domingo, 21 de dezembro de 2008

Os dez + ou - de 2008

Talvez o meu maior defeito seja a impaciência, vislumbrada ou observável principalmente quando sou colocado à prova diante de certas categorizações como: Qual é seu filme ou livro predileto? De zero a dez, qual a nota que você dá para tal espetáculo? Quais são os seus dez restaurantes favoritos? Quem é melhor Machado ou Guimarães? Você acha que Kubrick está entre os grandes cineastas do século XX?

Parece-me que a sistemática e contínua necessidade dos outros - mormente do meu filho de 12 anos - em saber qual é a minha opinião, tira-me o prumo, torna-me avesso à crítica, faz-me perder a razão. Enfim me irrita. Talvez a minha falta de memória, talvez a minha incompetência, talvez o receio de não poder mudar de idéia sejam os responáveis por não querer entrar na onda do top ten.
Nesse fim de ano, entretanto, fiz um balanço do que gostei e não-gostei, peço, apenas, que não me cobrem essas posições depois de amanhã. Vamos lá, Paulinho, vou dar minha lista:


1. Cinema

Sem sombra de dúvidas, a sétima arte nos brindou com uma animação genial: Wall-E é uma pérola. Enredo bem sacado, personagens perfeitamente construídos, quase inexistência de diálogos verbais que cede espaço à ação e à sensibilidade são alguns aspectos que devem ser observados nessa obra fantástica da Pixar, que talvez só possa ter como êmulo a imbatível A Era do Gelo (2002) da Blue Sky, com o seu inesquecível e impecável Scrat, um exemplo de conduta humana, ops...


2. Museu

Quando pensamos num Museu, invariavelmente, pensamos em algo estático e unilateral. Isto é, um espaço de fruição em que nós passivamente somos colocados diante das peças, admiramos os detalhes e guardamos as informações. O acervo, portanto, independe de nós. Somos pólos passivos da arte, da história, enfim, da informação.

O Museu do Futebol, inaugurado no segundo semestre 2008 no Estádio Paulo Machado de Carvalho, o Pacaembu, em São Paulo, quebra essa lógica. Lá os espectadores são parte do acervo. Cada um, por e com seus próprios motivos, é contemplado no acervo e dele frui. Os espectadores, assim, deixam de lado a tristeza de uma única possibilidade, a passividade e ativamente também gozam do ludismo das "armadilhas" e das "artemanhas" dessa nova concepção de museológica. Dou dois exemplos:

A sala dos "Anjos Barrocos" solapa a razão. Eleva-nos e nos torna partícipes do mundo sublime e divino de nossos deuses ludopédicos. Esses flutuam num "mar sombrio e etéreo de sombras vivas" lá e em nós; só a eles é dado o direito à luz que, curiosamente, também nos basta. Os seres divinos brilham como brilharam. Como se Píndaro tivesse tradução visual. Afinal, um dia ele disse: "O homem é a sombra de um sonho."

A sala das "Torcidas" é antítese da dos "Anjos". Lá falavam os deuses, cá os homens falam. Naquela a mudez divina, nesta a eloqüência coletiva. Lá o sonho, cá a realidade. O ambiente etéreo cede espaço ao tectônico, pois, efetivamente, nós estamos encurralados entre as fundações do estádio e o avesso das arquibancadas, somos postos à prova das emoções que nós construímos.

3. Retrô


Acho que em 1976, quando tinha apenas 14 anos, fui ao cinema assistir a um filme, que para muitos à época foi considerado medíocre e cuja única qualidade era ser o palco de uma nova técnica fotográfica no cinema - longas cenas à luz de velas - e cujo principal defeito era ser interminável: Barry Lyndon. Já naquela época, eu discordava dessa crítica. Tanto é que assisti ao filme duas vezes seguidas, o que me fez ficar no cinema mais de seis horas. Algo me atraía no filme, porém não sabia dizer o porquê. Nesse ano revi atentamente essa obra de Kubrick e continuo discordando da crítica. O filme rompe com a idéia de gênero épico no cinema pelo simples fato de não ser épico, é histórico é uma "bíos", uma "uita". Sua unidade não está no enredo, está no personagem. Uma recolha de ações que caracterizam a vida de um anti-herói irlandês no final do século XVIII.


4. Televisão


Capitu. Esse é o nome da minisérie exibida pela Globo em dezembro. Sob a direção de Luiz Fernando Carvalho, a minisérie descortina Dom Casmurro de Machado de Assis. Com uma linguagem diferenciada, mas já conhecida do público, Luiz Fernando traduz a linguagem verbal de Machado em linguagem televisiva com ares de sofisticação massificada, como que um Gerald Thomas global. É uma pena. Machado não carece de explicação, basta lê-lo. A sugestão da língua literária e a produção de seus efeitos de sentido jamais deveriam estar sujeitas a esse tipo de tradução. É melhor para todos: para Machado, para o diretor e, principalmente, para nós. Ao fim e ao cabo, a conclusão a que se chega é: Machado é genial. Que novidade!


5. Restaurante



O Maní na Joaquim Antunes, 210 no Jd. Paulistano em São Paulo é um sonho bom. Sob o comando dos chefs Daniel Redondo e Helena Rizzo é um lugar que deve ser visitado. O ambiente é extremamente agradável, o atendimento é cordial e, principalmente, o cardápio é instigante e saboroso. Vale conferir o Bobó de camarão, montado sobre um o purê de mandioquinha, com cogumelos. Delicado, o prato dá saudades antes de acabar. O cosmopolitan é delicioso e diferente. Os pirulitos de parmezão são inusitados. Os pãezinhos do couvert, chocantes, e as sobremesas, de outro mundo. Para o almoço, vá cedo ou reserve. Lota.


6. Latinhas da Brahma


Sou um bebedor de cerveja. Todos sabem. Não vivo sem. Encantou-me a série "bemorativa" de latinhas da Cervejaria mais famosa do Brasil: A Brahma. Só ontem consegui a última das doze.


7. Boteco

Há anos leio que o Frangó na Freguesia do Ó em São Paulo tem as melhores coxinhas de galinha de São Paulo. Confirmado, não há nada parecido. Afora, a coleção de Cervejas. Sensacional! Há que se dizer que a localização - Largo da Matriz da Nossa Senhora do Ó - faz diferença. Primeiro é completamente fora "do circuito" (Jardins, Moema, V. Madalena, V. Olímpia). Segundo: imprime certo ar reverencial e religioso que combina com o bem beber e o bem comer.
8. Sorvete

Não gosto muito de doces. Não sou fã de chocolate. Sorvetes: até esse ano somente o Häagen-Dazs de Doce de Leite e de Morango. Cedendo a pressões amorosas, experimentei o Stupendo de Eduardo Guedes. Digo hoje: Não vivo sem o sorvete de bem-casado.

9. RC/SPFC/Muricy e SFC

Adoro futebol. E isso sempre mo foi fácil, sou santista. Afinal, não me faltam craques, tampouco glórias para reverenciar e para cultivar na Memória com os auspícios de Mnemosyne - redundância! Mas, muito sofri em 2008! Motivos abumdaram. Um time fraco e que jogou feio são os primeiros da lista interminável de defeitos. Pobre Glorioso Santos!
Agora algo há no ludopédico que não suporto mais: Muricy, associado a Rogério Ceni e a São Paulo Futebol Clube. Que coisa chata! Dor-de-cotovelo? Simmmmmmm! Tenho-a. Talvez já tenha chegado a hora da reviravolta...Esperemos...

10. Programação Esportiva na TV

Os canais ESPN são demais. Um show. Bate-Bola 1 e 2, Sportcenter, É rapidinho e o imperdível Linha de Passe fazem diferença. Todos os dias. Juca, Trajano, Palomino, Calazans, Márcio Guedes, PVC, João Carlos, Mauro Cezar, Calçade, Soninha, Amigão, Antero Greco, entre tantos, tornam certamente nossas vidas mais felizes.

sábado, 13 de dezembro de 2008

London Roman Art Seminar - 2009

12 January
Dr Antony Eastmond (Courtauld Institute)
Consular Diptychs: Paradoxes and Problems

26 January
Dr Caroline Vout (Cambridge)
Sculpture and Epic

9 February
Lisa Shekede (Independent)
A Nabataean Wall Painting at Siq al-Barid, Petra: Context and Conservation

23 February
Jason Mander (Oxford)
The Iconography of the Roman Family: Interpreting Portraits of Children in Funerary Contexts

9 March
Ben Russell (Oxford)
The Good Shepherd Sarcophagus from Salona and the Stone Trade

11 May
Amanda Claridge (Royal Holloway)
Reading Trajan's Column


Dr Peter Stewart
Senior Lecturer in Classical Art and its Heritage
The Courtauld Institute of Art
Somerset House, Strand, London WC2R 0RN
Tel: +44 (0)20 7848 2163

