sexta-feira, 29 de agosto de 2008

20.000

É com prazer que informo

que o Blog Letras & Artes chegou

à marca de 20.000

acessos, às 18:36h do

dia 29 de agosto de 2008,

a contar de 08/06/2007.

Marco Aurélio: Nova Descoberta Arqueológica na Turquia

Cabeça foi encontrada em ruínas de termas romanas na Turquia


Paul Rincon
Da BBC News

Arqueólogos desenterraram na Turquia partes de uma estátua gigante do imperador romano Marco Aurélio.

Os especialistas encontraram a cabeça, o braço direito e partes inferiores das pernas da estátua em um sítio arqueológico na antiga cidade de Sagalassos, no sudoeste do país.

Foi no mesmo local que a equipe liderada pelo arqueólogo Marc Waelkens, da Universidade Católica de Leuven, na Bélgica, encontrou, há pouco mais de duas semanas, a cabeça de uma estátua da imperatriz Faustina, a Velha.

No ano passado, os arqueólogos já haviam encontrado em Sagalassos uma estátua gigante do imperado Adriano.

Os pesquisadores acreditam que o local onde as estátuas estavam reunidas era provavelmente um frigidário, uma sala enorme com uma piscina de água fria, onde romanos se banhavam após mergulhar nas termas.

O sítio arqueológico faz parte de um complexo de termas romanas que está sendo cuidadosamente escavado pelos especialistas há 12 anos. O local teria sido atingido por um terremoto entre os anos 540 e 620 d.C., destruindo muitas estátuas.

Reprodução fiel

Os fragmentos da estátua de Marco Aurélio começaram a ser desenterrados no dia 20 de agosto, quando os arqueólogos encontraram um par de pernas quebradas na altura do joelho. Em seguida, acharam um braço direito com 1,5 metro de comprimento, cuja mão segurava um globo terrestre.

Mas foi ao encontrar a enorme cabeça de mármore que os pesquisadores identificaram a estátua como sendo de Marco Aurélio.

Marc Waelkens disse que a peça é uma das reproduções mais fiéis do imperador, que reinou do ano 161 d.C a 180d.C.

Marco Aurélio é lembrado por suas escrituras e já chegou a ser considerado mais como "um filósofo do que um soldado".

Mas apesar de sua paixão por filosofia, ele passou boa parte de seu reinado lutando contra tribos germânicas ao longo do rio Danúbio, na Áustria, onde morreu em 180 d.C.

Em 2000, o ator Richard Harris fez o papel de Marco Aurélio no filme O Gladiador.

Junto com Nerva, Trajano, Adriano e Antonio Pio, Marco Aurélio foi um dos "Cinco Bons Imperadores" de Roma.

Em geral, as administrações desses imperadores foi marcada por relativa paz e prosperidade política, militar e econômica.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Hora e Vez do Choro Olímpico

Por Paulo Martins


"skiás ónar ánthropos"

"O homem é a sombra de um sonho"
Píndaro


Os Jogos são a dimensão humana dos deuses. Neles, nos jogos, os homens sonham atingir os limites humanos e, se possível, superá-los, emulando com próprios deuses. Esses, sim, capazes de realizar tarefas inimagináveis. “Mais alto, mais forte e mais rápido” (altius, fortius, citius), lema olímpico, cunhado por Henri Martin já na modernidade, impõe aos atletas olímpicos uma responsabilidade superlativa.

A atual medalha olímpica comporta a deusa Vitória, em grego Niké – note-se o acento agudo no “e”, o que a distancia da “marca”, para não dizer, do real símbolo moderno dos Jogos. Ela, a Vitória, em sua representação antiga e mais comum era conduzida por Palas Atena, a deusa da sabedoria, da guerra, do discernimento... Sua antípoda era Týche, divindade do Acaso, do Inelutável, daquilo que não depende de nós e apenas, da espera, da possibilidade ... do “quem sabe?”. Ela portava uma cornucópia e um timão que simbolizavam ao mesmo tempo, a fartura e a condução da vida humana, respectivamente. Não por acaso tinha seus olhos vendados, pois seus desígnios eram distribuídos aleatoriamente.




