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sábado, 21 de junho de 2008

Armas e Varões

CORRÊA, PAULA DA CUNHA - Armas e Varões. A guerra na Lírica de Arquíloco. São Paulo: Editora Unesp. 1998. 363 páginas.

Paulo Martins

Na Antigüidade Clássica, há determinados textos que são considerados inaugurais, protótipos, iniciais. Isto é, a partir deles somam-se outros tantos, apropriando-se de seus motivos, valendo-se de seus temas e, fundamentalmente, seguindo seus gêneros. Não foi de outra forma que Homero e Hesíodo tornaram-se monumentos sobre os quais a cultura clássica se sedimentou e se alastrou pelo ocidente, dando origem ao que se convencionou chamar civilizações mediterrâneas.

Assim, Platão n’A República, em que se pese a crítica e conseqüente exclusão do poeta e da poesia de sua cidade perfeita, ainda, estabelece que “este poeta ensinou a Hélade”. E Hesíodo, ainda hoje, é manancial didático-poético dessa mesma cultura tanto no que se refere ao mundo cotidiano (Os trabalhos e os dias) como no que se refere ao mundo religioso (A teogonia).

Contudo, pouco se fala daqueles poetas e respectivas obras que, no rastro dos dois anteriores, foram fundadores de um gênero poético muito caro nos dias atuais: o lírico. Ou seja, muito embora a épica homérica esteja na base de todas as práticas letradas ou composicionais gregas, outras fontes devem ser consideradas a fim de que se produza certo reconhecimento genérico da poesia lírica. Arquíloco de Paros é uma destas.

Poeta, que viveu na Grécia no período arcaico (VII a.C.), é depositário de uma série de lugares (tópoi, loci communes) que, posteriormente, se repetiram na dita literatura clássica, firmando determinados gêneros e servindo de êmulo para outros tantos poetas, dentre os quais destaca-se, e.g., Horácio.

Uma característica observável neste poeta é sua habilidade métrica, que desponta em seus poemas elegíacos, jâmbicos e trocaicos, que, por sua vez, mesclados às variados modos de expressão poética, firmam uma série de temas como a guerra, a invectiva, o convivial e o simposiático, perpetrando, originariamente, gêneros e sub-gêneros líricos. Talvez, tal dado tenha ampliado o leque desse tipo de composição, firmando, o material poético prévio que determinou a formatação de preceptivas poéticas e retóricas a partir do século V a.C..

Paula Corrêa, professora de língua e literatura grega na FFLCH/USP, acaba de lançar o livro Armas e Varões: A guerra na lírica de Arquíloco (sua tese de doutoramento) no qual recupera o percurso poético de Arquíloco e institui, na verdade, aquilo que pode ser chamado de uma poética da lírica arcaica, mesmo se considerado, o estado fragmentário dos textos que nos restaram de Arquíloco e o recorte temático considerado.

Seu trabalho (como já foi bem aferido por Trajano Vieira) tem lugar garantido em qualquer biblioteca de estudos clássicos, não só pela competência técnica desenvolvida, como, também, pela sensibilidade de avaliar questões pantanosas que cercam trabalhos deste quilate, como por exemplo, a distância das fontes, o estado físico do objeto, escassez material, entre outros dados concernentes à pesquisa de ponta em Ciências Humanas, principalmente, em Letras Clássicas no Brasil. Por outro lado, o trabalho agora publicado pela profissional e respeitável editora da Unesp é uma resposta cabal às mazelas e descasos de editores equivocados e a pareceristas de plantão ou de última hora, que não conseguiram compreender a dimensão do trabalho de Paula Corrêa, que poderia hoje citar e. e. cummings e, retribuir a atenção e consideração dispensada, propondo um no, thanks!.

A questão que move o livro é a caracterização do tema "guerra" em Arquíloco. Naturalmente, se o tema é este e o sujeito da enunciação poética é construído por um poeta lírico grego arcaico, aproximações deverão existir entre o poeta em questão e Homero — afinal está muito próximo de Arquíloco temporal e tematicamente. Contudo, tais aproximações são complexas uma vez que há discordâncias quanto ao caráter de continuidade e de distanciamento ou de ruptura entre as técnicas poéticas do poeta de Paros e Homero.

Esse relacionamento, não resolvido no âmbito poético, é levado às últimas conseqüências pela pesquisadora, pois que não se limitaria à questão genérica elementar: Arquíloco lírico e Homero épico. O que, então, é proposto por Paula Corrêa é a observação de alguns dados de cultura que podem caracterizar o homem e o pensamento grego tanto no período homérico como no arcaico.

