quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Efemeridade da vida - Tempus fugit


O início de um novo ano, principalmente para aqueles que ultrapassaram a barreira dos 40 anos, imprime certa melancolia. Ela nasce de nossa completa incapacidade de gerir a vida de acordo com a passagem do tempo. Esse conceito arbitrário e abstrato, o tempo, pode ser explicado a partir do étimo: o tempus latino tem a mesma origem do verbo grego témno, cortar, fracionar...Daí sua limitação, afinal é segmento e daí nossa limitação em geri-lo. O tempo foge, "escorre pelas mãos", pois apequenado sempre é...

Horácio talvez seja o poeta, entre os romanos antigos, que mais tenha se dedicado ao tema/lugar-comum da efemeridade da vida, consciência de nossa incapacidade e fruto de nossa melancolia. Suas odes, assim como a poesia lírica como um todo, são reflexos dessa limitação humana, essencialmente humana. Não é por outro motivo que estão localizadas no universo do hic et nunc (aqui e agora).

Esse é um tópos que tem larga difusão nas práticas poéticas da Antigüidade. Já o encontramos em Homero, em Mimnerno além de outros. Porém a precisão e a delicadeza helenística de Horácio saltam aos olhos nessa ode cuja tradução segue abaixo:



IV,VII

Diffugere nives, redeunt iam gramina campis
arboribusque comae;
mutat terra vices et decrescentia ripas
flumina praetereunt;
Gratia cum Nymphis geminisque sororibus audet
ducere nuda choros.
immortalia ne speres, monet annus et almum
quae rapit hora diem.
frigora mitescunt zephyris, ver proterit aestas
interitura, simul
pomifer autumnus fruges effuderit, et mox
bruma recurrit iners.
damna tamen celeres reparant caelestia lunae;
nos ubi decidimus,
quo pius Aeneas, quo Tullus dives et Ancus,
pulvis et umbra sumus.
quis scit an adiciant hodiernae crastina summae
tempora di superi?
cuncta manus avidas fugient heredis, amico
quae dederis animo.
cum semel occideris et de te splendida Minos
fecerit arbitria,
non, Torquate, genus, non te facundia, non te
restituet pietas;
infernis neque enim tenebris Diana pudicuni
liberat Hippolytum,
nec Lethaea valet Theseus abrumpere caro
viucula Pirithoo.

4,7

Dissolveram-se neves, já vergéis retornam
Aos campos e às árvores comas;
Mudam vezes a terra e às margens tornam
Descendentes os regatos
A Graça com Ninfas e com gêmeas irmãs
Ousa nua conduzir coros.
Vida eterna não esperes, ano e hora que rapta
Dia propício advertem.
Frios abrandam com Zéfiros, verão suplanta
Vera até que morto esteja;
Logo outono pomífero trará frutos e
Reviverá inverno sem pomos.
Luas céleres recuperam celestes danos
Quando, então, nós descemos
Onde estão Enéias pai, rico Tulo, Anco
E somos pó e sombra apenas.
Quem sabe se súperos somam ao todo,
De amanhãs um intervalo?
O que terás dado com ânimo amigo,
De ávido herdeiro fugirá.
Quando tiveres morrido e Minos tiver
Feito de ti juízo notável,
Nem estirpe, Torquato, nem fluência, nem
Piedade te darão vida;
Pois nem Diana livra de atroz inferno
Seu casto Hipólito,
Nem Teseu é forte para romper oblívios
Vínculos do caro Pirítoo.

(tradução: Paulo Martins)
Em tempo: Vale lembrar que essa ode foi traduzida brilhantemente por Mário Faustino, ainda hei de postá-la. Não agora, pois o êmulo seria injusto para mim... é lógico...

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Georges Duby e a História Artística da Europa - Idade Média


DUBY, GEORGES – História Artística da Europa. Idade Média. Tomo I e II. São Paulo. Paz e Terra. 1998.