Niké de Éfeso

Assistindo, como boa parte dos brasileiros, aos Jogos Olímpicos de Pequim e ao seu final, notei que o Brasil não é profícuo em atletas regidos pela deusa parceira da sabedoria, antes são norteados pelas benesses de Týche. Foi assim com Jade, Hypolito, Murer, Derly e Larissa. Assim também, com o basquete feminino que joga só bem, mas não vence, com o Vai Thiago, que só vai no Brasil, com o handball, com o salto triplo de Jardel, com a calamidade institucional do boxe olímpico e do levantamento de peso. Não me venham dizer que estar nas quartas ou oitavas de final é bom ou que o que interessa é competir..., pois, ao atleta, que é considerado "de alto rendimento", o que realmente vale é o pódio.



A triste queda de Hypolito - Foto de Marcelo Pereira/Terra

Mas por que somos regidos pelo Acaso, por Týche? A resposta é imediata. Não há sabedoria esportiva no Brasil. De um lado, para sermos vencedores e, portanto, ligados a Niké, necessitamos de atitude de vencedores e essa não nasce conosco, ela deve ser cultivada e cultuada e, para isso, os exemplos se avolumam a cada Olimpíada, basta olharmos para Phelps, para Bolt, para Cielo... De outro, precisamos de gestores esportivos que realmente desejem que os atletas sejam vencedores e não eles mesmos, os ganhadores. Necessitamos de uma política de esporte e não de políticos no esporte. Não precisamos de Nuzmans, de Orlandos, de Teixeiras, aliás, não lhes queremos. Do que precisamos e o que queremos? Escolas públicas de ensino fundamental e médio que garantam a prática sistemática do esporte. Espaços públicos dedicados a ele e para todos que o desejem.


Týche

Jade: duas quedas - Foto: Marcelo Pereira/Terra

Note-se que em alguns esportes isso já acontece. Não há como negar que nossa tendência à Vitória no vôlei masculino e feminino (indoor ou areia) e, a partir dessa Olimpíada, no Cielo que não é do Brasil, é dos Cielo, no futebol feminino que contra todos (con)vence, no Scheidt, o amigo dos ventos, na Maggi, de pés alados, e de outros poucos que aprenderam a ser devotos da deusa que interessa e dar pouca atenção àqueles que querem usar seus feitos para promoção política e econômica.



Maggi de pés alados - Foto: Marcelo Pereira/Terra

Cielo dos Cielos - Foto: Getty Images

Não quero aqui desmerecer o trabalho, o esforço, a dedicação de todos esses atletas brasileiros, antes desejo externar que a expectativa criada em torno deles é desmesurada se observadas as reais condições de suas habilidades no concerto mundial dos esportes. Digo que parte da mídia, mormente a Vênus prateada, é campeã em “vender” certa possibilidade de desempenho que não corresponde à realidade concreta. Digo que certos atletas, mesmo com condições de desempenhar bom papel, não são formados dentro de uma cultura vencedora. Digo que a cartolagem e os governantes não estão preocupados com o esporte de base. E diante disso, no Brasil, não somos regidos por Niké, mas por Týche.

As Bucólicas de Virgílio

“Phyllidis hic idem teneraeque Amaryllidis ignes
bucolicis iuvenis luserat ante modis.”

“Aquele mesmo, ainda rapaz, cantara os ardores de Fílis
e da tenra Amarílis, em versos bucólicos.”
Ovídio, Tristia 2, 537-8




Por Paulo Martins
Nas aulas de Literatura muitas vezes o professor, ao falar acerca do Arcadismo, propõe como uma das características desse estilo de época “o bucolismo” (boukólikos em grego significa algo relativo a bóus – boi), associado a duas expressões latinas: locus amoenus (lugar aprazível) e fugere urbem (fugir da cidade). Assim a poesia árcade, cuja essencialidade está centrada na retomada de valores “estético-literários” da Antigüidade Clássica greco-romana, torna-se mais clara e óbvia para os leitores contemporâneos pelo simples motivo de revelar certos preceitos nomeados numa língua extinta, o latim.