Entretanto, como muito adequada e competentemente é demonstrado, esses dados sofrem, sincrônica e diacronicamente, mutação entre os críticos modernos do século XIX e XX como: Hegel, Nietzsche, Wilamowitz-Möllendorff, Snell, Fränkel, Vernant, Detienne e outros. Isto é, determinados conceitos levantados pela autora são analisados por eles ora de forma análoga, ora de maneira antagônica. Assim, observam-se questões concernentes ao corpo e à alma; às emoções mistas, à reflexão e à responsabilidade humana com a intenção de reconstituir o caráter desses homens ou desse homem grego, fator imprescindível na aferição dos fragmentos de Arquíloco.

Num segundo momento da obra, Paula Corrêa passa a discorrer sobre Arquíloco dentro da obra de Snell (A descoberta do Espírito) — fundamental dentro do percurso proposto e longe de certa impregnação que seria nefasta — observando os posicionamentos modernos acerca da efemeridade humana; da descoberta do indivíduo e da questão do gênero. Este último, talvez, possa deixar um leitor mais ansioso pouco decepcionado, caso espere encontrar, nesse momento, o desvelar sistemático da questão genérica em Arquíloco.

Na segunda parte do trabalho (II - O guerreiro arcaico: hoplitas, armas e táticas), passamos a tomar contato direto com a obra do poeta. A autora propõe, sistematicamente, uma leitura de fontes, o que, diga-se de passagem, é obrigatório diante deste tipo de “arqueotexto”. E ora aderindo ao comentário, ora distanciando-se, Paula Corrêa passa, indutivamente, a consolidar suas propostas para uma poética arqueloquéia.

A primeira delas é justamente a crença de modificação de status social na Grécia arcaica em detrimento daquela presente no mundo homérico. Ao cabo do primeiro capítulo da segunda parte, encontra-se: “Portanto, não há em Arquíloco, pelo menos nesse fragmento (FR 1W), evidência de uma nova postura ante as Musas, ou de uma noção diversa de arte poética. (...) Em razão disso, seria exagero acreditar, como Page (1964, p.134), que ‘esse dístico resume uma revolução social’”.

Num outro momento é proposta pela pesquisadora nova interpretação àquilo que durante muito tempo se propôs como o novo espírito grego, nascido com a lírica arcaica a partir da figuração de um tipo de soldado que abandona suas armas ou assume posturas não condizentes com sua posição. Demonstra que nada de novo há na figuração. Assim, o que se pode aferir é que certas situações produzidas por Arquíloco apenas determinam a intenção de reproduzir cenas anti-heróicas.

Um outro ponto trabalhado trata de dois conceitos interessantes que poderiam determinar ruptura entre o mundo homérico e o da lírica arcaica: a questão da vaidade e da coragem, partindo de uma possível representação de física de generais em Arquíloco.

A autora evoca o fragmento que dispõe a preferência do sujeito da enunciação pelo general cambaio em detrimento do general vaidoso. Tal juízo de valor indica que não há pelo menos neste caso distanciamento entre os poetas em questão, pois o ponto crucial da preferência não estaria no âmbito da aparência externa, mas no das qualidades internas: “Não gosto do grande general, nem do que anda a largo passo,/ nem do que é vaidoso de seus cachos, nem do bem barbeado,/ mas que me seja pequeno e com pernas tortas/ de se ver, plantado firme sobre os pés, cheio de coragem” (Frag. 5W).

Nos dois capítulos seguintes, pode-se observar aspectos fundamentais na reconstituição desse homem desenhado pelo poeta, discorre-se nesse ponto sobre os aliados e sobre o modo de guerra. A primeira questão perfaz um estudo acerca da philía, conceito que, segundo Aristóteles na Ética a Eudemo (1236a15), não é uno, mas triplo, pois ora está baseado na virtude, ora na utilidade e ora no prazer. Em Arquíloco, a autora constata a ambigüidade do conceito, pois ele afirma “o aliado é amigo enquanto luta” (Frag. 15W).

A terceira parte do livro objetiva situar as narrativas marciais de Arquíloco em termos genéricos, principalmente, se observados os textos anteriores a ele em que o tema central é o mesmo: a guerra. Nesse sentido, seria crucial particularizá-lo em relação à Ilíada. Talvez, esta discussão fosse a mais importante dentro da obra em questão, porquanto revigoraria o que mais se discute hoje em dia em termos de práticas letradas da Antigüidade Clássica, ou seja, o gênero.