Email: peter.stewart@courtauld.ac.uk
www.courtauld.ac.uk

All seminars held on Mondays at 5.30pm in Seminar Room 1, The Courtauld Institute of Art, Somerset House, Strand, London. For further info contact A.Claridge@rhul.ac.uk or peter.stewart@courtauld.ac.uk

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Ovídio – Tristia, 2,515-556 - Uma Tradução

scribere si fas est imitantes turpia mimos, -515
materiae minor est debita poena meae.
an genus hoc scripti faciunt sua pulpita tutum,
quodque licet, mimis scaena licere dedit?
et mea sunt populo saltata poemata saepe,
saepe oculos etiam detinuere tuos. -520
scilicet in domibus vestris ut prisca virorum
artificis fulgent corpora picta manu,
sic quae concubitus varios Venerisque figuras
exprimat, est aliquo parva tabella loco.
utque sedet vultu fassus
[1] Telamonius iram, -525
inque oculis facinus barbara mater habet,
sic madidos siccat digitis Venus uda capillos,
et modo maternis tecta videtur aquis.
bella sonant alii telis instructa cruentis,
parsque tui generis, pars tua facta canunt. -530
invida me spatio natura coercuit arto,
ingenio vires exiguasque dedit.
et tamen ille tuae felix Aeneidos auctor
contulit in Tyrios arma virumque toros,
nec legitur pars ulla magis de corpore toto, -535
quam non legitimo foedere iunctus amor.
Phyllidis hic idem teneraeque Amaryllidis ignes
bucolicis iuvenis luserat ante modis.
nos quoque iam pridem scripto peccavimus isto:
supplicium patitur non nova culpa novum; -540
carminaque edideram, cum te delicta notantem
praeterii totiens rite citatus eques.
ergo quae iuvenis mihi non nocitura putavi
scripta parum prudens, nunc nocuere seni.
sera redundavit veteris vindicta libelli, -545
distat et a meriti tempore poena sui.
ne tamen omne meum credas opus esse remissum,
saepe dedi nostrae grandia vela rati.
sex ego Fastorum scripsi totidemque libellos,
cumque suo finem mense volumen habet, -550
idque tuo nuper scriptum sub nomine, Caesar,
et tibi sacratum sors mea rupit opus;
et dedimus tragicis sceptrum regale tyrannis,
quaeque gravis debet verba cothurnus habet;
dictaque sunt nobis, quamvis manus ultima coeptis -555
defuit, in facies corpora versa novas.


[1] Fassus – fateor. Como partcípio passado do depoente, traduzo ativamente.

Se é direito escrever algo torpe, que imitam os mimos,
pena menor é devida à minha matéria.
Acaso seus tablados tornam este gênero de escrita seguro,
Algo lícito, ou a cena deu aos mimos ser lícito?
Amiúde meus poemas são apresentados ao povo
Amiúde até mesmo têm ocupado os teus próprios olhos.
É lógico, em tua casa, assim como fulgem as antigas imagens
De varões, também há corpos pintados com as mãos do artista,
Assim há também, em algum lugar, um pequeno quadro que
Exprime figuras de Vênus e variadas fodas.
E como Telamônio
[1], indicando ira na face, está pendurado,
E a mãe bárbara reflete crime nos olhos,
Assim Vênus úmida seca com os dedos os cabelos molhados,
E é vista coberta apenas pelas águas maternas.
Outros soam guerras erigidas com dardos cruentos,
Uns cantaram tua estirpe, outros, teus feitos.
A ínvida natureza me refreou com estreito espaço,
Deu exíguas forças a meu engenho.
Contudo, aquele feliz autor de tua Eneida
Reuniu armas e varões em leitos tírios
[2]
Nenhuma parte de todo corpo é mais lida do que
O amor jungido por uma união não legítima.
Aquele mesmo, ainda rapaz, cantara os ardores de Fílis
e da tenra Amarílis, em versos bucólicos.
Nós também já erramos há tempos com este escrito:
Um erro antigo sofre um novo suplício;
Eu publicara carmes, quando, cavaleiro ligeiro
[3], tanta vez,
Passei diante de ti que comentava exatamente os meus delitos.
Logo estes escritos de juventude não julguei, pouco prudente,
Que seriam nocivos, já agora são nocivos ao velho.
A punição do velho livrinho redundou tardia
E a pena dista no tempo de seu mérito.
Não creias, entretanto, que toda minha obra seja frouxa
[4],
Sempre dei grandes velas aos nossos remos.
Já escrevi seis livros e tantos outros de Fastos,
E com o teu mês dou fim ao volume,
E, ainda há pouco, a minha sorte interrompeu esta obra,
Escrita e consagrada a ti, sob teu nome, César;
E dediquei o cetro real ao trágico tirano,
O grave coturno possui as palavras que deve ter;
Cantadas por mim, ainda que a última demão falta à empresa
Em novas faces estão os corpos transformados.

[1] Ájax.
[2] Cartagineses.
[3] Citatus – rápido, ligeiro. Na retórica, vivo.
[4] Remissus – de remittere. Em sentido estilístico: frouxo, doce, mole, suave.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Orientações em Curso

O ano de 2009 promete bons frutos:

Algumas orientações que realizo ou irei realizar:

  1. Melina Rodolpho - "Ékphrasis e Euidentia nas Letras Latinas: doutrina e práxis" - Financiamento CNPq. Dissertação de Mestrado.
  2. Cecília Gonçalves Lopes - "Covenções Literárias nas Elegias de Ovídio" - Financiamento CAPES. Dissertação de Mestrado.
  3. Lya Valéria Grizzo Serignolli - "Imagines Amoris". Iniciação Científica.
  4. Irene Cristina Boschiero - "Imagines poetae". Tese de Doutorado.
  5. Simone Demboski Tonidandel - "A representação feminina e o poder em Roma na Dinastia Júlio- Claudiana". Dissertação de Mestrado.
  6. Denise Ablas - "Aníbal por Tito-Lívio e a batalha de Cannae". Iniciação Científica.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Conferência Internacional

O Programa de Pós-Graduação em Letras Clássicas da Universidade de São Paulo convida a todos para a conferência de David Bouvier, membro do Centre Louis Gernet, Paris dia 01/12/08 às 10:00h, no Prédio de Letras, FFLCH, USP:

"Peut-on traduire une émotion érotique?
L'éxemple de la poésie de Sappho (fr. 31 Voigt)"

Ovídio, Epistulae Ex Ponto 4, 16 - Uma Tradução

Inuide, quid laceras Nasonis carmina rapti?
Non solet ingeniis summa nocere dies
famaque post cineres maior uenit et mihi nomen
tum quoque, cum uiuis adnumerarer, erat,
cumque foret Marsus magnique Rabirius oris
Iliacusque Macer sidereusque Pedo
et qui Iunonem laesisset in Hercule, Carus,
Iunonis si iam non gener ille foret,
quique dedit Latio carmen regale, Seuerus
et cum subtili Priscus uterque Numa,
quique uel inparibus numeris, Montane, uel aequis
sufficis et gemino carmine nomen habes,
et qui Penelopae rescribere iussit Vlixem
errantem saeuo per duo lustra mari,
quique suam Troezena inperfectumque dierum
deseruit celeri morte Sabinus opus,
ingeniique sui dictus cognomine Largus,
Gallica qui Phrygium duxit in arua senem,
quique canit domito Camerinus ab Hectore Troiam,
quique sua nomen Phyllide Tuscus habet,
ueliuolique maris uates, cui credere posses
carmina caeruleos composuisse deos,
quique acies Libycas Romanaque proelia dixit,
et scriptor Marius dexter in omne genus,
Trinacriusque suae Perseidos auctor et auctor
Tantalidae reducis Tyndaridosque Lupus,
et qui Maeoniam Phaeacida uertit, et, une
Pindaricae fidicen, tu quoque, Rufe, lyrae,
Musaque Turrani tragicis innixa coturnis
et tua cum socco Musa, Melisse, leui;
cum Varius Graccusque darent fera dicta tyrannis,
Callimachi Proculus molle teneret iter,
Tityron antiquas Passerque rediret ad herbas
aptaque uenanti Grattius arma daret,
Naidas a satyris caneret Fontanus amatas,
clauderet inparibus uerba Capella modis,
cumque forent alii, quorum mihi cuncta referre
nomina longa mora est, carmina uulgus habet,
essent et iuuenes, quorum quod inedita cura est,
adpellandorum nil mihi iuris adest.
Te tamen in turba non ausim, Cotta, silere,
Pieridum lumen praesidiumque fori,
maternos Cottas cui Messalasque paternos,
Maxime, nobilitas ingeminata dedit.
Dicere si fas est, claro mea nomine Musa
atque inter tantos quae legeretur erat.
Ergo submotum patria proscindere, Liuor,
desine neu cineres sparge, cruente, meos!
Omnia perdidimus, tantummodo uita relicta est,
praebeat ut sensum materiamque mali.