Contudo, a simples citação dessas características soa como receita ou etiqueta vazia de conteúdo, porquanto estão absolutamente descontextualizadas de sua origem: o mundo antigo greco-latino. Em que se pese aqui o seu caráter romântico, isto também pode ser observado na música erudita, se observamos a 6ª Sinfonia de Beethoven, A Pastoral (1808), pois temos uma divisão assim proposta: “Despertar de sentimentos alegres diante da chegada ao campo” (1º Movimento), “Cena à beira de um regato” (2º Movimento), “Dança campestre” (3º Movimento), “A tempestade” (4º Movimento) e “Hino de ação de graças dos pastores, após a tempestade” (5º Movimento). Notemos que o compositor nada mais fez do que relacionar os conceitos literários antigos (locus amoenus/fugere urbem) à vida pastoral.


Beethoven por Karl Joseph Stieler - 1820

Tais referências, entretanto, não são uma exclusividade desse professor de Literatura/Música, antes assolam também descontextualizadas e, talvez, com maior freqüência, ao professor de História quando trata desse mesmo período (o século XVIII), propondo culturalmente a relevância das Academias que surgem nesse período, ou ainda, quando observa a Inconfidência Mineira e fala do lema dos inconfidentes: libertas quae sera tamen (liberdade ainda que tardia).

Certamente, a vida seria mais simples aos professores de Literatura e de História se mostrassem que o século XVIII, antes de ser devedor do Mundo Clássico Antigo como um todo (e vale dizer que esse espectro temporal é vastíssimo, pois vai, pelo menos, do século IX a.C. ao século V d.C.) é, sim, calcado fundamentalmente em uma obra do mundo latino: As Bucólicas de Virgílio - autor d’A Eneida (Discutindo Literatura, 7 – março de 2006) e d’As Geórgicas. Essa obra se constitui como marco diferenciado da Antigüidade, pois que poucos foram os autores que se dedicaram a esse gênero específico. Nesse sentido, daquilo que nos restou do mundo antigo temos cronologicamente: Teócrito de Siracusa (310 – 250 a.C.), Virgílio (70 -19 a.C.) e Calpúrnio Sículo (século I d.C.). Entretanto a despeito da exigüidade de textos, o gênero “bucólico”, metonímica e tematicamente, tornou-se referência da “simplicidade” na literatura naquilo que ela se opõe à grandiloqüência.

As Bucólicas são compostas de dez poemas, escritos em hexâmetros, curiosamente o mesmo verso da poesia épica (seja de Homero, seja do próprio Virgílio). Digo que isso é curioso porque se o gênero bucólico é “humilde” (genus humile), formalmente, deveria se esperar um tipo de verso distinto daquele da elevação épica (genus altum).

Por seu turno, cada uma das bucólicas recebe o nome de écloga ou idílio (do grego eidón/imagem, eidýllion é um pequeno quadro) e tais termos referem-se basicamente à brevidade das cenas por eles descritas, assim As Bucólicas são, antes de tudo, o registro de pequenos quadros cujo motivo primeiro é a vida simples dos campesinos, dos pastores e pastoras em seu ambiente natural. Daí o próprio Beethoven ter chamado a atenção para o fato de ser sua sinfonia uma pintura, uma fantasia sobre a qual a audiência deveria imaginar cenas como que se a música pintasse um quadro.

Sob o aspecto da forma, os dez poemas, cuja extensão varia de 63a 110 versos, são marcados por uma regularidade estrutural diferenciada, isto é, os poemas ímpares são dialógicos, enquanto os pares são monólogos. Os diálogos são levados a termo por pastores de nomes gregos, propostos intertextualmente numa referência a Teócrito de Siracusa, e assim temos: Títiro e Melibeu (1ª écloga), Menalcas e Dametas (3ª écloga), Menalcas e Mopso (5ª écloga), Melibeu e Córidon (7ª écloga) e Lícidas e Méris (9ª écloga). A citação de Teócrito fica mais explicita quando na 4ª écloga, Virgílio propõe: “Ó Musas da Sicília, erga-se um pouco o nosso tom//nem todos prezam o arvoredo e os baixos tamarizes; //cantamos selvas; selvas sejam, pois, dignas de um cônsul” (Trad.: Péricles Eugênio da Silva Ramos). Vale lembrar que Siracusa é uma cidade da Sicília.