O texto, contudo, decorre a partir de Hegel (Estética), buscando aproximações entre Arquíloco e outros dois poetas arcaicos, Calino e Tirteu que haviam sido trabalhados pelo filósofo na chave da dicotomia entre uma forma que é essencialmente narrativa e um tom que é essencialmente lírico. Dessa maneira, careceu a obra de preocupação mais sincrônica, isto é, haveria na Grécia arcaica, efetivamente, a dicotomia proposta pelo filósofo alemão? O conteúdo poderia delimitar o gênero? A forma seria fator preponderante para a caracterização genérica? Apesar de Hegel, Paula produz sua arqueologia com exata precisão que percorre seu texto desde o início e dessa forma, reconstitui o gênero de Arquíloco, até então não normatizado.

Enfim, a obra é essencial para aqueles que desejam debruçar-se sobre o princípio do pensamento grego e sua repercussão literária, ou mesmo, para aqueles que desejam ter um justo e preciso modelo de um raro e excelente trabalho de pesquisa em Ciências Humanas.


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ISBN: 8571392048
Assunto: História, Literatura
Idioma: Português
Formato: 14 x 21cm
Páginas: 363
Edição: 1ª
Ano: 1998
Acabamento: Brochura com orelhas
Peso: 445g

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Um Iambo de Horácio - Uma Tradução

Os Epodos de Horácio são poemas que podem ser considerados como a contrapartida das Odes. Isto é, enquanto estas ocupam o lugar do elogio, via de regra, operando subgêneros líricos como o epinício, o encômio, o hino; aqueles operam unicamente o vitupério, provocando a invectiva contumaz e feroz e emulando com os poetas líricos gregos arcaicos como Arquíloco de Paros e Hiponax.
Pode-se dizer, então, que sob o aspecto das poéticas antigas, poesia iâmbica (o iambo é o metro utilizado nos epodos e nos poemas de invectiva de modo geral) e poesia lírica (em seu sentido mais amplo) estabelecem uma estreita relação com o discurso oratório demonstrativo ou epidítico pelo simples motivo de se aparelharem dos memos lugares, ou seja, qualificativos positiva e negativamente utilizados no âmbito das coisas externas (ascendência, educação, amizades, riqueza, cidadnia, poder, glória); do ânimo (prudência, justiça, coragem, modéstia) e do âmbito do corpo (rapidez, força, beleza e saúde). Cf. Retórica a Herênio, III, 10-11 e Aristóteles - Retórica, I, 9.
Assim enquanto nas odes, Horácio salienta virtudes ligadas a esses lugares; nos iambos dos epodos, ele visa aos vícios concenentes a eles.
Vejamos um exemplo dessa poesia de gênero baixo:

Epodo VIII

Rogare longo putidam te saeculo,
uires quid eneruet meas,
cum sit tibi dens ater et rugis uetus
frontem senectus exaret
hietque turpis inter aridas natis
podex uelut crudae bouis?
Sed incitat me pectus et mammae putres,
Equina quales ubera,
uenterque mollis et femur tumentibus
exile suris additum.
Esto beata, funus atque imagines
ducant triumphales tuum
Nec sit marita quae rotundioribus
onusta bacis ambulet.
Quid? Quod libelli Stoici inter Sericos
iacere puluillos amant:
inlitterati num minus nerui rigent
minusue languet fascinum?
Quod ut superbo prouoces ab inguine,
ore adlaborandum est tibi.



Tradução de Paulo Martins:

Epodo 8

Tu perguntas, fétida, tanto tempo,
O que esgota meu ânimo,
Quando tu tens dentes podres e velha
Ruga sulca senil tua fronte
E torpe está escancarado teu cu entre
Bunda murcha qual a de encruada vaca.
Mas teu peito e tetas flácidas quais
Úberes de égua e tua lassa pança e
Tuas coxas mirradas somadas
A inchadas suras instigam-me.
Sê rica em breve e comandem imagens
Triunfais teu funeral
E não seja uma esposa que passeia,
Montada com as mais rotundas perlas.
Por quê? Que livros estóicos amam descansar
Por entre almofadas de Seres:
Acaso, minha pica iletrada está menos rija
Ou meu pau está menos desfalecido?
Para que tu provoques algo a partir da minha soberba
Virilha, com tua boca tu deves trabalhar.