Paulo Martins



Pautada basicamente na inter-relação entre história e as demais ciências humanas, a nova história (La nouvelle histoire) ou a Escola dos Annales operou durante este século uma verdadeira “revolução” (Cf. Peter Burke – A Escola dos Annales, 1991) na historiografia. Efeitos dessa revolução podem ser observados nas inúmeras publicações dessa nova concepção de fazer história.
Dentro do grupo de intelectuais, reunidos em torno do periódico Annales d`histoire économique et sociale , encontram-se: Lucien Febvre, Marc Bloch, Fernand Braudel, Georges Duby, Jacques Le Goff, Emmanuel Le Roy Ladurie, Philippe Ariès, Paul Veyne, além de agregados como Michel Foucault, Michel De Certeau e Claude Levy-Strauss. Estes nomes, enfim, revitalizaram e redirecionaram a ciência histórica e produziram epígonos nos quatro cantos do mundo, revolucionando conceitos de longa duração, curta duração, cultura material, mentalidades, etc..
Fundamentalmente, o projeto dos Annales visava a transferir o eixo constitutivo da história produzida até então, que era o da história do poder central ou história oficial, para o eixo da história de capilaridade social, observando-se as relações com a sociologia, com a antropologia, com a psicologia e as demais ciências humanas. Dessa maneira, não far-se-ia mais história de cima para baixo, mas de baixo para cima, a história das menores unidades de relação dentro do corpo social, inserindo-se, assim, na história aqueles que até então se viam desapropriados de sua própria história, excluídos pela história do poder.
Foi dessa maneira que grande um número projetos se desenvolveram a partir do primeiro quartel deste século: o da história da vida cotidiana, o da vida privada, o das mulheres, o das crianças, o da loucura, o do homossexualismo, etc.
O Brasil, por sua vez, presenciou mais proximamente (1997) este fenômeno acadêmico com a publicação dos volumes dedicados à história da sua vida privada que seguem o paradigma da obra francesa homônima.
História Artística da Europa é mais um projeto audacioso que vem somar a esta linha do fazer histórico. Os tomos relativos à Idade Média (dois), organizados por Duby, seguramente um dos maiores medievalistas dos nossos dias, estão baseados em três princípios: a iconografia deve ter precedência sobre as dissertações; a iconografia deve apoiar-se num guia de leitura e, por último, deve abarcar vastos territórios, ou seja, deve observar um intercâmbio franco entre arte e as sociedades que moldam autor e artista, entre historiador e especialistas de campos diversos, entre narrativa escrita e imagem.
Contudo, esta ingente tarefa poderia, apesar das linhas diretrizes do monumento, tornar-se um Frankenstein histórico-artístico. Careceria, pois, de linha condutora que absorvesse em seu bojo unidade, diga-se de passagem costumeira entre os “analistas”. Assim, dentro dos vinte e três ensaios que compõem os dois tomos da obra, encontramos seu fato gerador, sua origem, sua arché, o belíssimo ensaio de Duby que corresponde à 110 páginas do primeiro tomo.
O ensaio introdutório aposta na confrontação, não se sujeitando à submissão da imagem ao texto ou à justaposição de imagens em coadunação ao texto, como é muito comum nos livros de história da arte, ou simplesmente de história nos quais a imagem se assemelha àqueles livros de uma grande biblioteca cujas lombadas ricamente trabalhadas servem apenas ao diletantismo ou ao pedantismo do proprietário da biblioteca. O texto de Duby, muito além de balizar os demais ensaios, dita regras onde a obra de arte é o sujeito.
As imagens, assim, determinam mais do que simples deleite do esteta, trazem em si o crivo de poderes, orientados por certa sociologia histórica da obra de arte que perpassa a cadeia da elaboração do artístico desde a invenção até seu legado como cultura material. Busca Duby resgatar o olhar coetâneo das obras.
Por se tratar de um estudo relativo à Idade Média, o historiador procurou reconhecer nas imagens do período suas funções - dado imperativo e imperioso para os que trabalham com material iconográfico - , portanto, vai mais longe dizendo que as obras da “Idade das trevas” tinham como fundamento uma funcionalidade que é extremamente distante daquela visão que hoje temos de que a obra de arte não tem função alguma. O historiador nos fala : “não consideramos essas formas com o mesmo olhar dos que primeiro as viram. Para nós, são obras de arte das quais esperamos apenas, como das que são criadas nos nossos dias, um prazer estético. Para eles, esses monumentos, esses objetos, essas imagens eram antes mais nada funcionais. Serviam. Numa sociedade fortemente hierarquizada, que atribuía ao invisível idêntica realidade e ainda mais poder do que ao visível e não acreditava que a morte fosse o fim do destino individual.”
Segundo Duby, a arte desse período de dez séculos, a que se convencionou chamar Idade Média, ora são tidas como presentes oferecidos a Deus, ora são simples oferendas aos santos e aos defuntos, ora são a afirmação do poder divino, celebrando o de seus servidores, o de chefes de guerra, o dos ricos.
É justamente em torno dos ricos que a arte na Idade Média se desenvolve, apesar da não-distinção entre artista e artesão (palavras cognatas com origem no conceito de ars, que em latim tinha como significado técnica, aproximando-se, assim do conceito grego da técne – técnica, habilidade). Eles, os ricos, encomendavam estas obras e as distribuíam ao seu redor como prova de opulência e distinção em relação aos demais. Contudo, muitas modificações ocorreram nestes dez séculos e, portanto, aquele que detinha o poder em certo momento, não o manteve em outro. O deslocamento do poder durante a Idade Média determina alterações significativas no fazer artístico do período: “ao afetarem as relações sociais e os diversos componentes da formação cultural, as transformações modificaram as condições da criação artística.”
Resumidamente, o ensaio introdutório de Duby não pretende explicar a evolução das formas artísticas, observadas as estruturas materiais e culturais da sociedade, antes, visa a colocá-las em paralelo, auxiliando a entendê-las simultaneamente, ou seja, como uma é reflexo e origem de uma e outra.
Se a premissa é a de transformação dos agentes e atores sociais e a transformação associa-se a certa cronologia, então, Duby não pôde se apartar do recorte temporal para traçar o roteiro delineador do projeto em questão. Seu texto subdivide-se em quatro partes: Uma primeira dedicada a uma visão geral dos séculos V ao X; uma segunda do ano 960 ao 1160; uma terceira do ano 1160 ao 1320 e uma quarta do ano 1320 ao 1400.