Do ponto de vista da elaboração da obra, um dos primeiros comentadores de Virgílio, Mauro Sérvio Honorato no século IV, assevera: “Sua principal qualidade, por seu turno, é, naturalmente o caráter humilde. De fato, dos três caracteres existentes: humilde, médio e grandiloqüente - encontramos todos eles no poeta. Porque, na Eneida, há o grandiloqüente; nas Geórgicas, o médio; e nas Bucólicas, o humilde conforme a qualidade dos temas e das personagens, pois, nesta obra elas são rústicas e estão satisfeitas com a simplicidade e às quais nada de elevado deve ser exigido.” (Trad.: Paulo Martins) São também antigos os comentários sobre a motivação de Virgílio para escrever As Bucólicas, Hélio Donato (século IV) diz que o poeta primeiro trata dos campos in natura (Bucólicas), depois do seu manejo (Geórgicas) e mais tarde dos feitos humanos na terra (Eneida). Tal ordem segundo ele vai de encontro ao interesse do poeta: “ele cantou primeiro os pastores; depois, os agricultores e, por último, os guerreiros”.

A natureza, em seu estado não-latente, portanto óbvio, e a vida que ela proporciona é o leitmotiv da obra. Melibeu na 1ª écloga diz: “Ó Títiro, deitado à sombra de uma vasta faia,//aplicas-te à silvestre musa com uma frauta leve;//nós o solo da pátria e os doces campos nós deixamos;//nós a pátria fugimos (patriam fugimus); tu, na sombra vagaroso,// fazes a selva ecoar o nome de Amarílis bela.” (Trad.: P. E. da S. R.) O que temos nesses primeiros cinco versos no diálogo entre Melibeu e Títiro é o programa da obra: Primeiro, o pastor despreocupado deitado sob uma vasta árvore. Segundo, sua aplicação na flauta suave, leve, logo, humilde. Terceiro, o abandono do campo. Assim, o lugar-comum do fugere urbem é apresentado pelo avesso. Por último, além da função de produzir, Títiro ocupa-se em louvar Amarílis, produzindo uma relação entre a vida campestre e a amorosa, que tão bem foi emulada por Tomás Antônio Gonzaga em Marília de Dirceu. Vale observar aqui o anagrama quase perfeito: Amarílis/Marília.

Já o lema, que está ainda hoje presente na bandeira de Minas Gerais, foi deslocado e descontextualizado, uma vez que na origem, isto é, na 1ª écloga, assim aparece: “A liberdade que me viu ocioso, tarde embora,//quando, ao fazer a barba, esta caía já mais branca”. Assim os Inconfidentes deslocaram apenas parte do verso 27 para um contexto essencialmente político que não havia no texto virgiliano, além de romper com a estrutura sintática do período, soando sem nexo para aqueles que conhecem a língua latina.

Entretanto a écloga mais famosa entre as dez é indubitavelmente a 4ª. A tradição a chama de “Pólio”, nome daquele a quem Virgílio dirige os versos. Essa, que por muito tempo associou-se ao nascimento do cristianismo por tratar de um novo tempo, uma nova idade de ouro trazida pelas mãos de um menino, tem, sim, função política e não religiosa, celebrando a paz de Brundísio entre os discordes do 2º triunvirato (Marco Antônio e Otávio). Virgílio dessa forma vaza o poema com temas elevados, portanto distantes do gênero humilde, conforme as regras estabelecidas para os Idílios, entretanto são magistrais seus versos finais:

Já logo será tempo, marcha para as grandes honras,
Cara prole dos deuses, grande filho, tu, de Júpiter!
Vê como estão de acordo o mundo de pesada abóboda
E as terras todas, e a extensão do mar, e o céu profundo!
Vê como, com os séculos por vir, tudo se alegra.
A última parte desta vida seja-me tão longa,
Que para te dizer os feitos não me falte o alento!
O trácio Orfeu não poderá vencer-me nestes cantos,
Nem Lino, ainda que a Orfeu a mãe Calíope socorra
E por seu turno a Lino dê assistência o belo Apolo.
Se competir comigo o próprio Pã, por juiz a Arcádia,
Dar-se-á por vencido o próprio Pã, por juiz a Arcádia.
Começa, criança, a conhecer a própria mãe com teu sorriso;
Dez meses retiveram tua mãe em longo enfado.
Começa, criança: aquele que não ri à própria mãe
A mesa não terá de um deus, o leito de uma deusa.”