sábado, 22 de dezembro de 2007

Safo de Lesbos

Paulo Martins
Tão antiga quanto a própria literatura ocidental, a poesia erótica tem atravessado os séculos tomada ora como subproduto cultural, muitas vezes clandestino, ora como um gênero que desperta aquela reverência um tanto envergonhada diante de textos clássicos – e disso não se escapa quando se trata da Grécia Antiga, pródiga nas manifestações artísticas de uma cultura que valorizava a sensualidade. Fato mais notável (e eventualmente mais constrangedor para alguns) é a constatação de que foi a poesia de uma mulher do século 7º a.C., Safo de Lesbos – cujo nome, sim, deu origem aos termos lesbianismo e safismo –, que tenha inaugurado essa longa e rica tradição.
Não foi muito o que restou de sua obra: a impiedade do tempo nos legou pouquíssimos textos, e nenhum chegou integralmente até nós. O que temos hoje são apenas cacos, ruínas, vestígios de uma poesia inovadora que pode apenas indicar ou sugerir a grandeza dessa poetisa. Fora de catálogo no Brasil durante um certo tempo, ou dispersa em algumas publicações, os fragmentos de sua poesia estão reunidos agora no livro Eros, Tecelão de Mitos, de Joaquim Brasil Fontes. Além dos textos de Safo, a edição se propõe a fazer uma análise extensa e minuciosa, sem precedentes no meio literário nacional –ainda que, no que se refere à tradução, principalmente dos nomes próprios, peque por não seguir a tradição lusófona, o que facilitaria a leitura.
Da vida de Safo, pouco se sabe com certeza. Nascida entre 630 e 612 a.C. na cidade de Mitilene, na ilha de Lesbos, localizada no mar Egeu (na atual costa da Turquia), ela teve, em algum momento, de abandonar a ilha, por razões políticas obscuras, fixando na Sicília, então colônia grega. Ali, diz a tradição, reuniu em torno de si um grupo formado exclusivamente por mulheres, a fim de cultuar, por meio da música e da poesia – indissociáveis na época – em honra de Afrodite, deusa do amor, mãe de Eros, o deus menino que a tradição latina perpetuou com o nome de Cupido.
Foram nesses rituais de celebração do erotismo e da sensualidade que, ao que tudo indica, Safo deu início a esse gênero de poesia que prosperaria, nas mais diversas formas, até os dias de hoje. E não deixa de ser curioso que essa força, própria dos raros momentos históricos que marcam a inauguração de uma arte, tenha sobrevivido por meio de uma “ruína”. A resposta pode ter sido dada por Ezra Pound, que, ao incluí-la em uma antologia, justificou o ato em O ABC da Literatura: “Coloquei o grande nome de Safo na lista por sua antiguidade e porque tão pouco resta de sua obra que tanto se pode lê-la como omiti-la. Se vocês a leram, saberão que não há nada melhor.”
Pound se refere especificamente à ode Poikilothron, uma das mais sensuais de que se tem notícia na história, e é bastante provável que tenha sido a partir dela que tenha nascido a literatura erótica, seja por alusão direta ou, em caso mais incertos, por pura coincidência. Seu erotismo não é evidente, a não ser pelo fato de ter como centro da persona poética a própria Afrodite, mãe do tecelão de mitos, que é colocada num trono de cores e brilhos (o poikilothron) e caracterizada como “urdidora de tramas”. A ela é direcionada a súplica dos amantes, para que o coração do “eu”, que fala na poesia, não seja dobrado diante das mágoas e dores que a deusa urde.
Não tão sutil é a ode Phainetai, na qual Safo representa seu amor como um deus, ao qual atribui dotes sem par – “este teu sorriso que acorda os desejos” – e constrói epifanias do amor como condição física a que está sujeito o apaixonado: “meu coração no peito estremece de pavor no instante em que eu te vejo”; “escorre-me sob a pele uma chama furtiva”; “meus olhos não vêem, meus ouvidos zumbem”, “um frio suor me recobre”; ”estou a um passo da morte”. É digno de lembrança que essa mesma ode irá ser reciclada pelo romano Catulo no século 1o a.C.
No que se refere ao teor homoerótico de sua poesia, um outro fragmento é exemplar: “que morta, sim, eu estivesse:// ela me deixava, entre lágrimas// e lágrimas, dizendo:// “Ah, o nosso amargo destino,// minha Psappha: eu me vou contra a vontade”. Mas atenção: cumpre, aqui, reagir contra a leitura biografista, pois esse tipo de poesia entre os antigos poderia ser ou não reflexo de uma condição vivida pelo poeta, e aquilo que nos informa o texto de Safo pode não ser efetivamente algo de sua própria vida. O que, no entanto, não invalida a amplitude da figuração homossexual.