Os cinco primeiros séculos, segundo o historiador, marcam a passagem da Antigüidade para Idade Média. Neste quadro vemos a leste a continuidade do mundo clássico antigo, enquanto que a oeste há o desmoronamento da civilização mediterrânea, precipitado pelas migrações germânicas, provocando por pelo menos três séculos a desordem na qual misturam-se ingredientes de uma nova civilização e, conseqüentemente, de uma nova arte.
O próprio ocidente não pode ser considerado como uma unidade inflexível e, minimamente, nele se destacam duas partes. A primeira ao sul, romanizada e uma segunda parte ao norte onde ressurgem costumes locais, autóctones, que haviam sido sufocados pelo poderio imperial romano.
Ao contrário do que costumeiramente se aprende, este primeiro período da Idade Média não foi marcado só por desgraças, características dos séculos de ferro ou da idade obscura. A despeito de certa devastação do patrimônio cultural legado da Antigüidade, as invasões, segundo Duby, também: “foram fator de rejuvenescimento. Varreram boa parte do que estava vetusto e deteriorado, do que criava obstáculos a inovação. Favoreceram todo tipo de transferências, de trocas.”
No segundo período trabalhado por Duby, 962 marca mais uma restauração em favor do rei dos germanos, Oto. Com ele floresceu o renascimento iniciado por Carlos Magno. A corte imperial, estimulada pela vontade de reviver os costumes e virtudes da alta sociedade romana e de renovação do Império Romano faz nascer, entre outros gêneros, a arte das pinturas de perícopes e da ourivesaria de frontais de altar.
O século XIII, por sua vez, assiste a uma nova expansão da Europa, ao norte os últimos povos pagãos são conquistados; na Península Ibérica são libertados os espaços do domínio muçulmano; no leste territórios vazios ou subjugados pelos príncipes eslavos são colonizados por habitantes que partiram das regiões flamengas, do vale do Reno, da Francônia e da Baviera. Tais movimentos, principalmente, na questão da reconquista do território hispânico, produzem operações de pilhagem que marcam a evolução das formas artísticas. Efetivamente, este momento marca a primeira expansão além das fronteiras do mundo antigo, mediterrâneo.
“No século XI, no século XII, a unidade da arte européia explica-se em parte pela extensão das peregrinações e pela coesão das congregações monásticas; no século XIII, pela mobilidade dos objetos de arte, das estatuetas, das jóias, dos livros ornamentados com imagens. Neles se refletiam as inovações estéticas cuja origem eram obras mais imponentes. Esses objetos contribuíram para propagá-las, pois nessa época começavam a entrar no circuito do comércio.”
Na segunda metade do século XIII, por seu turno, a Itália passa a ser o centro das forças vivas da Europa, lá “o orgulho cívico iniciava a revalorizar a decoração monumental, a traçar os esboços de um urbanismo inspirado na Antigüidade, a desenhar praças, enfeitar fontes, embelezar o palácio municipal glória da cidade.”
O grande nome do período é Frederico II que espantou o mundo por se dizer curioso de todas as crenças, não apenas da divina, mas também das leis humanas e naturais. Ele manda erigir em Cápua uma porta monumental que quis ornamentar aos moldes de Roma imperial, com seu próprio busto e a dos principais artesãos do seu poder. Lançou, definitivamente, as bases da última renascença, a grande. Meio século após sua morte, a Europa assistiria, extasiada o desabrochar das obras de Dante, dos escultores pisanos e de Giotto.
Por fim, o último período que trata Duby é o hiato de oitenta anos entre 1320 e 1400. Por conta de diversos fatores, diz ele que à primeira vista, a produção artística reduz a parte atribuída ao sagrado. “A principal razão desse aparente recuo é que os atavios profanos, os do corpo, os da casa, se conservaram em muito maior número que os paramentos datando de épocas anteriores. Outro fato explica a laicização da grande arte: é que esta aos poucos se libertou da tutela dos homens da Igreja.”
A partir desta grande síntese levada a termo por Georges Duby, História Artística da Europa abre espaço para o detalhe, para as especificidades das obras de arte, seja ela a pintura, a arquitetura, a música, a ilustração, a estatuária, etc. Assim, seqüencialmente são apresentados ensaios precisos, assinados por especialistas de cada assunto.
Ainda no primeiro tomo, são propostos sete textos abarcados sob o grande tema: “TRADIÇÕES, INVASÕES, INOVAÇÕES”. Neste ponto observa-se o desenvolver histórico sobre a arte visigótica, a arte irlandesa, a iluminura carolíngia, a virada arquitetônica do ano 1000, a iluminura otoniana, a arte viking e os mosaicos.
O segundo tomo dedica-se a mais dois grandes temas sob os quais encontramos mais duas grandes seqüências de ensaios. No primeiro do tomo segundo ou segundo da obra: “MONGES E PRÍNCIPES, IMAGENS DE DEUS” enquadram-se os seguintes textos sobre: a produção artística do Al-Andaluz; Benedetto Antelami; a arte românica inglesa e suas relações com o continente; a caligrafia; as fachadas românicas; o tesouro eclesiástico medieval; a música e polifonia; Cluny, cidadela celeste; Sainte-Foy de Conques; o projeto cisterciense; o vitral; a guerra e arquitetura; Frederico II e Castel del Monte e, por fim, os palácios principescos, residências senhoriais.
No terceiro da obra ou segundo do tomo segundo: “FIGURAS DA LUZ, ORDEM DAS COISAS” delineiam-se informações acerca de: os desenhos e tratados de arquitetura; as catedrais; o jubeu; Duccio e os mestres de Siena; o gótico tardio e os países meridionais: a Catalunha; a difusão dos alabastros ingleses na Europa; a escultura italiana no século XIV; o jacente; o cavaleiro de São Jorge; as vidas dos santos; Giotto; Veneza e por último, aurora e crepúsculo de uma arte internacional.
A despeito da excelência científica dos textos, elaborados por uma equipe de estudiosos de ilibada competência técnica, a qualidade editorial desta obra editada no Brasil pela Paz e Terra, evidencia a inserção do Brasil no mercado de publicação de livros de arte, uma carência sempre muito sentida por aqueles que se interessam por artes em nosso país.
Nada devendo a publicações semelhantes de origem européia ou norte-americana, os dois tomos ricamente ilustrados, o papel, a capa, enfim, o acabamento são excelentes e marcam distintivamente esta publicação. Aguardemos, pois, os volumes dedicados aos outros períodos da História Artística da Europa que, certamente, serão tão atraentes, instigantes e esclarecedores como este dedicado à Idade Média.