(trad.: P.E. da S. Ramos)

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Pós-graduação em Letras Clássicas - USP

Serão abertas incrições para Pós-graduação em Letras Clássicas - USP/FFLCH a partir de 18/08/2008.

Confira o Edital: http://www.fflch.usp.br/pos/editais/LetrasClassicaOK.htm

domingo, 10 de agosto de 2008

ATLÂNTIDA - PEQUENA HISTÓRIA DE UM MITO PLATÔNICO


AUTOR: VIDAL-NAQUET, PIERRE

SINOPSE:

Este livro explora as origens do mito da Atlântida, com Platão, e seus desdobramentos na Antiguidade greco-romana e bizantina, na Renascença e na Idade Moderna. Vidal-Naquet consegue uma proeza pouco comum: ser erudito e agradável, mostrar domínio da História antiga, moderna e contemporânea, analisar documentos e esclarecer suas conexões com a política e o imaginário social. Apresenta, ainda, um conjunto fascinante de imagens, assim como passagens de inúmeros autores, traduzidos e comentados. As percepções populares mesclam-se às abordagens científicas, em um caleidoscópio original e sempre em mutação. Vidal-Naquet mostra, de forma magistral, como se formam os mitos e como continuam a ocupar lugar de destaque em nossa época.

ORELHAS:

Pierre Vidal-Naquet, o grande historiador francês do último meio século, volta-se, em Atlântida, para esse mito secular e persistente na História do ocidente. Surgida como uma historieta, em Platão (424-347 a.C.), Atlântida teve uma trajetória insuspeitada pelo filósofo grego e tornou-se um tema recorrente nos séculos posteriores. Já na Antigüidade, foi retomada por autores gregos e latinos, mas foram os modernos que contribuíram para difundir uma miríade de interpretações da misteriosa ilha. Com a chegada dos europeus à América, multiplicaram-se as imagens. O Iluminismo irá debruçar-se sobre o mundo, e Atlântida também serviu para contestar a visão histórica cristã. Desta forma, um mito esteve a serviço da ciência. À luz da Guerra do Peloponeso, de Tucídides (século V a.C.), a leitura de Platão pôde mostrar a sofisticação de uma interpretação política do mito. Era da vida política que tratava Atlântida, uma metáfora das relações de poder. A grande virada aconteceu no final do século XVIII e na primeira metade do século XIX, que resultaria na transformação da atlantomania de mito em romance. O nacionalismo não hesitaria em abusar da ilha imaginária e mesmo o nazismo fez uso pseudocientífico de Atlântida, para os fins mais opressivos. Vidal-Naquet consegue uma proeza pouco comum: ser erudito e agradável, mostrar domínio da História antiga, moderna e contemporânea, analisar documentos e esclarecer suas conexões com a política e o imaginário social. Apresenta, ainda, um conjunto fascinante de imagens, assim como passagens de inúmeros autores, traduzidos e comentados. As percepções populares mesclam-se às abordagens científicas, em um caleidoscópio original e sempre em mutação. Vidal-Naquet mostra, de forma magistral, como se formam os mitos e como continuam a ocupar lugar de destaque em nossa época.

Pedro Paulo A. Funari

Professor-titular do Departamento de História da Unicamp

coordenador do Núcleo de Estudos Estratégicos (NEE/Unicamp)

Quarta capa:

"Um dos maiores intelectuais franceses de nosso tempo". Jean-Pierre Vernant "Colocando de lado todos os delírios, Pierre Vidal-Naquet devolve a Platão seu mito da Atlântida" Lire "Um dos fundadores da nova escola francesa de história da Antigüidade grega" The Independent Sobre o autor Pierre Emmanuel Vidal-Naquet (1930 -2006) foi professor da École des Hautes Études en Sciences Sociales e diretor do Centre Louis Gernet, fundado por Jean-Pierre Vernant. Escreveu inúmeras obras sobre a Grécia antiga e sobre História contemporânea, em especial sobre a guerra da Argélia e sobre o revisionismo.