Quid iuuat extinctos ferrum demittere in artus?
Non habet in nobis iam noua plaga locum.

Episatulae Ex Ponto - 4,16 - Tradução: Paulo Martins

Invejoso, por que rasgas os carmes do exilado Ovídio?
O último dia não costuma prejudicar os engenhos
e a fama depois das cinzas vem maior.
Assim também eu tinha um nome,
quando eu era contado entre os vivos.
Quando estavam entre nós, Marso[1]
e o Rabírio[2] grandiloqüente e o troiano Macro[3]
e o celeste Pedão[4] e aquele Caro[5]
que ultrajou Juno em seu Hércules,
como se agora este não fosse genro de Juno.
E aquele Severo[6] que deu ao Lácio um carme real.
E com o preciso Numa[7] e juntamente com cada Prisco[8].
E tu, Montano[9], que te sustentas,
seja nos versos desiguais, seja nos iguais
e tens renome por carme geminado.
E aquele que fez Ulisses, errante no sevo mar
por dois lustros[10], escrever à Penélope.
E aquele Sabino[11] que desertou sua Trezena[12]
à rápida morte, trabalho inacabado de dias.
E Largo[13], reconhecido pela alcunha de seu engenho,
que conduziu o velho frígio[14] na seara gaulesa.
E aquele Camerino[15] que canta Tróia de Heitor contido.
E aquele Tusco[16] que tem o nome de sua Fílis,
poetas do velivolente mar, para quem tu podes acreditar
que os deuses cerúleos compuseram os carmes.
Ele que cantou as armas líbias e as batalhas romanas.
E o escritor Mário[17], destro em qualquer gênero.
E o trinácrio
[18], autor da Perseida
e Lobo[19], autor da volta da Tindárida[20] com o Tantálida[21].
E aquele que traduziu a Feácia meônia

e tu também, Rufo, músico da lira de Píndaro.
E a Musa apoiada nos coturnos trágicos de Turrânio

e tua Musa, Melisso[22], com socos leves.
Enquanto Vário[23] e Graco[24] derem feros ditos aos tiranos;
Próculo[25] tiver suave caminho de Calímaco
e o Pásser[26] retornar a Títiro[27] junto as antigos prados
e Grácio[28] der armas aptas a quem caça;
enquanto Fontano[29] cantar as Ninfas, amadas pelos sátiros;
enquanto Capela[30] mancar as palavras em versos desiguais;
e existirem outros, cujos nomes me são longos
e demorados para referir, o vulgo terá poemas.
E quanto aos jovens, dos quais são inéditos os poemas,
nenhum juízo meu devo dirigir.
Embora não ousarei, em meio a turba,
silenciar-me sobre ti, Cota, lume das piérides
e patrono do fórum, a quem a nobreza geminada
deu precisamente de mãe os Cota e de pai os Messala.
Se fas é dizer, Musa de meu nome preclaro,
entre tantos que houve, ela haverá de ser lida.
Portanto, Inveja, pára de dilacerar o exilado da pátria,

nem, cruenta, esparge minhas cinzas!
Perdi tudo, somente a vida me resta;

que ela me ofereça sensibilidade e matéria do mal.
De que vale enviar o ferro ao extinto corpo?
Agora uma nova ferida não tem lugar em mim.

Notas

[1] Domício Marso, poeta do século de Augusto, conhecido por seus epigramas. Escreveu um epitáfio sobre Tibulo e um poema épico sobre as amazonas.
[2] Poeta contemporâneo de Virgílio. Escreveu uma épica sobre os fados de Marco Antônio.
[3] Emílio Macro, poeta épico latino que escreveu sobre Tróia e que viajou com Ovídio para a Sicília.
[4] Provavelmente, Pedão Albidovano, poeta do século de Augusto, que serviu como soldado com Germânico na Germânia. Escreveu epigramas.
[5] Caro é um poeta da época de Augusto. Amigo de Ovídio que cuidou da educação dos filhos de Germânico, Nero e Druso.
[6] Cornélio Severo, poeta épico que escreveu sobre as guerras na Sicília entre Otávio e Pompeu entre (38-36 a.C.). Ele era membro do grupo de Messala, mencionado por Quintiliano e Sêneca.
[7] Poeta da época de Augusto.
[8] Dois poetas da época de Augusto: um é, provavelmente, Clutório Prisco, que escreveu um lamento sobre a morte de Germânico e o outro é desconhecido.
[9] Júlio Montano é um amigo de Tibério. Sêneca o considera um ótimo poeta.
[10] Lustro é o período de cinco anos.
[11] Poeta épico e elegiac da época de Augusto. Escreveu respostas àlgumas Heroides de Ovídio, um poema sobre o calendário e talvez um Tróia.
[12] Cidade do Peloponeso.
[13] Poeta épico que escreveu sobre as andaças de Antenor (fundador de Pádua), algumas vezes identificado como Valério Largo, acusador de Cornélio Galo.
[14] Antenor.
[15] Poeta épico da época de Augusto.
[16] Poeta da época de Augusto que escreveu Fílis. Cf. Propércio 2,22.
[17] Poeta da época de Augusto.
[18] Da Sicília.
[19] Poeta da época de Augusto que escreveu sobre o retorno de Helena e Menelau.
[20] Helena.
[21] Menelau.
[22] Gaio Melisso, um colaborador de Mecenas, gramático, poeta e bibliotecário. Ele escreveu Trabeatae, comédias romanas de costumes sobre a ordem equestre, desenvolvendo, pois, uma forma augustana da antiga Togatae. Protegido de Mecenas, ele organizou a biblioteca no pórtico de Otávia.
[23] Lúcio Vário Rufo, poeta augustano, reconhecido por suas tragédias e épicas.
[24] Provavelmente Tito Semprônio Graco, escritor de tragédias e descendente do grande Graco.
[25] Poeta augustano erótico que emulava Calímaco.
[26] Poeta augustano.
[27] Pastor símbolo da poesia pastoral.
[28] Poeta da época de Augusto que compôs poema sobre a caça Cinergética e bucólicas.
[29] Poeta bucólico da época de Augusto.
[30] Poeta desconhecido da época de Augusto que escreveu elegias.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Shining de Kubrick, uma bela leitura

Caros Leitores: o texto que segue é um trabalho de dois meninos de 12 anos, publicado no site cineplayers.com: o primeiro, é meu filho como o nome denuncia. Espero que gostem. Vale lembrar que esste é o segundo texto dele que publico. O outro é sobre Pulp Fiction do Tarantino.

por Paulo Martins Filho e Luiz Fernando Coutinho.

Kubrick era um diretor introspectivo, não dava entrevistas e não tinha costume de sair em público. Mas sua carreira no cinema foi brilhante. Muitos acreditam que ele era extremamente perfeccionista, há boatos de que ele chegou a "enlouquecer" a atriz Shelley Duvall, fazendo-a regravar mais de 100 vezes a famosa cena do banheiro.

Produziu filmes como o polêmico Laranja Mecânica, o inovador 2001: Uma Odisséia no Espaço, o engraçado Dr. Fantástico e o assustador O Iluminado. É desse último que irei comentar agora.

Jack Torrance é um homem comum, desempregado e que precisa de sossego para escrever um livro. Para isso, consegue um emprego de zelador no Hotel Overlook, localizado longe da civilização. Vai morar lá com sua mulher Wendy e seu filho Danny, de 5 anos, durante uma temporada de seis meses. Sozinhos. Porém, o Overlook não é um hotel comum. O tempo esqueceu de enterrar velhos ódios, de cicatrizar velhas feridas. É uma chaga aberta de ressentimento e desejo de vingança. O Overlook é o que podemos chamar de uma sentença de morte.

Há um tempo atrás, um pai foi com sua mulher e suas filhas, gêmeas, para o hotel com o mesmo objetivo de Jack, ter sossego. Depois de alguns meses passados, ele enlouqueceu, matou as duas filhas e a mulher com um machado, cortando-as em pedaçinhos. Depois, suicidou-se no sombrio quarto 217, considerado assombrado.O mesmo acontece com Jack, que também enlouquece e tenta matar seu filho e sua mulher.



Muitas pessoas que não assistiram ao filme acham que o Iluminado é Jack, mas na verdade, o verdadeiro "Shining" é Danny, seu filho. O garoto é capaz de ouvir pensamentos. E pode tranportar-se no tempo e olhar o passado e o futuro. Maldição ou bênção? A resposta está guardada na imponência assustadora do hotel Overlook. Danny diz que dentro de sua boca há um menino chamado Johnny que fala coisas ao garoto sobre seu dom, obrigando-o a não contar a ninguém, nem mesmo seus pais. Logo no começo, o dono do hotel se revela ao menino, se intitulando Iluminado também.