Mas, se é certo que a poesia de Safo serve longinquamente de modelo da poesia erótica, também é fundamental dizer que ela sobreviveu por meio de outros autores, aqueles mesmos cujas obras reproduziram, reinventando-a, essa mesma tradição – por vezes distante de certo vulgarismo; outras vezes, tão próxima e, mesmo assim, objeto digno da mais elevada literatura. Não é descabido colocar nesse rol pares tão ímpares quanto Safo e Horácio, Propércio e Florbela Espanca, Adélia Prado e John Donne, Paulo Leminsky e Allen Ginsberg, Walt Whitman e Manuel Bandeira, Ovídio e Drummond, autores que primam pela capacidade de traduzir Eros em palavras, apesar de não serem quase nunca autores circunscritos apenas a essa temática nem obrigatoriamente considerados próximos entre si, pois a distinção entre o sensual, o amoroso, o erótico e o fescenino entre eles é clara. Porém vale dizer que, em todos os casos, o deus menino e sua mãe presidem a elaboração poética, e são as suas metamorfoses que alimentam as artes.
Na antiguidade clássica, muita poesia erótica foi escrita, e a tal ponto isto é verdadeiro que se construiu em torno da temática uma preceptiva poética específica para ela, desenvolvendo-se uma gama imensa de subgêneros. Por exemplo, a elegia erótica romana de Ovídio, Propércio e Tibulo é fundamental para o entendimento da produção erótica de poetas clássicos como John Donne (1572-1631) em The Extasie (Aos corpos, finalmente, retornemos, / Descortinando o amor a toda gente;/ Os mistérios do amor, a alma os sente, / porém o corpo é as páginas que lemos.) ou em Elegie: Going to Bed (Deixa que minha mão errante adentre/ Atrás, na frente, em cima, embaixo, entre./ (...) Minha Mina preciosa, meu Império,/ Feliz de quem penetre teu mistério), magistralmente musicada por Péricles Cavalcante, traduzida por Augusto de Campos e gravada por Caetano Veloso no disco Cinema Transcendental.
Mas sempre é bom lembrar que a leitura de textos antigos pressupõe fundamentalmente a separação entre o poeta, historicamente tomado, e o sujeito da enunciação poética. Muitos equívocos de intelecção derivam disso. Portanto, ao lermos Safo, Propércio, Ovídio, ou mesmo, Donne, não podemos confundir a priori sujeito histórico e persona poética. Fato que pode e deve ser desconsiderado quando estamos diante de poetas contemporâneos, pós-românticos e românticos, em cujas obras podem ser observadas características pessoais e idiossincráticas, que são marcas de sua singularidade.
Quando Manuel Bandeira, por exemplo, constrói o belíssimo Água-forte na Lira dos Cinquent’anos, ele dá a dimensão dessa proximidade: “O preto no branco/ O pente na pele:/ Pássaro espalmado/ no céu quase branco.// Em meio ao pente,/ A concha bivalve/ Num mar de escarlata. Concha, rosa ou tâmara?// No escuro recesso,/ As fontes da vida/ A sangrar inúteis/ Por duas feridas.// Tudo bem oculto/ sob as aparências/ Da água-forte simples:/ De face, de flanco,/ O preto no branco.”. Além de recuperar a elocução do cânone da poesia, construindo aquilo que os antigos chamaram de ekphrasis (descrição de uma imagem visual), Bandeira imprime também toda uma história pessoal que não pode ser desconsiderada: na sua poesia a impossibilidade da concretização do amor e a sublimação do sexo são evidentes. Isso sem contar a simplicidade compositiva que é pedra de toque nessa grande obra, desmitificando a própria linguagem e a associando à sua própria simplicidade, num jogo de xadrez cujos sujeitos são vida e poesia.
Falar de amor e sexo é falar da própria humanidade. Na antiguidade, ela era o reflexo da condição humana que deveria ser observada na poesia como algo possível, necessário e inevitável; nos tempos atuais, como retrato de uma condição individual que alavanca o “eu poético e histórico” para o cerne da representação e, portanto, para o centro da existência. No caso de Eros, Tecelão de Mitos, essas duas vertentes estão presentes. A primeira parte do ponto arquetípico que é a própria obra, hoje fragmentária, da poetisa de Lesbos; e outra que nasce da preocupação do autor em buscar na modernidade a decifração do tema como condição de vida. Assim Eros – e não as Parcas, as senhoras dos destinos do homem – é que tece a vida. A vida como mito, como discurso que representa a condição universal do homem que, hedonicamente, sobrevive, mesmo diante das agruras que vida impõe e diante dos prazeres que o texto e o amor proporcionam.