SUMÁRIO:

Agradecimentos

Introdução

1 No princípio era Platão

2 Antigas Atlântidas

3 O retorno dos atlantes (1485-1710)

4 Luzes da Atlântida (1680-1786)

5 A grande virada (1786-1841)

6 É necessário que a nação seja aberta ou fechada

7 Interlúdio: notas sem música

8 A água, a terra e os sonhos

Referências bibliográficas

Índice onomástico

Apêndices

sábado, 9 de agosto de 2008

Site sobre os Jogos Olímpicos na Antigüidade


Por ocasião da abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim - 2008 ontem dia 8 de Agosto, o departamento de História Antiga da Universidade de Leuven (Bélgica) publica um site dedicado aos Jogos Olímpicos na Antigüidade Clássica.

Lançamento de Livro organizado pelo Prof. Luiz Marques

Luiz Marques (org.) - A Fábrica do Antigo. Campinas: Ed.
Unicamp. 2008.
Dia 13 de Agosto - Livraria Cultura - Loja de Artes - Conjunto
Nacional - Av. Paulista - às 19:00h

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Tempo e Idade

Paulo Martins


“Breves sunt dies hominis... sola Aeternitas longa”
“Breves são os dias dos homens ... apenas a eternidade é longa”


Talvez o tempo seja a criação mais instigante e curiosa da raça humana. Conceito complexo e interessante que incessantemente não pára de ser reciclado e re-observado pelas mais diversas áreas do conhecimento. Da Filosofia à Física. Da Gramática à Astronomia. Da Culinária à Poesia. Contudo, poucos são aqueles que atentam que a Língua e mais precisamente o estudo dos étimos trans-historicamente nos oferece diversos e variados matizes do termo, associando-lhe nomes específicos e aplicações práticas próprias igualmente específicas. Bom exemplo disso, entretanto, ocorre não no Português, mas no Inglês, afinal nenhum falante dessa língua teria dúvidas em distinguir tense e time. Enquanto o primeiro nomeia o tempo verbal, que toma como referência o momento da enunciação, o segundo se ocupa do conceito abstrato e relativo que é traduzido pelo primeiro lingüisticamente.

Apesar de não encontrarmos em Português tal especificidade, temos, assim como eles, falantes do Inglês, nuanças várias do conceito que, vez por outra, são empregadas de maneira indistinta e pouco atenta. Penso, por exemplo, em dois conceitos temporais: tempo e idade. Antes, contudo, de tratá-los com vagar sob a ótica lingüística da diacronia, poderíamos pensá-lo, o tempo, de forma mais geral.

Na Antigüidade Clássica greco-romana, abundam exemplos dessa sistemática reciclagem e re-observação do conceito. Desde os pré-socráticos, Parmênides (530 – 460 a.C.) e Zenão de Eléia (495 - 430 a.C.), até Santo Agostinho (354 – 430 d.C.) já nas portas da Idade Média, encontram-se filósofos que, com muita habilidade e, por vezes, com pouca clareza, ousam desvelar seus segredos e mistérios.

Para Platão (427 - 348 a.C.), por exemplo, o tempo não é um conceito verdadeiro, pois que apenas participa do mundo sensível, aquele em que as coisas são mutáveis, mediadas que são pelos mortais, agentes, portanto, do “não-ser”. A despeito de sua origem cosmológica, o tempo teria nascido, pois, da organização do caos, ele subsiste graças às sensações inerentes a cada pessoa, distante, assim, de uma Verdade absoluta.

Seu discípulo, Aristóteles (384 - 322 a.C.), por seu turno, em momento algum discordando da natureza essencialmente humana do tempo, vai adiante e propõe a estreita relação entre o tempo e o movimento, daí jamais ser possível sua desvinculação do “antes”, do “agora” e do “depois”, marcadores que estabelecem mentalmente a medida do movimento. Dessa maneira, já que as noções de passado, presente e futuro são compreensíveis apenas do ponto de vista da subjetividade humana, a própria condição de entidade real e autônoma do tempo é posta em xeque.

Certo é que essa noção antiga do tempo, como fenômeno subjetivo e cíclico, encontra guarida também, em certa medida, na própria natureza, uma vez que não há como se negar a existência das marés, das estações, dos ciclos lunares e dos dias que sucedem as noites.

Entretanto, ainda na Antigüidade, nós encontramos, entre os hebreus e zoroastritas – representantes da “antiga religião persa fundada no século VII a.C. por Zoroastro, caracterizada pelo dualismo ético, cósmico e teogônico” –, um outro sentido do tempo: o linear e absoluto, calcado assim em eventos únicos e que, portanto, não se repetem. Essa possibilidade foi incorporada por uma ética judaico-cristão-mulçumana que toma um evento único como marco divisório e estabelece relação com os marcadores aristotélicos do movimento (antes, agora e depois). Assim temos o êxodo do Egito, a crucificação de Cristo, a migração de Maomé de Meca para Medina, marcadores essenciais aos seus respectivos calendários.