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Balanço - 2007

Letras e Artes completa hoje, dia 1 de janeiro de 2008, 204 dias on-line
  • Entradas contabilizadas: 7662
  • Média de visitas/dia: 37,55
  • Postagens: 29
  • 1 postagem a cada 7,034 dias

A partir do dia 26 de dezembro foi incluído um novo contador de entradas: o NeoCounter. Além de indicar o número de entradas, ele também possibilita a verificação da cidade de origem do usuário. Para termos uma pequena idéia, em 6 dias Letras & Artes recebeu visitas de 366 pessoas de 56 cidades diferentes e de 6 países diferentes.

As visitas mais freqüentes são das seguintes cidades:

  • São Paulo - 174
  • Rio de Janeiro - 63
  • Fortaleza - 12
  • Milharado/Portugal - 7
  • Londrina - 7
  • Lisboa/Portugal - 6
  • Belo Horizonte - 5
  • Niterói - 5
  • Campinas - 5

Os seis primeiros países:

  • Brasil
  • Portugal
  • Estados Unidos
  • Chile
  • França
  • Alemanha

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Ode 4,15 de Horácio e uma moeda

Denário de Prata - c. 19 a.C.
Obverso - Cabeça de Líber - Inscrição: TVRPILIANVS III VIR - Magistrado monetário
Reverso - Um parta de joelhos - Inscrição: [CAESAR A]VGVSTVS SIGN(IS) RECE(PTIS)


Horácio Ode 4,15:
Tua, Caesar, aetas//fruges et agris rettulit uberes//et signa nostro restituit Ioui//derepta Parthorum superbis//postibus

domingo, 30 de dezembro de 2007

Augusto e Horácio

IV,XV
Phoebus uolentem proelia me loqui

uictas et urbes increpuit lyra,
ne parua Tyrrhenum per aequor
uela darem. Tua, Caesar, aetas

fruges et agris rettulit uberes
et signa nostro restituit Ioui
derepta Parthorum superbis
postibus et uacuum duellis

Ianum Quirini clausit et ordinem
rectum euaganti frena licentiae
iniecit emouitque culpas
et ueteres reuocauit artes

per quas Latinum nomen et Italae
creuere uires famaque et imperi
porrecta maiestas ad ortus
solis ab Hesperio cubili.

Custode rerum Caesare non furor
ciuilis aut uis exiget otium,
non ira, quae procudit enses
et miseras inimicat urbes.

Non qui profundum Danuuium bibunt
edicta rumpent Iulia, non Getae,
non Seres infidique Persae,
non Tanain prope flumen orti.

Nosque et profestis lucibus et sacris
inter iocosi munera Liberi
cum prole matronisque nostris
rite deos prius adprecati,

uirtute functos more patrum duces
Lydis remixto carmine tibiis
Troiamque et Anchisen et almae
progeniem Veneris canemus.


4,15
Desejando eu cantar as lidas e as vencidas
cidades, Febo tocou-me com a lira
para que parvas velas não desse ao
Mar Tirreno. Tua era, César,

Restituiu frutos fartos aos campos
restabeleceu ao nosso Jove insígnias
tomadas de soberbos portais
dos Partas. E isento de combates,

Jano Querinino fechou e freio lançou
sobre a desordem que estendia-se
acima da proba ordem. Crimes
extirpou; trouxe as antigas artes

Por elas elevaram-se o latino
nome, as forças da Itália, a fama e a grandeza
do Império, estendida da morada
Hespéria até onde é nascente o sol.

César, guardião de tudo, nem furor
de civis, força ou ira que forjou
espada e infelizes cidades
inimigas levarão à paz o termo.

Nem os que bebem do Danúbio profundo
Nem Getas, Seres ou infiéis Persas
Nem os que ao largo nasceram
do Tanáide, infringirão as leis júlias.

E nós, tanto nos dias sacros como nos meros
entre benesses de Líber jocoso,
com prole e esposa, no rito,
teremos orado, antes aos deuses;

Os chefes consumidos com virtude,
misturado poema às Lídias flautas,
como os pais, cantaremos Anquises,
Tróia e a progênie de Vênus nutriz.

sábado, 29 de dezembro de 2007

Natalis - Uma tradução para Tibulo 2,2

Lawrence Alma-Tadema: Tibullus at Delia's. 1866 Oil on wood Museum of Fine Arts, Boston, USA




Natalis é um gênio que preside ao nascimento de cada homem e o acompanha durante a vida.



Tibulo, elegia 2,2


Dicamus bona verba: venit Natalis ad aras:
Quisquis ades, lingua, vir mulierque, fave.
Urantur pia tura focis, urantur odores,
Quos tener e terra divite mittit Arabs.
Ipse suos Genius adsit visurus honores,
Cui decorent sanctas mollia serta comas.
Illius puro destillent tempora nardo,
Atque satur libo sit madeatque mero,
Adnuat et, Cornute, tibi, quodcumque rogabis.
En age, quid cessas? adnuit ille: roga.
Auguror, uxoris fidos optabis amores:
Iam reor hoc ipsos edidicisse deos.
Nec tibi malueris, totum quaecumque per orbem
Fortis arat valido rusticus arva bove,
Nec tibi, gemmarum quicquid felicibus Indis
Nascitur, Eoi qua maris unda rubet.
Vota cadunt: utinam strepitantibus advolet alis
Flavaque coniugio vincula portet Amor,
Vincula, quae maneant semper, dum tarda senectus
Inducat rugas inficiatque comas.
Huc venias, Natalis, avis prolemque ministres,
Ludat ut ante tuos turba novella pedes.