Cheio de cenas antológicas, como a de Danny andando de triciclo nos sombrios corredores do hotel, a de Jack falando que "Johnny está aqui", isso mesmo, o mesmo citado acima, e o rio de sangue saindo do elevador do hotel. Além de ser um marco na história cinematográfica do terror, O Iluminado é constantemente "copiado" de alguns filmes sem o menor brilho, o mais atual é "O Filho de Chucky", comédia de humor negro. Outra cena memorável é também perturbante, na qual Wendy lê o que Jack escreveu durante o tempo que estiveram lá. SPOILER: não era uma história.



Jack Nicholson é Jack Torrance. Sua interpretação se encaixa perfeitamente no estado e na loucura de sua personagem. Pessoalmente, não considero a interpretação de Shelley Duvall boa como a de Nicholson. Até o menino Danny Lloyd, de 7 anos, consegue ter mais carisma do espectador que a atriz. Tendo um papel muito complicado, interpretando um garoto com sérios problemas psicológicos, a atuação de Lloyd impressiona. Pena que depois de um tempo, como vários outros atores mirins, Danny Lloyd caiu no ostracismo, não fazendo nenhum outro papel em filmes. Scatman Crothers, apesar de ter uma pequena ponta como o dono do hotel, faz um trabalho razoável.



Apesar da trilha sonora ser regular o que se destaca é o inquietante, até mesmo irritante zombido que é posto no filme quando Danny tem seus surtos e convulsões. A fotografia é regular e o manuseio da câmera é inovador. Tem algumas cena que sentimos ser o próprio Danny. A roupa dos personagens é simples e perfeita. O som é ótimo.

O filme é baseado no homônimo livro de Stephen King, "Shining", "O Iluminado", aqui no Brasil. King é o escritor com mais adaptações feitas na história do cinema. Dentre elas estão ótimos filmes como Um Sonho de Liberdade e À Espera de Um Milagre, ambos do diretor Frank Darabont. No Brasil é distribuído pela Editora Objetiva.

O Iluminado é um terror psicológico que inovou uma geração, devido aos seus recursos modernos para a época. A sinopse do site diz: "Considerado por muitos o mais fraco dos filmes de Kubrick."


Porém, considero um dos melhores terrores de todos os tempos e também um dos melhores do gênio.
Um pequeno trecho:

sábado, 15 de novembro de 2008

Bucólicas de Virgílio - Odorico Mendes


BucólicasVirgílio
ISBN: 978-85-7480-394-4
As Bucólicas de Virgílio, com sua densa musicalidade e seus pastores-poetas que, em meio à paisagem amena do campo, celebram seus amores e disputam entre si a primazia no canto, são recriadas em português por Manuel Odorico Mendes, um dos mais hábeis e interessantes tradutores de poesia que o Brasil já teve. Esta edição – bilíngüe e ricamente anotada e comentada pelo Grupo de Trabalho Odorico Mendes, sediado no Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp –, além do esclarecimento do vocabulário e da sintaxe, traz para cada poema um comentário minucioso, em que se apontam, para o leitor que deseja penetrar nesse laboratório brilhante de recriação poética, os modos vários como Odorico Mendes recria em português os sons, ritmos, efeitos de sintaxe e a ordem expressiva das palavras do original latino. Nos 150 anos de sua primeira publicação no livro Virgílio Brasileiro, a Ateliê Editorial e a Editora da Unicamp, com apoio da Fapesp, reeditam esta obra do grande poeta latino em uma de suas traduções mais bem cuidadas e instigantes.
Medidas: 18 x 27 cm

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Mesas de Estudos Clássicos no Epog - Encontro dos Pós-graduandos da FFLCH/USP

17/11/2008 - 9:30 horas

Mesa 7: Estudos clássicos: conflito e poder – sala 113 (C. Sociais)

Coordenador: Paulo Martins (DLCV)

  • Amanda da Silva Marin – Os relatos bélicos de Caio Júlio César: uma análise comparativa
  • Giuliana Ragusa – Mélica Afrodite: a deusa nas canções gregas arcaicas, de Álcman a Anacreonte
  • Gustavo Junqueira Duarte Oliveira – As multidões na Ilíada
  • Milena de Oliveira Faria – Mica e parente: uma análise sobre o poder feminino em “As Tesmoforiantes”
  • Beatriz Cristina de Paoli Correia – Adivinhação em os sete contra Tebas de Ésquilo
  • Melina Rodolpho – Ékphrasis e Euidentia. Doutrina e práxis
19/11/2008 9:00 horas
Mesa 46: Estudos clássicos: pensamento e escrita – sala 101 (C. Sociais)

Coordenador: Manoel Mourivaldo Santiago Almeida (DLCV)

  • Arthur Klik de Lima – Sobre a formação dos inteligíveis em Averróis
  • José Renivaldo Rufino – O cor inquietum e a infância no livro I das Confissões de Agostinho de Hipona
  • Cecília Gonçalves Lopes – A evolução dos gêneros em Ovídio – a utilização de gêneros diversos e as metamorfoses de Ovídio em Amores, Heroides, Ars Amatoria e Remedia Amoris
  • Priscila de Oliveira Campanholo – As relações entre o comentário, as bibliotecas e a gramática antiga
  • Luciano Ferreira de Souza – Naturalismo ou convencionalismo: a escolha socrática
  • Lucas Consolim Dezotti – Gramática antiga e cultura literária

Textos a publicar

Nos últimos meses, preparei dois artigos a fim de serem publicados em revistas especializadas. Transcrevo abaixo o resumo de ambos. Caso exista interesse pelo conteúdo completo, encaminhem um e-mail. São eles:

1. Polignoto, Páuson, Dionísio e Zêuxis – Uma leitura da pintura antiga clássica grega –

O presente trabalho põe à luz reflexão acerca da pintura grega clássica, tendo em vista a homologias estabelecidas por Aristóteles na Poética. Essa discussão é imperiosa, pois que são apresentadas pelo filósofo comparações entre pintura e poesia, como recurso retórico de exemplum ou paradeigma, para explicar a segunda pela primeira arte. Entretanto, a preceptiva pictórica grega clássica que hoje se tem em mãos é insuficiente para que se esclareçam exatamente as categorias analíticas por ele utilizadas. Assim nos ocuparemos em delimitar como Aristóteles observava as pinturas de Polignoto, Páuson, Dionísio e Zêuxis, para, talvez, aferir e inferir conceitos preceptivos desses tipos de pintura e de pintores de maneira coetânea e não-anacrônica, ao contrário do que se pode observar em muitos manuais de História da Arte Clássica.

Palavras-chave: Poética, Retórica, Homologia, História da Arte, Pintura Grega Clássica.

2. Parataxe e Imagines

O presente artigo visa a discutir o conceito de parataxe, que foi largamente utilizado por estudiosos da História da Arte e da Literatura para definir a estrutura dispositiva de certas obras da Antigüidade greco-romana. Porém, o termo, sincronicamente tomado, é estranho ao período, configurando certo anacronismo. Seu uso sistemático, assim, nos leva, erradamente, a crer que a parataxe pertence ao vocabulário teórico da poesia, da pintura, da gramática ou da retórica, o que é inconsistente. Contudo, o mesmo uso seria autorizado, se houvesse entre os modernos consenso sobre o significado, o que não ocorre. Dessa forma, se, de um lado, a teorização antiga – gramatical, poética ou retórica – não nos dá a chave do uso e, de outro, a modernidade não colabora com a precisão de sentido, a aplicação do conceito gera dúvidas na hermenêutica do objeto analisado. Nosso intuito, portanto, é delimitar o conceito modernamente e aplicá-lo na observação de algumas imagens da Antigüidade.

PALAVRAS-CHAVE: Iconografia; Retórica; Lingüística, Parataxe, Hipotaxe.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Propércio 2,15 - uma tradução

O me felicem! o nox mihi candida! et o tu
lectule deliciis facte beate meis!
quam multa apposita narramus verba lucerna,
quantaque sublato lumine rixa fuit!
nam modo nudatis mecum est luctata papillis, -5
interdum tunica duxit operta moram.
illa meos somno lapsos patefecit ocellos
ore suo et dixit 'Sicine, lente, iaces?'
quam vario amplexu mutamus bracchia!quantum
oscula sunt labris nostra morata tuis! -10
non iuvat in caeco Venerem corrumpere motu:
si nescis, oculi sunt in amore duces.
ipse Paris nuda fertur periisse Lacaena,
cum Menelaeo surgeret e thalamo;
nudus et Endymion Phoebi cepisse sororem -15
dicitur et nudae concubuisse deae.
quod si pertendens animo vestita cubaris,
scissa veste meas experiere manus:
quin etiam, si me ulterius provexerit ira,
ostendes matri bracchia laesa tuae. -20
necdum inclinatae prohibent te ludere mammae:
viderit haec, si quam iam peperisse pudet.
dum nos fata sinunt, oculos satiemus amore:
nox tibi longa venit, nec reditura dies.
atque utinam haerentis sic nos vincire catena -25
velles, ut numquam solveret ulla dies!
exemplo iunctae tibi sint in amore columbae,
masculus et totum femina coniugium.
errat, qui finem vesani quaerit amoris:
verus amor nullum novit habere modum. -30
terra prius falso partu deludet arantis,
et citius nigros Sol agitabit equos,
fluminaque ad caput incipient revocare liquores,
aridus et sicco gurgite piscis erit,
quam possim nostros alio transferre dolores: -35
huius ero vivus, mortuus huius ero.
quod mihi secum talis concedere noctes
illa velit, vitae longus et annus erit.
si dabit haec multas, fiam immortalis in illis:
nocte una quivis vel deus esse potest. -40
qualem si cuncti cuperent decurrere vitam
et pressi multo membra iacere mero,
non ferrum crudele ncque esset bellica navis,
nec nostra Actiacum verteret ossa mare,
nec totiens propriis circum oppugnata triumphis -45
lassa foret crinis solere Roma suos.
haec certe merito poterunt laudare minores:
laeserunt nullos pocula nostra deos.
tu modo, dum lucet, fructum ne desere vitae!
omnia si dederis oscula, pauca dabis. -50
ac veluti folia arentis liquere corollas,
quae passim calathis strata natare vides,
sic nobis, qui nunc magnum spiramus amantes,
forsitan includet crastina fata dies.