Parece, pois, inegável que essas duas vertentes do tempo coexistiram e coexistem no mundo moderno, porém ambas estão sujeitas à mesma rubrica: o tempo. Contudo, parece-me que algumas Línguas, entre as quais o Português, podem bem distinguir essas formas de pensar.
A palavra tempo tem origem na palavra “tempus” latina cuja origem é a mesma do verbo “témno” grego que significa fracionar, cortar. Assim o termo que hoje usamos em expressões como “perder e ganhar tempo” ou “tempo da colheita” deveria apenas ser utilizado quando a medida fosse absolutamente mensurada e determinada por um limite fracionado. Sob aspecto estético, poder-se-ia dizer que, por ser o tempo sempre limitado e, portanto, jamais contínuo, ele seria o tempo da poesia lírica, pois aquilo que ela observa sempre é diminuto, afinal ela é expressão do hic et nunc (do aqui e do agora). Por ser o tempo sempre limitado, ele corresponde no plano do conteúdo àquilo que é findável e não perene - efêmero. O tempo, em que se pese aqui o paradoxo, é absolutamente humano. Daí ser tão suscetível à “efusão lírica”.

O tempo em decorrência do proposto ainda repercute a melancolia, uma vez que, por ser limitado e humano, “escorre pelas mãos”, “voa” e “não volta”. Daí a incapacidade humana em geri-lo adequadamente.

Por outro lado, a idade (de aetas do latim), palavra cognata do advérbio aei grego, cujo significado é "sempre", dá conta de uma outra modalidade ou dimensão do tempo e esse é ilimitado, incontável, infinito, daí a palavra aeternitas (eternidade). Ela, aetas, é o tempo do mito, do herói, do deus e, por isso, filia-se aos gêneros literários cujos objetos da imitação são os homens superiores e não os homens como nós (com toda licença de Aristóteles). Assim, enquanto o tempo humano é efêmero, como vimos, a idade e a eternidade são perenes e divinos. Daí ser seguramente o tempo do Torá, da Bíblia e do Alcorão. Dessa maneira, enquanto a efemeridade da vida tem acolhimento no tempus, a perenidade da obra possui estreita relação com a aetas. Portanto, o nosso tempo e o tempo dos deuses são absolutamente distintos.

Horácio talvez seja o poeta, entre os romanos antigos, que mais tenha se dedicado ao tema/lugar-comum da efemeridade da vida, consciência de nossa incapacidade e fruto de nossa melancolia. Suas odes, assim como a poesia lírica como um todo, são reflexos dessa limitação humana, essencialmente humana. Não é por outro motivo que estão localizadas no universo do aqui e agora. Esse é um lugar-comum que tem larga difusão nas práticas poéticas da Antigüidade. Já o encontramos em Homero (séc. IX a.C.), em Mimnerno (630 – 600 a.C.) além de outros. Porém a precisão e a delicadeza helenística de Horácio saltam aos olhos nesta ode:

4,7
Dissolveram-se neves, já vergéis retornam
Aos campos e às árvores comas;
Mudam vezes a terra e às margens tornam
Descendentes os regatos
A Graça com Ninfas e com gêmeas irmãs
Ousa nua conduzir coros.
Vida eterna não esperes, ano e hora que rapta
Dia propício advertem.
Frios abrandam com Zéfiros, verão suplanta
Vera até que morto esteja;
Logo outono pomífero trará frutos e
Reviverá inverno sem pomos.
Luas céleres recuperam celestes danos
Quando, então, nós descemos
Onde estão Enéias pai, rico Tulo, Anco
E somos pó e sombra apenas.
Quem sabe se súperos somam ao todo,
De amanhãs um intervalo?
O que terás dado com ânimo amigo,
De ávido herdeiro fugirá.
Quando tiveres morrido e Minos tiver
Feito de ti juízo notável,
Nem estirpe, Torquato, nem fluência, nem
Piedade te darão vida;
Pois nem Diana livra de atroz inferno
Seu casto Hipólito,
Nem Teseu é forte para romper oblívios
Vínculos do caro Pirítoo.
Tradução: Paulo Martins