sábado, 4 de agosto de 2007

Arquíloco e Mimnermo: Duas medidas do homem

Groupe de l'Homme Courant (attribué au) Amphore à col et anses trifides.
Epoque archaïque, vers 550-540 av. J.-C.
© Musée du Louvre


Paulo Martins



O período, compreendido entre os séculos VII e V a.C., na Grécia – lembrem que a geopolítica da época inclui como Grécia não só a península Balcânica, como também as ilhas do Mediterrâneo e a chamada Ásia Menor –, marca significativas mudanças naquela que viria a ser talvez a mais importante civilização ocidental. A relevância desse agrupamento humano, unificado pela língua e pelos costumes, pode ser aferida em todos os ramos de atividade humana: desde a poesia até a medicina, da filosofia às artes visuais, da economia até a astronomia.
Mas que mudanças são estas tão importantes para uma sociedade que já se tornara conhecida no mundo conhecido à época? Uma sociedade que já havia nos legado Homero e Hesíodo? Bem, para que compreendamos isso, alguns pressupostos são fundamentais. O primeiro deles diz respeito à organização sóciopolítica dessa civilização que durante séculos - e isto pode ser verificado a partir dos textos épicos e trágicos, que nos restaram, e a partir da cultura material, que a Arqueologia nos trouxe à luz, – cuja forma era marcadamente centralizada na figura de um rei, ou como eles chamavam um “basiléos”, que, responsável hereditário por um “génos”, grupo expandido de um núcleo familiar, geria a justiça, a política, a economia, a guerra e a religião. Esses reinos mantinham entre si, dependendo principalmente de sua origem, não rara vez, certa rivalidade o que os levava com freqüência à guerra, ao conflito bélico. Exemplo maior: a campanha de Tróia.
Marca expressiva dessa sociedade era também sua agrafia, isto é, os helenos – como eram chamados -, a despeito de em épocas imemoriais terem tido acesso a uma forma de escrita (o linear B do período minóico é uma constatação), no período pré-homérico e homérico não possuíam escrita e, portanto podiam ser caracterizados como cultuadores da memória e da oralidade. A partir, no entanto, do colapso desses reinos, surge um fator geopolítico importantíssimo, a “pólis”, a cidade estado e com ela a escrita e a moeda. Tais criações em certa medida eliminavam o poder centralizador do “basiléos” em nome de um poder coletivo que em sua forma ateniense veio a receber o nome de democracia.
Essas novidades imbricadas - e não poderia ser de outra forma – a cidade, a moeda e a escrita – dialeticamente configuram ou determinam um novo homem, um ser que doravante passa a ser o centro dos questionamentos e das preocupações comuns aos comuns homens: De onde vim? Como vivo? Para onde vou? Quem sou eu? A dimensão divina, ainda que longe de ser descartada, passa a dividir certo espaço dentro das mentes gregas com a dimensão humana. O “mythos” cede, pois, lugar ao “lógos”. O discurso racional valoriza-se diante do discurso religioso, e escrita, por seu turno, é o meio para disseminação desse pensamento, dessas preocupações e desses questionamentos. É nesse ambiente, agora, que novas formas de expressão são valorizadas. Surgem os primeiros discursos filosóficos a que a doutrina vai dar o nome de fisiólogos, uma vez que se atêm à observação e explicação da physis, a natureza. Anaximandro (609-547) e Anaxímenes de Mileto (585-528), Pitágoras de Samos (571-532), Tales de Mileto (625-558), Heráclito de Éfeso (540-470), Parmênides de Eléia (530-460) e outros são exemplos de filósofos ou fisiólogos, hoje conhecidos como pré-socráticos.