Ó minha felicidade! Ó minha luminosa noite! E tu, leito que se tornou alegre, com meus prazeres! Como palavra muita falamos à penumbra da lâmpada! Quanta batalha lutou-se, apagadas as luzes! (5) Pois, ora comigo lutou com seios desnudos e, por vezes, a túnica dissimulada fez-se morosa.

Com seus beijos, ela abriu meus olhos cerrados no sono e disse: “é assim que dormes inerte?” Quantos abraços trocamos variados! Quantos (10) beijos meus habitaram teus lábios! Não apraz a Vênus destruir [o ato] com cego movimento: Caso não saibas: os olhos são comandantes no amor.

O próprio Páris, diz-se, ter morrido com a nudez d’Helena quando se levantava do leito de Menelau. (15) Conta-se também que Endímion capturou nu a irmã de Febo e deitou com a deusa nua. Mas, se obstinadamente vestida deitares, sob a veste rota vais sentir minhas mãos: Ainda mais... Se minha fúria impelir-me além, (20) mostrarás os braços maculados a tua mãe.

Teus seios caídos ainda não te impedem de brincar: isso te preocuparás se já tiver vergonha de ter parido. Enquanto os fados me permitirem: saciaremos os olhos de amor: a noite te chegará longa e o dia não há de retornar.(25) Queira que desejes que estejamos nós assim tão liados com laços duradouros que dia nenhum os dissolva.
Que as pombas unidas te sirvam de exemplo no amor , macho e fêmea em total união.

Erra quem procura o fim de um louco amor: (30) O verdadeiro amor não conhece limite algum, antes a terra enganará com falso pomo os lavradores e o sol fará avançar mais rápido os negros cavalos e os rios começarão a retroceder à nascente e os peixes secos estarão em árido sorvedouro , (35) Antes que eu possa transferir meus amores a outro amor. Dela vivo serei; morto dela serei.

Se ela desejar me conceder com ela noites tais, longo me será um ano de vida; se ela me der muitas, vou me tornar imortal nelas: (40) Numa noite qualquer um pode ser deus. Se todos desejassem levar tal vida e descansar seus corpos tomados de muito vinho, não haveria a espada cruel tampouco naus bélicas, nem o mar de Ácio revolveria nossos despojos, (45) nem, tanta vez, em meio a ataques, com tantos triunfos, Roma estaria cansada de soltar os cabelos.

Com mérito certo, os jovens poderão louvar esses feitos: Nossas taças nunca afrontaram deus nenhum. Tu, por tua vez, enquanto é dia, não abandones os prazeres da vida!(50) Ainda que dês todos os beijos, poucos haverás dado. Pois, como folhas extinguem grinaldas ressequidas, e as vês nadar espalhadas nas taças aqui e acolá, assim a nós, que agora amantes, aspiramos a grande amor, talvez o dia de amanhã encerre nossos fados.

domingo, 26 de outubro de 2008

Biografias Antigas – Plutarco e Suetônio

Paulo Martins

“Demos sem dúvida grande demonstração de paciência; e se os tempos antigos viram o que havia de extremo em liberdade, nós o tivemos quanto à servidão, porque até o uso do falar e do ouvir, por espionarem, nos tiraram. A própria memória teríamos perdido com a palavra, se estivesse tão em nosso poder esquecer quanto calar.”
Tácito – A vida de Agrícola, 2.


A Literatura e a História são disciplinas muito próximas se observarmos as práticas letradas do mundo greco-romano. Aristotelicamente, apenas se distanciariam pelo fato de a primeira tratar do que poderia ser e a segunda do que teria sido. Esta, assim, se ocuparia do particular, aquela, do universal. Entre as diversas possibilidades de subgêneros historiográficos antigos (comentários, histórias pragmáticas, histórias universais, monografias, breviários, anais etc.), temos um que, modernamente, encontra-se mais no limite das duas artes (História e Literatura): a biografia, a que os romanos chamavam uitae (vidas), e os gregos, bíoi (igualmente, vidas). Afinal quem não afirmaria esse limite ao ler os livros de Ruy Castro (O Anjo Pornográfico: A Vida de Nelson Rodrigues, Estrela Solitária: Um Brasileiro Chamado Garrincha, Carmen: Uma biografia), de Fernando Morais (Chatô, O Rei do Brasil ou Olga), ou de Nelson Motta mais recentemente (Vale Tudo: Tim Maia).

Alguém, entretanto, poderia dizer que esses textos, antes de ser literatura, seriam, sim, jornalismo, ou pelo menos aquilo a que se dá o nome de grande reportagem, portanto apegando-se ao que foi – logo, à História. Em parte tal afirmativa é correta, porém, inegável também é que nesses livros, antes de qualquer intenção dos autores em produzir um retrato ou relato objetivo do biografado, preocupam-se com a construção de retratos subjetivos, eivados, contaminados, assim, de focos específicos, de argumentos pessoais, de parcialidades claras e afetivas e, nesse sentido, mais do que retratarem ou relatarem o que foi, efetivam o que poderia ser e, logo, seriam uma ficção.

Pois bem, essa mesma questão se coloca na literatura greco-romana. Penso aqui em duas obras e dois autores, um grego e um romano: Plutarco (45-120 d.C.) e Suetônio (69-141 d.C.). O primeiro, escritor grego, formou-se na Academia de Atenas e foi autor de mais de 200 obras entre as quais está Vidas Paralelas. O segundo entrou para o serviço imperial como encarregado de bibliotecas e arquivos, conselheiro cultural, foi secretário da correspondência do imperador Adriano (não o da Internzionale de Milão), tendo escrito muitas obras entre as quais A Vida dos Doze Césares, talvez seja a mais famosa.

Apesar de Plutarco ser grego, pode-se afirmar que esse subgênero historiográfico é romano, pois que apenas temos registros isolados de sua existência entre os peripatéticos, sem que as obras propriamente ditas tenham nos chegado, o que em certa medida é um índice de sua apequenada importância entre os helênicos de maneira geral. Assim, seu desenvolvimento e circulação são pródigos entre os romanos desde o final da República no final do século 1 a.C. – Cornélio Nepos (De illustribus uirisAcerca dos Homens Ilustres) é uma referência – até os estertores do Império com Aurélio Victor (Liber De Caesaribus – Livro sobre os Césares) no século 4 d.C..



Vitae illustrium virorum. Rome, printed by Ulrich Han (Udalricus Gallus), 1470 - Collection: University of Leeds Library


Sob o ponto de vista de sua constituição, é possível dizer que as biografias, ao contrário da analística (outro subgênero historiográfico) que se ocupa da narração dos fatos tendo em vista o encadeamento cronológico ou causal dos episódios, elas se detêm na efetivação de um retrato verbal, isto é, na construção de uma imagem que passa por categorias aristotélicas do discurso demonstrativo que prevê o louvor ou o vitupério das coisas da alma, das coisas do corpo e das coisas externas. Assim são figuradas nas biografias tais categorias assim dispostas pelo primeiro tratado de retórica romana de que se tem notícia, a Retórica a Herênio, livro III, 6, 10:

“Agora passemos para o gênero demonstrativo da causa. Como esta causa divide-se em louvor e vitupério, consideraremos o louvor a partir de certos pensamentos e o vitupério será cotejado a partir dos contrários. O louvor pode, pois, ser das condições externas, do corpo e da alma. As condições externas são as que, por acaso ou fortuitamente, podem ocorrer favoráveis ou adversas: estirpe, educação, riqueza, poder, glórias, civilidade, amizades e as que são semelhantes ou as que são contrárias. As condições do corpo são as que a natureza atribuiu ao corpo vantajosa ou desvantajosamente: velocidade, força, elegância e vigor. As condições da alma são aquelas que consistem de nossa ponderação e reflexão: prudência, justiça, coragem, modéstia e as contrárias.” (Tradução Paulo Martins)