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Literatura Latina: Historiografia

Programa da Disciplina
FLC1256 - Literatura Latina: Historiografia
3a Feira - Matutino e Noturno
Docente Responsável: Paulo Martins

Aula 1 - Apresentação do Curso
Aula 2 - O Nascimento da História – Tucídides x Homero – O sujeito da Enunciação Histórica
Aula 3 - A História sob a perspectiva de Tito-Lívio
Aula 4 - O Lugar do Historiador
Aula 5 - A História em Roma segundo Quintiliano e Cícero
Aula 6 - A História Antiga (re)visitada pelos modernos: Veyne, Salles, White
Aula 7 - Gêneros Historiográficos em Roma I
Aula 8 - Gêneros Historiográficos em Roma II
Aula 9 - Tipos e Estrutura de Relato e de Narrativa Históricos
Aula 10 - Salústio – A Conjuração de Catilina
Aula 11 - Salústio – A Guerra de Jugurta
Aula 13 - Cícero – Epístola a Luceio – Ad. Fam. 5,12
Aula 14 - As Vidas – Suetônio, Tácito e Plutarco
Aula 15 - Os Comentarii de César
Aula 16 - Res Gestae de Augusto

domingo, 3 de agosto de 2008

Elegia Latina - FLC0257 - FFLCH/USP

Literatura Latina: Elegia - Programação da Disciplina FLC0257
Docente Responsável: Paulo Martins
3a Feira - Matutino e Noturno

Aula 01 – Apresentação do Curso
Aula 02 – Esquema Métrico e Prosódia e Concepções do Gênero: Moderna e Contemporânea
Aula 03 – Fontes primárias 1
Aula 04 – Fontes primárias 2
Aula 05 – Fontes Primárias 3
Aula 06 – Antecedentes Gregos
Aula 07 – Catulo: Os neotéricos e a poética alexandrina
Aula 08 – Cornélio Galo e Antecessores: Calímaco, Euforião. Elegia, Bucólica e Epílio
Aula 09 – Propércio 1
Aula 10 – Propércio 2 – Poética, ética, moral e Augusto
Aula 11 – Ovídio 1 – Metaliguagem
Aula 12 – Ovídio 2 – Epístola e Elegia
Aula 13 – Ovídio 3 – O gênero e o feminino
Aula 14 – Tibulo – Elegia e Idílio
Aula 15 – Tradição Moderna e Contemporânea – Camões, John Donne, Goethe, Drummond e Vinícius

Nova Exposição no Museu Britânico a partir de 13 de Novembro


Babylon was the greatest city of ancient Iraq, and its name and image have endured throughout history with amazing vigour. This fascinating exhibition will explore both the archaeology of the city at its height during the reign of King Nebuchadnezzar II (605–562 BC), and the wealth of later art and legend that Babylon has engendered.

Babylon will reveal major archaeological finds, such as the city’s vivid lion reliefs and spectacular architecture, shedding light on the ancient city. At the same time the exhibition will explore our own myths and traditions about the city – such as the Tower of Babel and the Hanging Gardens – to uncover their origins and how we know about them.

Babylon’s reputation in all its richness inspired artists and poets as well as explorers and archaeologists. The scope of this exhibition represents something new for the Museum, and allows us to include oil paintings, prints and contemporary art displayed side by side with ancient sculptures and cuneiform texts written on clay tablets.

The exhibition will conclude with Babylon’s reinvention as a state icon and a consideration of its tragic recent history, including its subjection to damage through conflict.

A catalogue and gift book will accompany the exhibition. There will also be a broad programme of related events including lectures, film and storytelling.
Babylon follows related but independent exhibitions in Paris and Berlin organised by the Réunion des Musées Nationaux and the Staatliche Museen zu Berlin. The project is made possible by close scholarly collaboration and many loans between the British Museum, the Musée du Louvre and the Vorderasiatisches Museum, Berlin.
Image caption: Glazed brick relief of a lion from Babylon's Processional Way. Reign of King Nebuchadnezzar II (605–562 BC).

On loan from the musée du Louvre, Paris. © Photo RMN / Franck Raux.