Digamos boas palavras: o Natal chega aos altares:
Qualquer um, homem e mulher, que aproximes. Silêncio.
Em piras ardem pios incensos, ardem perfumes,
Que a suave Arábia envia da rica terra.
O próprio Gênio, que há de aparecer, assista suas honras,
E delicadas guirlandas ornem seus sagrados cabelos.
Os tempos destilem o seu puro nardo,
E fique saciado com bolo e embriague-se com vinho,
E que ele te atenda, Cornuto, qualquer que seja teu pedido.
Eis! Age! Por que tardas? Ele anuiu: roga.
Pressagio que pedirás amores fiéis da esposa:
Avalio que isso os próprios deuses já escolheram.
Não preferirás para ti tudo o que pelo orbe
O forte lavrador ara no campo com válido boi,
Não, para ti o que de gemas nasce dos felizes
Hindus, no oriente com aquela enrubesce a onda do mar.
Votos acontecem: queira que o Amor voe com asas
Retumbantes e carregue os flavos vínculos da união,
Vínculos que sempre permanecerão, até que a tarda velhice
Tiver trazido as rugas e tiver encanecido os cabelos.
Aqui virás, Natal, ministrarás as aves e a prole
Para que diante dos teus pés a jovem turba brinque.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Joel, White, Krall, Caymmi e Propércio

por Paulo Martins




Hoje pela manhã, Tatiana mostrou-me a regravação feita por Diana Krall (1964) para o CD "Live in Paris" (2002) de uma canção antiga de autoria de Billy Joel (The Piano Man): "Just The Way You Are", lançada no LP "The Stranger" de 1977 e, posteriormente, regravada por Barry White (1944-2003), no LP "The Collection" de 1978, versão com a qual a música ganharia notoriedade no Brasil. Certo é que esses dois grandes compositores e interpretes do R&B das décadas de '70 e '80 pareciam ter dado à composição tudo o que poderia ser dado.




Entretanto, como é de costume, Diana Krall releu com precisão o hit, imprimindo à música novo colorido e sabor sem que as qualidades anteriores fossem obturadas na releitura. A suavidade e beleza natural da interpretação são impecáveis. O piano e o violão são dignos de atenção, afora a voz sensível e plena de calor, sem esquecermos o tênue limite de conversão do R&B no mais puro Jazz.



Contudo o que mais me chamou a atenção, foram os versos "Don't go trying some new fashion//Don't change the color of your hair", cunhados por Joel. Eles, em certa medida, podem ser relacionados a outros dois momentos. Um primeiro mais antigo: Propércio, "elegia 1,2". Um segundo, bem mais recente: a canção de Dorival Caymmi (1914), "Marina" que foi regravada por Gilberto Gil em "Realce" de 1979.

A beleza feminina natural é um lugar-comum bem interessante e recorrente.

*_*_*_*_*_*_*_*


"Just The Way You Are"

Billy Joel

Don't go changing, try and please me
You never let me down before
Don't imagine you're too familiar
And I don't see you anymore

I would not leave you in times of trouble
We never could have come this far
I took the good times, I'll take the bad times
I'll take you just the way you are

Don't go trying some new fashion
Don't change the color of your hair
You always have my unspoken passion
Although I might not seem to care

I don't want clever conversation
I never want to work that hard
I just want someone that I can talk to
I want you just the way you are.

I need to know that you will always be
The same old someone that I knew
What will it take till you believe in me
The way that I believe in you.

I said I love you and that's forever
And this I promise from the heart
I could not love you any better
I love you just the way you are

I don't want clever conversation
I never want to work that hard
I just want someone that I can talk to
I want you just the way you are.

*_*_*_*_*_*_*_*

*_*_*_*_*_*_*_*
*_*_*_*_*_*_*_*

Marina

Dorival Caymmi


Marina, morena
Marina, você se pintou
Marina, você faça tudo
Mas faça um favor
Não pinte esse rosto que eu gosto
Que eu gosto e que é só meu
Marina, você já é bonita
Com o que Deus lhe deu
Me aborreci, me zanguei
Já não posso falar
E quando eu me zango, Marina
Não sei perdoar
Eu já desculpei muita coisa
Você não arranjava outra igual
Desculpe, Marina, morena
Mas eu tô de mal
Marina, morena
Marina, você se pintou
Marina, você faça tudo
Mas faça um favor
Não pinte esse rosto que eu gosto
Que eu gosto e que é só meu
Marina, você já é bonita
Com o que Deus lhe deu
Me aborreci, me zanguei
Já não posso falar
E quando eu me zango, Marina
Não sei perdoar
Eu já desculpei muita coisa
Você não arranjava outra igual
Desculpe, Marina, morena
Mas eu tô de mal
De mal com você
De mal com você.

*_*_*_*_*_*_*_*


Propércio

I,II
QUID iuvat ornato procedere, vita, capillo
et tenuis Coa veste movere sinus,
aut quid Orontea crines perfundere murra,
teque peregrinis vendere muneribus,
naturaeque decus mercato perdere cultu,
nec sinere in propriis membra nitere bonis?
crede mihi, non ulla tuaest medicina figae sponte sua melius,
surgat et in solis formosior arbutus antris,
et sciat indocilis currere lympha vias.
litora nativis praefulgent picta lapillis,
et volucres nulla dulcius arte canunt.
non sic Leucippis succendit Castora Phoebe,
Pollucem cultu non Helaira soror;
non, Idae et cupido quondam discordia Phoebo,
Eueni patriis filia litoribus;
nec Phrygium falso traxit candore maritum
avecta externis Hippodamia rotis:
sed facies aderat nullis obnoxia gemmis,
qualis Apelleis est color in tabulis.
non illis studium fuco conquirere amantes:
illis ampla satis forma pudicitia.
non ego nunc vereor ne sis tibi vilior istis:
uni si qua placet, culta puella sat est;
cum tibi praesertim Phoebus sua carmina donet
Aoniamque libens Calliopea lyram,
unica nec desit iucundis gratia verbis,
omnia quaeque Venus, quaeque Minerva probat.
his tu semper eris nostrae gratissima vitae,
taedia dum miserae sint tibi luxuriae.