Os biografados, portanto, são revistos e revisitados a partir de sua origem, de sua educação e riqueza, de seu poder e glória, de sua civilidade e amizades, de sua velocidade e força, de sua elegância e vigor, de sua prudência e justiça, de sua coragem e modéstia. Entretanto, tais categorias poderiam ser observadas para o bem ou para o mal, de acordo com o foco do historiador (biógrafo) e, isso, talvez imprimisse ao texto final certo caráter subjetivo e, portanto, carente da objetividade científica desejável pela História e indiferente à Literatura. Plutarco em suas Vidas Paralelas assim escreve:

“Escrevendo neste livro a vida do rei Alexandre e a de César, por quem Pompeu foi derrotado, em vista da abundância das ações implicadas, não diremos nada como preâmbulo, apenas suplicando ao leitor que não nos denigra por não relatarmos tudo que foi celebrado, nem abordarmos cada coisa a fundo, abreviando a maioria dos fatos. É que não escrevemos histórias, mas vidas – e não é nas ações mais célebres, em absoluto, que está a demonstração de virtude ou do vício, mas, muitas vezes, um breve feito, uma palavra, uma brincadeira dão ênfase ao caráter mais que os combates mortais, as maiores batalhas e os assédios de cidades. 3. Portanto, como os pintores salientam as semelhanças a partir do rosto e das formas visíveis em que se manifesta o caráter, preocupando-se menos com as outras partes, assim também deve-se permitir-nos penetrar antes nos sinais da alma e, através disso, desenhar a vida de cada um, deixando as grandezas e os combates." (Tradução Jacyntho Lins Brandão)

Essa intencionalidade de Plutarco permeia toda sua obra biográfica que curiosamente é divida aos pares, produzindo ao final de cada dupla o que a tradição chamou de síncrise, isto é, o contraste, o confronto entre os biografados de forma a produzir uma comparação ética entre os ilustres. Assim em Vidas Paralelas estão biografados: 1) Teseu e Rômulo; 2) Licurgo e Numa; 3) Sólon e Publícola; 4) Temístocles e Camilo; 5) Péricles e Fabio Máximo; 6) Alcibíades e Coriolano; 7)Timoleonte e Emilio Paulo; 8) Pelópidas e Marcelo; 9) Aristides e Catão o velho; 10) Filópedes e Flamínio; 11) Pirro e Mário; 12) Lisandro e Sila; 13) Cimón e Lúculo; 14) Nícias e Crasso; 15)Eumenes e Sertório; 16) Agesilau e Pompeu; 17) Alexandre e César; 18) Fócio e Catão o jovem; 19 e 20) Ágis e Cleômines/Tibério e Caio Gracco; 21) Demóstenes e Cícero; 22) Demétrio e Antônio; 23) Dion e Bruto.

A estrutura do conteúdo (res) da obra se Suetônio é a mesma, ou seja, fundada nas categorias que devem ser louvadas e/ou vituperadas. Entretanto, os objetos de imitação do historiador romano são mais “perigosos”, afinal ele trata dos 11 primeiros imperadores romanos, antecedidos por Júlio César que não fora um deles, mas sim precursor e pavimentador de um novo sistema que a partir de Otávio Augusto ganha a posteridade até o fim do chamado Império Romano. O suposto “perigo” na figuração dos imperadores reside no “como”, muita vez, Suetônio os registra, inserindo anedotas, os ridiculariza, produz avaliações apimentadas e picantes, contudo sem abrir mão de uma ponderação científica. Vale salientar, contudo, que muita fonte historiográfica do autor não passa de boataria o que equivaleria a uma possível “ficção” histórica. Desfilam pelas linhas do livro assim Júlio César, Augusto, Tibério, Calígula, Cláudio, Nero, Galba, Otão, Vitélio, Vespasiano, Tito e Domiciano. Sobre Augusto, Suetônio diz:

“Nem os amigos negam que tivesse cometido adultérios, mas o desculpam: não o teria feito por luxúria, mas por inteligência, para que mais facilmente pudesse, pelas mulheres, descobrir os desígnios dos adversários. Acusou-o Marco Antônio de ter precipitado o casamento com Lívia e de ter, à vista do marido, tirado do triclínio a esposa de um consular, levando-a para o quarto e trazendo-a depois com as orelhas rubras e o cabelo em desordem (...)” (Tradução Agostinho da Silva)


Suetônio

Sejam esses registros história ou ficção, certo é que antes de tudo registram a maneira de ser dos homens ilustres da Antigüidade Clássica. E se essa foi modelo de algo no mundo ocidental, isso não independe dos agentes, dos construtores dessa cultura. Portanto, fato ou ficção, isso pouco importa.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Novo Sítio de Letras Clássicas



Ontem foi publicado na rede o novo sítio do Programa de Pós-Graduação em Letras Clássicas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.

O Endereço é: www.fflch.usp.br/dlcv/lc

Vale ser visitado!

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Ausônio

Epigrama, 96

Tradução de Paulo Martins

XCVI [DE HERMIONES ZONA]

Rubra faixa libertava bicos túrgidos
d'Hermíone: texto havia, era elegíaco:
"Tu que lês a inscrição, Páfia ordena que me ames
e com teu exemplo não vetes ninguém d'amar"

Punica turgentes redimibat zona papillas
Hermiones: zonae textum elegeon erat:
"Qui legis hunc titulum, Paphie tibi mandat, ames me
exemploque tuo neminem amare vetes.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

História e Letras – Verdade e Verossimilhança

Paulo Martins

Hoje em dia, quando falamos em História ou em Literatura pensamos em disciplinas estanques, separadas. A primeira se ocupa da Verdade e é científica; a segunda é ficção e se ocupa do prazer estético, da fruição. Contudo, nem sempre a distinção entre as duas existiu, pois entre os gregos e romanos da Antigüidade, a História era considerada gênero literário como o teatro, a poesia épica e lírica e como tal deveria ser tratada, não se excluindo, porém, suas características diferenciadas que a associam com eventos ocorridos, com a narração, com o conhecimento do mundo e dos homens que nele se encontram.


Aristóteles - Musée du Louvre

Aristóteles, filósofo, cuja obra é caracterizada pelo largo espectro de observação do mundo, em seu texto sobre a poesia, a Arte Poética, no capítulo IX, propõe certa reflexão entre as duas, ao afirmar que: “não diferem o historiador e o poeta por escreverem verso ou prosa (pois que poderiam ser postos em verso as obras de Heródoto, e nem por isso deixariam de ser história, se fossem em verso o que eram em prosa) ─ diferem, sim, em que um diz as coisas que sucederam, e outro as que poderiam suceder. Por isso a poesia é algo mais filosófico e mais sério do que a história, pois refere-se aquela principalmente o universal, e esta o particular.” (Aristóteles – Arte Poética. São Paulo, Ed. Abril. 1971. p. 451. Trad.: Eudoro de Souza)

Portanto, se as Histórias de Heródoto, o pai da História, poderiam ser postas em verso e isto não impediria que seu texto fosse histórico, então, a conclusão é imediata: os critérios de análise de ambas são os mesmos, a não ser o fato de uma tratar de assuntos que são gerais, a poesia; e a outra tratar de assuntos que são específicos ou particulares, a história. Por outro lado, se a literatura e a poesia tratam de eventos que podem ocorrer, são grandes as possibilidades de encontrarmos textos poéticos e, portanto, literários que deitem seu tema sobre ocorrências que, por obra do acaso ou pela observação sistemática dos homens, tornaram-se uma realidade histórica sob uma perspectiva mais geral. Assim a poesia e a literatura podem auxiliar o historiador em sua tarefa de explicação do mundo, de compreensão da natureza humana.


Hayden White (1928) - Professor Emérito da Universidade da Califórnia

Sob um aspecto formal, podemos partir de outro princípio que norteia a produção histórica e a literária: o texto. E, dentro desta chave, o historiador contemporâneo Hayden White propõe: “Há, porém, um problema que nem os filósofos nem os historiadores encararam com muita seriedade e ao qual os teóricos da literatura só têm concedido uma atenção momentânea. Essa questão diz respeito ao status da narrativa histórica, considerada exclusivamente como um artefato verbal que pretende ser um modelo de estruturas e processos há muito decorridos e, portanto, não-sujeitos a controles experimentais ou observacionais. Isso não quer dizer que historiadores e filósofos da história não observaram a natureza essencialmente provisória e contingente das representações históricas e sua suscetibilidade a uma revisão infinita dos problemas à luz de novos testemunhos ou de uma conceituação mais elaborada.” (White, H. – Trópicos do discurso. São Paulo, Edusp. 1994. pp.98-9.)