Não só a filosofia floresce no bojo dessa nova sociedade, mas também a poesia em outras modalidades que não épicas ou sapienciais – Homero e Hesíodo são prototípicos. Tal poesia, a que hoje em sentido mais amplo dá-se o nome de lírica, passa ocupar lugar de destaque na produção literária grega. Vale lembrar, entretanto, que, ao contrário do que possa parecer, ela não é um fenômeno novo, antes tem suas origens em tempos tão remotos quanto à épica. Teria ela assento dentro da oralidade que caracterizara o mundo helênico pré-homérico junto aos ritos religiosos, às festas de semeadura e colheita, aos funerais, aos banquetes e a outros eventos típicos daquela antiga sociedade. Agora no século VII e VI a.C., no entanto, não se fixa especificamente a estes ritos ou momentos de performance, mas, sim, como meio expressivo do novo homem grego afeito a um tipo de sociedade em que as angústias e anseios do “ânthropos” (o ser humano) devem ser observados e discutidos. O herói isoladamente não é mais uma preocupação a não ser quando colocado lado a lado ao mortal, ao ser como nós, como bem alertou Aristóteles na Arte Poética, trezentos anos mais tarde.
Marcada por uma multifacetada gama de motivos, a lírica arcaica grega, sob essa perspectiva que acabamos de apontar foi explorada amiúde em várias cidades gregas, e, entre os nomes mais significativos encontramos: Safo de Lesbos, Alceu, Estesícoro, Calino, Tirteu, Arquíloco e Mimnermo entre outros. Não se apegando a uma temática específica, tampouco a uma unidade métrica, a poesia lírica arcaica pode ser entendida na Antigüidade Clássica a partir de uma afirmação do poeta latino Tertuliano (150-222 d.C.): “multicolor, de várias cores, versicolor, nunca a mesma, mas sempre outra, embora sempre a mesma quando outra, tantas vezes enfim mudando-se quantas movendo-se.” Outro dado importante acerca dessa era sua subdivisão de gêneros. Poderia a lírica ser monódica ou coral, isto é, além do fato de ser cantada – toda ela o era – poderia ser cantada por um cantor apenas, ou por um grupo deles. Poderia também ser observada de acordo com o tipo de acompanhamento musical: a aulética e a citarística são exemplos de poesia lírica cujo acompanhamento era o aulós, espécie de flauta e a cítara, um de instrumento de cordas respectivamente.
Nascido na ilha de Paros, Arquíloco talvez seja o poeta que mais amplamente trabalhou com a diversidade temática possível para o gênero lírico uma vez que não só se ateve à invectiva (maledicência), mas também se ocupou de tratar de assuntos relativos à guerra e vida comum. Mais do que o simples tratamento de temas diversos, este poeta observou a vida do homem em sociedade: “Coração, coração de imediatos nojos agitado,// levanta, às aflições resiste lançado um contrário // peito, a embustes de inimigos de perto contraposto // com firmeza; e nem vencendo abertamente exultes // nem derrotado em casa abatido te lamentes, // mas com alegrias te alegra e com reveses te aflige // sem excesso; e conhece qual ritmo regra os homens.” (trad.: José Cavalcante de Souza) A temperança e a justa medida das coisas que coíbem o excesso é marca clara nesse poema que se constitui numa clara “crítica” ao pensamento épico ou trágico grego.
Aliás, curioso é o tratamento ao tema bélico que o poeta de Paros oferece a essa nova sociedade se compararmos àquele dado por Homero na Ilíada e na Odisséia: “o escudo um Saio dele se orgulha, numa moita // arma impecável deixei-o sem querer, // mas eu mesmo o fim da morte evitei; aquele escudo // que se vá; de novo um comprarei não pior.” (trad.: José Cavalcante de Souza) Havia uma máxima grega que dizia que uma mãe espartana falara um dia a seu filho que ia à guerra “volte com seu escudo ou sobre ele”. Este pequeno fragmento comprova séria alteração no modo de pensar a guerra, ao contrário, pois, do que ditava a tradição bélica dos helenos, Arquíloco sugere que em nome da própria sobrevivência seria conveniente abandonar as armas, pois esta é facilmente substituível, enquanto a vida não. Outro poema que segue esta mesma chave é: “Vamos, de Canecão pelo convés de veloz nau // anda e a bebida tira dos cavos tonéis // e caça o vinho até a borra; pois também nós // sem beber nesta vigília não poderemos.”(trad.: Antônio Medina Rodrigues). Afora a circunstancialidade do texto, o último verso deste poema é fundamental, pois aponta para os limites de tolerância do homem comum na guerra. Aquela sobriedade épica do guerreiro, agora é trocada pela embriaguez lírica: a guerra é suportável desde que acompanhada de um bom vinho.
