividade da crise: a crítica. Em sua origem, que é a mesma de crise, era um adjetivo, isto é, “aquele que é capaz de discernir e julgar” (cf. A Greek-English Lexicon de Liddell e Scott). Porém, observada a diacronia, passou a ser o próprio “poder do discernimento” e, por extensão, a arte de julgar, “kritikê tékhné” (arte/técnica da crítica). E nas línguas modernas e, talvez, por sua influência, o uso na técnica de avaliar e julgar qualquer coisa ligou-se à obra de arte no francês do século XVI “critique”, no inglês do XVI “critic” e no inglês do XVII “criticism” e no italiano, no espanhol e no português do século XVIII “crítica”.

No Português contemporâneo, o Dicionário Houaiss propõe que esse substantivo feminino em sua primeira acepção desenvolve o conceito histórico relacionado à arte, contudo vai além como, por exemplo: “exame racional, indiferente a preconceitos, convenções ou dogmas, tendo em vista algum juízo de valor”, ou por metonímia: “escrito ou gravação resultante dessa atividade teórica, ideológica e/ou estética”; ou “exame de um princípio ou idéia, fato ou percepção, com a finalidade de produzir uma apreciação lógica, epistemológica, estética ou moral sobre o objeto da investigação”, e por último, numa rubrica filosófica: “questionamento racional de todas as convicções, crenças e dogmas, mesmo se legitimadas pela tradição ou impostas por autoridades políticas ou religiosas”.

Entre o agir (kríno) e a atividade (kritikê), porém, deve haver a capacidade mental que os decodifica como necessidade. Assim não basta observar a crise e ser hábil no avaliá-la. Uma capacidade intelectual se faz necessária, um imperativo: o discernimento. Ele, como se nota, é uma palavra cognata do verbo latino cerno (e dessa maneira, associada ao étimo de “kríno” e “cerno”) que sofreu no próprio latim prefixação do “dis-”, cujo significado, como em português, pode ser a disjunção, a separação, assim o processo de formação da palavra enfatiza que o julgamento pressupõe a separação do que é mal daquilo que é bom. Quanto ao significado em português, distante, no entanto, da carga pejorativa e/ou negativa de crise, o Dicionário Houaiss assim esclarece: “ato ou efeito de discernir. 1. Capacidade de compreender situações, de separar o certo do errado. 2. Capacidade de avaliar as coisas com bom senso e clareza; juízo, tino. 3. Conhecimento, entendimento.” Assim, nosso “apagão” aéreo, muito além de uma simples carência, deveria ser considerado crise para que pudéssemos agir criticamente, balizados pelo discernimento. Dessa forma, seguramente, teríamos muito mais do que a simples constatação de um problema, teríamos, sim, a clareza e a precisão de um evento que deve ser tratado com discernimento e não alheio às críticas que dele podem advir.