Observando essas relações entre Literatura e História, podemos inferir que durante muito tempo e, isto vale principalmente para a pesquisa histórica do século XIX, portanto, idealista e, porque não dizer, romântica, o historiador buscou a partir de considerações específicas de certo evento histórico, traçar certas generalizações que tornaram a história algo geral e, assim, mais poética sob o ponto de vista aristotélico. Assim, ao mesmo tempo em que pleiteavam o estatuto científico da história, implementavam características subjetivas e pessoais de análise que não se coadunavam com o preceito de história como ciência e aproximavam-na de uma visão romântica de poesia.


Um fato interessante é que hoje ainda colhemos os frutos desse paradoxo, a História, tal e qual nos é ensinada, prima pelo poder de síntese e de ilações gerais, sem que atentemos para a idéia de que o registro histórico é um texto e, como tal deve ser observado, isto é, um texto que tem um agente por trás de si, um autor que possui sua visão de mundo, suas ideologias e, assim, o historiador não pode ser considerado o arauto da verdade única e exclusiva. Tanto isto é certo que sobre o mesmo evento, podemos encontrar visões, enfoques diferenciados. Um texto que trate da Guerra na Gália sob o ponto de vista de Júlio César seguramente trará por trás de si os interesses pessoais de Júlio César, bem como os interesses populares na República Romana do período, ao passo que, se nos restassem narrativas gaulesas sobre o mesmo evento, o ocorrido teria outra dimensão que não a proposta pelo general romano que, diga-se de passagem, possui vasta obra historiográfica, na qual se encontram seus comentários sobre a guerra na Gália (De Bello Gallico).


Essa mesma idéia que atinge a tarefa do historiador, também poderia ser aplicada ao jornalismo de hoje, desde assuntos mais prosaicos como o futebol até questões de relevância indubitável como o aquecimento global. O ex-jogador e médico Tostão, em sua coluna na Folha de São Paulo de 17 de fevereiro de 2008, mostra como isso pode acontecer, isto é, como uma observação objetiva dos fatos, ou melhor, dos eventos, pode estar a serviço de uma obra de ficção: “Percebi ainda que, quando há pequena diferença técnica entre duas equipes, o resultado de um jogo depende menos desses detalhes técnicos e táticos e mais do erro de um árbitro, de uma bola que bateu em alguém e mudou a trajetória e tantas coisas inesperadas. Após o resultado de uma partida, criamos, com ótimos ou maus argumentos, uma história ficcional, que parece muito ou pouco com a realidade”. (Andrade, Eduardo Gonçalves de (Tostão) – “O tempo passa”. In: Folha de São Paulo, p. D5. São Paulo. 17/02/08.)


Essa visão na Antigüidade Clássica estava descartada por princípio, pois estava na própria formação do homem grego, e, principalmente, do romano, o conhecimento de uma disciplina unificadora dos textos: a Retórica. Contudo, vale aqui eliminar um preconceito que curiosamente é romântico: a Retórica como algo pejorativo. Hoje quando falamos “isto é pura retórica”, estamos dizendo que o discurso ou fala de alguém é absolutamente vazia, sem conteúdo, o próprio Dicionário Houaiss assim propõe em uma de suas acepções: “discussão inútil; debate em torno de coisas vãs.” Tal posição se coaduna com uma aversão ou maldição a que foi submetida toda teoria clássica do texto no século 19. O mesmo preconceito ocorre quando chamamos alguém de “poeta”, como que esse indivíduo fosse um ser de outro planeta, alguém que vivesse no mundo da lua, fora da realidade, o mesmo dicionário indica: “aquele que é dado a devaneios ou tem caráter idealista”. A recusa da teoria poética e retórica clássicas é um marco histórico da produção literária romântica que, como limite estético, valoriza o individual, o gênio, o inspirado, o diferente e menospreza, desqualifica a técnica genérica que independe de recursos mentais pessoais diferenciados para sua consecução.


Se a Retórica não é isso a que estamos acostumados a entender, o que seria então? Nada mais ou menos do que uma disciplina que regula a produção dos textos, lhes impõe limites para que não haja dúvidas para o que se quer significar quando se fala ou se escreve. Podemos dizer que além de regular a produção textual, instrui a audiência, o leitor para os limites do próprio texto. Assim, se um determinado autor propõe uma metáfora ou uma metonímia dentro de seu discurso, seguindo para tanto a utilização de uma das virtutes elocutionis que é o ornatus, a recepção apta, portanto, conhecedora dos recursos discursivos, jamais as lerá como literais. Para ser mais preciso, a Retórica destina-se a operar cada momento específico da produção textual, independentemente do gênero do texto, isto é, se é filosófico, histórico, oratório ou poético.
Assim, o leitor ou até mesmo uma audiência iletratada diante de uma tragédia ou de um relato histórico procurava reconhecer a habilidade do autor, discernindo se o autor atendia ou não as normas reguladoras do gênero textual que produzira.


Pensando, portanto, a História como texto e, dessa maneira, sujeita aos regulamentos da disciplina organizadora e reguladora dos discursos, podemos dizer que ela, a História, pode e deve ser observada sob dois prismas imbricados: um primeiro que é a própria linguagem e um segundo que é o evento. Contudo, o primeiro interfere na significação do segundo, pois ele é a sua matéria prima e o segundo é apenas uma representação do ocorrido. Fazer História para os antigos pressupunha esses dois níveis, assim todos os textos históricos da Antigüidade Clássica greco-romana contam preliminarmente com um prefácio e/ou uma metodologia que esclarecem não só a prática de investigação, mas também, aspectos da própria concepção de representação e, por conseguinte, de escrita.

Não é de outra forma que devemos avaliar os escritos de Herótodo, Tucídides, Salústio, Tito-Lívio, Tácito, Suetônio, Eutópio ou Plutarco. Tomemos o exemplo de “o pai da História”: “Os resultados das investigações de Heródoto de Halicarnasso são apresentados aqui, para que a memória dos acontecimentos não se apague entre os homens com o passar do tempo, e para que feitos maravilhosos e admiráveis dos helenos e dos bárbaros não deixem de ser lembrados, inclusive as razões pelas quais eles se guerrearam. (...) Quanto a mim, não direi a respeito dessas coisas que elas aconteceram de uma maneira ou de outra, mas apontarei a pessoa que, em minha opinião, foi a primeira a ofender os helenos, e assim prosseguirei com a minha história, pois muitas cidades outrora grandes agora são pequenas, e as grandes no meu tempo eram outrora pequenas. Sabendo portanto que a prosperidade humana jamais é estável, farei menção a ambas igualmente.” (Heródoto – Histórias, Brasília: Ed.UnB. pp.19-20. Trad.: Mário da Gama Cury)


Heródoto de Halicarnasso - c.485-420 a.C.



Heródoto de chofre aponta seu objetivo de escrita “para que a memória não se apague com o passar do tempo, e para que os feitos (...) não deixem de ser lembrados”. Tal asserção deve ser observada sobre dois pontos de vista: o primeiro diz respeito à própria constituição do discurso que pressupõe função objetiva, isto é, seu “estado da questão”, pressuposto retórico do proemium. O segundo, por sua vez, diz respeito à recepção do texto no viés da narrativa helênica cuja origem é essencialmente épica, afinal há que se observar a indicação de termos que se filiam à tradição homérica: “memória”, “passar do tempo”, “feitos maravilhosos e admiráveis”, “ser lembrados”. Mais adiante, Heródoto aponta o foco particular de sua narrativa ao propor: “Quanto a mim, não direi a respeito dessas coisas que elas aconteceram de uma maneira ou de outra, mas apontarei a pessoa que, em minha opinião, foi a primeira”. Sua História, portanto, apesar de dar atenção a dois lados do evento, não exclui em hipótese alguma a “minha opinião”, o que em certa medida obtura a possibilidade da Verdade-geral e faz com que a narrativa granjeie contornos de um verossímil-particular a partir do “sujeito” que o enuncia.


Michel De Certeau: 1925-1986


Entretanto, mesmo tendo em mãos esses dois aparatos essenciais à compreensão dos textos da Antigüidade Clássica, a saber: uma Retórica e certa Metodologia, a historiografia antiga estaria sub iudice no que se refere à Verdade, pois que ela, a História, ainda seria tutelada pelo prisma, pelo foco ou pelo enfoque de um morto, de um ausente ou, simplesmente, de uma ruína que é o próprio texto, seu suporte. Michel De Certeau bem afirmou: “Esta é a história. Um jogo da vida e da morte prossegue no clamo desdobramento de um relato, ressurgência e denegação da origem, desvelamento de um passado morto e resultado de uma prática presente. Ela reitera um regime diferente, os mitos que se constroem sobre o assassinato ou uma morte originária, e que fazem da linguagem o vestígio sempre remanescente de um começo tão impossível de reencontrar quanto de esquecer.” (De Certeau, Michel – A Escrita da História. RJ: Forense. 1982. p.57.)