1,2
EM QUE te adianta, minha vida, andar com cabelos ornados
e ondular os trajes transparentes de Cós
ou espargir com mirra de Orontes os cabelos
e gabar-te com produtos estrangeiros
e perder a natural graça com luxo comprado
e não deixar brilhar o corpo com seus próprios encantos?
Crê em mim, tua beleza não carece de nenhum cosmético:
o Amor desnudo não gosta das belezas artificiais.
Olha as cores que a bela terra produz,
como as heras brotam melhor espontaneamente,
como a árvore surge mais formosa em solitários antros
e como a água sabe correr por vias não ensinadas.
Os litorais brilham mais, bordados, com seus próprias conchas
e aves cantam mais docemente sem nenhum aprendizado.
Não foi assim que, a filha de Leucipo, Febe, inflamou a Castor;
nem a irmã dela, Hilaíra, com luxo, a Pólux.
Nem foi assim que outrora a filha de Eveno nas margens de um rio,
seu pai, foi motivo de discórdia para Idas e para Febo apaixonado.
Não com falso candor, Hipódame,levada para longe
por carro estrangeiro, atraiu um esposo frígio:
mas, sua face, não sujeita à gema alguma, o fizera
como a cor está presente nas telas de Apeles.
Aquelas se esforçam em conquistar amantes com o vulgo,
Para elas lhes é suficiente a beleza de elegante pudor.
Agora eu não temo que eu seja para ti mais pobre que esses.
Se uma menina agrada a um único, ela é suficientemente adornada.
Quando Febo a ti concede especialmente seus poemas
e Calíope, com prazer, a lira Aônia e
a única graça não abandonou às tuas agradáveis palavras,
Nem tudo, Vênus ou Minerva aprova.
Com essas qualidades, tu sempre serás a mais grata de minha vida,
até que os luxos deploráveis te sejam enfadonhos.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Sphragís - Propércio e Horácio

Ontem, ao postar o comentário sobre o texto do Tostão e o poema do Drummond, citei o recurso poético da sphragís, dizendo apenas que era um selo, uma assinatura ao final dos livros de poesia na Antigüidade Clássica. Hoje proponho dois exemplos: o primeiro e mais famoso, Horácio na Ode 3,30; o segundo, Propércio as elegias 1,21 e 1,22.
No caso de Horácio, ao terminar seu terceiro livro de odes, ele não pretendia escrever mais odes, o que foi contrariado por ele mesmo, algum tempo depois quando publicou o quarto livro de odes. Assim, no último poema, há um inventário de sua poesia que é o seu selo, sua sphragís:

Ode 3,30
Exegi monumentum aere perennius
regalique situ pyramidum altius,
quod non imber edax, non Aquilo impotens
possit diruere aut innumerabilis
annorum series et fuga temporum.
non omnis moriar multaque pars mei
vitabit Libitinam: usque ego postera
crescam laude recens. dum Capitolium
scandet cum tacita virgine pontifex,
dicar, qua violens obstrepit Aufidus
et qua pauper aquae Daunus agrestium
regnavit populorum, ex humili potens
princeps Aeolium carmen ad Italos
deduxisse modos. sume superbiam
quaesitam meritis et mihi Delphica
lauro cinge volens, Melpomene, comam.

Ode 3,30
Eregi obra mais perene que bronze,
Mais alta que pirâmides reais para
Que nem chuva edaz nem Áquilo colérico
Destruir possam ou inumeráveis séries
De anos ou fuga dos tempos. De todo não
Morrerei e mor parte de mim à Libitina
Sobreviverá, sempre e em todo lugar, novo
Renascerei por louvor at~e que o Pontífice
Com tácita virgem Capitólio escale.
Conhecido, onde Áufido violento ruge
E onde Dauno pobre reinou, n’águas, sobre
Campesinos, serei. Eu, de origem humilde,
O primeiro que trouxe canções eólicas
Ao metro itálico. Toma a grandeza por
Mérito obtida e cinge-me a cabeça,
Melpómene, desejando, com délfico louro.


Já Propércio propõe dois selos no final do seu Monobiblos (primeiro livro de elegias). O primeiro selo é um "atestado de óbito"; o segundo selo é uma "certidão de nascimento". Cada um deles segue as regras dos seus sub-gêneros específicos, isto é, o epitáfio e o natalício, respectivamente. Ambos inseridos no gênero maior, a elegia. Entretanto distantes também da temática erótico-amorosa que é o motivo principal da poesia properciana.


XXI
Tu, qui consortem properas evadere casum,
miles ab Etruscis saucius aggeribus,
quid nostro gemitu turgentia lumina torques?
pars ego sum vestrae proxima militiae.
sic te servato possint gaudere parentes,
haec soror acta tuis sentiat e lacrimis:
Gallum per medios ereptum Caesaris enses
effugere ignotas non potuisse manus;
et quaecumque super dispersa invenerit ossa
montibus Etruscis, haec sciat esse mea.


21
Tu que te apressas em escapar do nosso mesmo ocaso,
soldado ferido lá nos montes da Etrúria
por que volves ao meu lamento os olhos túmidos?
Eu mesmo sou parte de teu exército.
Assim, conserva-te para que teus pais se alegrem
e minha irmã não sinta, a partir de tuas lágrimas, o ocorrido.
Galo tendo escapado através das espadas de César
não pôde escapar de desconhecidas mãos
e, quando ela tiver encontrado quaisquer ossos dispersos
nos montes da Etrúria, que saiba que estes são os meus.