Já Mimnermo, nascido na cidade Cólofon (630-600 a.C.), restringe sua poesia lírica não só a uma unidade métrica específica – o dístico elegíaco, como, também, a uma só temática: o passar dos anos e a dicotomia existente entre a velhice e a juventude. Conhecido no século XIX, como o poeta do hedonismo helênico, caracterização absolutamente discutível, além anacrônica uma vez que a idéia de hedonismo solidifica-se a partir de uma visão psicologizante, o poeta pode ser considerado como pai de certos lugares comuns da poesia clássica, como, por exemplo, o da efemeridade da vida: “Nós, como a tantas flores faz a primavera// Abrir as folhas, nós, quais flores tenras, // Ébrios vamos vivendo efêmero fulgor, // Sem sabermos o mal ou bem que os deuses tramam // As negras Parcas espionam, entretanto, // Uma em torturas arremata o tempo nosso, // Outra costura a morte, e dura a juventude // O tanto quanto o sol passeia ao solo. // Morrer prefiro, antes que suma a primavera. // Dentro da alma, depois dela, caem os males, // E, arrematada a queda, sobra a feita mágoa: // Um vai dentro do Inferno uivar os filhos // Que não teve, outro adoece e morre, qual! // Aos males que nos manda Zeus ninguém escapa!” (trad: Antônio Medina Rodrigues). A despeito do fato de a comparação do homem com as plantas já ter ecos na poesia épica, a sua solidificação dá-se a partir do século VII a.C.. Nós, assim, estaríamos sujeitos às mesmas limitações de vida daquelas, além de absolutamente subordinados às benesses dos deuses imortais. Enquanto na épica e na tragédia, em certa medida, os homens se colocam lado a lado aos imortais; aqui eles estão resignados a sua condição de inferioridade. Contudo, sem abrir mão da racionalidade, do “lógos”, pois que, como bem assevera o fragmento de Mimnermo, a velhice e seus males podem estar sujeitos também a uma opção de sobrevivência: “Morrer prefiro”.
Se de um lado, o homem pode optar pela morte – reflexo da imperativa razão –, não é de se estranhar que vitupere contra a velhice e seus limites: “Qual vida tem valor, sem de Afrodite// As da dádivas douradas? Antes quero a morte,// Se os beijos não tiver, e a cama e os apetites,// Que são da rubra mocidade a sorte, // Varões a porem nus e senhoritas.// A idade, ao descambar num ser humano, // Imprime nele os males todos: tudo o irrita. // Nem o aviva mais o sol, o céu de Urano, // Nem nas crianças vê coisa bonita. // E as fêmeas o desprezam, tanto o Soberano // Ao homem no final da vida prejudica.” (trad.: Antonio Medina Rodrigues) É interessante verificar que Mimnermo associa a vida à consumação do amor. Isto é, se já não temos mais condições físicas que façam Afrodite nos “propiciar”, a vida não tem mais motivo de ser.
É tônica desta poesia, portanto, além desse tipo de reflexão humana acerca dos limites da vida, o lamento. Tal fato, de certa forma, corrobora a tese de origem do subgênero lírico: a elegia: “Um sopro, um sonho leve dura a preciosa // Juventude, antes de que em nós se enlace // A insídia gris dessa velhice odiosa, // Que a pele nossa enruga e o corpo infama, // E faz de nós quem nunca fomos, cinza e frio // Da alma com seu simples espraiar-se.” (trad.: Antonio Medina Rodrigues)
Talvez, mais do que a poesia épica de Homero ou a trágica de Ésquilo, Sófocles e Eurípides, a lírica grega arcaica seja a poesia com a qual nós mais nos identifiquemos hoje em dia. Tal identificação só pode encontrar guarida em seu caráter universal, ou seja, a efetiva imbricação entre razão e sentimento, medidas absolutas e definitivas do homem. Arquíloco, de um lado, ao observar limites que devemos transpor ou superar uma vez que não somos deuses ou heróis e Mimnermo, de outro, ao ditar que podemos nos contrapor a imperativos categóricos da própria existência, perfazem, ambos, a figuração do homem que se nos é imposta hoje: limitados, porém com todas as condições de transgressão às razões da natureza e dos deuses.