III SIMPÓSIO DE ESTUDOS CLÁSSICOS DA USP

(Simpósio Internacional – 18h)

PERÍODO DO CURSO:

de 29, 30 e 31 de outubro de 2008

às quarta, quinta e sexta-feira: 9 às 17h

PÚBLICO-ALVO:

Pesquisadores, docentes, graduandos, pós-graduandos e interessados em Estudos Clássicos.

VAGAS:

100

MATRÍCULA

PERÍODO: a partir de 29.09.2008, enquanto houver vaga.

VALOR: R$ 10,00

OBSERVAÇÃO:

1. Matrícula somente pela Internet;
2. O pagamento será mediante boleto bancário encaminhado via e-mail, no prazo de 24 horas.

OUTRAS INFORMAÇÕES


PROGRAMA E MINISTRANTE:

29 de outubro

Tendências filosóficas "menores"

9h – 9h40: Prof. Dr. Roberto Bolzani Filho (USP)
9h40 – 10h20: Prof. Dr. Olimar Flores Júnior (UFMG)
10h20 – 10h40: intervalo
10h40 – 11h20: Prof. Dr. Luis Felipe Bellintani Ribeiro (UFSC)
11h20 – 12h: debate

O romance antigo

14 - 14h40: Prof. Dr. Jacyntho Lins Brandão (UFMG)
14h40 - 15h20: Prof. Dr. Pedro Ipiranga Júnior (UFPR)
15h20 – 15h40: intervalo
15h40 – 16h20: Prof. Dr. Cláudio Aquati (UNESP)
16h20 – 12h: debate

30 de outubro

Gêneros dramáticos: drama satírico e mimo

9h - 9h40: Profa. Dra. Maria Celeste Consolin Dezotti (UNESP)
9h40 – 10h20: Profa. Dra. Claudia Fernandez (UNLP – Argentina)
10h20 – 10h40: Intervalo
10h40 – 11h20: Profa. Dra. Tereza Virginia Ribeiro Barbosa (UFMG)
11h20 – 12h: debate
14h – 17h: Encontro com os participantes para discussão de pesquisas
em andamento na área de Estudos Clássicos

31 de outubro

A cidade antiga: arqueologia e história

9h - 9h40: Prof. Dr. Luis Otávio de Magalhães (UESB)
9h40 – 10h20: Profa. Dra. Maria Beatriz Borba Florenzano (USP)
10h20 – 10h40: Intervalo
10h40 – 11h20: Prof. Dr. Norberto Luiz Guarinello (USP)
11h20 – 12h: debate

Tradução

14h - 14h40: Prof. Dr. José Antônio Alves Torrano (USP)
14h40 – 15h20: Prof. Dr. André Malta Campos (USP)
15h20 – 15h40: Intervalo
15h40 – 16h20: Prof. Dr. Joaquim Brasil Fontes (UNICAMP)
16h20 – 17h: debate

OBJETIVO:

Os benefícios esperados da reunião centram-se, antes de tudo, na possibilidade de permitir o intercâmbio acadêmico dos pesquisadores da cidade de São Paulo com seus pares de representativas universidades do país e do exterior onde se desenvolvam pesquisas na área de Estudos Clássicos (UNLP - Argentina, UNICAMP, UNESP, UFMG, UFSC, UESB, UFPR). Assim, o Simpósio consistirá em uma oportunidade a mais de diálogo oferecida aos pesquisadores que comporão o público-alvo bem como aos palestrantes da Reunião, uma vez que todos trabalham com temas afins relativos à questão da definição, construção e percepção das múltiplas formas de erudição no âmbito de Estudos Clássicos.

COORDENADORES:
Profs. Drs. Adriane da Silva Duarte, Breno Battistin Sebastiani e Marcos Martinho dos Santos, da FFLCH/USP.

MINISTRANTE: Alexandre Antoniazzi Franco de Souza (pós-graduando da área de língua e literatura italiana da FFLCH) e Roberta Ferroni (mestre pela área de língua e literatura italiana da FFLCH) .

PROMOÇÃO: Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas, FFLCH/USP.

CERTIFICADO: Para fazer jus ao certificado o participante precisa ter
100% de presença.

LOCAL DO CURSO: Prédio de Ciências Sociais - Av. Prof. Luciano
Gualberto, 315 - sala 08.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Propércio 1, 12 - Uma Tradução

1, 12

Por que não paras de me imputar a calúnia da preguiça
Por que Roma, minha cúmplice, me retém?
Ela está a quilômetros longe de meu leito
Como está Hípanis (1) do vêneto Erídano (2)
Cíntia não me nutre amor com abraços de sempre
Nem me fala, doce, ao ouvido.
Outrora eu lhe era grato: naquele tempo, ninguém
teve a sorte de poder amá-la com igual fidelidade.
Fomos motivo de inveja! Um deus me oprimiu ou uma erva
colhida nos montes de Prometeu (3) nos separou?
Não sou o que fora: um longo caminho muda as meninas.
Hoje sozinho sou obrigado, antes, a conhecer
longas noites e a ser funesto aos meus próprios ouvidos!
Feliz aquele que pôde chorar com a menina presente;
o Amor em nada se alegra com lágrimas caídas
ou, se desprezado, pôde mudar as paixões,
Elas também são alegrias, mudado o jugo.
Mas nem fas amar outra nem desejar desistir desta:
Cíntia foi a primeira e o termo será Cíntia.

I, XII

Quid mihi desidiae non cessas fingere crimen,
quod faciat nobis Cynthia, Roma, moram?
tam multa illa meo divisast milia lecto,
quantum Hypanis Veneto dissidet Eridano;
nec mihi consuetos amplexu nutrit amores
Cynthia, nec nostra dulcis in aure sonat.
olim gratus eram: non ullo tempore cuiquam
contigit ut (4) simili posset amare fide.
invidiae fuimus: num me deus obruit? an quae
lecta Prometheis dividit herba iugis?
non sum ego qui fueram: mutat via longa puellas.
quantus in exiguo tempore fugit amor!
nunc primum longas solus cognoscere noctes
cogor et ipse meis auribus esse gravis.
felix, qui potuit praesenti flere puellae
(non nihil aspersus gaudet Amor lacrimis),
aut, si despectus, potuit mutare calores
(sunt quoque translato gaudia servitio).
mi neque amare aliam neque ab hac desistere fas est:
Cynthia prima fuit, Cynthia finis erit.


Notas:

(1 )Rio que deságua no Mar Negro na Samartia.
(2) Rio Pó.
(3) O Cáucaso na Cólquida. Cf. elegias i, 1, 24 e i, 5, 6.
(4) contingo + ut = acontece que, ter a sorte de.

domingo, 21 de setembro de 2008

Recusa à épica - Horácio 1,6

Scriberis Vario fortis et hostium
victor Maeonii carminis alite,
quam rem cumque ferox navibus aut equis
miles te duce gessent.


nos, Agrippa, neque haec dicere nec gravem (-5)
Pelidae stomachum cedere nescii
nec cursus duplicis per mare Vlexei

nec saevam Pelopis domum

conamur, tenues grandia, dum pudor
imbellisque lyrae Musa potens vetat (-10)
laudes egregii Caesaris et tuas
culpa deterere ingeni.

quis Martem tunica tectum Adamantina
digne scripserit aut pulvere Troico
nigrum Merionen aut ope Palladis (-15)
Tydiden superis parem?

nos convivia, nos proelia virginum
sectis in iuvenes unguibus acrium
cantamus, vacui, sive quid urimur,

non praeter solitum leves. (-20)


Tradução - Paulo Martins


Tu, forte e vitorioso sobre inimigos,
serás cantado por Vário, ave do canto meônio,
e o que o soldado feroz, tu comandando,
com cavalo ou com navios, tiver gerido.

Eu não ensaio, Agripa, cantar tais temas,
nem a grave cólera de Aquiles que desconhece ceder,
nem, pelos mares, os caminhos do ardiloso Ulisses,
nem a violenta casa de Pélops.

Eu, suave, não ensaio sublimes poemas,
pois reserva e Musa, senhora de minha lira de paz,
vetam desviar louvores a César egrégio e
aos teus feitos, por culpa do meu engenho.

Quem dignamente descreverá Marte coberto
com túnica indomável, ou o negro Meríones
nas areias de Tróia ou o justo
Tidida com ajuda de Palas?

Eu canto os simpósios, eu, os combates
das ferozes virgens com unhas afiadas contra os jovens,
eu canto seja livre do que sou inflamado
seja suave diante do que é habitual.


Notas:
Versos
(2) - Maeonii carminis alite = Ave do canto Meônio - o cisne.
(5) - Nec haec dicere nec grauem - Note-se que o anafórico haec diz respeito a toda estrofe anterior em que o poeta recusa-se a cantar as guerras marítimas e terrestres.
(6 e 7) - Referência à Ilíada e à Odisséia.
(9-12) - A musa e o pudor (reserva) impedem que cante o canto elevado pelo fato de o engenho (ingenium) do poeta não ser afeito a esses temas.