XXII
Qualis et unde genus, qui sint mihi, Tulle, Penates,
quaeris pro nostra semper amicitia.
si Perusina tibi patriae sunt nota sepulcra,
Italiae duris funera temporibus,
cum Romana suos egit discordia cives—
sic mihi praecipue, pulvis Etrusca, dolor,
tu proiecta mei perpessa's membra propinqui,
tu nullo miseri contegis ossa solo—
proxima suppositos contingens Umbria campos
me genuit terris fertilis uberibus.

22
Quais Penates, quem sou e d'onde é minha família,
ó Tulo, me perguntas em nome da nossa eterna amizade.
Se tu conheces a Perúgia, sepulcro de minha pátria,
é o luto da Itália em tempos difíceis,
quando a discórdia romana levou seus homens.
Assim, esta é especialmente, ó etrusca terra, dor.
Tu permitiste que os membros de meus parentes fossem espalhados,
tu não cobriste os ossos dos infelizes com terra alguma.
A vizinha Úmbria, que é limítrofe a esses campos,
ela, fértil, gerou-me em terras fartas.

Traduções: Paulo Martins

domingo, 23 de dezembro de 2007

O Jornal e um Drummond

Hoje contrariei uma velha posição recente, que a tivera como séria e irredutível:
Li jornal.
Mas minha insanidade mental não foi além do caderno de esportes de Folha de São Paulo. Afinal, esse é o meu limite para a observação da desgraça alheia e própria.
Que bela surpresa!
O texto de Tostão "Saudade, saudosismo, modernismo" talvez seja dos mais belos da crônica esportiva brasileira, o mesmo vem coroado por um grande Drummond, como que uma sphragís* temática da crônica:

Ausência

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

*_*_*_*_*


*selo ou assinatura. Alguns poetas antigos propunham ao final de suas obras.

Para quem quiser ler a crônica integralmente, eis o link em O Povo, jornal cearense que disponibiliza o conteúdo:

http://www.opovo.com.br/opovo/colunas/tostao/754321.html

sábado, 22 de dezembro de 2007

Safo de Lesbos

Paulo Martins
Tão antiga quanto a própria literatura ocidental, a poesia erótica tem atravessado os séculos tomada ora como subproduto cultural, muitas vezes clandestino, ora como um gênero que desperta aquela reverência um tanto envergonhada diante de textos clássicos – e disso não se escapa quando se trata da Grécia Antiga, pródiga nas manifestações artísticas de uma cultura que valorizava a sensualidade. Fato mais notável (e eventualmente mais constrangedor para alguns) é a constatação de que foi a poesia de uma mulher do século 7º a.C., Safo de Lesbos – cujo nome, sim, deu origem aos termos lesbianismo e safismo –, que tenha inaugurado essa longa e rica tradição.
Não foi muito o que restou de sua obra: a impiedade do tempo nos legou pouquíssimos textos, e nenhum chegou integralmente até nós. O que temos hoje são apenas cacos, ruínas, vestígios de uma poesia inovadora que pode apenas indicar ou sugerir a grandeza dessa poetisa. Fora de catálogo no Brasil durante um certo tempo, ou dispersa em algumas publicações, os fragmentos de sua poesia estão reunidos agora no livro Eros, Tecelão de Mitos, de Joaquim Brasil Fontes. Além dos textos de Safo, a edição se propõe a fazer uma análise extensa e minuciosa, sem precedentes no meio literário nacional –ainda que, no que se refere à tradução, principalmente dos nomes próprios, peque por não seguir a tradição lusófona, o que facilitaria a leitura.
Da vida de Safo, pouco se sabe com certeza. Nascida entre 630 e 612 a.C. na cidade de Mitilene, na ilha de Lesbos, localizada no mar Egeu (na atual costa da Turquia), ela teve, em algum momento, de abandonar a ilha, por razões políticas obscuras, fixando na Sicília, então colônia grega. Ali, diz a tradição, reuniu em torno de si um grupo formado exclusivamente por mulheres, a fim de cultuar, por meio da música e da poesia – indissociáveis na época – em honra de Afrodite, deusa do amor, mãe de Eros, o deus menino que a tradição latina perpetuou com o nome de Cupido.
Foram nesses rituais de celebração do erotismo e da sensualidade que, ao que tudo indica, Safo deu início a esse gênero de poesia que prosperaria, nas mais diversas formas, até os dias de hoje. E não deixa de ser curioso que essa força, própria dos raros momentos históricos que marcam a inauguração de uma arte, tenha sobrevivido por meio de uma “ruína”. A resposta pode ter sido dada por Ezra Pound, que, ao incluí-la em uma antologia, justificou o ato em O ABC da Literatura: “Coloquei o grande nome de Safo na lista por sua antiguidade e porque tão pouco resta de sua obra que tanto se pode lê-la como omiti-la. Se vocês a leram, saberão que não há nada melhor.”
Pound se refere especificamente à ode Poikilothron, uma das mais sensuais de que se tem notícia na história, e é bastante provável que tenha sido a partir dela que tenha nascido a literatura erótica, seja por alusão direta ou, em caso mais incertos, por pura coincidência. Seu erotismo não é evidente, a não ser pelo fato de ter como centro da persona poética a própria Afrodite, mãe do tecelão de mitos, que é colocada num trono de cores e brilhos (o poikilothron) e caracterizada como “urdidora de tramas”. A ela é direcionada a súplica dos amantes, para que o coração do “eu”, que fala na poesia, não seja dobrado diante das mágoas e dores que a deusa urde.
Não tão sutil é a ode Phainetai, na qual Safo representa seu amor como um deus, ao qual atribui dotes sem par – “este teu sorriso que acorda os desejos” – e constrói epifanias do amor como condição física a que está sujeito o apaixonado: “meu coração no peito estremece de pavor no instante em que eu te vejo”; “escorre-me sob a pele uma chama furtiva”; “meus olhos não vêem, meus ouvidos zumbem”, “um frio suor me recobre”; ”estou a um passo da morte”. É digno de lembrança que essa mesma ode irá ser reciclada pelo romano Catulo no século 1o a.C.
No que se refere ao teor homoerótico de sua poesia, um outro fragmento é exemplar: “que morta, sim, eu estivesse:// ela me deixava, entre lágrimas// e lágrimas, dizendo:// “Ah, o nosso amargo destino,// minha Psappha: eu me vou contra a vontade”. Mas atenção: cumpre, aqui, reagir contra a leitura biografista, pois esse tipo de poesia entre os antigos poderia ser ou não reflexo de uma condição vivida pelo poeta, e aquilo que nos informa o texto de Safo pode não ser efetivamente algo de sua própria vida. O que, no entanto, não invalida a amplitude da figuração homossexual.
Mas, se é certo que a poesia de Safo serve longinquamente de modelo da poesia erótica, também é fundamental dizer que ela sobreviveu por meio de outros autores, aqueles mesmos cujas obras reproduziram, reinventando-a, essa mesma tradição – por vezes distante de certo vulgarismo; outras vezes, tão próxima e, mesmo assim, objeto digno da mais elevada literatura. Não é descabido colocar nesse rol pares tão ímpares quanto Safo e Horácio, Propércio e Florbela Espanca, Adélia Prado e John Donne, Paulo Leminsky e Allen Ginsberg, Walt Whitman e Manuel Bandeira, Ovídio e Drummond, autores que primam pela capacidade de traduzir Eros em palavras, apesar de não serem quase nunca autores circunscritos apenas a essa temática nem obrigatoriamente considerados próximos entre si, pois a distinção entre o sensual, o amoroso, o erótico e o fescenino entre eles é clara. Porém vale dizer que, em todos os casos, o deus menino e sua mãe presidem a elaboração poética, e são as suas metamorfoses que alimentam as artes.
Na antiguidade clássica, muita poesia erótica foi escrita, e a tal ponto isto é verdadeiro que se construiu em torno da temática uma preceptiva poética específica para ela, desenvolvendo-se uma gama imensa de subgêneros. Por exemplo, a elegia erótica romana de Ovídio, Propércio e Tibulo é fundamental para o entendimento da produção erótica de poetas clássicos como John Donne (1572-1631) em The Extasie (Aos corpos, finalmente, retornemos, / Descortinando o amor a toda gente;/ Os mistérios do amor, a alma os sente, / porém o corpo é as páginas que lemos.) ou em Elegie: Going to Bed (Deixa que minha mão errante adentre/ Atrás, na frente, em cima, embaixo, entre./ (...) Minha Mina preciosa, meu Império,/ Feliz de quem penetre teu mistério), magistralmente musicada por Péricles Cavalcante, traduzida por Augusto de Campos e gravada por Caetano Veloso no disco Cinema Transcendental.
Mas sempre é bom lembrar que a leitura de textos antigos pressupõe fundamentalmente a separação entre o poeta, historicamente tomado, e o sujeito da enunciação poética. Muitos equívocos de intelecção derivam disso. Portanto, ao lermos Safo, Propércio, Ovídio, ou mesmo, Donne, não podemos confundir a priori sujeito histórico e persona poética. Fato que pode e deve ser desconsiderado quando estamos diante de poetas contemporâneos, pós-românticos e românticos, em cujas obras podem ser observadas características pessoais e idiossincráticas, que são marcas de sua singularidade.
Quando Manuel Bandeira, por exemplo, constrói o belíssimo Água-forte na Lira dos Cinquent’anos, ele dá a dimensão dessa proximidade: “O preto no branco/ O pente na pele:/ Pássaro espalmado/ no céu quase branco.// Em meio ao pente,/ A concha bivalve/ Num mar de escarlata. Concha, rosa ou tâmara?// No escuro recesso,/ As fontes da vida/ A sangrar inúteis/ Por duas feridas.// Tudo bem oculto/ sob as aparências/ Da água-forte simples:/ De face, de flanco,/ O preto no branco.”. Além de recuperar a elocução do cânone da poesia, construindo aquilo que os antigos chamaram de ekphrasis (descrição de uma imagem visual), Bandeira imprime também toda uma história pessoal que não pode ser desconsiderada: na sua poesia a impossibilidade da concretização do amor e a sublimação do sexo são evidentes. Isso sem contar a simplicidade compositiva que é pedra de toque nessa grande obra, desmitificando a própria linguagem e a associando à sua própria simplicidade, num jogo de xadrez cujos sujeitos são vida e poesia.
Falar de amor e sexo é falar da própria humanidade. Na antiguidade, ela era o reflexo da condição humana que deveria ser observada na poesia como algo possível, necessário e inevitável; nos tempos atuais, como retrato de uma condição individual que alavanca o “eu poético e histórico” para o cerne da representação e, portanto, para o centro da existência. No caso de Eros, Tecelão de Mitos, essas duas vertentes estão presentes. A primeira parte do ponto arquetípico que é a própria obra, hoje fragmentária, da poetisa de Lesbos; e outra que nasce da preocupação do autor em buscar na modernidade a decifração do tema como condição de vida. Assim Eros – e não as Parcas, as senhoras dos destinos do homem – é que tece a vida. A vida como mito, como discurso que representa a condição universal do homem que, hedonicamente, sobrevive, mesmo diante das agruras que vida impõe e diante dos prazeres que o texto e o amor proporcionam.